Neste 21 de fevereiro, completam-se 61 anos do assassinato de Malcolm X. Para marcar a data, trazemos aos nossos leitores um artigo de Tom Trottier, dos Comunistas Revolucionários da América. Publicado originalmente em julho do ano passado, o texto percorre a trajetória de Malcolm, destacando os momentos decisivos de sua vida e seu profundo processo de radicalização política. Mais do que um ícone, Malcolm X foi um revolucionário incansável que lutou contra a brutalidade policial e desafiou as estruturas do sistema com uma convicção inabalável.
“Não se surpreendam quando eu disser que estive na prisão.” Malcolm X disse a uma plateia de ativistas em 1963: “Vocês ainda estão na prisão. É isso que a América significa: prisão.”
Embora não fosse marxista, Malcolm era um líder nato e revolucionário que sacrificou a própria vida na luta pela libertação daquela prisão. Enquanto a classe dominante o tratava com desprezo e hostilidade, seu exemplo audacioso continua a inspirar revolucionários em todo o mundo.
Em 21 de fevereiro de 1965, sua trajetória como pensador político foi interrompida por uma rajada de tiros no Audubon Ballroom, em Nova York. Independentemente do envolvimento das autoridades em seu assassinato, é provável que elas soubessem que ele estava sendo planejado e nada fizeram para impedi-lo.
Vivemos tempos de grande instabilidade e conflito. A opressão, a exploração e a degradação que milhões sentem continuam a aumentar. As pessoas buscam líderes que compreendam sua frustração e lhes mostrem como canalizar essa raiva para uma mudança real.
Um revolucionário é alguém que trabalha em prol da revolução política ou participa dela. Isso inclui aqueles que desejam lutar contra a estrutura de poder governamental sem compreender claramente as relações de propriedade nas quais esse aparato político se baseia. Todos os comunistas genuínos são revolucionários, mas nem todos os revolucionários são comunistas. Uma de nossas principais tarefas é conquistar os trabalhadores e jovens revolucionários para as ideias do socialismo científico.
Embora possamos ter muitas divergências com os revolucionários não comunistas, também temos importantes pontos de concordância. É nesse espírito que podemos aprender muitas lições e nos inspirar na vida de Malcolm X.
Criado em um caldeirão de violência
Nascido Malcolm Little, em Omaha, Nebraska, em 19 de maio de 1925, o futuro líder de massas tirou conclusões revolucionárias de sua experiência de vida. Criado em um país com o racismo enraizado em suas bases, a família de Malcolm sofreu atos de terror racista. Certa noite, a Ku Klux Klan apareceu na casa da família brandindo espingardas e rifles. As ameaças da Klan forçaram a família a se mudar para Michigan.
Em Michigan, o pai de Malcolm, Earl Little, foi morto da forma mais brutal, atropelado por um bonde. Embora tenha sido considerado um “acidente”, foi muito provavelmente um assassinato racista.
Até a década de 1940, o Movimento de Retorno à África de Marcus Garvey foi o maior esforço nacionalista negro nos EUA. O pai de Malcolm X era um seguidor de Garvey e foi alvo de racistas por causa de seu trabalho no movimento. Malcolm foi inspirado pelo ativismo do pai, e suas ideias o marcaram profundamente.
Malcolm admirava Garvey por sua postura intransigente e porque Garvey buscava organizar as massas negras, não as elites negras:
“Garvey tinha em mente as esperanças e aspirações do homem negro, e as massas negras… sentiam isso, então deram a Garvey seu apoio… O intelectual negro era contra Garvey. O profissional negro era contra Garvey.”
Malcolm X cultivou uma determinação obstinada semelhante. Quando jovem, disse ao seu professor de inglês que queria cursar direito. O professor respondeu: “Advogado? Isso não é uma meta realista”, sugerindo, em vez disso, que Malcolm aprendesse um ofício.
“Foi então que comecei a mudar — por dentro”, escreveu Malcolm mais tarde, “tudo aquilo que fiz desde então, me esforcei para ser bem sucedido”. Ele manteve esse temperamento firme pelo resto da vida. Certa vez, quando sua casa foi incendiada, Malcolm disse: “Eu não me abalaria com algumas bombas”.

Racismo na América do pós-guerra
O racismo está profundamente enraizado no capitalismo americano. A escravidão precisava ser justificada e serviu de base material para as ideias de supremacia branca. Após a Guerra Civil e a Reconstrução, o capitalismo usou o racismo para manter os trabalhadores divididos e distraídos da verdadeira fonte de nossa miséria: o sistema de lucro.
