No dia 16 de dezembro, o presidente dos EUA, Trump, usou as redes sociais para anunciar “UM BLOQUEIO TOTAL E COMPLETO DE TODOS OS PETROLEIROS SANCIONADOS que entrem ou saiam da Venezuela”. No dia seguinte, o mundo foi inundado por rumores de que ele declararia guerra à nação sul-americana. Isso representa mais uma escalada na campanha de intimidação imperialista contra o país rico em petróleo, que já dura cinco meses. A bem da verdade, o regime dos EUA já está em guerra com a Venezuela.
Desde o final de agosto, houve uma escalada militar agressiva contra a Venezuela, com o envio de um número cada vez maior de recursos militares para o Caribe, incluindo fragatas, caças, bombardeiros, porta-aviões, navios de assalto anfíbio, um submarino nuclear e um total de 15.000 soldados. Cerca de 20% da Marinha dos EUA está atualmente no Caribe, representando uma ameaça para a Venezuela.
Este não é apenas um desdobramento de tropas ostensivo. Esses recursos militares já foram utilizados. Os ataques dos EUA contra o que Washington descreve como “narco barcos” já mataram mais de 90 pessoas. Nenhuma prova ou evidência foi apresentada para sustentar as alegações de que essas pequenas embarcações estavam envolvidas no narcotráfico.
Houve voos constantes e repetidos de caças e bombardeiros dos EUA ao longo da costa venezuelana e, em alguns casos, violações do espaço aéreo venezuelano.
Em 29 de novembro, Trump declarou unilateralmente que “o espaço aéreo acima e ao redor da Venezuela estava totalmente fechado”. Os EUA não têm autoridade sobre o espaço aéreo venezuelano, mas a ameaça foi suficiente para levar a grande maioria das companhias aéreas estrangeiras a suspender os voos para a Venezuela, resultando em um bloqueio aéreo de fato.
Em 10 de dezembro, os EUA apreenderam um superpetroleiro que partira da Venezuela com dois milhões de barris de petróleo cru a bordo, em um ato que só pode ser descrito como pirataria. Essa ação de agressão militar teve o impacto imediato de afastar vários outros petroleiros que seriam abastecidos de petróleo na Venezuela. Um bloqueio de petróleo de fato contra a Venezuela estava sendo preparado.
Um bloqueio de petróleo, como o anunciado por Trump em 16 de dezembro, é considerado um ato de guerra pelo direito internacional. O bloqueio aéreo também é ilegal. Nada disso incomoda o presidente da nação mais poderosa do mundo. Enquanto os ocupantes anteriores da Casa Branca pareciam preocupados em dar uma aparência de legalidade às suas ações imperialistas e falavam cinicamente sobre uma ordem mundial baseada em regras, Trump está rasgando o livro de regras da diplomacia e revelando para todos que a única lei que realmente importa é a lei do mais forte.
Em sua declaração nas redes sociais, Trump falou sobre um bloqueio de “petroleiros sancionados”, numa tentativa de dar alguma aparência de legalidade ao ato unilateral de agressão. Mas, na realidade, são os próprios Estados Unidos que impuseram essas sanções. Cerca de 45% de todos os petroleiros usados pela estatal venezuelana de petróleo, a PDVSA, estão sujeitos a sanções dos EUA, e muitos outros podem ser adicionados à lista a qualquer momento, já que os petroleiros são afetados por sanções secundárias derivadas das sanções americanas contra a PDVSA. De fato, seis novos petroleiros foram adicionados pelos EUA à lista de sanções na última semana.
Aliás, essas sanções, em vigor desde 2017-2019, baseiam-se numa Ordem Executiva emitida por Obama em 2015, que declarou a Venezuela uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos (!!)”, revelando a natureza bipartidária do imperialismo estadunidense.
