Aproximadamente 60% dos americanos se opuseram à guerra contra o Irã desde o seu início. Compare-se isso com os 90% de americanos que apoiaram a guerra contra o Afeganistão quando ela começou em 2001, e podemos ver de imediato a enorme mudança que ocorreu nos EUA nas últimas duas décadas.
Somente em 1967 que a Guerra do Vietnã se tornou tão impopular quanto esta guerra desde o seu primeiro dia. A diferença é que, em 1967, mais de 11.000 soldados americanos já haviam sido mortos. A guerra atual ainda nem se tornou uma invasão terrestre, embora, a julgar pelos movimentos de tropas, isso possa mudar em breve, momento em que esta guerra se transformará em um verdadeiro Vietnã.
Este é o começo do fim para o movimento MAGA, que impulsionou Trump ao poder há apenas 18 meses como o “presidente da paz” que traria de volta os empregos e reduziria os preços. A guerra não tem saída para Trump, não há fim à vista, e a gasolina a US$ 4 o galão é apenas o começo da alta dos preços.
A experiência está traçando um paralelo direto entre esta guerra e o aumento do preço da gasolina, das hipotecas e de todas as outras mercadorias. Mas, na mente de milhões, também está sendo associada a Epstein.
Nos três primeiros dias após o início das hostilidades entre EUA e Israel contra o Irã, a expressão “Operação Fúria Epstein” foi tuitada 100 mil vezes. Uma publicação humorística no Instagram observou que o custo dos primeiros 10 dias da operação EUA-Israel, que substituiu o Aiatolá Khamenei por outro Aiatolá Khamenei, foi equivalente a dar US$ 30 mil para cada americano sem-teto ou a 450 ilhas Epstein.
A própria liderança iraniana compreendeu isso muito bem e está fazendo propaganda muito eficaz a respeito. “O destino do querido Irã, que é mais precioso que a própria vida”, disse o presidente da Assembleia Nacional ao parlamento iraniano, “será determinado unicamente pela orgulhosa nação iraniana, e não pela gangue Epstein.”
O que essa guerra tem a ver com Epstein? Para começar, a maioria dos americanos (52%) acredita que seu presidente mergulhou o mundo nessa guerra absolutamente catastrófica simplesmente para desviar a atenção do escândalo Epstein. Sem dúvida, há alguma verdade nisso.
Nas mentes de muitos americanos de classe média e trabalhadora, no entanto, a ligação com Epstein é muito mais profunda. Ela tem um poder explicativo. “É claro que Trump não se importa com o aumento dos preços do petróleo. É claro que ele não vai consertar a economia”, muitos dirão a si mesmos, incluindo muitos eleitores arrependidos de Trump. “É pelo mesmo motivo que ele não divulga todos os arquivos de Epstein. Porque ele é parte da classe Epstein.”
Milhões de pessoas estão explicitamente conectando as condições da classe trabalhadora em seus países a pilhagem e o massacre imperialistas no exterior e o domínio ilegítimo de uma classe abusiva e exploradora – à classe Epstein. Essas são conclusões extremamente avançadas e corretas!
Daqui até desejarmos a derrubada da classe Epstein e a expropriação de suas propriedades é um pequeno passo.
A classe Epstein
As últimas semanas de acontecimentos dramáticos foram acompanhadas por uma acusação verdadeiramente surpreendente, se pararmos para pensar no que ela implica.
Após um fim de semana de ameaças mútuas cada vez mais intensas entre Trump e o Irã, o preço do petróleo subiu drasticamente na manhã de segunda-feira, 23 de março. Então, às 6h49, horário de Nova York, alguém fez uma aposta enorme e surpreendente. Este indivíduo apostou US$ 580 milhões no improvável cenário de que o preço do petróleo, que estava em disparada, cairia.
Apenas 15 minutos depois, Trump foi ao Truth Social anunciar conversas “muito produtivas” com o Irã. De repente, o preço do petróleo caiu e alguém ficou muito mais rico. Essas conversas “muito produtivas” eram uma ficção. Eram uma mentira descarada, cujo único propósito era dar um impulso temporário aos mercados.
Obviamente, alguém muito, muito próximo do presidente não resistiria à oportunidade de usar essa informação para enriquecer de forma fabulosa. Ao longo da presidência de Trump, os investidores notaram uma tendência muito clara de negociações anômalas precedendo muitos de seus anúncios importantes.

Essa é a estupidez grosseira que a classe dominante americana temia encontrar com Trump. Negociações com informações privilegiadas e corrupção acontecem o tempo todo no capitalismo – não há nada de novo nisso.
