Em 10 de abril, sábado de Páscoa de 1993, Chris Hani, dirigente do Partido Comunista Sul-Africano (SACP) e chefe de gabinete do uMkhonto we Sizwe (MK), o braço armado do Congresso Nacional Africano (CNA), foi assassinado. Hani era um dos dirigentes de massa mais populares do movimento revolucionário antiapartheid, perdendo apenas para Nelson Mandela. Ele era visto por muitos – especialmente entre os jovens negros – como um contrapeso radical aos dirigentes moderados do CNA que negociavam com o regime do apartheid.
Por volta das 10h20, Hani retornava para casa, em Dawn Park, Boksburg, após ter ido à banca comprar um jornal. Ao sair do carro, Janusz Waluś, um imigrante polonês de extrema-direita e anticomunista, membro do grupo fascista Afrikaner Weerstandsbeweging (AWB), aproximou-se e chamou sua atenção: “Sr. Hani”. Janusz atirou nele uma vez no corpo. Enquanto Hani caía no chão, seu assassino caminhou calmamente em sua direção e atirou mais três vezes no peito e na cabeça. Em seguida, voltou para o carro e fugiu. A filha de Hani, Nomakhwezi, de 15 anos, estava com ele no momento do assassinato.
Revolucionário comunista
Martin Thembisile Hani (conhecido como Chris no partido) nasceu em 1942 na vila de Cofimvaba, Transkei. Seu pai era um trabalhador migrante e ativista sindical que trabalhava nas minas e na construção civil. Ele teve contato com ideias radicais e marxistas por meio de publicações como Torch, órgão do Movimento de Unidade Não Europeia (NEUM), bem como das publicações comunistas New Age e Fighting Talk. Inicialmente, foi membro do NEUM, mas, aos 15 anos, ingressou na Liga da Juventude do CNA.
Ele estudou na University College de Fort Hare e foi lá, em 1961, aos 19 anos, que ingressou no Partido Comunista Sul-Africano. No ano seguinte, juntou-se ao braço armado do CNA, o uMkhonto weSizwe (a Lança da Nação).
Em entrevista a Luli Callinicos, Hani descreveu os motivos que o levaram a ingressar no Partido Comunista Sul-Africano:
“Por que me juntei ao Partido Comunista? Por que não me contentei com o Congresso Nacional Africano (CNA)? Eu pertencia a um mundo, em termos da minha origem, que sofreu, creio eu, os piores extremos do apartheid. Uma área rural pobre onde a maioria dos trabalhadores passava o tempo nos alojamentos, longe de suas famílias. Uma área rural onde não havia clínicas e onde o hospital mais próximo ficava provavelmente a 50 km. Uma vida de pobreza, sem acesso ao básico. Onde nossas mães e irmãs caminhavam 3 km, até 6 km, quando havia seca, para buscar água. Onde o único combustível disponível era ir a 5 ou 6 km de distância para cortar lenha e trazê-la para casa. Esse era o tipo de vida. Eu tinha visto a situação dos trabalhadores negros, formas extremas de exploração. Salários de escravos, sem direitos sindicais, e para mim o apelo do socialismo era extremamente grande. Dizia-se que os trabalhadores criam a riqueza, mas, no fim das contas, não recebem nada. Recebem uma miséria para sobreviver e continuar trabalhando para os capitalistas. Então, foi essa abordagem simples, essa compreensão simples que foi produto da minha própria observação, além da teoria.”
Após se mudar para a Cidade do Cabo, foi preso e condenado a 18 meses de prisão por distribuir material político. Enquanto aguardava o recurso em liberdade sob fiança, fugiu do país. Nos 28 anos seguintes, organizou as forças do CNA no exílio, além de lutar no Zimbábue em 1967 contra o regime racista de Ian Smith na Rodésia.
