A chegada do ano de 2026 não foi saudada pelo estouro de garrafas de champanhe, mas pelo som alegre de explosivos e luzes brilhantes que iluminaram as ruas adormecidas da capital venezuelana, proporcionando aos seus afortunados habitantes um espetacular show de fogos de artifício, totalmente gratuito, no meio da noite.
E uma VOZ veio de Washington, dizendo:
“PAZ na Terra, BOA VONTADE para com os homens.” Bem, QUASE todos os homens, pelo menos…
E a glória do Senhor caiu sobre as cabeças dos homens maus, em Caracas. Eles eram traficantes de drogas e de todo tipo de substâncias venenosas que se abateram sobre a população inocente dos Estados Unidos da América.
E eles eram terroristas, exportando armas nucleares para os quatro cantos da Terra. E eles eram comunistas, ateus, vegetarianos, canibais, homossexuais e muitas outras coisas, horríveis demais para descrever.
E a VOZ foi ouvida. E imediatamente surgiu uma poderosa armada de navios de guerra, armados até os dentes e navegando como um relâmpago em direção ao Mar do Caribe, obstinadamente empenhada na sagrada causa do estabelecimento da Paz na Terra, começando pela Venezuela.
Ora, o Senhor, que estava profundamente ofendido por aqueles HOMENS MALVADOS que PECARAM contra o Seu nome, recusando-se obstinadamente a seguir as Suas ordens, tinha à Sua disposição um grande arsenal e o exército mais poderoso que o mundo já viu.
O poderoso porta-aviões USS Gerald R. Ford, os contratorpedeiros USS Gravely e USS Stockdale, bem como cruzadores, navios anfíbios e todo tipo de armamento de destruição marítima.
Tal demonstração de força armada seria suficiente para incutir terror até nos corações dos mais obstinados malfeitores. Ela agora era posta à prova com todo o seu poder terrível contra um novo inimigo.
Naquele momento, alguns homens embarcavam para uma pacífica expedição de pesca, alheios ao grande pecado que haviam cometido perante o Senhor da Casa Branca.
E as bênçãos do Pacificador caíram sobre eles em torrentes. E eles ficaram apavorados. Mas, apegados irracionalmente aos prazeres deste mundo, agarraram-se desesperadamente aos destroços de sua nave destruída, enquanto os bravos pilotos que lhes haviam infligido esse merecido castigo, rapidamente retornavam à base:
“Missão cumprida!”
Ao receber a boa notícia, o comandante das forças dos justos, Pete Hegseth, ficou muito contente. Mas enfureceu-se ao saber que alguns sobreviventes, apegados irracionalmente à vida neste mundo pecaminoso, agarravam-se obstinadamente aos destroços do barco de pesca.
O corajoso comandante Hegseth imediatamente deu a ordem: “Matem todos!”
Sem hesitar, e sem demonstrar o menor temor, nossos valentes pilotos cumpriram a ordem com admirável precisão.
Por meio de tamanha eficácia, a superioridade dos Exércitos do Senhor sobre seus inimigos ficou clara para o mundo inteiro, e o significado da palavra Paz ficou evidente.
Certos indivíduos irracionais têm questionado a legalidade de tais operações. Eles perguntam, de forma irritante, com que direito a Marinha dos EUA realiza o naufrágio de pequenas embarcações e o assassinato a sangue frio de seus ocupantes em águas internacionais.
Eles também fazem perguntas incômodas sobre porque nunca foi apresentada uma única prova que os acuse de envolvimento com tráfico de drogas.
No passado, a Guarda Costeira dos EUA teria apreendido as embarcações em questão, abordando-as e revistando-as em busca de evidências de drogas. Em seguida, teria permitido que as embarcações continuassem navegando ou, então, teria prendido suas tripulações e as levado a julgamento.
Mas os caminhos do Senhor são misteriosos e insondáveis e não devem ser questionados por meros mortais. Essas insinuações ultrajantes não levam em conta o fato de que o Grande Pacificador na Casa Branca não é obrigado a levar em consideração tais minúcias legais. Ele reúne em si o direito de agir como juiz, júri e executor, tudo junto.
Este procedimento economiza muito tempo e dinheiro para o já sobrecarregado contribuinte americano.
O palco estava agora montado para o segundo ato deste drama caribenho.