Mas, até agora, isso tem sido feito com certa sutileza e cuidados com as aparências. Raramente foi conduzido com tanta estupidez, raramente com um desrespeito tão flagrante e egoísta pelos interesses gerais da classe capitalista, que são aqui subordinados ao desejo de uma pequena camarilha pelos enriquecimento e engrandecimento.
Nos bastidores, a República Americana sempre foi o que o escândalo Epstein revelou. É um parque de diversões onde a elite bilionária pode desfrutar de qualquer prazer, por mais depravado que seja, sem consequências, onde políticos, intelectuais, mídia, judiciário – todos servem fundamentalmente aos interesses dessa classe e estão fundidos a ela.
No entanto, a elite dominante habilmente lançou um véu “democrático” sobre essa relação. Ela está repleta de corrupção, é claro, mas (geralmente) trata-se de corrupção praticada longe dos olhos do público.
Os arquivos Epstein trouxeram tudo à tona. Revelaram os detalhes precisos de como essa corrupção funciona.
Como funciona? Há um caso de um político europeu, fora do cargo, que procurou Epstein em busca de ajuda para conseguir uma lucrativa turnê de palestras pela Costa Oeste dos EUA. Epstein concordou. Mais tarde, esse político compartilhou informações diplomáticas com Epstein.
No caso do ex-príncipe Andrew, Epstein permitiu que ele usasse sua ilha particular e seu jato. E Andrew compartilhou com ele detalhes de oportunidades de negócios no Leste Asiático, surgidas durante sua viagem como enviado comercial do Reino Unido. Ele ajudou Epstein a impressionar um amigo rico, mostrando-lhe o Palácio de Buckingham. Esse amigo rico certamente teria ficado impressionado com o valor de uma amizade com Epstein, que poderia até mesmo conectá-lo à realeza. Sem dúvida, para cultivar essa amizade, ele retribuiria favores a Epstein.
Essa corrupção raramente era tão direta quanto dinheiro em envelopes pardos. Consistia em muitos favores indiretos. É a corrupção indireta que se torna ainda mais completa por ser indireta.
Epstein enriqueceu-se fabulosamente sendo um intermediário inestimável, capaz de conectar políticos, diplomatas e empresários. Ele podia conseguir informações, canais secretos com ministros de governo, turnês de palestras, acesso à realeza, contatos com advogados renomados – ou podia traficar garotas menores de idade.
O abuso sexual de meninas entrou nesse contexto como apenas uma peça desse carrossel de corrupção e decadência, além de ser um meio de chantagem para manter o sistema unido. É produto dessa sensação de impunidade, onde tudo é permitido para essa elite todo-poderosa.
Trump e a classe capitalista dos EUA
A classe dominante está permanentemente envolvida em níveis de corrupção tão profundos e generalizados que passou a acreditar que não há limites para seus privilégios e que é invulnerável. Trump apenas pegou essa situação e a expressou da forma mais grosseira possível, para alarme dos representantes mais inteligentes do capital.
Foi publicado um interessante artigo pelo Financial Times em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, intitulado “O discreto terror da burguesia americana”, que resumia o pensamento da classe capitalista sobre Trump:
“A elite [americana] detestava o consumo ostentoso e a cultura de baixo nível. Naquela época, assim como agora, Donald Trump encabeçava a lista dos párias. Sua vitória fortaleceu e destruiu sua visão de mundo. Por trás da convicção de que Trump estava errado, esconde-se uma angústia que não ousa dizer seu nome. Trump é uma distração de um acerto de contas que não pode ser adiado para sempre. O que as elites americanas verão quando olharem para dentro de si mesmas? A primeira coisa que verão será o choque do autoconhecimento…”
“Em algum lugar do nosso subconsciente burguês reside a percepção de que o Sr. Trump não é um acidente. Ele nos apresenta um espelho distorcido que reflete nossas ilusões.”
A principal queixa da classe dominante contra Trump, a razão pela qual a maioria de seus membros se uniu contra ele nas eleições de 2024, é precisamente o fato de ele ser um reflexo deles, de ele ser como eles.
Mas, sendo um dissidente, ele não se importa em zelar pelos interesses da classe dominante como um todo. Ele se preocupa apenas com seu próprio enriquecimento pessoal, sua ascensão, sua fama, sua popularidade e o lugar que imagina estar conquistando na história.
Estrategistas inteligentes do capital ficaram horrorizados com a disposição de Trump em explorar demagogicamente e de forma irresponsável a enorme raiva da classe média e trabalhadora contra o establishment corrupto e decadente, apenas para se elevar à Casa Branca.
Eles sabiam que ele inevitavelmente decepcionaria. E, uma vez esgotado seu apoio, a raiva que ele havia canalizado parcialmente por um tempo buscaria uma nova saída. Chegamos a esse ponto. E agora, a própria grosseria de Trump, seu completo desrespeito pelas formalidades de Estado, está alimentando essa raiva como uma forte rajada de vento alimenta o fogo.
