No dia 6 de março de 2026, Samuel Wesley, um jovem negro, pobre e militante do bairro Vila Velha, em Fortaleza (CE) nos deixou. Sua partida, aos 20 anos – hoje seria seu aniversário, dia 16 de março –, não foi um evento isolado, mas um doloroso reflexo da violência intrínseca ao sistema capitalista. Como afirmei ao comunicar o ocorrido ao nosso grupo da célula, Samuel foi uma vítima do capitalismo, que adoece nossas mentes e nos impõe a culpa pela própria exploração e miséria. Esta não é uma simples fórmula, mas uma verdade bárbara que exige ser descoberta em sua concretude mais nefasta.
Samuel, que havia acabado de se organizar no PCBR e começava a despertar para a luta revolucionária, deixou uma filha de cinco meses, uma companheira e uma família que o amava. Nós, que compartilhamos de seu afeto e de sua luta, sentimos a perda de um camarada, um irmão. A síntese de sua companheira – “Samuel morreu porque era um homem negro e pobre” – relembra a análise de Marx sobre o suicídio: não como um fenômeno psicológico individual, mas como a expressão máxima das contradições sociais. É a miséria que corrói, a solidão imposta pela ordem burguesa, a transformação do ser humano em mercadoria descartável que se internaliza, fazendo do próprio sujeito o algoz de si mesmo sob o peso das condições materiais.
O Território da Luta: Vila Velha e a Produção Capitalista do Espaço
Para compreender a tragédia de Samuel, é imperativo situar sua existência no espaço concreto onde sua vida se fez e se desfez: Vila Velha, bairro da zona oeste de Fortaleza. Esta região, na Regional I, é um universo de desigualdades históricas, onde o rio Ceará encontra o mangue, e o poder público rotineiramente chega atrasado ou com a intenção de remover. A ocupação do solo ali se deu pela luta e pela necessidade premente de morar, moldando um território marcado por intervenções estatais e ocupações populares.
Samuel viveu toda a sua vida próximo à Artur Borges e à região do mangue, na Vila Velha. Embora tenha convivido com a realidade da “Favela do Inferninho”, que é um símbolo do abandono – um lugar que por décadas foi “sujo, com paredes em tijolos crus e escurecidos por infiltrações; repleto de mato, entulho e esquecimento” –, sua trajetória esteve intrinsecamente ligada à dinâmica dessas áreas. A “produção do espaço”, termo da literatura acadêmica, traduz-se na vida de Samuel como a experiência de crescer em um ambiente com “deficiências técnicas que proporcionaram um crescimento urbano desordenado”. É a convivência com alagamentos, doenças decorrentes de condições insalubres e a justificativa estatal para a ausência de políticas públicas em uma Área de Proteção Ambiental, enquanto 82% das famílias construíram suas casas em regime de autoconstrução e mutirão.
Marx já havia reconhecido que a violência não é apenas a do Estado ou do capitalista, mas aquela que se internaliza. Hoje, podemos acrescentar: essa violência tem endereço, tem bairro, tem cor. Um jovem do Vila Velha aprende cedo que seu território é “marginalizado, tanto pelo nome pesado como pelo contexto”. A cidade impõe limites invisíveis, transformando a periferia em um cárcere a céu aberto, onde a territorialização do crime organizado e a lógica da segurança pública criminalizante restringem a mobilidade e a vida.
A pesquisa acadêmica sobre o Conjunto Vila Velha revela que o Estado e as organizações populares são “capturados pela lógica capitalista de mercantilização do solo urbano, fator que gera contradições entre suas ações”. A miséria se torna mercadoria, a falta de moradia digna vira negócio, e um jovem negro da periferia é produto descartável desse sistema.
A Radicalização e o Peso da Contradição
Os números gritam a morte anunciada: entre janeiro e outubro de 2023, 291 jovens entre 18 e 29 anos foram assassinados em Fortaleza, e 3.653 foram presos no mesmo período. São corpos negros, pobres, periféricos – corpos como o de Samuel. A professora Celecina Veras, da Universidade Federal do Ceará (UFC), alerta para a forte violência que atinge a juventude, com muitos jovens envolvidos em facções, ressaltando a urgência de políticas públicas.
