No cotidiano sob o capitalismo e a sociedade de classes, a grande maioria das pessoas se sente alienada da sociedade, inclusive de sua arte e cultura mais elevados.
[Publicado originalmente em Communist.red]
Em uma revolução, tudo isso muda e se transforma radicalmente, à medida que as massas se mobilizam para transformar a sociedade. Consequentemente, em toda revolução, quase sempre há uma expressão artística correspondente ao desejo do povo comum por liberdade e uma vida digna.
A Revolução Francesa, como observou o marxista russo Georgi Plekhanov, fez da arte uma questão para as massas, e não apenas para a classe dominante. Os inúmeros feriados, procissões e celebrações baseados nos ideais da revolução confirmam isso.
A Revolução Russa fez o mesmo, abrindo as portas da arte e da cultura para as massas que nunca antes as tinham experimentado. Todo o país, incluindo o campesinato, foi varrido por uma “epidemia” de teatro, e trens de propaganda levaram imagens e sons a pessoas que não tinham experiência com nenhuma forma de arte.
Os críticos e acadêmicos burgueses, que são os guardiões da arte e da cultura em todas as sociedades de classes, nunca reconhecem ou admitem plenamente a conexão entre arte e revolução. E quando o fazem, é, em resumo, uma admissão relutante de que algumas das maiores obras de arte conhecidas pela humanidade são produtos diretos de revoluções.
Mas por que essas tendências surgem? Por que existe uma ligação entre revolução e arte?
Empobrecido e atrofiado
Parafraseando Marx, por meio de sua atividade e interações, o homem transforma o mundo e, nesse processo, transforma a si mesmo e sua consciência.
Por meio das revoluções, ao entrar em cena na história, os trabalhadores se tornam mais conscientes de seu papel na sociedade. É por meio das revoluções que as pessoas comuns se dão conta de sua pobreza, tanto espiritual quanto material. Elas abrem os olhos para como a vida poderia e deveria ser.
Em seus primeiros escritos, Marx explica que as manifestações da vida de um indivíduo são também uma expressão da vida social. Em outras palavras, o que fazemos conosco mesmos no dia a dia, no mundo, é inseparável de nossas relações uns com os outros na sociedade.
Usamos nossos sentidos não apenas passivamente, mas ativamente. Através do trabalho, transformamos o mundo ao nosso redor.
Mas, sob o capitalismo, somos alienados desse processo: não temos voz sobre o trabalho que realizamos; não possuímos nem controlamos os produtos do nosso trabalho; e, muitas vezes, nem sequer gostamos ou concordamos com o que produzimos. Assim, nossa atividade sensorial sob o capitalismo é necessariamente unilateral e atrofiada.
Caos e restrições
Além disso, estamos constantemente sujeitos a uma série aparentemente interminável de resultados arbitrários e caóticos do capitalismo.
Algumas pessoas, sem qualquer habilidade ou talento aparente, podem da noite para o dia alcançar um sucesso extraordinário ou enriquecer-se. Outras, mais capazes ou mais merecedoras, por sua vez, podem perder seus empregos ou seus meios de subsistência de maneira igualmente incompreensível.
Vincent Van Gogh morreu na pobreza e no anonimato, por exemplo, enquanto artistas como Damien Hirst hoje podem acumular fortunas sem sequer produzir suas próprias obras.
Na vida cotidiana sob este sistema, as pessoas não têm a capacidade de pensar, sentir e agir como seres humanos de verdade. A liberdade de buscar, apreciar e vivenciar a arte é o que nos permite viver uma vida plena e humana.
Como escreveu Marx: “A formação dos cinco sentidos é obra de toda a história do mundo até o presente. Mas o sentido preso à necessidade prática bruta só tem um sentido limitado.”
Inacessível e subfinanciado
Sob o capitalismo, as massas não têm a oportunidade de aprimorar sua sensibilidade artística. Podem estar ocupadas demais trabalhando longas horas apenas para sustentar a si mesmas e a seus entes queridos, sem tempo ou energia para a arte.
Esse trabalho é o oposto do trabalho consciente e prazeroso de criar ou se envolver com a arte. Como disse Marx: “a atividade do trabalhador não é sua atividade espontânea. Pertence a outro; é a perda de si mesmo”.
