Trotsky já advertia em 1940 que a tentativa de resolver o “problema judaico” na Europa através da expropriação dos palestinos seria uma “armadilha sangrenta”. Essas palavras soam verdadeiras até hoje. Mas a verdadeira história de Israel-Palestina foi enterrada sob uma montanha de falsificações.
Neste artigo de outubro de 2023, Francesco Merli explica as negociações e maquinações obscuras das nações imperialistas que abriram caminho para a divisão da Palestina histórica. Este episódio da história atesta a miopia da classe dominante, que abriu uma caixa de Pandora de violência e degradação que tem atormentado a região e o mundo desde então.
Este artigo conta esta história desde as origens do Sionismo, passando pela criação de Israel, a Guerra dos Seis Dias, a Primeira Intifada, até a traição dos Acordos de Oslo em 1993.
Nos últimos cem anos, o Oriente Médio tem sido o tabuleiro de xadrez para muitos jogos decisivos entre as potências imperialistas. A razão da relevância da região, considerada de importância relativamente secundária até o final do século 19, é bem conhecida: sob as terras do Oriente Médio estão as principais reservas de petróleo do planeta. A Palestina, por uma série de razões geopolíticas e históricas, tornou-se cada vez mais o foco das tensões no Oriente Médio.
O longo processo de decomposição do Império Otomano acelerou repentinamente com a Revolução dos “Jovens Turcos” de julho de 1908, mas só foi concluído após a derrota do Império na Primeira Guerra Mundial.
O Império já havia perdido o controle sobre parte de suas províncias europeias ao longo do século XIX. Durante esse período, a Grã-Bretanha e a França também assumiram o controle de grandes partes do norte da África. A França conquistou a Argélia em 1830 e ocupou a Tunísia em 1881. A Grã-Bretanha invadiu o Egito e o Sudão em 1882. Mesmo uma potência secundária como a Itália conquistou uma fatia do Império ao ocupar a Líbia em 1911.
O governo dos Jovens Turcos entrou na Guerra ao lado das Potências Centrais, Alemanha e Áustria-Hungria. Muito antes do fim da guerra, a Grã-Bretanha e a França já haviam chegado a um acordo sobre como compartilhar entre si os despojos do Império.
Acostumados a dominar vastos impérios coloniais, britânicos e franceses concordaram em criar uma série de estados artificialmente separados por fronteiras traçadas arbitrariamente com uma régua em mapas geográficos. O acordo foi selado pelo acordo secreto Sykes-Picot (com o consentimento da Rússia e da Itália) em janeiro de 1916.
O acordo foi denunciado e publicado pelos bolcheviques em novembro de 1917, logo após a Revolução, para desespero dos imperialistas. No entanto, após a guerra, a partição aconteceu de acordo com as linhas acordadas por Sykes e Picot. A França assumiu o controle da Síria e do Líbano. A Grã-Bretanha recebeu um mandato sobre a Mesopotâmia (atual Iraque), a Palestina e um protetorado sobre a monarquia fantoche da Transjordânia (atual Jordânia).
Os imperialistas britânicos haviam aumentado cinicamente as esperanças dos nacionalistas árabes por uma pátria árabe. Uma negociação nesse sentido foi estabelecida por Sir Henry McMahon, o alto comissário britânico no Egito, em sua correspondência com Hussein bin Ali, o Sharif de Meca, em troca do apoio árabe na guerra. A insurgência árabe contra os otomanos desempenhou um papel fundamental na queda do Império Otomano.
No entanto, os imperialistas britânicos não tinham intenção de honrar suas promessas e estavam mais interessados em expandir sua própria esfera de influência. A ascensão da consciência nacional árabe representou uma ameaça estratégica aos seus interesses imperialistas.
A Questão Judaica e o Sionismo
A história da imigração judaica para a Palestina está intimamente ligada à ascensão do movimento sionista no final do século XIX. Até então, a população autóctone judaica residente na Palestina somava alguns milhares de pessoas, concentradas principalmente nas áreas urbanas.
Um ponto de inflexão veio com a onda de pogroms desencadeada no império russo pela polícia secreta contra a minoria judaica, responsabilizada pelo assassinato do Czar Alexandre II em 1881.
Multidões enfurecidas incitadas por provocadores contratados invadiram os bairros judeus, saqueando-os e agredindo a população. Centenas de milhares de judeus foram expulsos da Rússia e da Ucrânia para escapar da campanha de terror de assassinatos, espancamentos, estupros, linchamentos e destruição de seus meios de subsistência e propriedades.
Mais ondas de pogroms se seguiram em 1903-6, e uma ainda maior em 1917 e 1921, desencadeada pelos exércitos brancos durante a guerra civil contra a revolução bolchevique.
No final do século XIX, outro episódio gerou enormes ondas de choque. Em 1894-95, Alfred Dreyfus, um oficial judeu francês, foi injustamente condenado por traição. Seu julgamento desencadeou uma onda de antissemitismo na França.
O “caso Dreyfus” desempenhou um papel importante na conversão ao sionismo de um intelectual burguês judeu cosmopolita, Theodor Herzl (1860-1904). Na verdade, Herzl escreveu O Estado Judeu, o que se tornaria o manifesto político do sionismo, após o julgamento.
Herzl tornou-se o principal organizador e teórico do movimento sionista, desenvolvendo-o como uma força internacional. Ele concebeu as táticas de organização da emigração em massa de judeus da Europa para a Palestina.

Ele também chegou à conclusão de que o crescimento das tendências antissemitas na Europa deveria ser considerado uma ajuda potencial para o projeto sionista, um meio de pressionar o que ele considerava uma inércia judaica secular.
Assim, o projeto político sionista baseava-se no esforço de fazer lobby junto aos chefes de Estado e ministros europeus (muitas vezes fervorosamente antissemitas) na tentativa de convencê-los de que a emigração de judeus para a Palestina representava uma oportunidade de ouro para se livrarem do problema judaico, bem como o fato de que um estado judeu na Palestina poderia ser útil para as grandes potências como um “posto avançado da civilização europeia contra a barbárie asiática”.
Desde o início, o projeto sionista teve que contar com o patrocínio de uma das principais potências imperialistas como garantia de seu sucesso.
Para garantir a necessária aquiescência das autoridades otomanas, Herzl assegurou publicamente às autoridades otomanas que a imigração judaica só beneficiaria materialmente o Império. No entanto, em particular, ele reconheceu que não poderia haver Estado judeu sem a expropriação e expulsão dos palestinos.
“Devemos expropriar com cuidado. […] Tentaremos levar a população sem um centavo através da fronteira, procurando emprego para ela nos países de trânsito, negando-lhe qualquer emprego em nosso país. […] Tanto o processo de expropriação quanto o de remoção dos pobres devem ser realizados com discrição e cautela”. Herzl anotou em seu diário em 1895 (citado em B. Morris, Righteous Victims).
A realização da utopia reacionária sionista converteu a Palestina em um campo de batalha e custaria aos palestinos (mas também aos colonos judeus) um sofrimento indescritível. Suas consequências reacionárias perduram até os dias atuais.
O movimento sionista no início do século 20, no entanto, ainda representava apenas uma pequena minoria, confinada a um pequeno círculo de intelectuais e mecenas burgueses judeus e patronos pequeno-burgueses.
O desenvolvimento da consciência nacional árabe
Uma causa constante de preocupação para a direção sionista era que os trabalhadores árabes se organizassem contra sua exploração. Outro temor era que o desenvolvimento de uma consciência nacional árabe unificasse os árabes na resistência à colonização sionista.

A consciência nacional árabe começou a se desenvolver na década de 1880. A Revolução dos Jovens Turcos de 1908 levantou esperanças de emancipação para todos os povos do império otomano.
A rápida virada do novo regime para o nacionalismo turco acelerou o processo massivo de precipitação da consciência nacional entre todos os povos do Império, particularmente entre os árabes, que partilhavam um território, que ia desde o moderno Iraque até Marrocos, língua e tradição comuns.
Na Palestina tal processo tornou-se ainda mais agudo devido à crescente hostilidade às consequências da imigração judaica. Cada aquisição de terra pelos colonos acarretava a expulsão automática dos fazendeiros palestinos, muitas vezes sem saber que os donos oficiais ausentes da terra a haviam vendido aos recém-chegados, atraídos pelo aumento do preço da terra.
Segundo o historiador Benny Morris, o preço médio da terra saltou de 5,3 libras palestinas por dunam (1000 m²) em 1929 para 23,3 em 1935. O preço da terra em 1944 era 50 vezes maior do que em 1910.
Os colonos não falavam árabe, não conheciam a cultura e as tradições locais e, em muitos casos, não se preocupavam em aprendê-las, violando costumes há muito estabelecidos, terras comuns, pastagens e, acima de tudo, o acesso à água. Não demorou muito para que os palestinos sentissem uma crescente sensação de ameaça iminente a partir do fluxo contínuo de colonos.
A Declaração de Balfour
Os estrategistas do imperialismo britânico ficaram interessados. Eles entenderam que o projeto sionista poderia se tornar uma ferramenta útil para assegurar os planos da Grã-Bretanha para o Oriente Médio após o fim do Império Otomano.

Em 2 de novembro de 1917, essa mudança foi resumida na carta dirigida em nome do governo britânico por Lord Balfour a Lord Rothschild e à Federação Sionista. A declaração afirma:
“O Governo de Sua Majestade vê com bons olhos o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e envidará seus melhores esforços para facilitar a realização deste objetivo, sendo claramente entendido que nada deve ser feito que possa prejudicar as relações civis e religiosas. direitos das comunidades não-judaicas existentes na Palestina, ou o direito e o status político desfrutado pelos judeus em qualquer outro país”.
A cláusula subordinada mostrava claramente que, mesmo na época, os imperialistas britânicos tinham uma compreensão evidente das implicações de seu endosso. Em bases capitalistas, a chamada “solução” para a secular opressão dos judeus, levou necessariamente à deflagração da “questão palestina”.
Em 1923, um sionista de direita, Vladimir Jabotinsky, escreveu seu manifesto político, The Iron Wall. Ele reconheceu a importância da declaração de Balfour e argumentou que os palestinos deveriam ser forçados à submissão com uma “parede de ferro de baionetas judaicas” e, acrescentou, “baionetas britânicas”. Em sua opinião, a viabilidade do projeto sionista dependia do apoio ativo e do patrocínio do imperialismo britânico.
Tal apoio tornou-se realidade após o colapso do império otomano e o estabelecimento do mandato britânico sobre a Palestina.
Sob o domínio britânico, os sionistas foram autorizados a desenvolver as instituições de um semi-estado: a Agência Judaica como um governo embrionário; o Fundo Nacional Judaico como forma de canalizar as finanças e comprar terras e, o mais importante, uma milícia judaica – a Haganah.
No entanto, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ainda não havia mais de 60.000 judeus na Palestina, enquanto as terras compradas até 1908 correspondiam a apenas 1,5% das terras disponíveis. Na década de 1920 – como resultado do Mandato Britânico sobre a Palestina – o fluxo de novos colonos foi acelerado.

