Nestes tempos conturbados, tenhamos um pouco de compaixão pelo pobre Keir Starmer. O azarado primeiro-ministro britânico não tem um minuto de paz.
[Publicado originalmente em Communist.red]
Tudo – e todos – parece estar conspirando contra ele. E os acontecimentos, tanto no Reino Unido quanto no exterior, dificilmente trarão algum alívio.
Entre os eleitores, Starmer é o primeiro-ministro mais impopular da história recente – como certamente se verá nas próximas eleições de maio. O líder trabalhista e seu partido estão a caminho de sofrer uma derrota esmagadora nas disputas pelas cadeiras nos parlamentos regionais da Escócia e do País de Gales, bem como nas eleições para os conselhos locais (o equivalente a nossas eleições municipais).
Mas não é só o eleitorado que, com razão, despreza Starmer. Ninguém está satisfeito com o atual ocupante do número 10 de Downing Street. Do outro lado do Atlântico, Donald Trump também está furioso com a incompetência de seu homólogo britânico.
Irritado com a recusa do governo britânico em se juntar à sua desastrosa guerra contra o Irã, o presidente americano atacou repetidamente Starmer, afirmando que o primeiro-ministro trabalhista “não é um Winston Churchill” e ameaçando romper o acordo comercial entre o Reino Unido e os EUA caso o normalmente obediente cãozinho de estimação de Washington não ceda ao chamado de seu dono.
É claro que a posição de Starmer em relação à guerra de Trump não tem nada a ver com princípios políticos, e sim com conveniência política.

O líder trabalhista demonstrou repetidamente que não se importa em bajular e adular seu chefe na Casa Branca. Mas, com o público britânico nada disposto a aceitar um Iraque 2.0, com os Verdes de Zack Polanski pressionando-o e as eleições se aproximando, Starmer calcula que algumas declarações anti-Trump e uma pitada de desafio fingido podem ser bem recebidas tanto pelos eleitores quanto pelos parlamentares da base.
Febre militarista
Trump não é o único belicista imperialista a exigir mais de Starmer. Chefes militares do Reino Unido também estão denunciando os líderes trabalhistas por sua incapacidade de rearmar e reequipar rapidamente as forças armadas britânicas, que estão debilitadas e em ruínas.
Entre eles está Lord George Robertson, ex-secretário-geral da OTAN, que acusou o governo de Starmer de demonstrar uma “complacência corrosiva” em relação aos gastos com defesa, colocando assim o país “em risco”.
O que Robertson e seus semelhantes estão dizendo, sem nenhuma sutileza, é que o governo precisa cortar ainda mais os benefícios sociais para financiar a guerra; que bilhões a mais precisam ser desperdiçados em bombas e derramamento de sangue; que as necessidades dos trabalhadores, dos pobres e dos vulneráveis precisam ser ainda mais sacrificadas em prol dos interesses do imperialismo britânico.
Em outras palavras, para apaziguar Trump e esses fanáticos militaristas, Starmer e seus aliados teriam que declarar guerra à classe trabalhadora. Mas, assim como no ataque imprudente do presidente americano ao Irã, esse é um conflito que os líderes trabalhistas certamente perderiam. E aí reside o dilema do primeiro-ministro.
Paralisia política
O mesmo dilema se desenrola no plano econômico.
O capitalismo britânico já se encontra em uma situação crítica. E a tendência é que a guerra com o Irã a piore ainda mais, com a previsão de que a economia do Reino Unido seja mais afetada do que a de outros países capitalistas avançados em termos do impacto do conflito sobre o crescimento e a inflação.
Para a classe trabalhadora, isso significa aumento do desemprego e do custo de vida. Para Starmer e seus ministros, por sua vez, significa maior pressão sobre as finanças públicas, com queda na arrecadação de impostos e aumento dos gastos com assistência social – principalmente se o governo introduzir subsídios de energia para amenizar o impacto do aumento das contas.
Isso, por sua vez, está deixando os detentores de títulos da dívida britânica – os banqueiros e bilionários que compram a dívida do país e emprestam ao governo – cada vez mais nervosos. E eles estão exigindo cortes mais profundos dos líderes trabalhistas para acalmar seus nervos.