As condições da classe trabalhadora
Em janeiro, Trump convocou na Casa Branca uma reunião com executivos do setor petrolífero com o objetivo explícito de convencê-los a participar da pilhagem imperialista do petróleo venezuelano. Mais uma vez, uma completa ausência de disfarce. A imprensa foi livremente convidada a assistir a um saque imperialista descarado. Todo presidente americano realiza inúmeras reuniões desse tipo – mas a portas fechadas!

Tudo isso foi feito às claras, no ambiente cada vez mais deslumbrante do Salão Oval. Hoje, esse salão é revestido de dourado, repleto de vasos de ouro e móveis com detalhes em ouro que emulam o estilo rococó que adornava o Palácio de Versalhes de Luís XIV. A aparência de austeridade dos Pais Fundadores ficou para trás.
Em determinado momento, os executivos perderam o interesse de Trump. Ele se levantou abruptamente e caminhou até a janela para observar o andamento da reforma de 500 milhões de dólares na Ala Leste da Casa Branca. O presidente encomendou a construção de um salão de baile com capacidade para mil pessoas. Assim como Versalhes, a Casa Branca está sendo decorada com seu próprio Salão dos Espelhos.
Esses não são detalhes que passam despercebidos. “Toda vez que vou ao supermercado, fico apavorado”, disse um jovem funcionário à NBC News. “Enquanto isso, vamos construir um salão de baile na Casa Branca? Como americano, isso me parece uma afronta.”
Mesmo antes desta guerra, os trabalhadores já recorriam a medidas extremamente desesperadas para sobreviver.
Desde 2015, houve um aumento de 235% no número de americanos que vendem seu plasma sanguíneo para empresas médicas com fins lucrativos. Nos EUA, é possível vender seu plasma 104 vezes por ano, em comparação com 60 vezes por ano na Alemanha, o segundo país com a legislação mais permissiva do mundo em relação à doação de sangue.
Por US$ 64, um trabalhador americano pode vender 10% do seu volume sanguíneo a cada duas semanas. Os sintomas potenciais incluem tontura, vertigem, fadiga e fraqueza muscular. Não é coincidência que esses sejam sintomas semelhantes aos da desnutrição, pois vender plasma significa, literalmente, vender os nutrientes do seu sangue.
Pesquisadores descobriram que, onde centros de coleta de plasma são abertos em bairros — e eles estão sendo abertos em ritmo recorde nos EUA —, o fluxo de pessoas em supermercados aumenta. Os trabalhadores estão vendendo os nutrientes do seu sangue, não para comprar artigos de luxo, mas para comprar os nutrientes que não podem pagar de outra forma!
“Estou revoltada por trabalhar tanto, por ser instruída, por ser articulada, por ter habilidades valorizadas no mercado de trabalho, e por estar reduzida a vender meu plasma”, disse a contadora Jill Chamberlain, de Phoenix, Arizona, à NBC News. “No começo, eu sentia vergonha, mas agora estou revoltada. As coisas não deveriam ser assim.”
Isso foi antes da Guerra contra o Irã. Era o tipo de raiva que Trump soube explorar com êxito durante a eleição de 2024, quando prometeu reduzir a inflação.
Agora, o preço da gasolina subiu 30%, e isso é só o começo. Levará tempo, mas as consequências desta guerra se farão sentir em todas as cadeias de abastecimento do mundo. Um preço altíssimo será pago pela classe trabalhadora, inclusive nos EUA.
Muitos trabalhadores, mesmo que não simpatizassem abertamente com Trump, ao menos sentiam um certo prazer em vê-lo despejar insultos sobre a ala liberal da classe dominante. Agora, enquanto os trabalhadores choram de dor, Trump tem uma mensagem para eles, no mesmo e inimitável estilo:
“A queda nos preços do petróleo a curto prazo, que ocorrerá rapidamente quando a ameaça nuclear iraniana for eliminada, é um preço muito pequeno a se pagar pela segurança e paz dos EUA e do mundo. SÓ OS TOLOS PENSARIAM DIFERENTE!”
O trabalhador americano é um tolo se não estiver disposto a pagar o preço que Trump estabeleceu para ele!
O futuro da guerra
Trump pensa em política da mesma forma que pensa no mercado imobiliário: usando sua imensa riqueza – ou, neste caso, seu poderio bélico descomunal – ele pode intimidar a concorrência e forçá-la a aceitar uma oferta irrisória. No mercado imobiliário, isso geralmente funciona a seu favor.
Ele não está acostumado a perder, mas nas raras ocasiões em que perdeu, sempre reagiu muito mal.
