A última rodada de negociações da COP, concluída na semana passada, terminou tal como poderíamos ter previsto. O acordo final não contém qualquer menção direta aos combustíveis fósseis e é um compromisso vago e puramente voluntário de “iniciar a discussão” sobre um roteiro para em algum momento eliminar gradualmente o seu uso. Mais do que nunca, a COP não é um “fórum de discussão”, mas um ponto focal para a raiva das massas face à inépcia da classe dominante. Pior ainda, esta farsa tornou-se um insulto anual.
Realizada na escaldante cidade portuária de Belém, na região amazônica, a COP30 foi um festival de discórdia e desastres, talvez mais do que qualquer outra COP nos 30 anos de história da conferência anual pseudo ambiental da ONU. À medida que o mundo arde, o mesmo aconteceu com a própria COP, quando um incêndio irrompeu no pavilhão da África Oriental no penúltimo dia.
À medida que o capitalismo continua a representar uma ameaça maior ao clima a cada dia que passa, a COP30, tal como as suas antecessoras, foi uma prova conclusiva de que a classe dominante não está preparada para governar e não está disposta a resolver os problemas mais urgentes que o mundo enfrenta hoje.
Isso ficou evidente até para quem dela participou. Os delegados do Panamá descreveram corretamente as discussões como um “espetáculo de palhaçadas”, com o principal negociador do país acrescentando:
“Uma decisão climática que sequer pode dizer que os combustíveis fósseis não são neutros ambientalmente, é cumplicidade. E o que está acontecendo aqui ultrapassa a incompetência.”
Pelo menos 29 dos países participantes enviaram uma carta à presidência da COP condenando o acordo final, em protesto contra a sua falta de conteúdo significativo. 24 países apoiaram uma declaração alternativa na sexta-feira, liderada pela Colômbia e pelos Países Baixos, anunciando uma conferência separada em 2026 para discutir a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis.
Aleksandar Rankovic, diretor do think tank The Common Initiative, resumiu a ansiedade entre muitos dos participantes, que sabem que são participantes de uma fraude cometida contra o mundo inteiro:
“A forma como as conversações de Belém foram encerradas foi como toda cúpula: obscura, processualmente questionável, substancialmente vazia, mas disfarçada como o auge do multilateralismo.”
A maior rejeição, no entanto, veio dos EUA, que boicotaram totalmente o evento. Trump adotou uma linha dura contra a COP ao longo das suas duas presidências, tendo retirado por duas vezes os EUA do acordo climático de Paris. Ele também declarou à ONU em Setembro que as alterações climáticas são “a maior fraude alguma vez perpetrada no mundo”.
A decisão do segundo maior emissor mundial de gases do efeito estufa de ignorar a COP30 apenas realça ainda mais a farsa desta conferência. Isto ocorre apenas um mês depois de as autoridades norte-americanas terem sido acusadas de “acossar” e “intimidar” os países mais fracos para se oporem a um novo imposto sobre o carbono relativo ao transporte de mercadorias, numa reunião da Organização Marítima Internacional, em Londres.
Numa época de rivalidades imperialistas, a cooperação global tornou-se ainda mais uma utopia do que alguma vez o foi para os capitalistas. A política de Trump é “Perfure, baby, perfure!” Na sua luta contra rivais em ascensão, a classe capitalista americana está preparada para ignorar o futuro da nossa espécie. Sem dúvida, alguns poderão ficar tentados a seguir o exemplo de Trump e a abandonar completamente as metas ambientais.
Impotência e raiva
Os acontecimentos da COP30 não surpreenderam aqueles que os acompanharam nos anos anteriores. Os países produtores de combustíveis fósseis enfraquecem o acordo final; as potências mais ricas encontram uma desculpa para não dar mais dinheiro para ajudar os países mais pobres a adaptarem-se às alterações climáticas; e no final das contas, a maioria dos países simplesmente ignorará os seus compromissos. Ao mesmo tempo, a crise se aprofunda e a frustração aumenta.
Após 12 horas de negociações de última hora no último dia, o “pacote político de Belém” deste ano produziu tão pouco quanto se poderia esperar. Nas palavras generosas do The Guardian, o acordo finalizado é “um passo vacilante e inadequado, que dificilmente interromperá a marcha constante do clima em direção à catástrofe”.