Em 1929, o saldo geral da emigração judaica desde 1880 era o seguinte: dos cerca de 4 milhões de judeus que emigraram naquele período da Europa Central e Oriental, apenas 120.000 foram para a Palestina (alguns deles apenas temporariamente), em comparação com 2,9 milhões para os Estados Unidos, 210.000 para a Grã-Bretanha, 180.000 para a Argentina, 125.000 para o Canadá. A população judaica de colonos na Palestina foi crescendo, tendo atingido 150.000 em 1929 e subindo para mais de 400.000 em 1936.
Os crescentes atritos entre palestinos e colonos culminaram com os distúrbios de Jaffa em maio de 1921, com dezenas de pessoas mortas em ambos os lados.
Em agosto de 1929, uma revolta dos palestinos contra a ocupação britânica tornou-se sangrenta, com uma série de ataques lançados contra as comunidades judaicas. Um desses ataques atingiu a pequena comunidade judaica palestina de Hebron (cerca de 600 pessoas), uma comunidade que remonta ao século XVI.
Como resultado do ataque, 66 judeus foram mortos, apesar da tentativa de muitos palestinos de proteger os fugitivos, hospedando-os em suas casas. A comunidade judaica em Hebron foi exterminada. O Haganah repeliu outros ataques. No entanto, tragicamente, o número de mortos nos “dias sangrentos” de agosto de 1929 foi de 133 judeus e 116 palestinos.
Isso deu um impulso decisivo à consolidação da milícia judaica, a Haganah, cada vez mais em colaboração com o ocupante britânico.
A formação do Partido Comunista Palestino
Durante as décadas de 1920 e 1930, surgiram oportunidades para a construção de uma alternativa revolucionária, baseada na classe trabalhadora, que poderia ter evitado a eclosão de uma guerra civil em que trabalhadores judeus e árabes teriam tudo a perder.
No início da década de 1920, a presença da administração colonial britânica promoveu certo grau de desenvolvimento industrial da faixa costeira, ajudando a criar um setor econômico onde trabalhadores judeus e palestinos trabalhavam lado a lado. Este desenvolvimento teve um impacto na economia palestina predominantemente rural e levou a uma intensa imigração do campo para as cidades costeiras.
No entorno da administração colonial surgiram as ferrovias, a companhia telefônica, os correios e telégrafos, os portos e estaleiros, as administrações civis às quais se juntaram as administrações locais das cidades de população mista e também no setor privado, algumas grandes empresas de capital estrangeiro que empregavam mão-de-obra judaica e palestina. Por exemplo, a fábrica de cimento Nesher, o terminal da Iraqi Oil Company e a refinaria em Haifa, e a indústria da construção em rápida expansão.
Entre os censos de 1922 e 1931, a população árabe palestina cresceu 40% e em cidades como Jaffa e Haifa 63% e 87%, respectivamente. Os recém-chegados engrossaram as fileiras do proletariado em todos os setores, alimentando rapidamente uma notável onda de lutas sindicais. À imigração interna juntou-se a imigração dos países vizinhos, especialmente do Egito.
A falta de mão de obra judaica para substituir a mão de obra árabe muitas vezes levou à importação de mão de obra judaica barata para a Palestina a partir do Iêmen ou do Magreb. Eles constituíam um setor da classe trabalhadora judaica particularmente explorado e distante da maioria dos sionistas de origem europeia que falavam principalmente o iídiche e ocupavam todos os cargos dirigentes nas instituições sionistas.
Foi neste período que surgiu a crescente divisão entre judeus Ashkenazi e Sefarditas (descendentes da diáspora de judeus espanhóis que se estabeleceram no império otomano), que ainda hoje caracteriza a sociedade israelense.
Os sefarditas se expressavam em ladino, um dialeto derivado do espanhol. Com frequência, eles eram capazes de falar ou entender o árabe e ocupavam um nível social ligeiramente acima da massa do proletariado árabe. Sob essas condições, a consciência de classe rapidamente surgiu entre essa camada, que instintivamente se sentia mais próxima dos árabes do que dos grandes magnatas judeus como Rothschild e assemelhados.
Os partidos “socialistas” sionistas, no entanto, se opuseram veementemente a qualquer exigência de abrir os sindicatos de trabalhadores judeus aos trabalhadores árabes.
As diferenças iam desde o Hadut Haavoda, de David Ben-Gurion, que era a favor da sindicalização dos árabes, mas em organizações separadas de “igual dignidade” (sob liderança sionista), e o Hapoel Hatzair, de Hayyim Arlosoff, que defendia o caráter exclusivamente judeu da organização sindical, a fim de promover uma crescente divisão do trabalho entre uma aristocracia operária judaica, com os empregos mais qualificados e bem pagos, e uma massa de trabalhadores manuais árabes desorganizados.
Uma terceira posição foi expressa por outro partido da esquerda sionista, o Po’aley Tziyon. Este partido mudou para posições semi-revolucionárias ao buscar a adesão à Internacional Comunista (IC) em 1924, embora não renunciasse totalmente ao sionismo. A IC recusou-se a aceitar um partido que não estivesse completamente liberto do sionismo. Isso levou a uma divisão e à fundação do Partido Comunista Palestino (PCP). O novo partido foi imediatamente expulso do sindicato sionista Histadrut.
Lutas dos trabalhadores e unidade de classe
O PCP defendeu uma posição a favor dos sindicatos unidos, sem discriminações de ordem nacional ou religiosa. Ao prosseguir esta linha política, o PCP soube aproveitar a crescente militância e a exigência de unidade decorrente da experiência operária. Tal instinto de unidade, no entanto, foi combatido e impedido tanto pela direção sionista quanto pelos nacionalistas árabes.

O PCP criou raízes entre a classe trabalhadora árabe e judaica. O partido publicou dois jornais nas duas línguas. Apesar de ter a sua principal base de apoio entre os trabalhadores árabes, o PCP obteve 8% dos votos nas eleições para o Yishuv (o Conselho Judaico), mais de 10% se considerarmos a votação nas cidades.
Um episódio – pequeno, mas significativo – mostrou o potencial para o desenvolvimento da unidade de classe durante uma greve. Duzentos trabalhadores judeus da fábrica de cimento Nesher em Haifa se juntaram a uma greve de 80 colegas de trabalho egípcios, apresentando suas próprias demandas, com os últimos tendo os direitos reduzidos e recebendo a metade do salário.
Após uma greve de dois meses, o patrão cedeu a algumas reivindicações dos trabalhadores judeus. O acordo foi rejeitado, por uma votação de 170 a 30 (desafiando a posição de seu próprio sindicato), e eles prometeram continuar a greve até que as demandas de seus camaradas egípcios fossem totalmente atendidas.
O perigo de que tal exemplo pudesse se tornar contagioso levou a direção do Histadrut a pressionar a administração colonial britânica, que reprimiu deportando todos os 80 trabalhadores egípcios.
Uma propensão para a unidade dos trabalhadores na luta emergiu várias vezes na década de 1925-35. Devemos mencionar a greve dos padeiros, as lutas dos trabalhadores portuários de Haifa e dos ferroviários, a greve dos transportes públicos e dos taxistas em 1931. Em 1935 vemos a importante luta dos trabalhadores da Iraqi Oil Company e da refinaria de Haifa.
Durante esses anos, o PCP organizou sindicatos independentes do Histadrut e ganhou importantes bases de apoio em muitas áreas, entre a maioria dos trabalhadores árabes e muitos trabalhadores judeus. Seus sucessos forçaram os sionistas a mudar de tática e promover sindicatos árabes federados com os sionistas, para conter a influência dos comunistas.
O enorme potencial representado pelo crescimento do PCP, porém, foi desperdiçado pelas consequências da degeneração stalinista da URSS. A burocracia soviética sob Stalin converteu a Internacional Comunista em uma mera ferramenta para perseguir seus interesses diplomáticos. Isso significava abandonar a política revolucionária correta de unidade de classe, favorecendo o nacionalismo árabe durante a Grande Revolta Palestina de 1936-39, resultando na perda da maior parte do apoio do PCP entre os trabalhadores judeus.
Durante a Segunda Guerra Mundial o PCP sofreu um golpe ainda mais severo com a mudança de linha de Moscou em favor da colaboração bélica com o imperialismo britânico, o que minou a base do partido entre a classe trabalhadora palestina, antes de receber um golpe mortal em 1948 com a decisão da URSS de apoiar a formação de Israel.
O papel reacionário da elite palestina
Entre os palestinos, o campo nacionalista emergente foi hegemonizado pelas famílias da elite, que forneciam funcionários municipais, juízes, policiais, religiosos e funcionários públicos à administração otomana e posteriormente à autoridade colonial britânica. Eles emergiram como a liderança nacional dos palestinos. Um vasto abismo, no entanto, separava a elite das massas em grande parte pobres e analfabetas.
A luta pela supremacia entre os clãs Husayni e Nashashibi, em meados da década de 1930, levou à formação de dois partidos nacionalistas árabes rivais. O Partido de Defesa Nacional, liderado por Nashashibi, foi combatido pelo Partido Árabe Palestino, mais extremadamente nacionalista. No entanto, a fidelidade dos Husayni e dos Nashashibi ao nacionalismo árabe não impediu que ambos preenchessem a longa lista daqueles que venderam terras secretamente aos sionistas.
O Partido Árabe Palestino radicalizou suas posições em linhas antissemitas. Muitos nacionalistas árabes (incluindo o futuro presidente egípcio Anwar Sadat) simpatizavam abertamente com o fascismo e o nazismo. As palavras de apoio de Amin al-Husayni a Hitler em um discurso ao cônsul alemão em Jerusalém são emblemáticas: “os muçulmanos dentro e fora da Palestina saúdam o novo regime da Alemanha e esperam a extensão do sistema governamental antidemocrático fascista a outros países.”
Grupos nacionalistas árabes armados se desenvolveram. A “Mão Negra”, liderada pelo Sheikh Izz al-Din al-Qassam, realizou ataques esparsos contra colonos judeus desde 1931. Al-Qassam foi morto por forças britânicas em uma emboscada em 21 de novembro de 1935, tornando-se assim uma figura mobilizadora para o nacionalismo árabe.
O ritmo da imigração judaica aumentou ainda mais no decorrer da década de 1930. Entre 1931 e 1934, uma seca prolongada atingiu a Palestina. Em 1932, a produção agrícola caiu entre 30 e 75%, dependendo das culturas e áreas afetadas. Isso empobreceu as aldeias palestinas e causou superlotação nas favelas ao redor de Jaffa e Haifa.
Uma crise financeira também atingiu a Palestina, causada pelas repercussões da situação na Abissínia, o que levou à falência de muitas empresas. A combinação desses fatores exacerbou a posição das massas palestinas.
A Grande Revolta Palestina de 1936-39
Os confrontos de 1921 e 1929, embora violentos e sangrentos, afetaram diretamente apenas uma pequena camada da população árabe e judaica.