O Memorando Hani
Em 1969, ele foi o primeiro de cinco membros proeminentes do braço armado a assinar o chamado Memorando Hani, uma crítica mordaz à burocratização e ao aburguesamento da direção do CNA e do MK. O memorando começava assim:
“Nós, como revolucionários genuínos, estamos abalados com a profundidade assustadora atingida pela corrupção no CNA e pela desintegração do MK que acompanha essa corrupção.”
As críticas se concentraram na corrupção e no estilo de vida da direção da organização no exílio, em contraste com as condições de vida das massas negras oprimidas em seu país:
“Estamos impressionados com o carreirismo da direção do CNA no exterior, que, em todos os sentidos, tornaram-se políticos profissionais em vez de revolucionários profissionais. Fomos forçados a concluir que o pagamento de salários a pessoas que trabalham em escritórios é muito prejudicial à perspectiva revolucionária daqueles que recebem tais quantias. Não há dúvida de que esses pagamentos corrompem os quadros em qualquer nível e têm o efeito de fazer com que as pessoas desempenhem suas funções ou ocupem cargos por incentivo financeiro, em vez de dedicação à causa.”
O texto também criticava os métodos burocráticos policiais usados para eliminar a dissidência:
“O Departamento de Segurança é dirigido para o interior. Não está fazendo nada contra o inimigo. Não alcançou nada de importância militar. (…)
“No exercício de suas atividades internas, o Departamento de Segurança tornou-se notório. Aqueles que nele servem têm a tarefa central de suprimir e perseguir quadros dedicados do MK, que nada têm a perder participando da luta, exceto suas correntes.”
Por fim, criticou-se a separação entre a organização militar e a organização política.
As críticas apresentadas no memorando expressavam a frustração de uma camada de revolucionários genuínos com seus dirigentes pequeno-burgueses. Contudo, suas críticas não foram suficientemente abrangentes. A questão política e estratégica crucial era a teoria das duas etapas, a rígida separação entre a chamada Revolução Democrática Nacional e a luta pelo socialismo, imposta pelo Partido Comunista Sul-Africano (SACP) stalinista ao Congresso Nacional Africano (CNA). Nesse esquema stalinista rígido, a Revolução Democrática Nacional, que deveria ser dirigida pelo CNA, seria a primeira fase, que levaria à derrota do apartheid e ao estabelecimento de uma democracia burguesa. Somente depois disso a questão do socialismo seria levantada, e o SACP se tornaria, de alguma forma, a força motriz.
Os signatários do memorando foram suspensos, mas a direção do CNA, chefiada por Oliver Tambo, foi forçada a convocar a Conferência Consultiva de Morogoro de 1969, que publicou um documento de estratégia e táticas em tom radical, elaborado pelo dirigente do SACP, Joe Slovo. A juventude revolucionária queria inscrever o socialismo no programa, mas foi impedida pelos dirigentes do SACP. O documento falava da luta armada pela tomada do poder, mas a concebia como parte de uma mítica Revolução Democrática Nacional. Algumas referências ao socialismo, ao papel da classe trabalhadora e à “completa emancipação política e econômica de todo o nosso povo” foram introduzidas como concessões aos radicais, e os combatentes do MK suspensos foram reintegrados. Um Conselho Revolucionário foi estabelecido, o que garantiu o domínio do SACP sobre a linha política do CNA.
Ao longo de todo esse episódio, Hani demonstrou sua independência e lealdade aos princípios revolucionários, características que o ajudariam a consolidar sua imagem como um dirigente radical, intimamente ligado às aspirações da base revolucionária do movimento.
Ele sobreviveu a três tentativas de assassinato. A partir de 1974, foi membro do Comitê Executivo Nacional do CNA e, em 1987, foi nomeado chefe do uMkhonto we Sizwe.
Revolução ou negociações?
A partir de meados da década de 1980, a África do Sul vivenciava um período de grande agitação revolucionária. A poderosa federação sindical COSATU foi formada em 1985, organizando as fileiras do proletariado negro. Em 1986, ocorreu o levante de Soweto, que foi sufocado em sangue pelo regime do apartheid. Em maio de 1987, mais de 2,5 milhões de trabalhadores aderiram a uma greve nacional por um salário digno. Seguiu-se a histórica greve de 21 dias, com a participação de 340 mil mineiros.