Alguns trabalhadores, embora não todos, podem nem mesmo apreciar a arte erudita. Podem, compreensivelmente, se sentir repelidos pelo mundo da arte pequeno-burguês fútil, ou pensar que não é para eles. Ou podem se acostumar – ou se contentar – com a “péssima” arte produzida pela indústria capitalista do entretenimento.
O acesso às artes também é proibitivamente caro sob o capitalismo. O alto custo de equipamentos, instrumentos, espaços para ensaio e treinamento contribui para isso.
Enquanto a escola particular Eton possui três espaços teatrais, duas salas de concerto e uma biblioteca musical completa, por exemplo, o orçamento da educação pública está sendo cortado em centenas de milhões de libras por ano, com o financiamento das artes sendo particularmente afetado.
Não é de admirar que haja dificuldades em se cultivar uma paixão pelas artes entre os jovens da classe trabalhadora, que sequer têm acesso a uma educação cultural adequada das escolas bem financiadas e totalmente equipadas.
Exploração e explosão
De fato, por milhares de anos, a cultura foi monopólio da classe dominante. A maioria das pessoas, enquanto isso, foi sistematicamente excluída do conhecimento, da ciência, da arte e da política.
A arte, sob uma sociedade de classes, está, portanto, separada da vida cotidiana, que, em sua maior parte, é uma luta árdua, alienante e brutal pela sobrevivência.
Mas, em uma revolução, tudo isso muda: aqueles que ontem eram oprimidos e marginalizados passam a se envolver repentinamente em uma atividade social extremamente complexa e envolvente.
Isso inclui coisas como greves em massa, sovietes e assembleias democráticas, ou outras formas de organização operária. Tanto na Revolução Alemã quanto na Russa, por exemplo, as massas oprimidas e exaustas pela guerra organizaram espontaneamente conselhos de massa de operários e soldados da noite para o dia.
Nesse processo, a população explorada consegue realizar coisas que jamais imaginou ser capaz. E, ao mesmo tempo, passa a apreciar uma arte mais complexa que expressa coisas muito mais profundas, como o desejo de mudar o mundo.
Até mesmo o campesinato oprimido e em sua maioria analfabeto da Rússia foi transformado pela Revolução de Outubro. Após a revolução, os camponeses se expressaram coletivamente encenando peças teatrais rurais ou cantando canções folclóricas, mesmo que não soubessem ler.
Durante a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1974, houve uma explosão de arte gráfica colorida, cartazes, murais e pinturas. Tudo isso surgiu das massas e foi a expressão de seu desejo por liberdade. Essa tradição de arte de rua em cidades como Lisboa ainda existe hoje.
Libertando o potencial
As revoluções, portanto, quando ocorrem, não são apenas necessárias para satisfazer necessidades materiais como comida e abrigo, mas também para libertar espiritualmente os seres humanos de sua pobreza – e para, literalmente, tornar nossos sentidos humanos novamente.
Mais uma vez, nas palavras de Marx:
“O homem sobrecarregado de preocupações e assolado pela pobreza não tem sensibilidade para a peça mais refinada; o comerciante de minerais vê apenas o valor comercial, mas não a beleza e o caráter específico do mineral: ele carece de sensibilidade mineralógica.”
Sob o capitalismo, geralmente não estamos em posição de enxergar o panorama geral; de ver as coisas como um todo, ou por si mesmas. Em vez disso, nossa visão da vida é limitada pelo nosso isolamento e pelas pressões imediatas do cotidiano.
Em uma revolução, e sob o socialismo, somos libertados dessa mentalidade humilhante e unilateral, e começamos a apreciar as coisas em sua plenitude.
A explosão sensorial da atividade humana que emerge da experiência prática de realizar uma revolução faz parte desse processo – do esforço dos seres humanos para se tornarem completos novamente. É isso que uma revolução proporciona às massas.
A burguesia gosta de pensar que somente ela nasceu com o direito de dominar a cultura: a ópera ou o balé; os conservatórios de música; ou as escolas de arquitetura. Mas todo ser humano tem o potencial para apreciar essas coisas e para se destacar em todas elas. E esse potencial artístico das massas será libertado quando elas se mobilizarem para transformar a sociedade.
O processo revolucionário nada mais é que a realização – tanto material quanto espiritual – de uma existência plena e de uma vida que valha a pena ser vivida. E é por isso que, como comunistas, lutamos para derrubar o capitalismo: pelo futuro da humanidade e pelo futuro da arte.
Nos vídeos do YouTube é possível acionar as legendas em português.