Em abril de 1936, no entanto, a revolta palestina se espalhou em massa a partir das cidades, onde “Comitês Nacionais” foram formados espontaneamente por iniciativa da juventude radicalizada, os shababs. Os líderes tradicionais relutavam em entrar em confronto direto com as autoridades britânicas. Não foi até 25 de abril que o Alto Comitê Árabe foi formado para liderar a revolta sob a liderança dos Husayni.
A Revolta foi caracterizada por uma greve geral árabe de seis meses e uma luta semi-insurrecional permanente, além de guerrilha armada no campo (de meados de maio a meados de outubro).
A escala diferente dessa revolta foi percebida pelo próprio Ben-Gurion, que escreveu que os árabes estavam “lutando contra a desapropriação… O árabe está travando uma guerra que não pode ser ignorada. Ele faz greve, é morto, faz grandes sacrifícios”. Ele também afirmou em 19 de maio de 1936: [os árabes] “veem… exatamente o oposto do que vemos. Não importa se a visão deles está correta ou não… Eles veem a imigração em escala gigantesca… eles veem os judeus se fortificando economicamente… Eles veem as melhores terras passando para nossas mãos. Eles veem a Inglaterra se identificar com o sionismo”.
Os sionistas (com o sindicato Histadrut na vanguarda) adotaram uma política agressiva de fura-greves com o objetivo de substituir trabalhadores palestinos por judeus empresa por empresa.
Em 1937, o secretário da federação sindical de Jaffa explicava assim a posição dos sionistas: “O objetivo fundamental do Histadrut é ‘a conquista do emprego’… Não importa quantos árabes estejam desempregados, eles não têm o direito de aceitar nenhum emprego que um possível imigrante possa ocupar. Nenhum árabe tem o direito de trabalhar em empreendimentos judaicos. Se os árabes também puderem ser substituídos em outros trabalhos… isso é bom.” (Citado em Benny Morris, Righteous Victims, p. 122.)
Durante meses, as autoridades britânicas não tiveram outra alternativa senão esperar que a força da insurreição arrefecesse. Foi apenas em 7 de setembro que a lei marcial foi proclamada e o toque de recolher imposto. 20.000 soldados foram enviados da Grã-Bretanha e do Egito, auxiliados por 2.700 policiais judeus adicionais. Uma operação de contra-insurgência começou, o que levou os líderes árabes a cancelar a greve em 10 de outubro, esperando que isso levasse a uma saída negociada.
O governo britânico convocou uma Comissão Real liderada por Lord Peel, para realizar um inquérito e determinar os termos para uma solução do conflito palestino-sionista. O Relatório Peel de 404 páginas, publicado em 7 de julho de 1937, recomendou a divisão da Palestina da seguinte forma: 20% do território para a Autoridade Judaica; Jerusalém e um corredor para Jaffa ficariam sob administração britânica, bem como as cidades costeiras com população mista; o resto se juntaria à Transjordânia e formaria um único estado árabe. O corolário da proposta foi a transferência forçada de 225.000 palestinos e 1.250 judeus.
Os líderes sionistas Weizmann e Ben-Gurion consideraram o Relatório Peel como um trampolim para uma maior expansão. Weizmann comentou: “Os judeus seriam tolos em não aceitá-lo, mesmo que [a terra que lhes foi alocada] fosse do tamanho de uma toalha de mesa.” O relatório foi, portanto, aceito pelos sionistas, enquanto foi rejeitado pelo Alto Comitê Árabe.
Segunda fase da Revolta
Em setembro de 1937 a revolta recomeçou com vigor, mas o Comitê Superior Árabe estava dilacerado por uma violenta rixa que surgiu da tentativa dos Husayni de assassinar o líder do clã adversário, em julho de 1937. “Correntes de sangue estão agora dividindo as duas frações”, observou Elias Sasson, um alto funcionário da Agência Judaica, em abril de 1939.
A insurreição continuou em uma espiral de confrontos e repressão. O Comitê Superior Árabe foi declarado ilegal e 200 de seus líderes foram presos, muitos deles enforcados, enquanto outros fugiram.
O “Relatório Peel” estimulou o partido revisionista de direita judeu (aqueles que demandavam uma revisão do Mandato Britânico) a lançar uma campanha terrorista contra os palestinos comuns. Vários ataques à bomba do Irgun Zwai Leumi atingiram civis palestinos em estações de ônibus e mercados, matando e mutilando centenas.
Os grupos armados palestinos agiram sem um comando centralizado. Muitos deles, sem perspectivas, infelizmente se transformaram em gangues criminosas que saqueavam os camponeses palestinos, alienando rapidamente seu apoio. Esta situação minou decisivamente as perspectivas da Revolta.
A Revolta continuou até maio de 1939, envolvendo em seu auge, no outono de 1938, cerca de 20.000 combatentes palestinos. Na véspera da Segunda Guerra Mundial, aquela que havia sido a mais séria e prolongada revolta árabe contra a ocupação britânica terminou com um número de mortos de muitos milhares e uma derrota de fato.
A Segunda Guerra Mundial e o Holocausto
A derrota da Revolta sancionou uma virada brusca na política do imperialismo britânico. Os britânicos temiam um novo surto de revolta árabe quando as forças tivessem que ser disponibilizadas para outras frentes. Além disso, o imperialismo britânico não queria antagonizar a burguesia árabe, na tentativa de impedir sua colaboração com os nazistas.
O Livro Branco elaborado pela administração colonial (publicado em 17 de maio de 1939) introduziu pela primeira vez um limite para a imigração judaica (um limite máximo de 75.000 nos cinco anos seguintes) e severas restrições à compra de terras por judeus. Também estabeleceu a perspectiva de, dentro de dez anos, da criação de um estado independente governado de acordo com o princípio da maioria.

Esta mudança de curso não rendeu ao imperialismo britânico um maior apoio árabe. No entanto, minou o relacionamento próximo da Grã-Bretanha com a liderança sionista. A reviravolta britânica (no exato momento em que aumentavam os temores da política antissemita nazista) foi vista como uma traição pelos sionistas.
As autoridades britânicas ajudaram na transição do Haganah para uma “defesa agressiva” contra os palestinos. Em maio de 1938, o Haganah montou “unidades de combate” para aplicar táticas de contra-insurgência no campo. Um mês depois, foram criados os Esquadrões Noturnos Especiais, com a missão de aterrorizar durante a noite os bairros e aldeias árabes que apoiavam a Revolta.
Essas mesmas táticas seriam usadas em uma escala muito maior uma década depois pelos sionistas, para garantir que os palestinos fugissem de suas aldeias e casas aterrorizados, na preparação para o estabelecimento do Estado de Israel.
No início de 1939, três unidades secretas conhecidas como Pe’luot meyuchadot (“operações especiais”) foram criadas com a tarefa de realizar represálias contra aldeias e unidades guerrilheiras árabes, mas também para realizar ataques a instalações britânicas e eliminar informantes. Essas unidades foram colocadas sob o comando direto de David Ben-Gurion.
Os primeiros relatos de deportações em massa de judeus pelos nazistas começaram a chegar, junto com os refugiados judeus europeus, produzindo um enorme impacto psicológico na população judaica da diáspora (especialmente nos EUA) que considerava intoleráveis as odiosas restrições impostas pelo Autoridades britânicas sobre imigração.
A atitude da direção sionista em relação à ameaça nazista, no entanto, se caracterizava pelo cinismo. Em dezembro de 1938, um mês após o pogrom nazista mais tarde conhecido como Kristallnacht, Ben-Gurion declarou: “Se eu soubesse que seria possível salvar todas as crianças [judias] da Alemanha por sua transferência para a Inglaterra e apenas metade delas transferindo-as para Eretz-Yisrael, eu escolheria a última alternativa – porque nos deparamos não apenas com a contabilidade dessas crianças, mas também com a contabilidade histórica do povo judeu.”
Em dezembro de 1942, ele voltou a comentar: “A catástrofe dos judeus europeus não é, de maneira direta, um assunto meu…” (Citado em Benny Morris, Righteous Victims, p. 162).
A direção sionista usou o desespero dos judeus que fugiam da Europa para fortalecer o apoio internacional ao sionismo e desafiar descaradamente o bloqueio à imigração imposto pelas autoridades britânicas, que estavam determinadas a reprimir a imigração ilegal a todo custo.
Parte da direita sionista, no entanto, rejeitou qualquer colaboração com os britânicos. Em novembro de 1944, o Lohamei Herut Israel (LEHI), “Lutadores pela Liberdade de Israel” (também conhecido como gangue Stern) assassinou no Cairo o ministro britânico residente no Oriente Médio, Lord Moyne.
Uma série de barcos cheios de refugiados foi despachada em desafio aberto à proibição britânica, provocando um cabo de guerra com as autoridades do Mandato que decidiram bloquear todas as tentativas e deportar milhares de refugiados para campos de concentração nas Ilhas Maurício e Chipre. Os refugiados eram peões, presos em um jogo de poder cínico que levou a várias tragédias.
Em novembro de 1940, o Haganah explodiu o Patria, um navio ancorado em Haifa carregado com 1.700 imigrantes que aguardavam deportação para as Ilhas Maurício, causando 252 mortes. Outro navio, o Struma, com 769 refugiados a bordo, afundou em 25 de fevereiro de 1942 no Mar Negro depois que as autoridades britânicas vetaram sua transferência (todos, exceto um, morreram).
Muito poucos refugiados judeus escaparam para a Palestina durante a guerra, enquanto os nazistas exterminavam seis milhões de judeus na Europa, juntamente com milhões de eslavos, ciganos, comunistas e antifascistas de diferentes nacionalidades, religiões e orientações políticas.
Bem antes da proclamação do Estado de Israel (14 de maio de 1948), o sonho sionista de formar um Estado que protegesse os judeus dando nova vida à terra bíblica de Israel havia produzido apenas um pesadelo.
“Uma terra sem povo para um povo sem terra” – palavra de ordem adotada de várias formas pela propaganda sionista – era uma mistificação da situação real da Palestina, tirando de cena, convenientemente, a presença dos palestinos.
A direção sionista, no entanto, entendia muito bem que um conflito com a maioria árabe pelo controle da Palestina era inevitável. David Ben-Gurion, o primeiro líder do recém-nascido Estado de Israel, disse, já em 1919, em uma reunião de um órgão dirigente sionista:
“Todo mundo vê uma dificuldade na questão das relações entre árabes e judeus. Mas nem todo mundo vê que não há solução para essa questão. Nenhuma solução! Há um abismo e nada pode transpô-lo… Não sei que árabe concordará que a Palestina deva pertencer aos judeus… Nós, como nação, queremos que este país seja nosso; os árabes, como nação, querem que este país seja deles”. (Citado em B. Morris, Righteous Victims, p. 91).
Aos olhos dos dirigentes sionistas, cada colono que pisava na Palestina representava mais um soldado na guerra pela conquista da terra. Todas as suas ações visavam criar as condições que lhes permitissem expulsar a maioria da população árabe da Palestina e provocar o nascimento do Estado de Israel.