Finalmente, em 1989, uma campanha Nacional de Desobediência Civil levou centenas de milhares de pessoas a agir, por meio de greves, boicotes e manifestações em massa contra todo o regime do apartheid. Esse movimento forçou o governo a suspender a proibição das organizações de massa, incluindo o CNA. Foi nesse momento, com a legalização do CNA em 1990, que Chris Hani pôde retornar à África do Sul.
A classe dominante estava dividida. Perceberam que seu sistema não poderia ser mantido por meio da repressão, pois isso acarretaria o risco de provocar uma revolução em larga escala que acabaria com o capitalismo e, com ele, com seu poder, riqueza e privilégios. Ao mesmo tempo, tinham plena consciência de que “uma pessoa, um voto” significava um governo majoritário do CNA, e temiam que isso pudesse abrir as comportas de um movimento rumo à expropriação do capitalismo. Os elementos mais perspicazes perceberam que precisavam se apoiar e confiar nos dirigentes da classe média do CNA para manter as massas sob controle e garantir a continuidade do capitalismo, por meio de reformas democráticas substanciais.
De volta à África do Sul, Hani dedicou-se ao movimento revolucionário de massas. Em setembro de 1992, desempenhou um papel fundamental na campanha de mobilizações em massa que culminou no infame Massacre de Bisho. Em 7 de setembro, cerca de 80.000 manifestantes, dirigidos por Chris Hani, Cyril Ramaphosa e Ronnie Kasrils, marcharam em direção a Bisho (então capital do chamado bantustão de Ciskei, estabelecido pelo regime do apartheid). Seu objetivo era derrubar as autoridades militares fantoches no bantustão e reintegrar Ciskei à África do Sul.

Enquanto os manifestantes tentavam contornar uma cerca de arame farpado, soldados da Força de Defesa de Ciskei (CDF) abriram fogo com armas automáticas e lançadores de granadas sem aviso prévio. O massacre resultou em 28 mortes e mais de 200 feridos.
Nessas condições, a direção em torno de Mandela – que buscava o compromisso para preservar o capitalismo na África do Sul – desempenhava um delicado papel de equilíbrio para manter a base revolucionária sob controle. Os trabalhadores e os jovens viam a luta pela democracia como parte integrante da luta por empregos, reforma agrária, moradia, etc. Essa pressão de baixo para cima se expressava nas posições e discursos mais radicais de algumas das figuras de destaque, que estavam mais próximas das aspirações revolucionárias da base. Chris Hani era o mais proeminente deles.
Anos mais tarde, o Wikileaks revelou um telegrama diplomático secreto dos EUA que discutia as diferentes personalidades de Chris Hani e Thabo Mbeki (que viria a se tornar presidente da África do Sul em 1999).
“3. Se Mbeki e Hani (ambos com 48 anos) ainda mantiverem uma amizade próxima, ficaríamos surpresos. (…)
“4. Mbeki é o diplomata por excelência, considerado o principal responsável pela mudança geral na política diplomática, que passou da luta armada para as negociações nos últimos anos. (…)
“5. Embora Hani, sem dúvida, apoie a política oficial do CNA, ele se mantém muito próximo dos limites quando se trata do papel do uMkhonto we Sizwe (MK). Muitas de suas declarações públicas, que o SAG [governo sul-africano] considera inflamatórias e contrárias ao espírito dos acordos CNA-SAG, só poderiam complicar o trabalho de Thabo de fazer as negociações avançarem rapidamente. (…)
“6. Dois estilos políticos dificilmente poderiam ser mais diferentes do que o de Mbeki e o de Hani. Mbeki adota uma abordagem imparcial e ponderada para as questões, as quais apresenta em termos discretos. Sua autoridade para lidar com funcionários do SAG, magnatas da indústria, líderes de opinião sul-africanos brancos, enviados estrangeiros, etc., só perde para a de Mandela. (…)
“8. Hani é mais um homem do povo. Geralmente, ele se mantém afastado do processo de negociação (exceto como presidente do grupo de trabalho sobre ações armadas, onde, segundo relatos, desempenha um bom trabalho quando participa). Ele evita contatos com diplomatas, jornalistas, empresários, etc., mas aparece frequentemente em palanques públicos nos bairros da periferia vestindo uniformes quase militares e proferindo discursos inflamados que empolgam e encantam a plateia. Hani pode muito bem cultivar essa imagem radical até certo ponto e, conscientemente, permitir ser usado pelo CNA como um contraponto ao esforço do CAP [Congresso Pan-Africano] para conquistar a alma da juventude dos bairros da periferia.”
