Em 17 de maio, o veículo de mídia americano Axios publicou um artigo com a manchete: “Exclusivo: EUA atentos à ameaça de ataques de drones vindos de Cuba“. Essa peça escandalosa de desinformação seria risível se não fosse tão perigosa. O que temos aqui não é jornalismo, mas um site de notícias sendo usado para fabricar um pretexto para a agressão imperialista dos EUA.
A ideia de que Cuba, uma pequena nação sob bloqueio da potência imperialista mais poderosa da Terra, um bloqueio que levou a cortes de energia de 22 horas e a uma enorme crise econômica que está paralisando o país, esteja prestes a lançar um ataque ofensivo com drones contra a Marinha dos EUA e o território americano, é uma mentira descarada.
O Axios está sendo usado por alguém do grupo belicista dos EUA para construir um argumento a favor de um ataque militar contra Cuba, já que a brutal escalada da intimidação imperialista ainda não atingiu seu principal objetivo: esmagar a Revolução Cubana.
“Ameaça de ataques com drones de Cuba”?
O “artigo” começa de forma dramática:
“Cuba adquiriu mais de 300 drones militares e recentemente começou a discutir planos para usá-los em ataques à base militar americana em Guantánamo, a navios militares americanos e possivelmente a Key West, na Flórida, a 145 quilômetros ao norte de Havana.”
Desde o início, transmite-se uma sensação de urgência: “recentemente”, dizem-nos. Não se trata apenas de uma ameaça vaga, mas de algo iminente, afirmam. Para reforçar essa sensação de ameaça, são mencionados locais específicos para esses ataques com drones, incluindo Key West, uma pequena cidade com 25 mil habitantes. A implicação é clara: Cuba está preparada para atacar civis em solo americano!
Isso seria bastante sério se fosse verdade. Como Marc Caputo, o autor da “reportagem exclusiva” da Axios – hesito em chamá-lo de jornalista –, sabe dessa ameaça iminente de ataque? Bem, “de acordo com informações confidenciais compartilhadas com a Axios”.
Em outras palavras, um “alto funcionário da inteligência” decidiu que era hora de aumentar a pressão em relação a Cuba, de pintar a pequena nação caribenha como uma ameaça, a fim de justificar um ataque militar… e Marc Caputo achou que seria uma boa ideia publicar a notícia sem sequer se dar ao trabalho de verificar a informação que lhe foi passada.
Como diz o ditado, não deixe a verdade atrapalhar uma boa história e uma manchete sensacionalista!
Mas quem quer que tenha arquitetado essa pilha de mentiras achou que talvez apenas os drones não fossem suficientes para criar uma sensação de medo da maligna “ameaça cubana”, então resolveu apimentar um pouco mais a situação.
A ameaça não são apenas os drones, mas também os IRANIANOS! Vejamos: “o governo Trump vê Cuba como uma ameaça devido aos avanços na guerra com drones e à presença de conselheiros militares iranianos em Havana”.
Mais uma vez, Caputo aceita sua “fonte” (talvez “agente” descreva melhor essa relação) no Departamento de Guerra como verdadeira, não pede nenhuma prova e não faz nenhuma pesquisa por conta própria. Afinal, todo mundo sabe que há conselheiros militares iranianos em Havana! Ou será que não? Uma simples busca na internet revela que não há nenhum relato anterior de conselheiros militares iranianos em Havana. Nenhum. Isso nunca foi mencionado em nenhuma das tentativas do imperialismo americano de fabricar uma provocação contra Cuba.
Já que estamos falando nisso, Caputo e seu colega, um alto funcionário da inteligência, pensaram: quais outros bodes expiatórios podemos incluir nessa história de terror? Ah, claro: Rússia e China espionam os EUA a partir de Cuba; Cuba envia milhares de soldados para lutar na Ucrânia; e – a cereja do bolo – “é considerada a ‘cabeça da serpente’, exportando marxismo revolucionário por toda a América Latina”.
Preste atenção na linguagem: “é considerada”, considerada por quem? Alguma evidência, uma segunda fonte que corrobore a afirmação? Por que se preocupar? Certamente Caputo não precisa de nada disso; ele nasceu na Flórida, estudou na Universidade de Miami e tem “conhecimento e contatos únicos”. Ele sabe reconhecer o marxismo revolucionário sendo exportado quando o vê!
Análise da realidade
Mas até mesmo nosso amigo Caputo se sente um pouco desconfortável em publicar isso e quer se resguardar. Então, no final do artigo, ele se vê obrigado a adicionar uma ressalva:
“Análise da realidade: autoridades americanas não acreditam que Cuba seja uma ameaça iminente ou que esteja planejando ativamente atacar interesses americanos.”
Como assim?! Não é uma ameaça iminente? Não foi isso que ele acabou de escrever no título e nos dois primeiros parágrafos? Não era esse o objetivo da “exclusiva”? “É uma ameaça crescente”, disse seu oficial de inteligência logo no início do artigo.
Por que escrever um artigo inteiro exagerando uma ameaça cubana inexistente para, no final, acrescentar uma frase que destrói toda a premissa? Cuba não representa uma ameaça iminente e não está planejando ativamente um ataque aos EUA.
A razão é simples: a verdade não renderia uma boa manchete e não serviria ao propósito de fabricar um casus belli. Imagine se Caputo tivesse escrito na manchete: “Exclusivo: Cuba não é uma ameaça iminente e não planeja atacar os Estados Unidos”.