Dizem que ele e Epstein se desentenderam porque os dois entraram em uma disputa acirrada por uma mansão de 5.760 metros quadrados em Palm Beach. Trump ganhou, mas não sem que Epstein conseguisse um preço exorbitante, elevando o lance vencedor de Trump para US$ 42 milhões.
Foi isso, e não o abuso de crianças por Epstein, que supostamente foi a gota d’água para Trump.

O Irã é outra situação em que ele não pode sair vitorioso, e sua reação tem sido péssima. Ele se vê reduzido a um jogo desesperado, oscilando entre ameaças e declarações absurdas de vitória, voltando a ameaçar em seguida. Sem saída, é forçado a continuar uma guerra que inevitavelmente terminará em catástrofe para ele, para seu governo e para o capitalismo americano.
Uma semana após o início da guerra, ele convidou líderes evangélicos ao Salão Oval para orarem por ele e por sua desoladora missão. Certamente não faria mal pedir ajuda divina, pois ela não viria de nenhum outro lugar! A cena ridícula que foi capturada lembrava a Última Ceia.
O próprio Secretário de Defesa de Trump, Pete Hegseth, também apelou ao divino, invocando a Deus para que “derrame sua ira” sobre os ímpios e “quebre os dentes” do inimigo.
Alguns oficiais do Exército dos EUA parecem estar embriagados com esse absurdo. Nada menos que 200 queixas foram registradas contra oficiais que, segundo relatos, estão dizendo às suas tropas que esta é uma guerra religiosa, e até mesmo uma guerra para cumprir profecias e provocar o Armagedom!
Mas e entre as fileiras do exército e da marinha? Circularam histórias sobre soldados americanos que, sarcasticamente, faziam a saudação nazista com o refrão “Por Epstein!”. Aparentemente, essas histórias foram desmentidas. Mas é fato comprovado que camisetas e esfregões foram jogados nos vasos sanitários do USS Gerald Ford, e a questão de saber se o incêndio na lavanderia que deixou o navio inoperável foi criminoso ainda está sob investigação.
Não há razão para se pensar que os soldados americanos estejam mais felizes pagando por esta guerra com suas vidas do que os trabalhadores americanos estão felizes pagando por ela nos postos de gasolina.
A sensação que emerge é a de um enorme abismo separando a camarilha de Trump, toda a classe dominante e o resto da sociedade.
O lugar de Trump na história
Aparentemente, um grande fator motivador por trás da política de Trump é o seu desejo de garantir um lugar na história como um dos grandes presidentes dos EUA – aquele que trouxe de volta empregos, interrompeu o declínio dos EUA e acertou as contas com a Venezuela, Cuba e Irã, fazendo o que nenhum presidente antes havia feito. Ele sonhava em consolidar o imperialismo americano como nunca antes.
Quando foi eleito para seu segundo mandato em 2024, muitos na chamada esquerda também pareciam acreditar que ele teria êxito. Ficaram deprimidos, acreditando que sua eleição sinalizava uma guinada à direita na classe trabalhadora americana e o início de um longo inverno de reação.
Quando os livros de história forem de fato escritos – anos depois da revolução socialista ter se consolidado na América – certamente haverá um capítulo muito interessante para escrever sobre Trump. Contudo, ele não terá nenhuma semelhança com as esperanças expressas por Trump ou com o desespero expresso pela “esquerda”.

Isso mostrará como Trump, ao tentar restabelecer a poderosa base do imperialismo americano, na verdade expôs enormemente suas fragilidades e preparou uma derrota estratégica no Oriente Médio.
Pela primeira vez, pesquisas de opinião mostraram que mais americanos simpatizam com os palestinos do que com Israel – 41% contra 36%. Mesmo há um ano, em meio ao genocídio em Gaza, 46% dos americanos simpatizavam com Israel, contra 33% com os palestinos. Esta é outra mudança radical, uma conquista impressionante!
Trump deu ao mundo uma demonstração notável do funcionamento irônico da dialética na história. Tendo canalizado temporariamente a raiva de milhões de trabalhadores americanos contra o establishment para seus próprios fins, ele se transformou no próprio epítome da mesma elite monstruosa e corrupta contra a qual alegava protestar.
Longe de representar uma guinada à direita nos EUA, Trump apenas distorceu e surfou temporariamente em uma onda de enorme e crescente raiva de classe, que ele de fato incitou por um tempo.
Essa raiva tem o potencial de inclinar o sentimento da massa de trabalhadores drasticamente para a esquerda no período que se avizinha, sem paradas intermediárias. De maneira notável, ao conectar as questões da classe Epstein, da guerra imperialista e das condições de vida, a consciência dos trabalhadores está ultrapassando a chamada esquerda liberal, que antes os rotulava como “atrasados” e “reacionários”.