Malcolm tinha 20 anos quando a Segunda Guerra Mundial terminou. Havia mais empregos em áreas industrializadas, o que resultou em uma onda de migração em massa de pessoas negras para o Nordeste, Centro-Oeste e Califórnia. Na década de 1960, a maioria da população negra vivia em cidades.
O movimento de trabalhadores negros contra os linchamentos e a discriminação nas décadas de 1930 e 1940, incluindo a campanha pela libertação dos rapazes de Scotsboro, impactou a consciência coletiva. À medida que centenas de milhares de veteranos negros retornavam de uma guerra ostensivamente travada por “liberdade e democracia”, o sentimento em prol da igualdade racial se intensificou.
A maioria dos afro-americanos não se beneficiou do período de prosperidade do pós-guerra. Como escreveu Manning Marable, “Malcolm… era um produto do gueto moderno. A raiva emocional que ele expressou foi uma reação ao racismo em seu contexto urbano: escolas urbanas segregadas, moradias precárias, altas taxas de mortalidade infantil, drogas e criminalidade.”
Muitas empresas se recusavam a contratar negros, e, quando o faziam, estes eram os últimos a serem contratados e os primeiros a serem demitidos. As taxas de pobreza e desemprego eram muito mais elevadas entre os negros, especialmente entre os jovens. As disparidades nas taxas de desemprego e pobreza persistem até hoje.
Com poucas perspectivas de uma vida digna, Malcolm se envolveu com o mundo do crime. Em 1948, ele foi parar em uma prisão de Massachusetts — um ponto de inflexão em sua vida.
Atrás das grades, Malcolm X conheceu um prisioneiro mais velho chamado John Elton Bembry, que o convenceu da importância da leitura, da educação e da disciplina. Sua educação formal terminou após a oitava série, mas na prisão ele se tornou um leitor voraz.
“Todas as noites… eu ficava indignado com o toque de recolher. Parecia que sempre me pegava bem no meio de algo que me envolvia bastante. Felizmente, bem na porta do meu quarto havia uma luz no corredor que iluminava o ambiente… Então, quando chegava o toque de recolher, eu me sentava no chão e podia continuar lendo.”
Alguns membros de sua família haviam se envolvido com a Nação do Islã, e quando o procuraram, ele se juntou ao grupo, dedicando o resto de sua vida a combater o sistema racista.
A atração de Malcolm pela Nação do Islã está ligada ao vácuo que existia na política americana. Os dirigentes da AFL (American Federation of Labour) e da CIO (Congress of Industrial Organizations) aceitavam os limites do capitalismo e trabalhavam com o inimigo de classe para controlar os trabalhadores em casa e levá-los a apoiar os crimes do imperialismo estadunidense no exterior. Isso resultou em uma política de aceitação da segregação e do racismo.
A principal força da esquerda era o Partido Comunista, uma organização stalinista já em declínio. Embora tivesse realizado alguns trabalhos positivos na luta contra o racismo, suas posições erráticas em questões raciais e suas políticas oportunistas, somadas ao Macartismo, não lhes conferiam um poder de atração. Dado o estado da esquerda e do movimento operário, não é surpresa que a maioria dos jovens negros não visse essas organizações como caminhos viáveis para a libertação.

Nacionalismo negro nos EUA
Ao longo da luta contra o racismo nos Estados Unidos, duas tendências principais se destacaram. Uma lutou contra a segregação e pela igualdade e integração racial, enquanto a outra adotou o separatismo e o nacionalismo negro. Desde as lutas de massa das décadas de 1930 e 1940, a trajetória geral na luta contra o racismo tem sido a primeira.
Com os trabalhadores americanos na ofensiva e o aumento no número de trabalhadores negros se sindicalizando, a influência do nacionalismo negro entre as massas diminuiu. No entanto, o ritmo da mudança foi lento e as condições enfrentadas por milhões de negros permaneceram intoleráveis. Havia amplo espaço para que ideias nacionalistas negras encontrassem eco, especialmente entre algumas camadas da juventude, o lumpemproletariado e a classe média.
Wallace Fard Muhammad fundou a Nação do Islã em Detroit por volta de 1930. Quando ele deixou o país em 1934, Elijah Muhammad assumiu a liderança daquela que era uma organização com apenas algumas centenas de pessoas.
Embora a Nação do Islã não aderisse à fé islâmica ortodoxa, ela se apresentava como uma alternativa ao cristianismo, que corretamente associavam à classe dominante. Proibia o álcool e as drogas, que a sociedade capitalista usa como ferramenta para manter os oprimidos entorpecidos e acorrentados. Proibia o jogo, que nada mais é do que mais um imposto sobre a classe trabalhadora. Fazia as pessoas se sentirem orgulhosas de serem negras.