Claramente, Hani estava firmemente comprometido com a política de duas etapas da direção do PC Sul-Africano e do CNA, ou seja, a necessidade de uma etapa nacional e democrática separada e distinta da luta pelo socialismo. Ele chegou a falar publicamente sobre a necessidade de uma “economia mista”, ao mesmo tempo em que defendia a nacionalização e a reforma agrária.
Mas também falava sobre socialismo, luta de classes e era o dirigente mais visível do PC Sul-Africano (SACP). Dos dirigentes nacionais do movimento, ele era um dos que sofriam maior pressão radical da base, o que se refletia no tom de seus discursos em comícios de massa. Ele assumiu a direção do PC na época do colapso da União Soviética, quando metade dos membros do comitê central do partido havia renunciado aos seus cargos.
Ele recusou participar do futuro Governo de Unidade Nacional, talvez por ter sérias reservas quanto à situação geral e às concessões que estavam sendo feitas:
“As regalias de um novo governo não me atraem… os verdadeiros problemas do país não são estar no gabinete ou ser um ministro importante, mas sim o que fazemos pela melhoria social das massas trabalhadoras do nosso povo.”
O assassinato de Hani
O assassinato de Hani em 1993 eliminou um personagem que poderia ter servido como um ponto de convergência para um desafio radical a Mandela e Mbeki.
Isso levou a uma enorme onda de raiva e revolta que, por mais de dez dias, paralisou o odiado regime do apartheid. O apartheid capitalista poderia ter sido varrido se houvesse uma direção revolucionária capaz e disposta a conduzir o movimento à vitória. Como comentou Ted Grant:
“Houve muitos momentos em que o processo [a tentativa de alcançar uma solução negociada entre o regime do Apartheid e os dirigentes do CNA, incentivada pelo imperialismo estadunidense] parecia estar a ruir. Um deles foi após o assassinato de Chris Hani, quando os jovens negros se revoltaram e exigiram uma ação por parte dos dirigentes do CNA. A única resposta que receberam foi ‘mantenham a calma’”.
Os dirigentes do CNA só conseguiram conter a onda de protestos que se seguiu ao seu assassinato com grande dificuldade e usando toda a sua autoridade. Mandela teve permissão para fazer uma transmissão ao vivo pela televisão, na qual pediu calma e reconciliação, enquanto as massas queriam luta e vingança.
Seis milhões de pessoas saíram às ruas em 15 de abril de 1993 em uma enorme greve geral de protesto. Uma testemunha ocular descreveu algumas das cenas ao Socialist Appeal (edição 12, maio de 1993):
“Ações espontâneas no dia seguinte ao assassinato tiraram Mandela do caminho. Na Cidade do Cabo, as dezenas de milhares de manifestantes superaram em número até mesmo as multidões que comemoraram a libertação do camarada Mandela em fevereiro de 1990.”
“A juventude africana dominou a cena. Como de costume, o ritmo do toyi-toying [uma dança sul-africana realizada nos protestos] determinava a militância dos manifestantes. Desta vez, o toyi-toying era uma corrida rápida que só os jovens conseguiam acompanhar.”
