Em um contexto em que o imperialismo volta a ameaçar toda a humanidade com uma escalada de guerras, torna-se fundamental resgatar um texto escrito logo no início da Segunda Guerra Mundial — a maior carnificina já vivida pela humanidade. Nele, Leon Trotsky expõe com notável lucidez quais critérios permitem avaliar se uma guerra pode ou não ser justificada do ponto de vista da classe trabalhadora.
Mesmo diante de um cenário em que o nazismo e o fascismo dominavam países inteiros e mobilizavam suas máquinas de guerra para ampliar suas zonas de influência à custa de milhões de vidas, Trotsky já deixava claro que não se tratava de uma guerra da “democracia” contra o fascismo ou o nazismo. Na verdade, tratava-se de um conflito entre potências imperialistas rivais, alheio aos interesses históricos do proletariado.
Por isso, aqueles que, em nome dos trabalhadores — ou mesmo do comunismo — buscam justificar guerras que não se inserem no terreno da luta de classes, nem têm como objetivo a emancipação dos explorados e oprimidos, acabam distorcendo levianamente as lições que o proletariado mundial aprendeu nos momentos mais sombrios de sua história.
Oferecemos a nossos leitores este artigo escrito por Leon Trotsky, em 5 de setembro de 1939 e publicado em Socialist Appeal. (Os editores)
Quem é culpado por iniciar a Segunda Guerra Mundial?
Ontem, falei sobre a responsabilidade imediata pela guerra¹. Hitler iniciou operações militares sangrentas que Stalin ajudou a iniciar. Desta vez, a responsabilidade imediata, por assim dizer “jurídica”, pelo início das atividades militares se configura de forma mais clara do que na última guerra. A questão da responsabilidade desempenha, como se sabe, um papel importante na propaganda internacional de ambos os lados da guerra. Todos os estados participantes da guerra tentam transferir a responsabilidade para o inimigo.
Do ponto de vista histórico e político, porém, esse critério jurídico (ou diplomático) tem importância totalmente secundária. Existem guerras progressistas e justas, e existem guerras reacionárias e injustas, independentemente de quem “começou” primeiro. Do ponto de vista histórico-científico, as guerras progressistas e justas são aquelas que servem à libertação das classes oprimidas ou nações oprimidas e, assim, impulsionam a cultura humana. Por outro lado, são consideradas reacionárias aquelas que servem à escravização da classe trabalhadora e das nações atrasadas e débeis. Consequentemente, a questão decisiva não é quem “começou” primeiro, quem assume o papel de “agressor”, e sim qual classe está conduzindo a guerra e com quais objetivos históricos. Se uma classe ou uma nação oprimida assume o papel de “agressor” em nome de sua libertação, sempre daremos as boas vindas a este tipo de agressão.
As tentativas de retratar a próxima guerra como um confronto entre democracias e fascismo foram estilhaçadas diante da marcha real dos acontecimentos. A guerra atual, cujos participantes iniciaram antes mesmo da assinatura do tratado de Versalhes, se desenvolveu a partir das contradições imperialistas. Era tão inevitável quanto o choque de trens lançados um contra o outro na mesma linha.
Os principais rivais no continente europeu são Alemanha e França. Na disputa pela supremacia na Europa e em suas colônias, a França tentou manter a Alemanha (não a fascista, mas a democrática) dividida e enfraquecida. Nesse contexto, o imperialismo francês acabou sendo responsável pelo surgimento do Nacional-Socialismo alemão. Por outro lado, a Inglaterra, que estava interessada em romper a hegemonia europeia da França e suas pretensões internacionais, começou logo após Versalhes a apoiar Berlim contra Paris. O rearmamento da Alemanha nazista teria sido impossível sem a ajuda direta da Inglaterra. Assim, os antagonismos mascarados, porém profundos, entre as democracias foram um trampolim para Hitler.
Em Munique, a Inglaterra apoiou Hitler na esperança de que ele ficasse satisfeito com a Europa Central. Mas algumas semanas depois, a Inglaterra “finalmente descobriu” que o imperialismo alemão buscava a dominação mundial. Em seu papel de potência colonial mundial, a Grã-Bretanha não podia deixar de responder às pretensões desenfreadas de Hitler com a guerra.
Maquinações diplomáticas, fazer malabarismos com a fórmula “democracia versus fascismo”, sofismas sobre responsabilidade, não podem nos fazer esquecer que a luta está acontecendo entre os escravagistas imperialistas de diferentes campos por uma nova divisão do mundo. De acordo com seus fins e métodos, a guerra atual é uma prolongação direta da grande guerra anterior, só que com muito mais podridão da economia capitalista e com métodos muito mais terríveis de destruição e extermínio.
Consequentemente, não vejo a menor razão para mudar esses princípios em relação à guerra que foram elaborados entre 1914 e 1917 pelos melhores representantes do movimento operário sob a direção de Lênin. A guerra atual tem um caráter reacionário de ambos os lados. Qualquer que seja o campo vitorioso, a humanidade ficará muito para trás.
A tarefa dos autênticos representantes da classe trabalhadora e das nações oprimidas não consiste em ajudar um campo imperialista contra o outro, mas em ensinar às massas trabalhadoras de todos os países a entender o significado reacionário da guerra atual, a construir seu próprio programa – a federação socialista mundial das nações – e a se preparar para substituir o regime de rapina pelo regime de cooperação geral.
Este é o programa da Quarta Internacional. Parece utópico para os chamados realistas, que não entendem a lógica do desenvolvimento histórico. Neste momento, a Quarta Internacional é composta por apenas uma pequena minoria. Mas o partido de Lênin também representava uma minoria insignificante no início da última guerra e só recebia provocações dos heróis baratos de frases feitas. A guerra é uma escola severa. Em seu fogo, os antigos preconceitos e hábitos dos escravos serão queimados! As nações sairão dessa guerra de forma diferente de como entraram, e reconstruirão nosso planeta de acordo com as leis da razão.
Nota 1: Trotsky refere-se ao artigo escrito por ele, no dia anterior, entitulado A Aliança germano-soviética.