Nos 30 anos de resoluções da COP, a necessidade desesperada de abandonar os combustíveis fósseis foi mencionada apenas uma vez, na COP28. O totalmente sem sentido “um plano para construir um plano” da COP30 visando a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis (que, como foi dito, nem sequer menciona os combustíveis fósseis) leva este absurdo a novos patamares.
Outros “destaques” incluem o fato de que – apesar de terem sido realizadas nos limites da Amazônia – as propostas de planos concretos para deter o desmatamento foram omitidas do acordo final, de que decisões importantes sobre cortes nas emissões de gases do efeito estufa terem sido adiadas para o próximo ano, e de que a proposta de ajuda monetária para os países mais pobres se adaptarem à crise climática ter sido adiada até 2035.
Após três décadas de promessas, na melhor das hipóteses, vazias, a classe trabalhadora, as comunidades pobres e indígenas que suportam o peso dos impactos das alterações climáticas estão fartas dos chavões cínicos que preenchem as resoluções anuais da COP.
Enquanto as elites representadas no salão tentavam felicitar-se pelo seu “progresso”, a mobilização sem precedentes de policiais armados e até de soldados num anel de ferro em torno das entradas contava uma história diferente. Eles também estão bem conscientes de que, fora do salão, uma enorme raiva está se formando. Todos os dias, o som estrondoso dessa raiva podia ser ouvido, enquanto dezenas de milhares de pessoas saíam para protestar todos os dias da conferência que durou 11 dias.
Na primeira semana do evento, este som estrondoso rompeu o anel de ferro em torno da COP. Um grupo de manifestantes – alguns com trajes tradicionais indígenas – invadiu o salão do evento com cartazes que diziam “nossas florestas não estão à venda”. Embora a COP30 tenha sido apresentada ao público como “a COP dos povos indígenas”, o evento ocorreu ao mesmo tempo em que o governo brasileiro está considerando revogar uma proibição de 20 anos à expansão da produção de soja nas profundezas da Amazônia.
Décadas de impotência por parte de uma classe dominante incapaz de conciliar as necessidades do clima com a sua necessidade imperiosa de obter lucro voltaram para casa. Os trabalhadores, os jovens e os oprimidos em todo o mundo já não olham para a COP com qualquer entusiasmo, se é que alguma vez o fizeram. Aos olhos de uma camada crescente, a COP30 tornou-se uma zombaria anual. Representa por si mesma a ameaça existencial que o sistema e os seus representantes colocam para todos nós.
Pontos de inflexão
Ao contrário dos ricos e poderosos do mundo, que estão livres para falar liricamente sobre a crise climática a partir do conforto das suas salas de reuniões com ar-condicionado, milhões de pessoas pobres e da classe trabalhadora em todo o mundo têm as suas vidas e meios de subsistência ameaçados pelas alterações climáticas neste preciso momento.
No mês passado, um relatório elaborado por 160 cientistas e investigadores concluiu que o globo atingiu agora o seu primeiro “ponto de virada catastrófico”, sendo agora provavelmente inevitável o declínio a longo prazo e a degradação severa de todos os principais recifes de coral de águas quentes.
O clima também está perigosamente próximo de uma série de outros “pontos de ruptura” se as temperaturas continuarem a subir. A extinção da Amazônia, a perda das camadas de gelo e a mudança das principais correntes oceânicas estão firmemente na agenda, a menos que sejam realizadas mudanças dramáticas – mudanças dramáticas que a COP deixou claro que não virão dos capitalistas.
A cada dia que passa, as massas pobres e exploradas do mundo aproximam-se do seu próprio ponto de virada. Os banqueiros, patrões e políticos que passam o seu tempo a confundir as nuances insignificantes dos acordos COP enquanto o mundo arde, estão ao mesmo tempo a promover a austeridade e o militarismo nos seus próprios países.
A ONU, a COP ou qualquer outra instituição capitalista não conseguirão resolver a crise climática, tal como tais instituições não conseguiram resolver as crises sociais e económicas em todo o mundo. A farsa da COP30 demonstrou mais uma vez graficamente que não se pode confiar à classe dominante o futuro da humanidade. A classe trabalhadora deve resolver o problema com as próprias mãos.