“A tentativa de resolver a questão judaica através da migração de judeus para a Palestina pode agora ser vista pelo que é, uma trágica zombaria do povo judeu”, escreveu Leon Trotsky em julho de 1940, referindo-se à reviravolta do imperialismo britânico, que, inicialmente, favoreceu a imigração judaica, apenas para tentar detê-la violentamente quando não mais atendia a seus interesses.
Trotsky apontou que qualquer solução para a questão judaica com base em um sistema capitalista apodrecido se tornaria uma armadilha sangrenta para centenas de milhares de judeus. Trotsky não pôde viver para ver como a guerra terminaria e como o equilíbrio de forças dela resultante afetaria as perspectivas do sionismo. No novo equilíbrio de forças surgido da Guerra, porém, o que parecia improvável tornou-se possível e, logo, tornou-se realidade.
Israel foi estabelecido sobre as ruínas do Mandato Britânico. No entanto, nasceu pingando sangue palestino, exigindo o deslocamento de 750.000 palestinos de suas terras. O novo Estado foi fundado à custa de ter que se basear na repressão e na opressão sistemáticas do povo palestino. O projeto sionista revelou-se uma utopia reacionária carregada de consequências trágicas. Sua implementação deixou feridas ainda abertas, mais de sete décadas depois.
Desde a sua fundação, a história de Israel tem sido pontuada por guerras. Isso começou com a chamada Guerra da Independência de 1948-49 e a Nakba (Catástrofe). Isso foi seguido pela Guerra de Suez de 1956; a Guerra dos Seis Dias de 1967; a Guerra do Yom Kippur de 1973, bem como três invasões do Líbano, em 1978, 1982 e 2006, os incontáveis bombardeios e escaramuças durante as décadas de guerra de atrito com o Hezbollah no sul do Líbano, e meia dúzia de “guerras” (que significa principalmente pesadas campanhas de bombardeio à distância), contra o Hamas em Gaza.
A história de Israel também foi caracterizada por inúmeros movimentos que expressam a resistência palestina, incluindo movimentos insurrecionais de massa (a primeira Intifada em 1987-1992 e a segunda Intifada em 2000-2003) pela população nunca domesticada dos territórios ocupados em 1967.
Mais do que um “porto seguro” para os judeus, a realidade concreta da “terra prometida” acabou sendo a de uma fortaleza sitiada, cercada por povos e inimigos hostis. A classe dominante israelense habilmente explorou essas guerras para consolidar uma mentalidade de cerco profundamente enraizada entre a maioria do povo judeu dentro de Israel e os apoiadores de Israel na diáspora judaica.
Terrorismo sionista e retirada britânica
Durante a Guerra, a maioria dos sionistas e dos nacionalistas árabes colaboraram com o exército britânico. Uma brigada judaica de 23.000 homens lutou sob o comando dos Aliados. O contingente palestino totalizava 9.000 homens.
Em 1944, as terras adquiridas pelos sionistas na Palestina ainda não representavam mais de 6,6% do território do Mandato Britânico. No entanto, o sionismo saiu consideravelmente fortalecido da guerra. A Agência Judaica tornou-se de fato, pelo menos em forma embrionária, um semi-Estado, dotado de sua própria economia separada, suas próprias instituições e, acima de tudo, seu próprio exército com milhares treinados e armados pelos Aliados durante a guerra.
Terminada a guerra, os líderes sionistas mudaram de tática. Entre 1945 e 1948, Haganah e Irgun Zwai Leumi (a milícia armada da direita sionista) uniram forças em ataques contra a ocupação britânica e a população árabe.

O mais grave desses ataques terroristas sionistas desferiu um golpe mortal no próprio coração da administração do Mandato. Em 22 de julho de 1946, o Irgun, sob o comando do futuro primeiro-ministro israelense Menachem Begin, plantou explosivos suficientes para explodir a ala sul do King David Hotel em Jerusalém, onde ficava a sede da administração civil do Mandato Britânico. 91 britânicos, palestinos e judeus foram mortos na explosão e dezenas ficaram feridos.
Essa escalada repentina tornou a situação insustentável para o imperialismo britânico. A Grã-Bretanha, embora vitoriosa na Segunda Guerra Mundial, saiu dela debilitada, com o Império em frangalhos. Em abril de 1947, portanto, o Reino Unido anunciou sua retirada da Palestina dentro de um ano.
Isso gerou um debate sobre o status da Palestina. O centro de gravidade do poder imperialista mudou decisivamente em favor da potência mundial em ascensão, os Estados Unidos. Estes interpretaram corretamente a posição britânica como um sinal de fraqueza de um império superdimensionado e decadente, e começaram a manejar o conflito judaico-palestino como um porrete para desferir golpes contra a influência do ex-aliado no Oriente Médio.
A Resolução 181 da ONU foi aprovada em 29 de novembro de 1947 como resultado da pressão dos Estados Unidos. O plano da ONU pode ser resumido como a partição da Palestina em três zonas: um estado árabe (abrangendo uma área de 11.500 quilômetros quadrados para 804.000 palestinos e 10.000 judeus); um estado judeu (14.000 quilômetros quadrados para 558.000 judeus e 405.000 palestinos); e uma área (Jerusalém), a ser colocada sob controle internacional.
Este plano estava envolto em utopia, considerando que os dois Estados teriam que se juntar a uma União Econômica Palestina e compartilhar moeda, recursos e infraestrutura (portos, correios, ferrovias, estradas), como se uma guerra sem limites entre sionistas e palestinos não viesse ocorrendo há mais de duas décadas.
Ofensiva sionista
Com a saída dos ocupantes britânicos, a liderança sionista percebeu que tinha uma janela de oportunidade para preencher o vácuo e determinar as condições do acordo de partição em seus próprios termos.
No final de 1947, Haganah, Irgun e Stern Gang, agora unidos em um esforço único, desencadearam uma campanha de terror com uma série de ataques coordenados a aldeias palestinas com dezenas de baixas civis. Os ataques aumentaram de intensidade nos primeiros meses de 1948. Em Tannoura, Tireh, Saasa, Haifa, Hfar Husseinia, Sarafand, com centenas de vítimas palestinas.
Em 9 de abril, a população da aldeia de Deir Yassin, perto de Jerusalém, foi massacrada pelo Irgun. A Cruz Vermelha encontrou 254 homens, mulheres e crianças massacrados. Alguns deles estavam mutilados e jogados em seus poços d’água. Begin gabou-se publicamente do massacre.
Como resultado da campanha de terror, ampliada por ameaças e rumores espalhados pelos sionistas, centenas de milhares de palestinos desarmados fugiram de suas casas, que foram posteriormente arrasadas para impossibilitar seu retorno. Os refugiados palestinos aumentaram de 60.000 para 350.000 em um único mês.

O terrorismo sionista então se concentrou nas cidades: em 22 de abril, Haifa foi atacada no meio da noite, deixando 50 mortos e 200 feridos. Outros 100 foram mortos e centenas ficaram feridos em um ataque sionista a uma coluna de mulheres e crianças palestinas que tentavam fugir.
Como se explica tamanha ferocidade? O cálculo cínico dos líderes sionistas era conquistar o máximo de terra possível e tornar impossível o retorno da população palestina: assustar, na verdade aterrorizar, e forçar os palestinos a fugir e depois arrasar suas casas. Isso, a fim de impor uma partição da Palestina mais favorável ao futuro Estado de Israel.
O Estado de Israel foi proclamado em 14 de maio de 1948. Todos os principais líderes sionistas estiveram envolvidos em massacres e terrorismo em grande escala. A esse respeito, não há diferenças entre a esquerda sionista e a direita.
Moshe Dayan, Golda Meir, David Ben-Gurion, Menachem Begin e muitos outros, os jovens Ariel Sharon, Yitzhak Shamir e Yitzhak Rabin – os principais líderes do futuro Estado de Israel – aprenderam com sua experiência concreta até que ponto as relações de poder, estabelecidas com o aço e o fogo no terreno, determinam o enquadramento dos cenários possíveis no domínio da diplomacia internacional. Essa lição eles assimilariam e aplicariam sistematicamente nas décadas seguintes.
Nakba
Imediatamente, em 15 de maio, os exércitos egípcio, iraquiano, sírio, libanês e da Transjordânia entraram na Palestina, obtendo alguns sucessos militares na primeira fase. Uma trégua foi proposta pela ONU em junho e aceita por ambos os lados, mas só ajudou os sionistas a se organizarem e se rearmarem.
O contra-ataque do exército sionista após 8 de julho quebrou a resistência das forças árabes, mal coordenadas e muitas vezes colocadas sob a direção de oficiais britânicos. Os dirigentes dos regimes árabes nunca abandonaram as tentativas de chegar secretamente a um acordo com os sionistas para promover seus próprios interesses. Abdallah, rei da Transjordânia, reuniu-se várias vezes com Golda Meir e Moshe Dayan, para negociar a anexação da Cisjordânia ao seu reino (conseguida em dezembro de 1948), enquanto os egípcios ocupavam a Faixa de Gaza.
Os líderes sionistas estavam determinados a varrer todos os obstáculos. O enviado da ONU, conde Folke Bernadotte, ordenou a Israel em 13 de setembro que readmitisse os refugiados e reconstruísse suas casas. Quatro dias depois, ele foi assassinado pela gangue Stern junto com seu assistente, o coronel francês Serot.
O Armistício de Rodes de 1949 sancionou a derrota árabe, encerrando o que os israelenses considerariam sua “Guerra da Independência”. Mais uma vez, uma história escrita pelos vencedores negou e tentou retirar dos registros oficiais quaisquer referências aos massacres e atrocidades cometidas.
Para os palestinos, 1948 seria o ano da Nakba, a catástrofe, uma derrota que lançaria as massas palestinas em um estado de profunda prostração por mais de vinte anos.
A questão dos refugiados e os “árabes israelenses”
De um total de 750.000 refugiados palestinos, 39% fugiram para a Cisjordânia; outros 10% acabaram na Jordânia; 26% fugiram para a Faixa de Gaza ocupada pelo Egito, que viu sua população dobrar em questão de semanas; 14% fugiram para o Líbano desde o norte da Palestina e 10% cruzaram o Golã para a Síria. Apenas alguns (1% do total) escaparam para o Egito.