Para que fique claro, esta não é uma ação direcionada contra alguns petroleiros, mas sim um bloqueio petrolífero generalizado contra a Venezuela, com a única exceção da multinacional americana Chevron, que continua operando sob uma licença especial e agora se beneficia de preços mais baixos. Este bloqueio criminoso visa paralisar completamente a economia do país, que depende extraordinariamente de suas exportações de petróleo. O petróleo representa cerca de 50% da receita do governo, 20% do PIB e 90% das receitas de exportação do país. Muito rapidamente, isso terá um impacto prático na vida das pessoas comuns na Venezuela.
As ameaças de Trump já levaram a uma queda no preço do petróleo venezuelano, à medida que compradores e exportadores buscam se proteger dos riscos.
Portanto, mesmo sem uma declaração formal de guerra e sem ataques reais dos EUA em solo venezuelano, que Trump ameaçou realizar, Washington já declarou efetivamente guerra à Venezuela.
A declaração de Trump está escrita em seu estilo bombástico e hiperbólico de sempre. Ele declara que “a Venezuela está completamente cercada pela maior Armada já reunida na História da América do Sul” e promete que “ela só vai aumentar e o terá um impacto nunca antes visto”.
Lamentamos informar ao presidente dos EUA, mas seu conhecimento de História, com H maiúsculo, é, no mínimo, deficiente. Quando os imperialistas britânicos realizaram um bloqueio naval a Cartagena das Índias em 1741, reuniram uma força substancialmente maior em termos de número de embarcações (mais de 180, incluindo mais de 50 navios de guerra, em comparação com os 12 de Trump) e pessoal militar (cerca de 30.000 marinheiros contra os 15.000 de Trump). É claro que, do ponto de vista tecnológico e de poder de fogo, o contingente atual é mais forte, mas certamente não maior. Os britânicos naquele momento foram derrotados.
O problema para Trump é que essa enorme mobilização de poderio militar é dispendiosa, com um custo total que já chega às centenas de milhões de dólares. O Grupo de Ataque do Porta-Aviões USS Gerald R. Ford, que inclui um porta-aviões e vários contratorpedeiros de escolta, tem um custo operacional diário estimado entre 6 e 8 milhões de dólares. Operar um avião E-3 AWACS custa quase 40 mil dólares por hora. A mobilização também inclui caças F-35, bombardeiros B-52, aeronaves de ataque AC-130 e drones MQ-9 Reaper.
O anúncio de um bloqueio petrolífero parece ser uma forma de intensificar a agressão sem chegar a operações militares reais em solo venezuelano, o que seria arriscado e teria um resultado incerto.
Os verdadeiros motivos da agressão dos EUA contra a Venezuela
Como já explicamos, o objetivo deste ataque imperialista à Venezuela (e também à Colômbia e à América Latina em geral) nada tem a ver com “direitos humanos” ou “democracia”. Na medida em que não usa pretextos liberais para esconder sua agressão descarada, Trump é apenas menos hipócrita que seus antecessores.
Também tem pouco a ver com drogas. O fentanil não é produzido na Venezuela, nem traficado através dela. A cocaína não é produzida na Venezuela e apenas uma quantidade insignificante é traficada através de seu território. Trump acaba de conceder indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos de prisão nos EUA por… tráfico de drogas.
Tem pouco a ver com a imigração venezuelana para os EUA ou com crimes cometidos por venezuelanos nos EUA. Já existe um acordo (que continua em vigor até hoje) pelo qual a Venezuela aceita voos de deportação dos EUA. Uma guerra contra a Venezuela levaria a um aumento da pressão migratória de pessoas que tentarão fugir do conflito.
Muitos argumentam que essa escalada imperialista está relacionada ao petróleo e aos recursos naturais. Esse é, sem dúvida, um fator importante. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, e o petróleo bruto extrapesado venezuelano é particularmente adequado para as refinarias americanas no Golfo do México.