Samuel, contudo, não foi vítima de bala perdida ou confronto direto. Ele sucumbiu à bala que o capitalismo aloja na mente, à internalização da violência estrutural, à culpa introjetada de quem aprende, desde cedo, que sua existência vale menos. O capitalismo não precisa matar todos os jovens negros com tiros; alguns ele convence a se matarem sozinhos. Samuel estava em um processo de radicalização, começando a compreender que sua condição não era um destino, mas uma posição na luta de classes. Esse despertar da consciência, embora libertador, é também um mergulho na verdade nua da exploração. Descobrir que o mundo poderia ser diferente e, ao mesmo tempo, sentir na carne o peso de um sistema que insiste em esmagar – essa contradição pode ser insuportável quando enfrentada individualmente.
Quantos trabalhadores, quantos jovens negros, quantos militantes em formação carregam nos ombros o peso de uma sociedade que lhes diz, desde o berço, que sua existência vale menos? O capitalismo não apenas explora nossos corpos como força de trabalho; ele coloniza nossas mentes, introjeta a culpa por nossa própria condição, convencendo-nos de que a miséria é fruto de nossa incapacidade individual. Quando a contradição se torna insuportável e a dor transborda sem acolhimento coletivo, o desfecho trágico se anuncia.
Honrar a Memória é Transformar o Território e a Luta
O mesmo bairro que viu Samuel crescer hoje é palco de iniciativas como o Beco do Céu, o Instituto Pensando Bem e o Zona Viva. Projetos que, na base do afeto e da organização comunitária, buscam “transformar a favela de dentro para fora”. Rutenio Florencio, criador do Instituto Pensando Bem, após perder um amigo assassinado, questionou: “por que eu estou vivo, e ele está morto?”. A pergunta de Rutenio ecoa em nós: por que Samuel se foi, e nós ficamos?
A Zona Viva do Vila Velha, inaugurada em outubro de 2024 e interligada ao Beco do Céu, na Favela do Inferninho, demonstra o potencial da transformação. Dona Margarida Alves, moradora há 42 de seus 76 anos, narra com emoção a mudança: “Isso aqui era um lugar onde as pessoas tinham medo de passar. Não tinha nada aqui, era só escuridão, e agora chega essa transformação”. O beco, antes um “não-lugar”, hoje pulsa com arte, educação e solidariedade.
Ainda sim, a transformação não pode ser apenas física. Ela precisa ser política, coletiva, revolucionária. O Estado constrói equipamentos, mas opera na lógica do capital. As organizações populares resistem, mas são frequentemente capturadas pela mesma lógica. A saída reside na organização consciente da classe trabalhadora, na construção de redes de cuidado que impeçam que jovens como Samuel enfrentem sozinhos o peso da opressão.
Nós, comunistas revolucionários, sabemos que não basta nos constituirmos como classe “em si” – aquela que existe objetivamente nas relações de produção. Precisamos construir uma classe “para si”, aquela que se reconhece como sujeito histórico, que se organiza e se protege mutuamente. O camarada Samuel começava a dar esse passo. Cabe a nós garantir que sua passagem pela militância não tenha sido em vão.
Neste momento de luto, as palavras de sua companheira ressoam: ele morreu porque era negro e pobre. Mas nós, que seguimos vivos, temos o dever de transformar essa sentença em bandeira. Que a memória de Samuel não seja apenas uma lembrança triste, mas um grito de guerra: nenhum companheiro ou companheira deve enfrentar sozinho o peso da opressão. Cuidemos uns dos outros. Construamos, no dia a dia das células, espaços de escuta, de solidariedade, de afeto revolucionário, de camaradagem. Que nossa luta não seja apenas contra o capital, mas também pela vida digna de todos os povos explorados e oprimidos.
Samuel Wesley Torres, 20 anos, negro, pobre, militante, morador do Vila Velha. Sua filha de cinco meses herdará a memória de um pai que começava a despertar para a luta. Que ela herde também um território transformado, uma classe organizada, um futuro onde nenhum jovem precise morrer para que a burguesia continue acumulando. O capitalismo adoece, mata e nos faz sentir culpados. Nós, que ficamos, temos o dever de cuidar uns dos outros, de proteger nossos camaradas, de construir nas células, nos bairros, na luta cotidiana, o acolhimento que o sistema nos nega.
S.W. Presente! Hoje e sempre, na luta do povo negro, na luta da periferia, na luta por um mundo onde o Vila Velha seja território de vida digna para todos os seus filhos e filhas.