“Manifestantes afluíram ao centro da cidade vindos de todas as direções.
“Ao entrarem na cidade, sua raiva e militância explodiram em atos de destruição espontânea.”
A raiva das massas, particularmente a dos jovens, também se dirigia aos dirigentes do movimento que, em vez de organizarem a luta, insistiam em pedir paz e negociações:
“Embora tenha sido anunciado no rádio e repetido na imprensa que o local da cerimônia comemorativa seria a Catedral de São Jorge, ao chegarem, os manifestantes foram impedidos de prosseguir e encaminhados para o Grand Parade.
“Enquanto isso, algumas autoridades e figuras importantes discursavam na Catedral. O povo, então, teve que esperar sob o sol escaldante pela chegada de seus dirigentes, incluindo Muhammad Ali. Após uma longa espera, apenas o sistema de som chegou. A essa altura, a paciência do povo já havia se esgotado a tal ponto que um dirigente nacional do CNA, Trevor Manuel, foi agredido por membros da multidão quando fez um apelo por paz e ordem.”
“Em Soweto, no mesmo dia, Mandela foi vaiado quando pediu a continuação das negociações com o Partido Nacional, um evento sem precedentes. (…)
“No Cabo Oriental, a região que normalmente mostra o caminho, houve ataques a delegacias de polícia e prédios municipais.”
Artigos na mídia burguesa da época descrevem o estado de ânimo:
“O protesto nacional, um dos mais violentos dos últimos meses, refletiu a profunda raiva pelo assassinato de Hani no último sábado, supostamente cometido por um extremista branco, e o crescente descontentamento com a lentidão das negociações em comunidades carentes ainda assoladas pela pobreza extrema e ávidas por mudanças…”
“O derramamento de sangue demonstrou, mais uma vez, a incapacidade da polícia sul-africana de controlar os protestos sem o uso de força letal… Mas os tumultos e saques que acompanharam dezenas de marchas, da Cidade do Cabo e Port Elizabeth a Durban e Joanesburgo, também demonstraram a incapacidade dos dirigentes do ANC de controlar seus apoiadores mais radicais e jovens.”
“Muitos desses seguidores desconfiaram da decisão do CNA de participar de negociações constitucionais com o governo da minoria branca e apoiaram essas negociações apenas por respeito a Hani, um dirigente popular do CNA e negociador-chave. (…)
“O clima de raiva em Soweto já era evidente antes, durante o discurso de Mandela. Entre os cartazes erguidos pela multidão, alguns diziam: ‘De Klerk deve ser assassinado pela morte de Hani.’
“Embora Mandela tenha sido recebido calorosamente na tribuna, foi vaiado e hostilizado quando fez uma referência amigável às manifestações de solidariedade pela morte de Hani vindas do Partido Nacional de de Klerk, no poder. (…)
“Durante uma marcha na Cidade do Cabo, jovens negros saquearam dezenas de lojas durante um confronto de duas horas, no qual um jovem negro foi morto a tiros, um observador da paz foi esfaqueado, um policial foi baleado e ferido, e um membro do CNA, Trevor Manuel, foi agredido por seus próprios apoiadores enquanto tentava restabelecer a ordem.”
O jornal The New York Times também noticiou a raiva das massas, por vezes dirigida aos dirigentes do CNA ou em desafio a eles:
“Em todo o país, os agentes de controle de multidões destacados pelo Congresso Nacional Africano (CNA) tiveram dificuldades para conter os jovens enfurecidos, muitas vezes sem êxito. Na Cidade do Cabo, Durban, Port Elizabeth, Pietermaritzburg e outras cidades, os protestos se transformaram em atos de vandalismo, saques, incêndios e confrontos com a polícia.
“Sem paz! Guerra! Guerra!” gritavam os manifestantes na Cidade do Cabo, onde duas pessoas morreram e um trem descarrilou. Entre as dezenas de feridos na Cidade do Cabo, estava um proeminente dirigente negro que levou um soco no rosto enquanto tentava conter os manifestantes.