Quase todos os refugiados foram amontoados em enormes campos “temporários” nas periferias das cidades, em condições de total indigência. Nessas condições, eles e seus descendentes permanecem até hoje, apesar do aumento de oito vezes na população refugiada.
Em 1950, foi criada a Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras para os Refugiados da Palestina (UNRWA). Desde então, de acordo com os números oficiais da UNRWA, o número total de refugiados registrados do deslocamento de 1948 e seus filhos – três gerações depois – atingiu a impressionante cifra de 5,9 milhões, e esse número não leva em conta os refugiados da Guerra dos Seis Dias de 1967.
Várias gerações só conheceram esses campos e essas condições. A maioria dos refugiados palestinos de 1948 e seus descendentes não têm direitos de cidadania nos países que os acolhem, muito menos em Israel, e dependem de qualquer apoio que a UNRWA puder fornecer.
A questão do direito de retorno dos refugiados palestinos está no centro da questão palestina. Não pode ser resolvido sob o capitalismo. Só uma revolução socialista no Oriente Médio e a instauração de uma Federação Socialista de todos os povos com direito à autonomia das minorias podem criar condições para curar as feridas acumuladas ao longo de décadas. Somente isso oferecerá materialmente a base (casas, recursos, infraestrutura etc.) para uma solução da questão que possa satisfazer todas as queixas sem criar outro monstruoso sistema opressor.
Cerca de 150.000 palestinos permaneceram em suas terras dentro da “Linha Verde”, o território de 1948 ocupado por Israel. Hoje eles representam mais de 20% da população israelense. O Estado de Israel procedeu à expropriação das propriedades e terras daqueles que escaparam, usando leis ad hoc, e minou sistematicamente os direitos dos palestinos que ficaram com leis como a Lei de Propriedade dos Ausentes de 1950, a Lei de Autoridade de Terras de 1953 e outras. Em 1952, os árabes israelenses (os palestinos dentro da Linha Verde) receberam cidadania formal com a Lei de Cidadania de 1952.
No entanto, até 1966, os palestinos israelenses estavam sujeitos à lei marcial e viviam em estado de segregação com enormes restrições à sua mobilidade, o que permitia às autoridades israelenses expropriar a propriedade até mesmo daqueles palestinos deslocados internamente, mas impedidos fisicamente de voltar para suas casas.
Em questão de poucos anos, as 550 aldeias palestinas que sobreviveram à Nakba foram reduzidas a 100. Mais de 25% dos camponeses palestinos viram suas terras expropriadas e tiveram que se refugiar em aldeias “fantasmas”, consideradas ilegais por Israel e, portanto, periodicamente limpas pelo exército e arrasadas, apenas para ser reconstruídas mais tarde. Sua localização foi eliminada dos mapas.
A partir de 1967, o governo israelense aliviou a pressão sobre os cidadãos palestinos, tentando uma maior integração dos árabes israelenses, ao mesmo tempo em que consolidava as novas conquistas territoriais da Guerra dos Seis Dias: os Territórios Ocupados da Cisjordânia, Gaza, as Colinas de Golã e Jerusalém Oriental.
Consolidação do capitalismo israelense
Para os palestinos, Israel representava um regime hostil, usurpador de suas terras, responsável por genocídios e deportações em massa. Para os refugiados judeus que continuavam a chegar da Europa após a Shoah, e do mundo árabe, onde equilíbrios de coexistência seculares foram rompidos pelo impacto telúrico da Nakba, tornando impossível a permanência de centenas de milhares de judeus – Israel tornou-se cada vez mais a melhor chance de reconstruir vidas destruídas pela guerra e pela perseguição.
Entre 1948 e 1951, a população de Israel mais que dobrou (de 650.000 para mais de 1.400.000) e continuou a crescer rapidamente nas décadas seguintes, graças à imigração judaica. A população de Israel atingiu mais de três milhões em 1978 e hoje ultrapassou a marca de nove milhões.
A burguesia sionista israelense e o imperialismo souberam explorar com notável cinismo a determinação das massas judaicas de construir o que consideravam um porto seguro contra a perseguição. Durante as décadas de 1950 e 1960, eles exploraram a massa de refugiados judeus como uma força de trabalho barata, conveniente e sempre renovável para suas indústrias, e, se necessário, como soldados para garantir a supremacia de Israel sobre a região. O notável desenvolvimento do capitalismo israelense não poderia ter acontecido, no entanto, sem grandes subsídios e investimentos dos EUA (estimados em US$ 140 bilhões em meados da década de 1990, desde 1949).
Apesar do considerável fluxo de imigrantes, com o passar dos anos, uma parcela crescente de judeus israelenses nascera dentro de Israel: eram 27,7% em 1949, 44% em 1968, 57% em 1981. Hoje, os judeus nascidos em Israel são 75%. A língua hebraica, concebida por Eliezer Ben-Yehuda no final do século XIX, se enraizou cada vez mais entre as gerações mais jovens, substituindo gradualmente o iídiche dos Ashkenazi e o ladino dos Sefarditas. Muitos israelenses de segunda geração abandonaram as línguas de seus países de origem.
As massas judaicas eram obviamente insensíveis à propaganda nacionalista dos regimes árabes, que os retratavam indiscriminadamente como inimigos que precisavam ser esmagados. A contínua ameaça militar representada pelos regimes árabes vizinhos e as táticas de terrorismo individual adotadas pelas organizações nacionalistas palestinas desde meados da década de 1960 levaram a maioria dos israelenses aos braços do Estado sionista. Isso ajudou o sionismo a moldar uma consciência nacional israelense, baseada no medo de serem destruídos pelos árabes.
O boom econômico dos anos 1950-1970, amplificado pela ajuda dos EUA, significou que os trabalhadores israelenses (incluindo até certo ponto a minoria árabe-israelense) conseguiram alcançar um padrão de vida consideravelmente mais alto do que as massas árabes nos países vizinhos. Essas conquistas materiais representaram para os trabalhadores israelenses algo a ser defendido, especialmente quando ameaçado por ataques externos.
Entre a minoria palestina de Israel, embora sujeita a forte discriminação, muitos também estavam cientes do cenário sombrio de miséria oferecido pelos regimes árabes autocráticos e reacionários.
A monarquia saudita, o Kuwait, o Catar, os Emirados Árabes Unidos e o resto dos países ricos em petróleo do Golfo, embora professassem ser “amigos” dos palestinos e financiassem a OLP, contavam com centenas de milhares de palestinos e outros trabalhadores migrantes pobres para trabalhar em condições de semiescravidão. No entanto, eles tiveram o cuidado de não conceder-lhes direitos políticos ou sindicais, muito menos direitos de cidadania, e os exploraram impiedosamente.
Isso continuou até o início dos anos 1990, quando o impacto da primeira Guerra do Golfo aconselhou esses regimes a descartar os trabalhadores palestinos e olhar para a Índia, Paquistão e Nepal como sua principal fonte de mão de obra barata.
Contradições de classe dentro de Israel
Não esquecendo esses fatores fundamentais que garantiram uma certa base de sustentação ao capitalismo israelense, especialmente quando ameaçado, é preciso dizer que a sociedade israelense era e continua profundamente polarizada e longe de ser homogênea.
Em 1974, os violentos protestos no início dos anos 1970 dos “Panteras Negras” israelenses desencadearam uma investigação do governo. Esses protestos foram duramente reprimidos pelo Estado sionista. O inquérito analisou a condição dos judeus Sefarditas (principalmente estabelecidos em Israel depois de 1948 a partir do norte da África, Iraque, Iêmen e do resto do antigo império otomano), que representavam metade da população judaica de Israel.
O relatório revelou a existência de um “segundo Israel” pobre e explorado. De origem Sefardita eram 92% das crianças com problemas de desnutrição e 90% da população prisional judaica; sua taxa de escolaridade no ensino médio era de apenas 17%, enquanto para os judeus de origem europeia (Ashkenazi) era de 41%; nas universidades, os jovens Sefarditas representavam 20% do total, em oposição a 78% dos Ashkenazi.
A composição social Sefardita era de 62% da classe trabalhadora (contra 39%) e apenas 5% da burguesia (contra 14%). Isso, juntamente com muitas outras estatísticas, mostrou as profundas divisões dentro do próprio Israel. A rebelião radical da juventude Sefardita em Israel contra a opressão e a discriminação não foi por acaso inspirada na luta dos Panteras Negras nos EUA.
O capitalismo israelense tornou-se cada vez mais desigual nas últimas décadas. Em 1992, os 10% mais ricos da população apropriavam-se de 27% da renda nacional, enquanto os 10% mais pobres detinham apenas 2,8%. (CIA, The World Factbook 1999).
A desigualdade aumentou enormemente desde então. De acordo com o World Inequality Report 2022, publicado pelo The World Inequality Lab:
“Israel é um dos países mais desiguais de alta renda. Os 50% mais pobres da população ganham em média € 11.200 ajustados na paridade do poder de compra (PPP) ou 57.900 NIS (novos shekels israelenses), enquanto os 10% mais ricos ganham 19 vezes mais (€ PPP 211.900, NIS 1.096.300). Assim, os níveis de desigualdade são semelhantes aos dos EUA, com os 50% mais pobres da população ganhando 13% da renda nacional total, enquanto a parcela dos 10% mais ricos é de 49%.”
O poderio econômico e militar de Israel foi construído sobre a exploração da classe trabalhadora israelense e palestina em grau semelhante ao de qualquer outro país capitalista. Na verdade, esses números mostram o que acontece quando a classe trabalhadora está tão efetivamente dividida.
O Estado de Israel se baseia na opressão e na discriminação sistêmica dos palestinos, mas isso significa apenas a exploração contínua dos palestinos e dos trabalhadores israelenses comuns, enquanto os capitalistas israelenses acumulam fortunas.
O ponto de inflexão da Guerra dos Seis Dias
O ano de 1967 foi um divisor de águas na história do Oriente Médio. Até então, a maioria dos refugiados palestinos nos vários países árabes nutria a esperança de que a intervenção dos exércitos do Egito, Síria e Jordânia um dia garantiria o restabelecimento dos direitos dos palestinos.