Então, se Cuba não planeja atacar interesses dos EUA – interesses que Caputo detalhou em seu parágrafo introdutório – do que estamos falando? Vejamos o que o amigo de Caputo nos diz:
“A inteligência americana indica que oficiais militares da ilha têm discutido planos de guerra com drones para o caso de hostilidades eclodirem à medida que as relações com os EUA continuam a se deteriorar.”
Em outras palavras, a inteligência americana acredita que as forças armadas cubanas discutiram o uso de drones para se defenderem em caso de um ataque dos EUA. Um ataque imperialista americano, sim, porque “hostilidades” não “eclodem” do nada.
Sejamos claros: Cuba tem o direito de se defender (ou esse direito é reservado apenas a Israel?) por todos os meios à sua disposição diante de uma escalada sem precedentes de ameaças e intimidação por parte dos EUA ao longo de mais de 60 anos, mas particularmente desde o início deste ano.
Espera-se que Cuba tenha adquirido drones e outros meios de defesa. Espera-se que esteja aprendendo com os iranianos como responder à agressão militar americana. Se não estivesse, seria uma traição.
Jornalismo sensacionalista
O objetivo do artigo no Axios, e da fonte da administração americana que o plantou através de Caputo, é cristalino: pintar Cuba como a agressora para oferecer alguma aparência de justificativa a um ataque imperialista.
Essa tática é tão antiga quanto a própria guerra, e os EUA se tornaram muito hábeis nela ao longo das décadas. O afundamento do USS Maine foi usado para manipular a opinião pública na guerra com a Espanha por Cuba no final do século XIX; o ataque a Pearl Harbor foi habilmente usado para influenciar a opinião pública a favor da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial; o fabricado “incidente do Golfo de Tonkin” foi usado para justificar uma declaração de guerra contra o Vietnã na década de 1960; armas de destruição em massa inexistentes foram usadas para lançar a invasão do Iraque em 2003.
Só neste ano, a alegação de que Nicolás Maduro era o chefe do inexistente Cartel de los Soles foi fabricada para legitimar seu sequestro em 3 de janeiro. Lembre-se de que a existência do Cartel de los Soles foi retirada da acusação formal dos EUA contra Maduro, uma vez que ele já estava sob custódia, depois de já ter cumprido seu propósito propagandístico.
A campanha imperialista dos EUA contra Cuba é um ataque multifacetado. Envolve medidas para destruir a economia cubana, um bloqueio naval ao petróleo, sanções extraterritoriais, ameaças e intimidação públicas, pressão diplomática, a ameaça de ação militar, voos de espionagem provocativos para coletar informações, mas também a mídia, que tem o papel de influenciar a opinião pública.
Este último artigo no Axios é um completo escândalo do ponto de vista jornalístico, algo que não deveria nos surpreender. A mídia capitalista é propriedade de bilionários (neste caso específico, a Cox Enterprises) que a utilizam para espalhar mentiras capitalistas.
Parece que agora perderam até mesmo a pretensão de manter a neutralidade e a veracidade. Isso sim é fake news (notícia falsa)! Nos últimos meses, o Axios parece ter se tornado o canal direto preferido do governo Trump para plantar notícias com o objetivo de manipular a opinião pública e enviar mensagens àqueles que os EUA desejam subjugar.
Com uma história como essa, Washington quer alcançar dois objetivos. O primeiro é justificar uma intervenção militar, preparar a opinião pública demonizando a potencial vítima e apresentar um ataque como uma manobra defensiva. Isso é dito abertamente no artigo de Caputo, que afirma, sem qualquer pudor, que essa “informação poderia se tornar um pretexto para uma ação militar dos EUA”.
O segundo objetivo é enviar uma mensagem à liderança cubana de que um ataque pode ser iminente, a menos que cedam à chantagem dos EUA, aumentando assim a pressão.
Repetimos: esperamos que Cuba esteja se preparando seriamente para uma agressão militar, inclusive adquirindo drones e estudando o fracasso americano no Irã.
Quanto à exportação do marxismo revolucionário pela América Latina, gostaríamos que isso tivesse acontecido, pois Cuba estaria hoje menos isolada. Essa é uma tarefa à qual nos dedicamos. O destino da Revolução Cubana será decidido, em última instância, na arena da luta de classes na América Latina e além. O marxismo revolucionário é um pré-requisito necessário para a vitória da classe trabalhadora.
Agora, mais do que nunca, dizemos: Tirem as mãos da Revolução Cubana!
P.S.: A reportagem do Axios detalhou os alvos supostamente ameaçados pelos drones cubanos, especificando que Key West estava em risco. No final do dia 17 de maio, o Gabinete do Xerife do Condado de Monroe, que abrange a área dos Florida Keys, foi obrigado a emitir uma refutação pública da reportagem do Axios.
O comunicado dizia:
“O xerife do Condado de Monroe, Rick Ramsay, não foi contatado por nenhuma autoridade federal ou estadual a respeito das notícias veiculadas no domingo sobre uma possível ação militar de Cuba contra a base militar americana em Guantánamo, utilizando drones.”
O xerife Ramsay é citado:
“Estou monitorando a situação, mas não fui contatado por nenhuma agência governamental e não acredito que haja motivo para preocupação.”
Seria de se esperar que, se o governo americano soubesse que aqueles cubanos incômodos representavam uma ameaça para Key West, o gabinete do xerife seria o primeiro a ser informado.
É inacreditável! Ou melhor, Caputo só poderia inventar uma história dessas, com uma ajudinha de uma fonte no Departamento de Guerra.