Nicolás Maduro, o presidente da Venezuela, estava se comportando de maneira muito irracional. Após meses de discussões cansativas, ele havia cedido a todas as exigências feitas por Washington, exceto uma. Ele se recusava a renunciar à presidência e a deixar o país pela porta dos fundos.
Tamanha e incompreensível obstinação era demais para o homem no Salão Oval tolerar.
Após dezenas de ataques letais a pequenas embarcações perto da costa venezuelana, a grande armada começou a apreender petroleiros que transportavam petróleo venezuelano.
Ora, apreender embarcações de um país estrangeiro envolvidas em comércio pacífico em alto-mar, longe de ser uma atividade normal de diplomacia, assemelha-se mais a um ato flagrante de pirataria. No entanto, longe de tentar justificar tais métodos, Donald J. Trump vangloriou-se abertamente deles, afirmando inclusive que pretendia manter o petróleo confiscado em benefício dos EUA.
Dessa forma, a pirataria é seguida por um ato flagrante de roubo, onde um país simplesmente se apropria da propriedade de outro para seu próprio benefício.
Observamos que nenhuma dessas ações jamais encontrou a menor queixa, crítica ou protesto por parte de qualquer um dos chamados estados civilizados e democráticos pertencentes ao que antes era conhecido como “Ocidente coletivo”.
Nesse ponto, o grande banquete da Paz e da Humanidade poderia ser celebrado em grande estilo. O primeiro item do cardápio foi um agradável aperitivo.
O aperitivo
Em 25 de dezembro, Donald J. Trump anunciou que a Força Aérea dos EUA havia acabado de concluir com sucesso uma missão de paz na distante Nigéria.
Trump disse ao portal de notícias Politico que ordenou os ataques de 25 de dezembro como “um presente de Natal” – na forma de ataques “poderosos e mortais” contra militantes ligados ao grupo Estado Islâmico (EI).
Este pequeno e agradável aperitivo foi, sem dúvida, uma tentativa de agradar a um grande número de fanáticos religiosos que representam uma parte significativa da base eleitoral de Trump.
Há algum tempo, os líderes desses fanáticos vêm alardeando massacres supostamente cometidos contra cristãos na região norte daquele país.
Esta foi, sem dúvida, uma tentativa de inflamar o sentimento anti-islâmico e, assim, indiretamente, aumentar o apoio a Israel nos EUA.
Esta versão é contestada por autoridades nigerianas, que apontam que o EI massacra indiscriminadamente tanto muçulmanos quanto cristãos. O ministro das Relações Exteriores da Nigéria, Yusuf Maitama Tuggar, disse à BBC que se tratava de uma “operação conjunta” e que “não tinha nada a ver com nenhuma religião em particular”.
Mas, ora! Por que deixar que os fatos estraguem uma boa história?
O prato principal
O prato principal estava agora pronto para ser servido. Nas primeiras horas da manhã de 3 de janeiro, o homem no Salão Oval ordenou que sua poderosa força aérea lançasse uma série de ataques aéreos contra uma Caracas desprevenida, no meio da noite.
Os habitantes assustados foram despertados de seu sono por uma série de poderosas explosões. Ataques semelhantes foram relatados em outras cidades. O objetivo era duplo: causar choque e pavor, e paralisar qualquer resistência potencial.
Mas a intenção central era bem diferente. Era desviar a atenção do verdadeiro propósito do ataque – o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Esse objetivo foi alcançado com incrível rapidez e pouca ou nenhuma resistência. Toda a operação foi transmitida ao vivo para a residência de Trump na Flórida, o clube Mar-a-Lago em Palm Beach.
Nesse ambiente confortável e opulento, o presidente da paz e seus colegas assistiam a tudo, como se fosse um episódio de uma novela.
Eles acompanharam atentamente o espetáculo inspirador de um homem desarmado e indefeso e sua esposa, vestidos com suas roupas de dormir, sendo arrastados por forças especiais fortemente armadas.
Reagiram à cena com alegria incontida, como se estivessem acompanhando o resultado de um jogo de futebol em um estádio lotado, ou o momento em um filme em que James Bond finalmente derrota Ming, o impiedoso.
Só faltava a caixa de pipoca e o copo de Coca-Cola para completar a cena. A tais alturas vertiginosas a arte da diplomacia internacional foi elevada nos círculos de liderança dos EUA.
E o Senhor dos Exércitos viu a vitória de seu Poder, e se sentiu bem.