Mais de quatrocentos anos de escravidão e terror racista cobraram um preço altíssimo da população negra. Instituições culturais e educacionais capitalistas explicavam a história colocando-se no centro e enfatizando o “Destino Manifesto”. Os negros foram levados a internalizar um sentimento de inferioridade. Dar às pessoas uma identidade e um senso de história, bem como elevar sua autoconfiança, atraiu uma parcela da população negra urbana, forçada a viver em moradias segregadas e precárias.
Por não possuir uma análise de classe, a Nação do Islã caiu em uma forma de política identitária. Eles agruparam a população negra em uma única massa contra os “demônios brancos”, que também eram considerados uma massa indiferenciada. Combinando mitologia fictícia com alguns fatos históricos, argumentavam que os negros precisavam de sua própria nação. Como a maioria das religiões, a NdI ensinava que um ser supremo eventualmente salvaria a humanidade e que os negros receberiam terras próprias. Enquanto isso, muitos de seus membros abriram pequenos negócios.
Nas condições dos EUA do pós-guerra, um grupo como esse poderia encontrar eco. Mas permaneceu extremamente pequeno — até que Malcolm X foi libertado da prisão.
Construindo a organização
Malcolm X foi libertado em 1952 e, no outono de 1953, já trabalhava em tempo integral como ministro da Nação do Islã. Mantinha uma agenda lotada e vivia uma vida disciplinada. Todos os aspectos de sua existência eram dedicados à causa. Não possuía nada e dependia da Nação do Islã para moradia e para custear suas despesas. Era fácil para Malcolm exigir das pessoas, pois liderava pelo exemplo e era ainda mais rigoroso consigo mesmo. Essa foi uma transformação pessoal extraordinária, considerando seus anos anteriores.
Malcolm era um revolucionário em formação. Revolucionários precisam da coragem de dizer a verdade ao poder e de se manterem fiéis aos seus princípios quando atacados. Devem ser convictos e persuasivos ao transmitir sua mensagem. Malcolm personificava todas essas qualidades.
Malcolm X concentrou-se em recrutar ativamente pessoas, com foco nos jovens. Ele ia a lugares onde as pessoas se reuniam e iniciava conversas. Ele perguntava a estranhos sobre racismo e sobre o bem que o “homem branco” havia feito por eles. Dessa forma, ele fazia as pessoas refletirem sobre o racismo e como combatê-lo.
Como orador, ele tinha a capacidade de fazer o ouvinte questionar crenças antigas, desafiar a estrutura ideológica implantada pelo sistema dominante. Malcolm nunca parou de estudar, e seu domínio da história dos EUA e do mundo o ajudou a expor o sistema racista. Em reuniões públicas, ele não se limitava a discursar para a plateia, mas incentivava os participantes a fazer perguntas e debater ideias.

Malcolm transmitia aos seus recrutas a sensação de que a vida podia ser diferente. Alguns que tinham problemas com álcool, drogas ou estavam envolvidos em atividades criminosas deram a volta por cima. Eles viam seus antigos hábitos como grilhões à infelicidade e a nova vida na Nação do Islã como uma forma de mudar as coisas.
Malcolm construiu a Nação do Islã de uma forma que Elijah Muhammad não conseguiu. Enquanto Muhammad tinha uma abordagem passiva e estava construindo uma organização isolada, os métodos de Malcolm levaram a Nação do Islã de cerca de 1.200 membros em 1953 para 6.000 em 1955. Estima-se que, em 1961, eles tinham entre 50.000 e 75.000 membros e mais de 100 mesquitas em todo o país.
Danton, um dos líderes da Revolução Francesa, disse certa vez que os revolucionários precisam de “audácia, audácia e mais audácia!”. Malcolm X tinha de sobra. Ao construir a organização, ele não teve medo de enfrentar nenhum oponente. Malcolm também foi fundamental para que a Nação do Islã recebesse cobertura da imprensa, o que informou muito mais pessoas sobre sua existência.
Malcolm X ganhou uma coluna regular no Amsterdam News, um importante jornal semanal do Harlem. Ele também participou de um episódio sobre a Nação do Islã no programa de TV de Mike Wallace. Os entrevistadores atacaram Malcolm e a Nação do Islã durante o programa, intitulado “O Ódio que o Ódio Produziu”, mas Malcolm manteve sua posição, explicando pacientemente suas ideias.