Na madrugada de 5 de junho, após um mês de escaramuças e tensões, a Força Aérea de Israel lançou um ataque relâmpago contra os aeroportos egípcio e jordaniano, destruindo mais de 90% da aviação militar de ambos os países antes mesmo que os aviões pudessem decolar. No mesmo dia, as IDF invadiram a Cisjordânia e Gaza e, em alguns dias de combates ferozes, derrotaram a Legião Árabe da Jordânia e o exército egípcio estacionado em Gaza.
Em 6 de junho conquistaram Gaza e no dia seguinte tomaram Jerusalém, completando a ocupação da Cisjordânia. Em 10 de junho, enquanto o mundo árabe estava atordoado, Israel não apenas unificou todo o Mandato Britânico da Palestina sob seu domínio, como também ocupou o Golã sírio e o Sinai egípcio, infligindo uma derrota importante a seus inimigos árabes e causando uma nova onda de 300.000 refugiados palestinos.
A desastrosa derrota na Guerra dos Seis Dias, no entanto, não teve o mesmo impacto desmoralizante que a Nakba teve sobre o povo palestino; desta vez foi a raiva que prevaleceu sobre a desmoralização. A derrota árabe teve o efeito (totalmente imprevisto pelos estrategistas sionistas) de acabar com qualquer ilusão residual de que uma intervenção externa iria “consertar as coisas”.
A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) foi criada em 1964 por decisão da Cúpula Árabe. Nos primeiros anos, não passou de um apêndice desses regimes. Encontrou crescente oposição de forças advindas da Resistência Palestina, como o Fatah, a organização guerrilheira de Yasser Arafat, e daqueles que, como ele, tiveram a chance de vivenciar as prisões dos regimes “amigos” no início dos anos 1960. Em 1967, a formação da Frente Popular para a Libertação da Palestina (PFLP) de George Habash refletia a radicalização subjacente da luta palestina.
O nacionalismo burguês árabe ficou totalmente exposto e desacreditado pela derrota esmagadora na Guerra dos Seis Dias. Entre os palestinos, que repentinamente se viram sob o domínio direto de Israel, e entre todos aqueles que lotaram os campos de refugiados na Jordânia, Síria e Líbano, desenvolveu-se um terreno fértil para críticas ao nacionalismo árabe e aos regimes árabes. Este fermento deu um enorme impulso à Resistência Palestina (especialmente Fatah e a recém-formada PFLP), que logo ganhou uma base de massa nos campos de refugiados.
Em 21 de março de 1968, o exército israelense partiu para atacar o quartel-general da Resistência na aldeia de Karameh, na Jordânia. Os combatentes do Fatah, avisados do ataque, mantiveram o terreno. As IDF não esperavam encontrar tal nível de resistência e tiveram que recuar. 28 soldados israelenses foram mortos e 69 feridos.
Mais de cem combatentes palestinos foram mortos, mas este episódio despertou uma grande onda de emoção em todo o mundo árabe porque a resistência palestina havia conseguido o que os exércitos dos Estados árabes sempre falharam: derrotar o exército israelense pela primeira vez. Isso impulsionou Fatah e Arafat ao topo da OLP em fevereiro de 1969.
Regimes árabes minados pela resistência palestina
Os refugiados palestinos foram relegados à miséria dos campos de refugiados superlotados. A sua população atingia um milhão e meio em 1968. Os refugiados eram utilizados pelos capitalistas dos vários países como mão-de-obra barata, sujeitando-os a condições humilhantes. Mas a ascensão da Resistência no final dos anos 1960 restaurou o orgulho dos palestinos, transformando os campos em santuários para as organizações da Resistência.
Isso expôs os campos e os países anfitriões a violentas represálias israelenses. Os constantes atritos entre a Resistência e os governos dos países anfitriões foram agravados pela disseminação de ideias revolucionárias entre os palestinos, muitos dos quais concebiam a revolução palestina como parte de uma revolução árabe mais geral e de caráter socialista. Essas posições, reforçadas pelo crescente prestígio da Resistência Palestina, ressoaram nas massas libanesas e jordanianas.
A primeira crise explodiu em 1969 no Líbano, já profundamente fraturado pelas tensões entre a minoria cristã-maronita. Os atritos entre a Resistência e o governo libanês degeneraram no outono de 1969 em vários dias de luta amarga em que o exército libanês ficou do lado perdedor. O acordo do Cairo pôs um fim temporário ao confronto.
Setembro negro
Um processo semelhante estava em andamento há algum tempo na Jordânia. A crescente repulsa aos estreitos laços entre a monarquia hachemita de Hussein e o imperialismo dos EUA, combinada às condições opressivas enfrentadas pela grande maioria da população, ressoou com a perspectiva de uma revolução palestina.
A OLP se esforçou para evitar um confronto direto com o rei Hussein, mas a ascensão revolucionária das massas jordanianas superou todos os obstáculos. O movimento de massas enfrentou o regime jordaniano sem uma liderança real devido às hesitações da OLP.
A partir do verão de 1970, uma série de confrontos entre combatentes da resistência palestina e o exército se intensificou. Uma série de sequestros de aviões (PanAm, Swissair e British Airways, sem vítimas civis) pela PFLP foi a desculpa que Hussein buscou ao justificar a repressão perante uma audiência internacional.
A resistência palestina levou a melhor e conquistou grande parte da capital Amã em poucas semanas. Hussein nomeou um governo militar em 16 de setembro, que, na madrugada do dia seguinte, desencadeou uma ofensiva contra os campos de refugiados palestinos.
Unidades do exército beduíno (menos infectadas pelo clima revolucionário) sob o comando do general al-Majali bombardearam os campos com bombas de fósforo e napalm e posicionaram tanques contra os bairros operários de Amã. Apesar da desproporção das forças militares, a resistência foi tão feroz que os combates duraram quase mais duas semanas, obrigando Hussein a buscar um acordo em 27 de setembro de 1970. A resistência palestina aceitou deixar a Jordânia e se mudar para o Líbano.
O número exato de vítimas do “Setembro Negro” jordaniano nunca foi conhecido. Fontes palestinas falam de 20.000 mortos, outras fontes entre 5.000 e 10.000, principalmente entre a população civil.
A atitude dos líderes da OLP e de Arafat foi duramente criticada por um setor muito grande do movimento revolucionário palestino, que saiu em frangalhos dos acontecimentos na Jordânia. A frustração e a raiva com o massacre perpetrado por Hussein e o silêncio das demais nações árabes tiveram grande impacto entre os palestinos, abrindo espaço para o desenvolvimento de formações terroristas extremas, como a fundação do grupo terrorista Setembro Negro.
A virada diplomática da OLP
A derrota jordaniana nada fez para superar as limitações fundamentais da resistência palestina. A concepção de uma luta de libertação “trazida de fora” atribuía às massas palestinas dos Territórios Ocupados um papel meramente passivo. O compromisso da OLP com a política de “não-interferência” nos assuntos internos dos Estados árabes foi paradoxalmente reforçado.