“Incrível” e “brilhante”
O presidente Trump elogiou os ataques militares dos EUA em Caracas como “incríveis” e “brilhantes”.
Trump afirmou que os ataques foram executados com precisão tática e sem baixas americanas. Ele descreveu a missão como “brilhante taticamente” e “uma coisa incrível”, ao mesmo tempo em que voltou a chamar Maduro de “um sujeito violento” responsável por “assassinatos em massa”.
Trump também criticou parlamentares da oposição por se recusarem a reconhecer o que ele chamou de grande êxito.
O apóstolo da paz na Casa Branca classificou a operação como “uma operação militar extraordinária” que envolveu o uso de recursos e armamentos nos domínios aéreo, terrestre e marítimo.
Ele se gabou de que 152 aeronaves e “muitas tropas em terra” realizaram a operação sem que “ninguém” morresse do lado americano, enquanto “muitos, muitos” cubanos morreram.
Na verdade, cerca de cinquenta membros da guarda pessoal do presidente foram mortos – trinta e dois deles eram cubanos. O número total de vítimas civis é desconhecido, mas o governo venezuelano divulgou a cifra de 100 mortos. Além disso, o bombardeio causou extensos danos a instalações militares e civis.
Em meio a toda essa fantástica mistura de bravatas bombásticas, existem certas palavras que podemos afirmar conterem a verdade. Entre elas, destacam-se “incrível” e “extraordinário“.
Questões sem resposta
A primeira questão que me vem à mente diz respeito à linguagem arrogante sobre o tremendo poderio militar dos Estados Unidos. É inegável que os EUA possuem tal poderio e, de fato, têm as maiores Forças Armadas do mundo atualmente – embora por quanto tempo isso continuará assim seja uma questão completamente diferente.
Mas, em que sentido foi necessário empregar 20% da poderosa Marinha americana para afundar alguns pequenos barcos de pesca no Caribe e massacrar os homens desarmados e indefesos a bordo?
De que forma isso demonstra o poder colossal da frota e da Força Aérea americanas?
Em segundo lugar, por que foi necessário empregar cento e vinte e cinco aviões de combate caças-bombardeiros e um grande número, embora não especificado, de tropas terrestres, composto principalmente por membros da unidade de forças especiais de elite, para prender um homem desarmado e sua esposa vestidos com roupas de dormir?
Se desconsiderarmos todo o barulho e a fúria das bombas e explosões, toda a considerável força militar demonstrada naquela noite, e nos perguntarmos: qual foi o conteúdo essencial de todo esse sórdido episódio, a resposta só pode ser resumida em uma única palavra: o sequestro de duas pessoas.
Embora os americanos não gostem da palavra “sequestro”, é difícil encontrar outra palavra no dicionário que descreva o que realmente aconteceu. Ora, qualquer organização mafiosa minimamente competente poderia realizar tal atividade com bastante eficiência, sem precisar recorrer a um aparato militar tão colossal. Bastaria escolher um momento e um local convenientes para executá-la.
Mas esta era uma situação completamente diferente, alguém poderia objetar. Nicolás Maduro era o chefe de um Estado poderoso, com um formidável aparato de defesa para protegê-lo.
A objeção parece bastante razoável. Mas ela ignora completamente o ponto principal. A questão é: por que esse formidável aparato nunca foi acionado? Os céus sobre Caracas estavam repletos de helicópteros americanos.
Essas são máquinas pesadas e lentas, que voam perto do solo e, portanto, são alvos fáceis até mesmo para mísseis terra-ar portáteis simples, projetados especificamente para esse fim.
Um grande número dessas armas está em posse tanto do exército quanto das milícias civis leais ao regime. No entanto, pelo que sabemos, nenhuma jamais foi usada. Os americanos puderam mobilizar suas forças sem qualquer oposição. Não foi necessário nenhum heroísmo em particular, pois não encontraram resistência.
Uma conclusão ineludível
Ora, esses acontecimentos são certamente “incríveis” e “extraordinários”. E só há uma conclusão ineludível. Toda essa operação jamais poderia ter ocorrido se não existisse, para usar uma expressão policial, “um trabalho interno”.
Esse fato ficou abundantemente claro pelas declarações da Casa Branca de que a CIA possuía um “informante dentro do próprio regime”. Em outras palavras, eles tinham um ou mais informantes que lhes forneceram todas as informações necessárias para realizar esse ataque e garantiram que não haveria resistência. Não pode haver outra explicação para o ocorrido.