Ele também fundou um jornal mensal, Muhammad Speaks. Logo, o jornal conquistou dezenas de milhares de leitores, muitos dos quais não eram membros. Tornou-se mais uma ferramenta de construção. Ele compreendia o poder de atração de uma imprensa revolucionária que diz às pessoas a verdade e oferece uma visão unificada para o futuro.
“Vocês precisam de um jornal. Acreditamos no poder da imprensa… O jornal Muhammad Speaks, eu — e outra pessoa — começamos no meu porão. E eu nunca passei da oitava série… Podemos produzir um jornal que alimente nosso povo com tanta informação que possamos provocar uma verdadeira revolução aqui mesmo, antes que vocês percebam.”
Combater a brutalidade policial
Os ataques do Estado também contribuíram para o fortalecimento da organização, em particular, dois casos de violência policial brutal contra membros da Nação do Islã. A resposta magistral de Malcolm a esses incidentes revelou claramente sua visão de lutar corajosamente contra a opressão, em vez de adotar uma postura passiva.
Em 1957, dois membros da Nação do Islã do Harlem viram policiais do Departamento de Polícia de Nova Iorque espancando um homem. Quando protestaram, os policiais atacaram um deles, Johnson Hinton, com cassetetes: “Parte de seu couro cabeludo estava aberto, e uma viatura chegou e ele foi levado para uma delegacia próxima… Ele estava semiconsciente. Havia sangue por toda parte em sua cabeça, rosto e ombros.”
Malcolm mobilizou centenas de membros e não membros e marchou até a delegacia para garantir que Hinton fosse levado ao hospital. “Os negros do Harlem estavam fartos da brutalidade policial há muito tempo”, escreveu Malcolm, “e nunca tinham visto nenhuma organização de homens negros tomar uma posição tão firme”. Essa ação impactante elevou o perfil de Malcolm como um líder que lutaria contra a violência e a opressão.
O outro incidente ocorreu em 27 de abril de 1962, quando policiais de Los Angeles realizaram uma operação que terminou com a morte de sete membros da Nação do Islã, além de deixar outro incapacitado para o resto da vida. Malcolm veio de Nova York e usou o incidente para expor o racismo sistêmico e a brutalidade do Departamento de Polícia de Los Angeles.
A atuação de Malcolm X contra a brutalidade policial ajudou a colocá-lo no radar nacional e a direcioná-lo para uma trajetória política mais declarada.

Rompendo com a Nação do Islã
Para construir uma grande organização, um dirigente precisa inspirar seus membros com ideias. Algumas das ideias da Nação do Islã encontraram eco na luta da população negra contra o racismo, mas estavam misturadas com muitas ideias pró-capitalistas confusas e reacionárias, religião e outras formas de idealismo filosófico.
As décadas de 1950 e 1960 testemunharam uma luta em massa contra a segregação racial. O movimento pelos direitos civis vinculou a luta contra as leis de segregação racial de Jim Crow às demandas sociais da classe trabalhadora negra. O boicote aos ônibus de Montgomery, os protestos pacíficos e as manifestações em massa ocorreram sem a participação ativa da Nação do Islã, que se absteve desses movimentos. Malcolm X esteve em Washington, D.C., em agosto de 1963, para a histórica Marcha sobre Washington, mas a Nação do Islã não desempenhou nenhum papel como organização.
Malcolm caminhava inexoravelmente na direção do ativismo político. Elijah Muhammad queria administrar a Nação do Islã como uma seita, isolada desses grandes eventos. Ele e a cúpula da organização começaram a ver Malcolm como uma ameaça ao controle da Nação do Islã. Isso acabou levando a um conflito.
Diversos problemas acabaram levando à divisão, incluindo rumores de que líderes da Nação do Islã estavam se reunindo com grupos racistas de extrema direita na esperança de adquirir terras onde os negros pudessem se segregar e viver separadamente no sul profundo. Em contraste, Malcolm estava se afastando do nacionalismo negro e se aproximando de ideias socialistas.
O que inicialmente atraiu Malcolm para a Nação do Islã foi a vida degradante sob o capitalismo americano, que estava completamente entrelaçada com o racismo. Ele se solidarizava genuinamente com as lutas dos povos da África, do Oriente Médio e do Sudeste Asiático contra o colonialismo e o imperialismo. Malcolm buscava respostas entre os muçulmanos ao redor do mundo e nos governos dos antigos países colonizados sobre como combater o racismo nos EUA.
Ao mesmo tempo em que se distanciava do nacionalismo da Nação do Islã, ele criticava implacavelmente os reformistas do movimento pelos direitos civis. Não tinha ilusões em relação aos democratas ou republicanos e defendia a abstenção eleitoral até que uma força política viável fosse construída: “Não joguem seus votos fora. Um voto é como uma bala. Você não joga seu voto fora até ver um alvo, e se esse alvo não estiver ao seu alcance, guarde seu voto no bolso.”