A limitação da luta a um quadro puramente nacional, adiando para uma data posterior o problema de que tipo de sociedade construir na Palestina libertada, permitiu à OLP preservar uma falsa unidade com os regimes árabes, mas nunca poderia protegê-la da traição por esses mesmos regimes. Sempre que as massas árabes tentavam se libertar de suas correntes e a luta palestina colidia com os interesses fundamentais de seus opressores, elas foram traídas.
Sob a liderança de Arafat, a OLP acabou conquistando o apoio de massa entre os palestinos. No entanto, diante da pressão diplomática internacional, principalmente dos regimes árabes, Arafat impôs uma virada de 180 graus: a ideia de que a luta pela libertação deveria ser realizada pelo próprio povo palestino foi abandonada em favor de uma concepção de luta armada como forma de “pressionar” a diplomacia internacional.
Em 6 de outubro de 1973, na véspera da festividade judaica de Yom Kippur, o Egito e a Síria atacaram Israel. O aparato de defesa israelense foi pego de surpresa e sofreu um duro golpe. A resistência palestina participou dos combates nos Territórios Ocupados. Unidades jordanianas, iraquianas e marroquinas e um destacamento simbólico da Tunísia também participaram da guerra. Os sucessos iniciais das forças árabes redimiram a ignominiosa derrota de 1967 aos olhos das massas árabes.
A Guerra do Yom Kippur teve um impacto profundo na sociedade israelense ao destruir a confiança na invencibilidade do exército de Israel. No entanto, as IDF acabariam se reorganizando e recuperando o terreno perdido e, em 22 de outubro, um armistício foi alcançado em um momento em que Israel já havia recuperado a vantagem.
A “virada diplomática” foi fortalecida. A OLP foi reconhecida pela Cúpula Árabe como o “único e legítimo representante do povo palestino” em 27 de novembro de 1973.
Emendas à Carta Nacional Palestina em maio de 1974 introduziram pela primeira vez a perspectiva de uma libertação parcial da Palestina (e o reconhecimento implícito de Israel).
Arafat foi convidado a fazer um discurso nas Nações Unidas em 13 de novembro de 1974. Em seu famoso discurso, ele condenou o sionismo, mas disse: “Hoje vim carregando um ramo de oliveira e uma arma de combatente da liberdade. Não deixem o ramo de oliveira cair da minha mão”.
A virada de Arafat permitiu que os regimes árabes traiçoeiros ganhassem a iniciativa novamente: uma linha mantida mesmo ao custo de minar a única fonte de força real da Resistência, as raízes do movimento entre as massas palestinas.
Revolução e contrarrevolução no Líbano
Apesar da experiência jordaniana e dos confrontos de 1969, a resistência palestina no Líbano cresceu confiante em sua cada vez maior força. O Líbano estava dividido por profundas divisões entre a classe dominante cristã-maronita, instalada pelos franceses, e as várias facções muçulmanas burguesas e pequeno-burguesas.
Como na Jordânia, o crescimento da autoridade da resistência palestina andou de mãos dadas com o surgimento de sentimentos revolucionários entre as massas libanesas. Os palestinos nos campos de refugiados se tornaram parte integrante da classe trabalhadora libanesa.
Os capitalistas libaneses exploraram seu trabalho por anos, realocando os campos perto das cidades e tentando usar os refugiados para minar as fortes organizações da classe trabalhadora libanesa. Este cálculo cínico, no entanto, logo levou a uma fusão entre o movimento de libertação da Palestina e as aspirações revolucionárias dos trabalhadores libaneses.
A realocação forçada de milhares de combatentes da OLP da Jordânia, inevitavelmente converteu o Líbano em sua base principal. Bairros inteiros de Beirute eram controlados pela OLP, que emergia como um poder alternativo ao Estado, enquanto desfrutava de amplo apoio entre as massas libanesas. Graças ao financiamento arrecadado em apoio à Resistência, inúmeras instituições sociais, escolas e hospitais floresceram em torno da OLP, muitas vezes oferecendo apoio de maior qualidade do que o disponibilizado pelo estado libanês. O acesso a todas estas instituições foi aberto a toda a população.
Em meados da década de 1970, o frágil equilíbrio foi rompido. Uma “guerra civil” foi desencadeada pela classe governante cristã-maronita, pelo exército e pelas milícias falangistas cristãs e seus aliados. Esta foi, na realidade, uma luta de classes contra revolucionária, para reafirmar seu controle sobre a sociedade. As massas libanesas e suas organizações, como o Movimento Nacional Libanês liderado por Kamal Jumblatt, assim como a resistência palestina, tiveram que ser esmagadas. Israel interveio com incursões frequentes no sul do Líbano para atingir a Resistência.
Em 26 de janeiro de 1975, combatentes palestinos intervieram em defesa da greve dos pescadores de Sidon contra a tentativa de repressão do exército. A resistência palestina obrigou os homens das forças de segurança libanesas a recuar, deixando dez mortos em campo.
A Falange Cristã pediu mão de ferro contra a OLP. Em fevereiro, um parlamentar libanês pró-palestino, Maarouf Saad, foi morto a tiros, supostamente pelo exército libanês. Em 13 de abril, uma tentativa de assassinato do líder falangista Pierre Gemayel desencadeou uma represália imediata dos falangistas, que bloquearam um ônibus que se dirigia ao campo de refugiados de Tall el-Zaatar e massacraram todos os 27 passageiros a sangue frio, iniciando combates em Beirute.
Durante todo o ano de 1975, a atitude da OLP foi limitar-se a auxiliar as milícias da esquerda libanesa com apoio logístico e armamento. A tática de “esperar para ver” da OLP serviu apenas para prolongar o conflito, mas a decisão das Falanges de sitiar os campos de refugiados de Dbayeh e Tall el-Zaatar forçou os grupos de resistência armada palestina a entrar no conflito com todo o seu peso. Os falangistas contra revolucionários foram perseguidos nas montanhas até que estivessem à beira da derrota. Nesse ponto, ocorreu uma espetacular inversão de posições.
Com o anúncio do possível estabelecimento de um governo revolucionário da esquerda libanesa, a frente árabe dos “amigos” da luta palestina cedeu. O Egito e a Jordânia ficaram assustados com a perspectiva de uma revolução se espalhando pelo Oriente Médio. No entanto, a traição aberta veio de onde menos se esperava. O campeão da luta anti-imperialista Hafez al-Assad, presidente do Baath da Síria, realizou uma espetacular reviravolta, enviando tropas sírias para apoiar os falangistas em junho de 1976.
A intervenção síria desequilibrou brutalmente a balança. A Resistência teve que recuar para as cidades à custa de pesadas perdas, enquanto os falangistas, protegidos pelo exército sírio, sitiaram novamente o acampamento de Tall el-Zaatar. Após 52 dias, em 12 de agosto, Tall el-Zaatar se rendeu e os falangistas e sírios se vingaram massacrando três mil palestinos enquanto evacuavam o campo.
O mais “progressista” de todos os regimes árabes, a Síria, quando ameaçada mesmo que indiretamente pelo desenvolvimento da revolução, não hesitou em se aliar à ala mais reacionária da contra revolução burguesa contra a mesma Resistência Palestina cujo quartel-general sediou em Damasco e havia financiado por anos.
As cliques governantes da Liga Árabe ficaram na janela assistindo sem levantar um dedo, aliviadas. Após 19 meses de guerra e 60.000 mortos, o Líbano foi dividido em zonas onde os diferentes contendores entrincheiraram suas posições em uma frágil trégua armada. Apesar da traição de Assad, a direção da OLP se entregou a negociações humilhantes para fechar a brecha e recompor a “frente árabe”.
Invasões israelenses do Líbano
Para Israel, a própria presença de combatentes palestinos em solo libanês era intolerável. Em 14 de março de 1978, Israel invadiu o sul do Líbano e em poucos dias dominou a resistência palestina (abandonada pelo exército libanês).
No entanto, o então primeiro-ministro Begin decidiu se retirar sob pressão do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, que havia decidido apoiar as negociações bilaterais secretas entre Sadat e Begin. Estes visavam normalizar as relações entre Israel e o Egito. Um acordo foi formalmente ratificado em Camp David em 18 de setembro de 1978.
Para Israel, porém, o problema não foi resolvido. Em 6 de junho de 1982, as IDF lançaram uma segunda invasão em larga escala do Líbano sob o comando de Ariel Sharon, o ministro da defesa do governo Begin. A invasão se transformou em um banho de sangue. Em questão de horas, um dilúvio de fogo da Força Aérea de Israel caiu sobre as cidades e campos de refugiados, enquanto colunas de tanques avançavam sobre Beirute, deixando um rastro de morte e destruição: 14.000 vítimas apenas nas duas primeiras semanas.
As IDF sitiaram o oeste de Beirute em um abraço mortal que durou 78 dias, durante os quais todos os suprimentos foram bloqueados e a cidade foi implacavelmente bombardeada. 7.000 mortes de civis libaneses e um número não especificado de vítimas palestinas (das quais uma contagem verdadeira nunca será feita) não foram suficientes para quebrar a resistência.
O impasse permitiu que a diplomacia imperialista entrasse em ação e negociasse a evacuação completa da resistência palestina do Líbano. No final de agosto de 1982, mais de 10.000 combatentes palestinos evacuaram Beirute sob o olhar atento de uma força franco-ítalo-americana, mas o preço pago pela preservação das estruturas da OLP foi extremamente alto.
A população libanesa e as dezenas de milhares de palestinos que continuavam a lotar os campos de refugiados ficaram à mercê dos falangistas, das milícias pró-sírias xiitas de Amal, do exército sírio e do exército israelense, com a única garantia de um pacto escrito na areia que ninguém tinha interesse em respeitar.
A vingança israelense foi imediata e terrível. Entre 16 e 18 de setembro, assim que o contingente internacional de “paz” deixou o Líbano (depois de desarmar e evacuar os combatentes palestinos restantes), os falangistas libaneses, protegidos pelas IDF, massacraram 3.000 refugiados palestinos indefesos, devastando os campos de refugiados de Sabra e Shatila em Beirute durante 40 horas.
Ariel Sharon teria observado a operação do topo de um prédio, a 200 metros dos muros do campo de Shatila. Assim como os sírios haviam feito seis anos antes em Tell al-Zaatar, o exército israelense apenas forneceu apoio logístico aos falangistas, iluminando a área com sinalizadores, bloqueando todas as rotas de fuga dos campos e alimentando e auxiliando os falangistas que estavam realizando o massacre.
O impacto do massacre de Sabra e Shatila chocou a sociedade, atingindo até mesmo Israel. Em 25 de setembro de 1982, uma manifestação em massa de 400.000 pessoas inundou as ruas de Tel Aviv em repulsa ao papel das IDF e de Sharon no massacre. Um inquérito oficial foi aberto para desarmar o movimento e encobrir o papel das IDF, mas mesmo o relatório de tal inquérito não poderia esconder a responsabilidade pessoal de Ariel Sharon, que foi forçado a renunciar.
A liderança da OLP mudou-se para a Tunísia, onde Arafat e sua comitiva viveram em exílio dourado até se mudarem para Gaza em 1994. Todas as suas energias foram dedicadas a conceber estratégias de negociação e fazer malabarismos com as rivalidades entre os regimes árabes, bem como restabelecer a normalidade das relações com as monarquias do Golfo.
A política da OLP tornou-se cada vez mais baseada na troca da estabilização no Oriente Médio por concessões. A fim de obter influência em uma mesa de negociações aos olhos do imperialismo dos EUA e da Europa, Arafat estaria contando com a Resistência e cada vez mais com táticas terroristas individuais (formalmente condenadas pela OLP), à medida que o poder do movimento de resistência de massas recuava após a derrota.
Territórios ocupados às vésperas da Intifada
Durante vinte anos de ocupação militar, os Territórios foram para Israel um mercado adicional para seus produtos e uma fonte de mão-de-obra não qualificada. Um fator importante na decisão de ocupar a Cisjordânia e as Colinas de Golã foi a apropriação dos recursos hídricos da região. A última coisa que Israel queria era que os Territórios desenvolvessem uma vida própria.
O governo israelense engendrou um estrangulamento gradual da economia dos territórios ocupados, predominantemente ligada à agricultura, com limitado artesanato de pequena escala. Isso minou o sustento de camponeses e trabalhadores agrícolas, que foram forçados a engrossar as fileiras dos 120.000 palestinos que se deslocavam diariamente para trabalhar em Israel (um terço da força de trabalho da Cisjordânia e 50% da de Gaza). A necessidade de cruzar a “Linha Verde” foi usada pelo Estado israelense como arma de represália contra os trabalhadores palestinos, com ameaças constantes de fechamento de fronteira à sua vontade.
A economia dos Territórios era (e ainda é) completamente dependente de Israel até mesmo para bens de consumo básicos. A política israelense exacerbou a interdependência econômica natural e histórica dos Territórios com o restante da Palestina. Em 1970, 82% das importações já eram de origem israelense, subindo para 91% em 1987.
As centenas de milhares de palestinos no exterior também alimentaram um fluxo de remessas para suas famílias, totalizando 37% do PIB dos Territórios na época. As remessas continuam a representar uma parcela significativa (cerca de 20%) do PIB da Cisjordânia e de Gaza ainda hoje. Isso, paradoxalmente, ajudou a sustentar um mercado para o qual os excedentes da produção israelense poderiam ser exportados.
Durante os primeiros dez anos de ocupação, o número total de colonos não ultrapassou 7.000. No entanto, com a ascensão ao poder do Likud de direita sionista em 1977, a política de colonização escalou rapidamente. Nos dez anos seguintes, 18.000 casas e 139 assentamentos foram construídos em terras palestinas, para abrigar um total de 80.000 colonos. Uma rede de estradas especiais foi criada para separar os colonos dos palestinos, com o efeito de limitar severamente sua liberdade de movimento. A crescente presença dos colonos judeus tornou-se a manifestação mais odiosa da ocupação.
A população palestina dos Territórios experimentou uma notável explosão demográfica durante os vinte anos de ocupação. Em 1987, 75% da população tinha menos de 25 anos e 50% até menos de 15 anos. A maioria – às vésperas da Intifada – não conhecia nada além do regime cada vez mais intolerável, humilhante e opressor da ocupação israelense.
Intifada
Quatro décadas após a Nakba e vinte anos após a Guerra dos Seis Dias, as perspectivas para a luta nacional palestina eram sombrias. Os movimentos revolucionários na Jordânia e no Líbano foram reprimidos com sangue, e a resistência palestina foi destruída. O enorme sacrifício das massas palestinas nos campos de refugiados não deu nenhum resultado concreto. Israel consolidou seu domínio sobre toda a Palestina.
A lacuna enorme entre a liderança da OLP em Túnis e a realidade dos Territórios tornou-se tão grande que numerosos sinais de uma mudança de humor no terreno não foram detectados nem mesmo pelo usualmente perspicaz Arafat.
Alguns meses antes da Intifada, um relatório do instituto West Bank Data Base do sociólogo israelense Meron Benvenisti observou:
“A violência é cada vez mais obra de grupos desorganizados e espontâneos… Entre abril de 1986 e maio de 1987, foram registrados 3.150 incidentes violentos, desde o simples arremesso de pedras a bloqueios de estradas e cerca de uma centena de assaltos com explosivos ou armas de fogo.”
A crescente militância da população palestina sob ocupação foi demonstrada nos dias 5 e 6 de junho, quando uma greve geral saudou o aniversário dos 20 anos de ocupação israelense.
Em 7 de dezembro de 1987, ocorreu algo completamente inesperado tanto pela inteligência israelense quanto pelos líderes da OLP: um incidente, semelhante a muitos outros, desencadeou a revolta espontânea de dezenas de milhares de jovens e trabalhadores contra a ocupação israelense no coração dos Territórios Ocupados, que havia sido considerado um teatro para a luta de massas pelos líderes da OLP.