Toda a ostentação e vanglória sobre os heroicos soldados e pilotos americanos equivale a uma cortina de fumaça hipócrita, criada para encobrir um ataque descarado e covarde contra um inimigo indefeso, que foi traído por dentro.
De que outra forma se pode explicar o fato de que os cubanos que compunham um elemento-chave da guarda pessoal de Maduro foram todos mortos, enquanto nenhum dos agressores americanos foi morto, ou sequer, aparentemente, ferido?
Esses homens eram, sem dúvida, soldados experientes, durões e bem armados, mais do que capazes de oferecer uma defesa eficaz contra as forças especiais americanas. Em vez disso, foram claramente massacrados sem sequer conseguirem oferecer uma resistência efetiva.
Pegos completamente de surpresa, qualquer defesa teria sido extremamente desorganizada e ineficaz contra agressores fortemente armados que os abateram como moscas, antes de prosseguirem com sua perigosa e heroica missão de deter dois indivíduos desarmados, indefesos e emocionalmente abalados no meio da noite.
“Justiça americana”?
O homem na Casa Branca disse que Maduro e sua esposa, Cilia Flores, “enfrentarão todo o rigor da justiça americana”. Mas que tipo de justiça podem esperar em um tribunal americano? Eles já foram julgados e considerados culpados em um julgamento midiático, no qual ninguém menos que o Presidente dos Estados Unidos afirmou que são culpados de atos terroristas e que, na verdade, estão à frente de um grande cartel de drogas, disfarçado de governo.
Mas notícias recentes indicam que o Departamento de Justiça dos EUA revisou significativamente suas acusações contra o líder venezuelano.
Em 2020, promotores americanos acusaram Maduro de liderar o “Cartel de los Soles”, retratando-o como uma poderosa organização de narcotráfico.
Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos EUA designou o Cartel de los Soles como uma organização terrorista e, novamente em novembro, o Secretário de Estado Marco Rubio reiterou a alegação, que foi usada como principal justificativa para o ataque à Venezuela.
Agora, repentinamente e sem a menor justificativa, o Departamento de Justiça dos EUA simplesmente abandonou a acusação. Descobriu-se que o chamado Cartel de los Soles nunca existiu. Foi uma invenção pura da CIA ou de alguma outra organização obscura no mundo nebuloso dos serviços de inteligência americanos.
Considerando que essa acusação era o principal argumento para justificar o ataque generalizado à Venezuela, seria lógico supor que todo o processo contra o casal Maduro seria arquivado e que eles seriam libertados.
Mas isso vai acontecer? Claro que não! O que é ironicamente chamado de “justiça americana” exige que eles sejam considerados culpados de todas as acusações e condenados a longas penas de prisão. Nenhum outro resultado é possível.
Imagine por um momento que eles fossem considerados inocentes.
Nesse caso, Maduro presumivelmente retornaria a Caracas, onde seria imediatamente reintegrado como presidente da Venezuela. Assim, todo o propósito da missão seria frustrado, e o homem na Casa Branca se tornaria motivo de chacota para o mundo inteiro.
Tal desfecho é simplesmente impensável. O destino da dupla presa já está selado. Como diria o xerife em um filme de faroeste: “Vamos lhes dar um julgamento justo e depois os enforcaremos”.
Uma nova abordagem
Diz-se que a ação tomada contra a Venezuela é quase sem precedentes. Mas isso não é bem verdade. Ao longo de décadas, o imperialismo estadunidense tem repetidamente agido para derrubar governos e líderes que considerava obstáculos aos seus objetivos.
Na América Central e do Sul, existem muitos exemplos disso, não apenas a derrubada de Noriega no Panamá, que apresenta um paralelo exato, mas também a derrubada de Salvador Allende no Chile e a imposição de ditaduras militares na Argentina, no Brasil em 1964, na República Dominicana, em Granada, no Haiti e em muitos outros países.
Tudo isso foi logrado por meio da violência, de uma forma ou de outra. Há muitos exemplos no resto do mundo, incluindo o Vietnã, o Irã em 1953, o Congo em 1961 e, mais recentemente, o Iraque e a Líbia, para citar apenas alguns.
Nesse sentido, é incorreto descrever o ocorrido como algo inteiramente novo. Mas, em um aspecto, é inegavelmente novo e representa um ponto de virada fundamental nas relações internacionais.
