Em 17 de fevereiro de 2026, a já fragilizada República do Peru acrescentou um novo capítulo à sua longa história de instabilidade política. O Congresso, com 75 votos a favor, aprovou a censura e a destituição do presidente José Jerí, que havia assumido o cargo apenas 130 dias antes, após a saída de Dina Boluarte. O motivo? Um escândalo conhecido como “Chifagate”: encontros clandestinos entre o presidente e empresários chineses, que levantaram suspeitas de corrupção.
José Jerí assumiu o cargo prometendo combater a insegurança pública e pôr fim à crise política. Sua chegada foi resultado da própria instabilidade que alegava combater: foi nomeado após a destituição de Boluarte, num processo que transformou a presidência peruana numa cadeira elétrica, com oito presidentes entrando e saindo em uma década. E quem controla o interruptor dessa cadeira elétrica? O Congresso. As normas vigentes chegam a prever que um presidente pode ser destituído ou censurado por “incapacidade moral”. E quem define incapacidade moral? O Congresso!
Os protestos de Jerí de que sua destituição foi “antidemocrática” soam irônicos, visto que o Estado prendeu seu último presidente democraticamente eleito por 11 anos. Foi em 2022 que esse mesmo órgão destituiu e prendeu Pedro Castillo depois que ele tentou romper o impasse que lhe foi imposto pelo Estado capitalista. Nem Boluarte nem Jerí tinham legitimidade para se autodenominarem presidentes do Peru. Boluarte só foi forçada a sair pelo Congresso para salvar o sistema, depois de atingir um índice de aprovação de apenas 2%, em meio a mobilizações massivas e a uma greve geral que abalaram o país.
O que estamos testemunhando é o fracasso da classe capitalista peruana em construir um bloco governante sólido e duradouro. Os partidos políticos já não escondem o fato de terem deixado de servir ao povo; são simplesmente máquinas eleitorais a serviço de facções da classe dominante ou de chefões locais: capital ligado à mineração em larga escala, agroexportações, capital financeiro especulativo e uma crescente economia informal e ilegal.
Então, foi o povo que derrubou o presidente Jerí? As marchas e manifestações surtiram efeito? Foi a oposição que o censurou? Não, criou-se uma oposição temporária, composta por forças de direita, do fujimorismo à extrema-direita cristã da Renovación Popular, que não perderam a oportunidade de se apresentarem como salvadoras, apenas dois meses antes das novas eleições presidenciais.
E a esquerda? A esquerda parlamentar, ao pressionar por sua remoção, caiu na armadilha de acreditar que a mudança do administrador em exercício alteraria o equilíbrio de poder dentro do Congresso. Na realidade, sua ação apenas abriu caminho para que a direita reorganizasse o conselho a seu favor, apresentando-se como a garantidora da “ordem” e do “combate à corrupção”.
O que está por trás do “Chifagate”?
O Peru tem uma longa história cultural e política com a China e a Ásia. O extenso bairro chinês de Lima é repleto de restaurantes peruano-chineses, ou chifas, e foi lá que ocorreram os encontros secretos de Jerí com empresários chineses de reputação duvidosa.
Alguns desses personagens tinham ligações diretas com projetos como o megaporto de Chancay: um porto de águas profundas que reduzirá o tempo de trânsito entre a China e o Peru em 10 a 12 dias e que será conectado a uma ferrovia com o Brasil.
Este é um projeto fundamental para não depender do Canal do Panamá, controlado pelos Estados Unidos. É essa crescente influência do capital chinês que irritou setores da burguesia peruana e o imperialismo americano. Foi isso, e não a corrupção – sobre a qual os imperialistas e seus lacaios são indiferentes – que realmente levou à sua queda.

Dias antes de sua destituição, Jerí tentou salvar as aparências, cancelando a visita de um navio da marinha chinesa e direcionando a Força Aérea para a compra de 24 caças F-16 de fabricação americana por US$ 3,4 bilhões. Isso não o salvou.
O Peru é um dos muitos campos de batalha na disputa entre os Estados Unidos e a China pela América Latina. Mas qual é a correlação de forças? A economia americana não consegue absorver todas as commodities do continente, e é a China que não só comprou cobre e ouro peruanos, como também investiu no país, construindo infraestruturas sem a necessidade dos sangrentos golpes militares pelos quais os Estados Unidos são conhecidos. Ainda assim, este escândalo demonstra que os Estados Unidos ainda exercem influência suficiente para sustentar seu poderio militar.
Há vários meses, setores da burguesia peruana vêm promovendo a ideia de que o capital chinês é ruim e que tudo o que vem dos Estados Unidos é melhor. O novo embaixador dos EUA no Peru, Bernie Navarro, aderiu a essa ideia. Por meio de suas redes sociais e entrevistas à imprensa, ele tem denegrido continuamente o investimento chinês e convocado os peruanos a “defenderem sua soberania”.
Para não ficar atrás, o apropriadamente nomeado “Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental” tuitou: “Preocupado com os últimos relatos de que o Peru pode estar impotente para supervisionar Chancay, um de seus maiores portos, que está sob a jurisdição de proprietários chineses predatórios”, acrescentando: “Que isso sirva de alerta para a região e para o mundo: dinheiro chinês barato custa soberania.”
E é com base nos apelos do imperialismo estadunidense sobre “soberania” que mais um presidente peruano foi deposto!
China versus Estados Unidos
Só podemos rir de toda essa conversa fiada sobre “soberania” por parte do imperialismo estadunidense, dado o papel das empresas americanas nos problemas ambientais causados pela mineração, pelo desmatamento da floresta tropical ocasionado pelas empresas de óleo de palma e pelo papel direto que desempenharam na derrubada de Pedro Castillo.
É óbvio que Trump enviou seu novo embaixador, Navarro, em uma missão anti-China, acompanhada por um acordo de US$ 1,5 bilhão para modernizar a Base Naval de Callao, a apenas 80 quilômetros do porto de Chancay. A China é o principal parceiro comercial do Peru, mas o Peru mantém uma relação de longa data, política e militarmente subserviente aos Estados Unidos. Nesse contexto, o acordo para equipar a Base Naval de Callao demonstra o interesse dos EUA em fortalecer sua presença estratégica na América do Sul.
Aqui, a diferença no investimento é gritante: enquanto a China investiu US$ 3,5 bilhões no porto de Chancay sem pedir um único dólar ao governo peruano, o acordo para modernizar a Base Naval envolve o pagamento de US$ 1,5 bilhão pelo Estado peruano aos EUA pela compra de tecnologia e serviços de consultoria.
Enquanto não surgir um movimento que, como sonhou Mariátegui, una a luta dos trabalhadores urbanos às reivindicações históricas das comunidades camponesas e indígenas num projeto de sociedade comunista, a instabilidade permanente do capitalismo só irá aumentar.
A crise peruana não será resolvida com a troca de presidentes a cada poucos meses, mas sim com a mudança do sistema que os produz. A queda de Jerí não é o fim da crise, mas um lembrete de que, para a grande maioria, o verdadeiro problema não é quem ocupa o Palácio, mas sim o fato de o Palácio sempre governar para poucos.