Sua postura intransigente em relação aos partidos da classe dominante estava enraizada em sua compreensão de que somente uma luta revolucionária genuína poderia acabar com o racismo:
“A revolução nunca se baseia em implorar por uma xícara de café. Revoluções nunca são travadas oferecendo a outra face. Revoluções nunca se baseiam em amar o inimigo e rezar por aqueles que nos usam de forma desonesta. E revoluções nunca são travadas cantando “Nós Venceremos”. Revoluções são baseadas em derramamento de sangue. Revoluções nunca são baseadas em concessões. Revoluções nunca são baseadas em negociações. Revoluções nunca são baseadas em qualquer tipo de simbolismo. Revoluções nunca se baseiam em implorar a uma sociedade ou sistema corrupto que nos aceite. Revoluções derrubam sistemas. E não há sistema neste mundo que tenha se provado mais corrupto, mais criminoso, do que este sistema.”
Essa perspectiva o levou ao Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP). Ele elogiou o jornal do SWP e discursou em eventos organizados pelo partido. Infelizmente, nessa época, o SWP havia se degenerado politicamente. Em vez de tentar convencê-lo do marxismo, eles seguiram o nacionalismo negro — as mesmas ideias das quais Malcolm estava se afastando — desperdiçando a oportunidade de conquistar um dirigente de massas talentoso para a bandeira comunista revolucionária.

O último período
Quando Malcolm rompeu com a Nação do Islã, ele criou dois grupos, um religioso e um político: a Mesquita Muçulmana, Inc. e a Organização da Unidade Afro-Americana (OAAU).
Quando um jornalista perguntou a Malcolm sobre a ideologia da OAAU, ele disse que a organização “é considerada nacionalista negra”. É uma expressão interessante, que indica que Malcolm tinha dúvidas sobre o termo, mas ainda não tinha uma alternativa.
Em pelo menos um aspecto importante, a OAAU permaneceu fiel às raízes nacionalistas negras de Malcolm: buscou organizar os afro-americanos para além das linhas de classe, em vez de ao longo delas. Não adotou a posição de que somente uma revolução operária pode pôr fim ao capitalismo e lançar as bases para o fim do racismo — e que a luta por essa revolução é inseparável da luta para unir a classe trabalhadora em uma ação comum, independentemente da raça.
Nunca saberemos o que poderia ter acontecido se Malcolm X não tivesse sido assassinado aos 39 anos, ou se uma organização como os Comunistas Revolucionários da América teria conseguido conquistá-lo, caso existisse com o tamanho necessário na época. Contudo, a direção que Malcolm estava tomando é clara. Em 29 de maio de 1964, perguntaram-lhe qual sistema político e econômico ele apoiava:
“Não sei. Mas sou flexível… Como já foi dito, todos os países que estão emergindo hoje das amarras do colonialismo estão se voltando para o socialismo. Não acho que seja por acaso. A maioria dos países que foram potências coloniais eram países capitalistas, e o último bastião do capitalismo hoje são os Estados Unidos. É impossível para uma pessoa branca acreditar no capitalismo e não acreditar no racismo. Não existe capitalismo sem racismo. E se você encontrar uma pessoa assim e por acaso conseguir iniciar uma conversa com ela, e a filosofia dela te convencer de que não há racismo em sua visão de mundo, geralmente são socialistas ou têm o socialismo como filosofia política.”
As condições que moldaram Malcolm X ainda estão presentes, e há muitas lições a serem aprendidas com sua vida heroica. Duas se destacam. Primeiro, é vital que construamos um partido comunista amplo, experiente e instruído, em preparação para as titânicas lutas de classes que virão. Segundo, sempre que surgirem movimentos contra a injustiça capitalista, os marxistas devem participar ativamente e defender suas ideias, sobretudo a necessidade de independência de classe. Não podemos simplesmente seguir tais movimentos. Devemos apoiar os aspectos que promovem a unidade e a confiança de classe, ao mesmo tempo que nos opomos aos que a contrariam.
Se fizermos isso de forma clara e respeitosa, poderemos conquistar os melhores indivíduos desses movimentos e fortalecer as forças do comunismo revolucionário. Se tivermos sucesso na construção de uma organização comunista ampla e vibrante nos EUA, garantiremos a vitória da classe trabalhadora, poremos fim ao capitalismo racista e começaremos a construir um novo mundo baseado na solidariedade e cooperação internacional.