No passado, os imperialistas sempre tentaram justificar suas ações agressivas e predatórias com todo tipo de argumento moral e legalista. A esse respeito, é interessante comparar a conduta recente dos EUA com seu comportamento no período que antecedeu a invasão do Iraque em 2003.
Naquela época, os americanos se esforçaram ao máximo para justificar uma invasão cujo objetivo real era, essencialmente, a apropriação do petróleo iraquiano.
Para alcançar esse objetivo, inventaram a história totalmente fictícia de “armas de destruição em massa”, supostamente em posse do regime em Bagdá. Posteriormente, comprovou-se que se tratava de uma mentira descarada e uma fraude. Mas era uma mentira necessária para justificar uma ação agressiva e predatória.
Isso não é de forma alguma uma questão secundária, como se poderia pensar. Em toda guerra, o agressor precisa sempre encontrar alguma razão para justificar sua agressão: autodeterminação, defesa da democracia e outras razões totalmente espúrias. Sem essa necessária cortina de fumaça, a natureza predatória e agressiva de suas ações ficaria imediatamente exposta, e eles inevitavelmente perderiam apoio internacional.
Mas, neste caso, Donald Trump decidiu dispensar tais sutilezas inconvenientes e chamar as coisas pelos seus nomes. Ele não se dá mais ao trabalho de repetir as alegações absurdas de que Maduro liderava um cartel de drogas inexistente.
A história, que sempre foi manifestamente falsa, serviu de base para a enorme campanha de propaganda que preparou o terreno para a agressão militar contra um Estado soberano.
Ele agora a considera um fardo desnecessário e a descartou sem cerimônia, como uma peça de roupa inútil. A verdadeira natureza predatória de suas ações agora está completamente exposta.
Ele afirma abertamente que seu objetivo era simplesmente se apoderar do petróleo da Venezuela. Embora pudesse ter feito isso sem recorrer à ação militar, visto que Maduro já havia concedido aos Estados Unidos livre acesso ao petróleo. Mas, evidentemente, Trump queria mais – muito mais.
Em suas últimas declarações, ele informou ao mundo que os americanos tomariam posse total do petróleo venezuelano – não de uma parte, nem mesmo da maior parte – mas de cada gota. Tudo deve ser entregue às grandes companhias petrolíferas americanas.
Enquanto isso, ele exige que os venezuelanos entreguem todas as reservas de petróleo disponíveis para serem depositadas em um fundo que ele, Donald J. Trump, controlará e usará como bem entender.
No futuro, a Venezuela será impedida de comercializar com qualquer nação que não seja os Estados Unidos e terá que comprar todos os produtos de que necessita de empresas americanas a preços que serão determinados pelos americanos.
E, para garantir que isso seja cumprido, os EUA impuseram um bloqueio que impede fisicamente qualquer navio de transportar petróleo venezuelano para qualquer lugar do mundo fora dos EUA.
Isso, na prática, reduz a Venezuela à condição de colônia escravizada dos Estados Unidos. Ponto final.
Pelo menos, é o que os americanos esperam. Na realidade, porém, as coisas ainda podem terminar muito mal para os EUA – e ainda pior para o povo venezuelano, que tanto sofre.
Apesar de toda a ostentação e vanglória sobre a vasta riqueza que será extraída da Venezuela para beneficiar os grandes monopólios americanos, os fatos podem ser bem diferentes.
Pode ser que a Venezuela possua, ou não, as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas isso ignora o fato de que a maior parte desse petróleo é difícil de extrair e cara de refinar. Ignora também o fato de que, após décadas de subinvestimento, a indústria petrolífera venezuelana precisa urgentemente de reparos e modernização.
Tudo isso não oferece um grande atrativo para as companhias petrolíferas americanas, que não desejam investir grandes somas de dinheiro na Venezuela sem uma garantia clara de lucros futuros e sem as necessárias garantias do Tesouro dos EUA.
Isso significa que, longe de ser uma fonte de lucros, a Venezuela pode acabar se tornando um constante dreno para os recursos americanos, em um momento em que esses recursos já estão sob forte pressão de todos os lados.
O fato é que o governo Trump se meteu em uma aventura na Venezuela, que pode se revelar um fator poderoso que o levará à ruína.
Quem será o próximo?