“…para o Congresso, foi uma demonstração embaraçosa da discrepância entre a direção moderada e conciliadora e os jovens indisciplinados e descontentes dos bairros periféricos.”
“Em um anfiteatro perigosamente lotado em Soweto, Nelson Mandela, presidente do CNA, esforçou-se para explicar a necessidade de disciplina e não violência a uma multidão que se aglomerava em frente ao palco e murmurava impacientemente durante todo o seu discurso.
“Seus comentários desconexos eram interrompidos pelo estalo de fogos de artifício que simulavam tiros e por vaias quando o Sr. Mandela mencionou seus parceiros de negociação no Partido Nacionalista, então governado pela minoria branca.”
“‘Todos podemos ver que ele está muito velho e não quer lutar’, disse Raseleti Komane, uma desempregada de 38 anos de idade de Soweto, sobre o Sr. Mandela, de 74 anos. ‘Nós queremos lutar.’ (…)
“O Congresso Nacional Africano mobilizou centenas de observadores que, no passado, demonstraram grande habilidade em conduzir multidões para longe de conflitos, e o Sr. Mandela apareceu repetidamente na televisão para implorar ao público que renunciasse à violência.”
Na ausência de uma direção revolucionária capaz de canalizar a raiva e o poder do proletariado sul-africano na luta para derrubar não apenas o apartheid, mas também o capitalismo, o assassinato de Hani acelerou a transição para uma democracia capitalista.
Mandela e a direção do CNA usaram toda a sua autoridade para conter o movimento e reiniciar as negociações com o regime. O resultado dessas negociações foi a preservação da riqueza econômica, enquanto o poder estatal foi transferido para as mãos das elites do ANC.
Os dirigentes do CNA já haviam se comprometido firmemente com o capitalismo e, por meio das cláusulas de extinção gradual – que previam o fim do apartheid ao longo de cinco anos de compartilhamento de poder entre o CNA e o antigo regime – rejeitaram até mesmo medidas moderadas de nacionalização e reforma agrária, que eram parte integrante da Carta da Liberdade, o documento orientador do movimento. Nesse momento, Mandela disse a de Klerk que era necessária uma data para eleições democráticas a fim de acalmar as massas.
Hani foi assassinado por um neonazista polonês, Janusz Waluś, membro ativo da notória gangue supremacista branca AWB. Mas ele não agiu sozinho. A arma que usou foi dada a ele por Clive Derby-Lewis, que era o Ministro Sombra para Assuntos Econômicos do Partido Conservador. A arma havia sido roubada de uma instalação militar. Tanto Waluś quanto Derby-Lewis foram condenados à morte, mas suas sentenças foram comutadas para prisão perpétua com a abolição da pena capital.
Ao longo dos anos, houve uma forte suspeita de que eles não agiram sozinhos, mas isso nunca foi totalmente investigado. Alguns apontam para a participação dos Vlakplaas C10, os esquadrões da morte do serviço secreto do regime do apartheid, no assassinato. Certamente, os serviços secretos já haviam participado de vários planos para assassinar Chris Hani anteriormente, na África do Sul e no Lesoto.
Derby-Lewis foi libertado sob condicional por motivos médicos em 2016 e morreu pouco depois, sem demonstrar arrependimento. Ele sempre afirmou ter agido “em defesa do meu povo, que estava ameaçado por uma tomada de poder comunista”.
Waluś foi libertado sob condicional em dezembro de 2022, em meio a protestos da viúva de Hani.
Mais de 30 anos após o assassinato de Chris Hani, a democracia capitalista na África do Sul não trouxe benefícios para a maioria da classe trabalhadora negra que lutou com grande sacrifício para conquistar a liberdade. Assim, suas palavras em defesa do socialismo permanecem relevantes:
“Para os miseráveis da Terra, os 90% da humanidade que vivem na sociedade capitalista, o socialismo é a única resposta, a história não acabou… construiremos uma sociedade nova e justa.”