O petróleo foi mencionado no mais recente discurso inflamado de Trump, que acusou a Venezuela de roubar “petróleo, terras e ativos” de empresas americanas. Em uma publicação nas redes sociais, o chefe de gabinete adjunto da Casa Branca, Stephen Miller, acrescentou: “O suor, a engenhosidade e o trabalho árduo dos americanos criaram a indústria petrolífera na Venezuela. Sua expropriação tirânica foi o maior roubo de riqueza e propriedade americanas já registrado. Esses ativos saqueados foram então utilizados para financiar o terrorismo e inundar nossas ruas com assassinos, mercenários e drogas.”
Isso é um absurdo e não tem nenhuma relação com a realidade. O petróleo venezuelano pertence à Venezuela, assim como todos os países são donos de seus próprios recursos naturais. Quando ele fala em “expropriação tirânica”, Miller demonstra a mesma ignorância histórica que seu chefe.
A indústria petrolífera foi nacionalizada na Venezuela pelo governo pró-EUA de Carlos Andrés Pérez em 1976. Essa nacionalização foi realizada em termos vantajosos para as multinacionais americanas, que receberam generosas indenizações por contratos que expirariam em 1983, quando então seriam rescindidos sem qualquer compensação.
Isso foi seguido, na década de 1990, pela chamada “abertura” da indústria petrolífera, na qual governos venezuelanos alinhados aos EUA permitiram que empresas multinacionais americanas operassem em campos de petróleo venezuelanos com contratos extremamente lucrativos.
Trump e Miller podem estar se referindo a 2007, quando o presidente Chávez renegociou esses contratos e estabeleceu que a participação majoritária venezuelana em todas as joint ventures, particularmente na Bacia do Orinoco, era obrigatória. A maioria das multinacionais petrolíferas americanas concordou com os novos termos e permaneceu como sócia minoritária. Apenas duas gigantes americanas, ExxonMobil e ConocoPhillips, recusaram e foram expulsas. Durante anos, elas litigaram em tribunais internacionais e receberam bilhões de dólares em indenizações.
A verdade é que a Venezuela estava apenas retomando o controle sobre recursos que lhe pertencem por direito e que, de forma alguma, pertenceriam aos EUA! “Petróleo, terras e ativos” pertencem à Venezuela, não aos EUA, e, portanto, não foram e não poderiam ter sido “roubados”, como alega Trump.
Isso está sendo usado apenas como uma desculpa conveniente para o aumento da presença militar contra a Venezuela, agora que o “motivo” do narcotráfico foi amplamente desmentido pelas próprias ações de Trump. Mas se o petróleo fosse a verdadeira razão, não haveria necessidade de um aumento tão expressivo da presença militar. Maduro mostrou-se disposto a negociar contratos de petróleo com empresas americanas, e a principal razão pela qual apenas uma delas opera no país atualmente (sob uma licença especial)… é resultado das próprias sanções americanas!
Tirem as Mãos da Venezuela!
A verdadeira razão subjacente é a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que busca reafirmar o domínio imperialista estadunidense sobre todo o continente (nosso hemisfério). Os EUA consideram as Américas seu quintal e querem garantir o acesso livre e irrestrito de empresas americanas aos seus recursos naturais. O imperialismo estadunidense quer remover atores não hemisféricos da América Latina (leia-se: China) e declara abertamente sua intenção de fazê-lo por meio de pressão econômica, intimidação diplomática e também por meios militares, quando necessário.
Todos os outros motivos (conquistar o apoio dos reacionários de Miami, desferir um golpe na Revolução Cubana, etc.) são um bônus adicional.
Até agora, o imperialismo estadunidense não alcançou seus objetivos. É por isso que busca maneiras de aumentar a pressão por todos os meios necessários. Por ora, optaram por um bloqueio de petróleo. Mas uma intervenção militar direta em solo venezuelano não está descartada.
Sejamos claros: a agressão militar da potência imperialista mais poderosa e reacionária da Terra contra uma nação soberana da América Latina já está em curso e deve ser combatida com todas as forças à nossa disposição.