Mas, novamente, é aqui que os interesses políticos de curto prazo entram em conflito com os interesses de classe dos capitalistas.
O partido de Starmer está perdendo votos sem parar, principalmente para os Verdes, à sua esquerda. E os parlamentares trabalhistas sabem, nesse sentido, que aprovar novas medidas de austeridade seria como pedir que as galinhas votassem na raposa.
Daí a atual paralisia no Parlamento. Starmer não consegue aprovar os cortes necessários para que o capitalismo britânico se mantenha respirando. Ao mesmo tempo, a classe dominante não tem opção melhor quando se trata de um defensor capaz de levar adiante sua agenda.
Enquanto isso, os deputados trabalhistas temem demitir seu líder, receosos de que isso abra a Caixa de Pandora do caos político e econômico.
E assim, o primeiro-ministro, já fragilizado, segue lutando… por enquanto.
O Espectro de Epstein
Todos conseguem ver que Starmer é um homem com os dias contados. E, eventualmente, algo ou alguém lhe desferirá um golpe fatal.
Entre os muitos espectros que assombram Starmer está o de Jeffrey Epstein. O bilionário criminoso sexual tinha ligações com quase todos os setores da elite internacional e do establishment britânico. Isso incluía Andrew Mountbatten de Windsor, o ex-príncipe caído em desgraça, e Peter Mandelson, o ex-parlamentar Blairista e ex-embaixador nos EUA.
O primeiro-ministro enfrenta agora novas pressões – incluindo pedidos de sua renúncia – devido às revelações de que Mandelson foi nomeado para o cargo diplomático por Downing Street apesar de não ter superado as verificações de segurança oficiais. E novas investigações podem trazer à tona descobertas ainda mais explosivas e informações ainda mais prejudiciais.
Independentemente de quem sabia o quê e quando, essa saga escandalosa só reforçará a visão generalizada entre as pessoas comuns de que o Parlamento está repleto de cretinos corruptos – corroendo ainda mais a confiança pública no establishment podre e em suas instituições.
Como afirmou a deputada Zarah Sultana, do Your Party, ao questionar Starmer na Câmara dos Comuns: “O primeiro-ministro é um mentiroso descarado”. Assim como todos os outros políticos capitalistas, acrescentaríamos.
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Derrota esmagadora do Partido Trabalhista
Se o escândalo Epstein-Mandelson não acabar com o governo de Starmer, as eleições de 7 de maio poderão fazê-lo.
Na Inglaterra, nas eleições para os conselhos locais, o Reform UK de Nigel Farage e os Verdes de Zack Polanski devem infligir uma derrota humilhante ao Partido Trabalhista e aos Conservadores. Enquanto isso, na Escócia e no País de Gales, o SNP e o Plaid Cymru provavelmente fortalecerão suas posições no Parlamento Escocês (Holyrood) e no Parlamento Britânico (Senedd), respectivamente.
Tal resultado representaria uma rejeição ainda maior ao establishment político e ao status quo, e mais um prego no caixão do sistema eleitoral bipartidário britânico.
Resta saber se estas eleições levarão à queda de Starmer.
Por um lado, os resultados certamente serão uma humilhação para o Partido Trabalhista e um alerta para a derrota esmagadora que o partido e seus representantes podem esperar nas próximas eleições gerais.
Por outro lado, os deputados trabalhistas da base podem muito bem hesitar diante da perspectiva de tomar uma atitude contra seu líder, temendo a instabilidade imediata que isso poderia provocar.
“Algum tipo de disputa interna [pela liderança] confusa e sangrenta não vai nos ajudar”, observou a vice-líder trabalhista Lucy Powell, alertando seus colegas sobre as potenciais consequências da remoção de seu líder tão detestado.
Mandatos do capital
Por enquanto, os potenciais sucessores de Starmer parecem satisfeitos em esperar o momento certo para dar ao líder trabalhista a corda para se enforcar.
Além disso, figuras como Angela Rayner e Andy Burnham são, acima de tudo, carreiristas e oportunistas. E sem dúvida percebem que o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido é um cálice envenenado.
Na verdade, os desastres, dramas e dificuldades que se acumulam em torno de Starmer têm pouco a ver com suas qualidades pessoais, ou com a falta delas, e tudo a ver com a crise insolúvel do capitalismo britânico – e mundial.
Quem quer que ocupe o número 10 de Downing Street enfrentará os mesmos problemas e pressões: seja Burnham, Farage ou Polanski. Dentro dos limites do capitalismo, são os bilionários e banqueiros que, em última análise, decidem.
“Os detentores de títulos são os que realmente mandam”, afirma um CEO sem rodeios, em entrevista ao Financial Times, sobre as opções econômicas disponíveis para qualquer possível primeiro-ministro. “Não há flexibilidade. Eles poderiam destruir o país.”
Ou, como disse outro gestor de fundos: “Há um consenso geral de que não se pode mexer com o mercado de títulos.”
Governo em crise
Farage e seu grupo de rejeitados do Partido Conservador, também conhecido como Reform UK, parecem estar cientes dessa dura realidade, como evidenciado por suas tentativas nos últimos meses de moderar seu programa e atrair o apoio das grandes empresas.

As tentativas do Reform UK de diminuir as expectativas e conquistar a confiança do establishment capitalista, no entanto, levaram a uma queda notável nas pesquisas de opinião. E qualquer apoio que ainda possuam pode evaporar rapidamente assim que chegarem ao poder, comandando o navio afundando do capitalismo britânico.
Tal como aconteceu com Boris Johnson em 2019 ou com o Partido Trabalhista de Starmer em 2024, qualquer futuro governo de Farage teria pouco ou nenhum período de lua de mel, sendo um governo em crise desde o primeiro dia.
Isto seria ainda mais evidente hoje em dia para qualquer partido no poder, dada a deterioração da situação econômica, aliada à estreita base de apoio resultante de um cenário eleitoral fragmentado. A volatilidade é intrínseca à política britânica.
Revolução contra os bilionários!
Isso deve servir de alerta também para Polanski e os Verdes, que estão subindo nas pesquisas e se preparam para assumir o controle de conselhos locais em dificuldades financeiras.
Assim como aqueles que agora se juntam aos Verdes, saudamos a mensagem anti-austeridade vinda do partido e de seus líderes. Mas algumas perguntas permanecem sem resposta. Qual é a alternativa econômica aos cortes? Quem vai pagar pela crise na sociedade? Como financiar empregos dignos, salários justos e serviços de qualidade?
É claro que os recursos para tudo isso existe. Mas eles estão nas contas bancárias dos bilionários e dos chefões: as mesmas damas e cavalheiros que alimentam a guerra, com seu apetite insaciável por lucros; a mesma classe de elites capitalistas que forma o regime global de Epstein.
É por isso que, ao contrário dos reformistas tímidos, apelamos por uma revolução para expropriar os super-ricos; para expulsar todos os belicistas de Westminster e Washington; e para derrubar o capitalismo e o imperialismo, na Grã-Bretanha e internacionalmente.
Então junte-se aos comunistas hoje e organize-se na luta por um futuro revolucionário.