Um caminhão das IDF colidiu com um carro civil, matando quatro trabalhadores palestinos. Se foi um ato deliberado de retaliação dos soldados pela morte de um israelense em Gaza no dia anterior, ou apenas um acidente, não fez diferença. Esta foi a gota d’água que transbordou o copo. A faísca acendeu os materiais combustíveis que a ocupação israelense havia acumulado por vinte anos.
A palavra Intifada (que pode ser traduzida como “sacudida”) descreve bem a reação das massas palestinas. Uma vez iniciada, a revolta perturbou o equilíbrio de forças há muito estabelecido em questão de horas e, durante meses, cresceu de força em força, testando severamente as forças de ocupação. A Intifada também teve um enorme impacto internacional e evocou apoio dentro de Israel entre os árabes israelenses, e uma crescente repulsa entre uma seção da juventude judaica pelos métodos brutais empregados na supressão do levante.
Mesmo a repressão mais brutal provou ser ineficaz. Israel impôs sistematicamente detenções administrativas por até um ano sem acusação ou julgamento. Nove mil prisões foram feitas em poucos meses; centenas de pessoas mortas e milhares feridas; demolições de casas e retaliação contra as famílias dos mortos ou presos; represálias coletivas em aldeias ou bairros – coroadas pela ordem dada pelo ministro da Defesa de Israel, Rabin, de “quebrar os braços e as pernas” daqueles que fossem pegos jogando pedras (a maioria dos quais eram crianças) – esse nível tão implacável de repressão não serviu para nada, exceto para alimentar a revolta.
A luta tomou a forma de greves gerais, bloqueios de estradas, emboscadas contra patrulhas israelenses, visadas pelos shebabs, os atiradores de pedras, os garotos do levante. Assumiu formas de desobediência civil, como uma greve de impostos e a recusa em respeitar os horários de funcionamento das lojas decididos pelas autoridades israelenses. Em Jerusalém Oriental, os militares israelenses tentaram em vão forçar as lojas a abrir durante um bloqueio. Os lojistas ameaçados abriam, apenas para fechar as lojas novamente assim que os soldados iam embora.
Desde os primeiros dias da Intifada, surgiram Comitês Populares espontaneamente em todos os lugares. Eles inicialmente coordenaram grupos de jovens lutando contra as forças de ocupação, IDF e patrulhas policiais, com estilingues e pneus em chamas. À medida que a luta continuava, os Comitês Populares também distribuíam suprimentos básicos durante greves e bloqueios e formavam grupos encarregados de proteger as comunidades.
Esses órgãos reuniram e organizaram os militantes jovens e operários (a grande maioria dos quais não faziam parte de organizações pré-existentes) e assumiram a direção da luta, cuidando de todos os aspectos das necessidades imediatas da população e das tarefas decorrentes da luta.
Comitês específicos organizariam diferentes aspectos da luta. Postos de saúde foram instalados em bairros e aldeias, a educação foi reorganizada depois que as escolas de todos os níveis foram fechadas em fevereiro de 1988 pelas autoridades de ocupação. Taxas profissionais, aluguéis e preços foram limitados. Eles organizaram a luta contra o entesouramento; o boicote aos produtos israelenses; a distribuição de suprimentos escassos; tentaram até responder à crise alimentar com o desenvolvimento da agricultura de subsistência e da pecuária. Tribunais populares foram criados. As mulheres desempenharam um papel importante no funcionamento dessa galáxia de comitês.
Devido ao peso da ocupação militar, os comitês não puderam desenvolver plenamente o seu potencial como poder alternativo às autoridades coloniais através de uma coordenação a nível geral. No entanto, durante a primeira fase da Intifada, eles foram as estruturas através das quais as massas expressaram seu poder e militância.
Em maio de 1988, seis meses após o início do levante, fontes israelenses estimaram que havia 45.000 comitês ativos. Estes começaram a se coordenar a nível de cidade, ao mesmo tempo em que foi imediatamente criado um Comando Unificado da Intifada, por iniciativa dos principais partidos da Esquerda palestiniana (PFLP, DFLP e PCP).
Ao contrário do que se afirmou mais tarde, a direção da OLP em Túnis foi completamente deslocada pelo desenvolvimento explosivo da mobilização revolucionária nos Territórios. As diretrizes de Arafat foram amplamente ignoradas pelo Comando Unificado até um ano depois, quando a repressão israelense decapitou o movimento de sua liderança original, em setembro de 1988.
Divisões israelenses
O exército mais poderoso da região foi mobilizado contra crianças armadas apenas com pedras e coragem. Isso ressoou como o mito bíblico da luta de Davi contra Golias, só que Davi havia se tornado palestino.
As forças de ocupação realizaram rotineiramente buscas para requisitar e destruir “armas” como livros escolares, remédios e suprimentos médicos, e destruíram as hortas que surgiram em todos os lugares para alimentar a população que vivia em condições de extrema privação. Isso abalou a confiança dos jovens soldados das IDF e despertou uma crescente repulsa pela ocupação entre camadas da juventude israelense.
As agudas divisões atingiram os níveis mais altos em março de 1988, com a formação do “Conselho de Paz e Segurança” por um grupo de generais israelenses aposentados, cuja posição foi resumida pelo general Orr, ex-comandante supremo das IDF na região norte (Líbano): “Todos concordamos que a ocupação deve terminar, porque mantê-la constitui um perigo muito maior para nossa segurança do que acabar com ela.” (Le Monde, 2 de junho de 1988).
A petição foi assinada pelo ex-chefe do Mossad (Yariv) e pelo ex-administrador da Cisjordânia (Sneh), bem como por 30 generais de divisão e 100 generais de brigada – metade dos generais da reserva.
Shamir, em vez disso, resolveu sair da crise dobrando a pressão com a repressão nos Territórios. Em agosto de 1988, os Comitês Populares foram banidos, e seus membros foram condenados a até 10 anos de prisão. A Intifada, um ano após seu início, começou a sofrer os golpes da repressão e do agravamento das condições econômicas.
O Comando Unificado reconheceu a autoridade da OLP como o “único representante do povo palestino” no final de 1988. Em 15 de novembro, Arafat proclamou a independência de um Estado palestino nos territórios ocupados por Israel, após o que a OLP começou a recuperar o controle da mobilização nos Territórios. Os Comitês foram assimilados às estruturas assistenciais da OLP e destituídos de seu papel de organismos embrionários de poder da massa dos palestinos.
Isso desferiu um golpe decisivo no caráter de massa da Intifada e abriu uma segunda fase mais dura do levante, que tomou um rumo desesperado entre uma camada da juventude. Não por acaso, à medida que o caráter de massa da insurreição diminuía, aumentava o papel de formações islâmicas como o Hamas e a Jihad Islâmica.
Hamas
A Irmandade Muçulmana não desempenhou nenhum papel na primeira fase da Intifada. O Hamas foi criado como uma organização separada após o início da Intifada, a fim de proteger os interesses da Mujama Al-Islamiya, organização fundada pelo líder da Irmandade de Gaza, Sheikh Ahmed Yassin.
Um artigo revelador de 2009 de Andrew Higgins no Wall Street Journal lançou luz sobre o papel desempenhado por Israel em nutrir o que se tornaria o Hamas.
Após duas décadas de repressão nas mãos do regime egípcio, a Irmandade Muçulmana encontrou condições favoráveis para prosperar na Faixa de Gaza ocupada por Israel. Israel permitiu que Mujama Al-Islamiya fosse registrado como uma instituição de caridade e operasse legalmente durante as décadas de 1970 e 1980, acumulando dinheiro e propriedades.
Em torno da organização, uma rede de escolas, clubes, mesquitas e a Universidade Islâmica de Gaza deram à Irmandade Muçulmana o ambiente perfeito para desenvolver suas atividades. O objetivo de Israel era usar os fundamentalistas islâmicos para minar o movimento revolucionário de esquerda da resistência palestina.
Mujama entrou em confronto violento com a esquerda palestina pelo controle de instituições como o Crescente Vermelho Palestino (a versão muçulmana da Cruz Vermelha), invadindo seus escritórios. A luta ocorreu em todos os níveis. Os islâmicos atacaram lojas que vendiam álcool e cinemas. Os militares israelenses permaneceram à margem, observando.
A relação entre Mujama e os serviços secretos de Israel foi mantida mesmo após a prisão do Sheik Yassin em 1984 e envolveu consultas ao mais alto nível. Bem depois da eclosão da Intifada, Hacham, um especialista militar israelense em assuntos árabes, contou que levou um dos fundadores do Hamas, Mahmoud Zahar, para se encontrar com o ministro da Defesa de Israel, Yitzhak Rabin, como parte de consultas regulares.
O massacre na mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém, em outubro de 1990, combinado com o desespero gerado por uma luta tão prolongada e sem perspectivas, criou um ambiente favorável para o crescimento do Hamas.
Acordos de Oslo de 1993
Arafat e a OLP apoiaram o Iraque na Guerra do Golfo de 1990. Saddam Hussein manejou a questão palestina contra o imperialismo norte-americano, ao denunciar a duplicidade de critérios aplicada ao Iraque e a Israel, e se ofereceu para se retirar do Kuwait, caso Israel fizesse o mesmo com os Territórios Ocupados. Isso provocou uma ruptura entre a OLP e os EUA, mas também com a Liga Árabe, que se alinhava atrás de Bush.
Agora os imperialistas dos Estados Unidos achavam que poderiam usar a fraqueza de Arafat a seu favor. Eles convocaram uma conferência para a “solução da questão palestina” em Madri no verão de 1991, à qual a OLP se juntou e o Hamas chamou de “uma venda da Palestina”. As negociações bilaterais entre israelenses e palestinos acabaram levando à assinatura dos Acordos de Oslo, sancionados oficialmente em público na Casa Branca em 13 de setembro de 1993, com o famoso aperto de mão entre Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin.

Do lado de Israel os Acordos foram o reconhecimento da impossibilidade de continuar a exercer uma ocupação direta dos Territórios, revelada pela Intifada.
Rabin passou a maior parte de sua vida lutando contra os palestinos. Em 1948 participou dos ataques a Lydda e Ramle, entre Tel Aviv e Jerusalém. Várias centenas de pessoas foram baleadas durante essa operação. Em 1967, Rabin foi o chefe do estado-maior das IDF durante a Guerra dos Seis Dias, após a qual ganhou o status de herói israelense. No final dos anos 1980, como ministro da Defesa de Shamir, ele dirigiu a resposta de Israel à Intifada, inclusive ordenando aos soldados israelenses que quebrassem os braços de jovens palestinos pegos jogando pedras, algo que ele mais tarde negou.
Foi precisamente a Intifada que o convenceu de que o status quo havia se tornado insustentável. Um artigo no New Yorker (19 de outubro de 2015) citou Rabin dizendo a um grupo de colegas do Partido Trabalhista em 1988: “Aprendi algo nos últimos dois meses e meio. Entre outras coisas, que você não pode governar pela força um milhão e meio de palestinos”.
As palavras de Rabin ilustram quão profundamente a revolta revolucionária da Intifada abalou os próprios alicerces da ocupação de Israel. Isso forçou a liderança sionista a mudar de tática. A autoridade de Rabin permitiu que eles o fizessem, embora ao preço de um crescente ressentimento da extrema direita sionista, que custaria a Rabin sua própria vida em 1995.
O “arqui-inimigo”, a liderança da OLP, foi cooptado pela classe dominante israelense em um acordo difícil, que era essencialmente uma armadilha. A OLP concordou em reconhecer a existência de Israel e abandonou a demanda pelo direito de retorno dos refugiados palestinos de 1948. Israel concordou com a criação de uma Autoridade Palestina em parte dos Territórios Ocupados de Gaza e Cisjordânia, que seria responsável pela segurança de Israel.
Em outras palavras, a OLP assumiu a tarefa de policiar seu próprio povo em troca do simulacro de um semi-Estado palestino, dependente em todos os níveis dos caprichos de Israel. O acordo foi alcançado sob os auspícios dos regimes árabes, dos “amigos” da Palestina e do imperialismo norte-americano.
Os acordos de Oslo representaram um ponto de virada na situação, sancionando o fim da Resistência Palestina. O Hamas foi deixado como a única força palestina significativa que se opõe aos acordos.
Assim amadureceram os frutos venenosos do chamado processo de paz pilotado pelo imperialismo estadunidense, que moldaria o quadro do conflito israelo-palestino até os dias atuais. Depois de todo esse processo, de lutas heroicas das massas, entregas e traições da direção, nada foi resolvido. Na verdade, para muitos a Nakba nunca acabou.