Tudo isso deveria fazer com que o homem na Casa Branca procedesse com muito mais cautela do que tem feito ultimamente. Mas será que ele o fará? Ele dá a impressão de estar perdido, precipitando-se de uma aventura mal planejada para outra, numa tentativa desesperada de reforçar sua reputação e sua base eleitoral, que começa a mostrar sinais alarmantes de estar se dissipando.
Como um homem embriagado pelo sucesso, ele agora se sente encorajado a embarcar em novas aventuras, já que parece não haver ninguém que possa impedi-lo.
Procurando outro alvo, ele vislumbra diversas possibilidades em regimes que preferiria ver desaparecer da face da Terra. O primeiro da lista é, naturalmente, Cuba.
É bastante claro que o indivíduo que mais pressionou pela intervenção na Venezuela foi Marco Rubio, cujas origens cubanas o tornaram um inimigo declarado de Cuba e, portanto, também da Venezuela, que agora está proibida de enviar petróleo para a ilha.
Marco Rubio adoraria atacar Cuba, mas, infelizmente, a experiência passada não inspira muito entusiasmo no Pentágono por tal movimento. Os cubanos estão bem armados e preparados para essa possibilidade. Além disso, suas alianças internacionais com países como a Rússia e a China são muito mais sólidas do que as que tinham com a Venezuela.
Portanto, com pesar, Cuba provavelmente ficará em segundo plano por enquanto. Depois, vem a Colômbia, com a qual eles também gostariam de negociar. Mas a Colômbia é um país muito problemático, repleto de armas e com muitos grupos dispostos a oferecer uma resistência feroz.
Esse, portanto, dificilmente é um alvo atraente. Mas existe outra possibilidade, muito mais interessante: a Groenlândia.
Groenlândia
Até recentemente, quase não se falava da Groenlândia. Que era um pequeno país desconhecido, situado em algum lugar distante nas margens do Oceano Ártico, onde um punhado de habitantes vivia pacificamente, principalmente, pescando e caçando focas.
Então, eis que surge Donald J. Trump, que anuncia ao mundo a sua intenção de anexar a Groenlândia aos Estados Unidos. “Quero a Groenlândia”, declarou. “É nossa. Pertence por direito aos Estados Unidos. É essencial para a segurança nacional.”
Os líderes europeus ouviram estas declarações em estado de absoluta descrença. “Certamente este homem não pode estar falando sério. Não pode estar dizendo o que pensa. A Groenlândia pertence à Dinamarca, e a Dinamarca é membro da OTAN!”
Contudo, se há algo que aprendemos sobre Donald Trump, é isto: ele fala sério e faz o que diz que vai fazer. Isto está agora criando um estado de pânico por toda a Europa.
Eles estão tentando desesperadamente persuadir o homem na Casa Branca a mudar de rumo. Todas essas tentativas caem em ouvidos surdos. Donald Trump não tem intenção de mudar de rumo. Ele pretende ficar com a Groenlândia, de um jeito ou de outro.
Em vão os líderes europeus clamam que tal passo seria o fim da OTAN. Mas Donald Trump nunca foi muito amigo da OTAN, e não se importaria particularmente se ela desaparecesse amanhã.
É uma nova era – a era do imperialismo desenfreado, em que a força faz o direito, e o mundo inteiro será dividido em esferas de influência entre as grandes potências.
Infelizmente para os europeus, seu continente foi reduzido a um nível tão lamentável que não pode ser incluído nessa categoria de grande potência.
A atenção de Donald Trump agora se volta da América Latina para outra região do globo, onde os interesses dos EUA estão fortemente envolvidos, e ele está seguindo seu objetivo declarado de paz.
Refiro-me, é claro, ao Oriente Médio.
Ano novo, novas guerras
E o Senhor dos Exércitos se alegrou com o triunfo do povo de Israel e se exaltou com a matança dos midianitas ímpios (Caso você não esteja familiarizado com este pequeno e encantador episódio da Bíblia, você pode encontrá-lo explicado em detalhes no Livro de Números 31. Vale a pena ler!)
E o Homem na Casa Branca acolheu seu irmão de armas e companheiro na defesa da sagrada causa da Paz e da Harmonia, Benjamin Netanyahu.
E eles festejaram juntos e se alegraram com as gloriosas vitórias do povo de Israel, este povo escolhido do Todo-Poderoso e agradecido beneficiário de grandes somas de dinheiro e armas dos Estados Unidos da América.
E o homem na Casa Branca perguntou a Netanyahu como ia a segunda fase de sua iniciativa de paz em Gaza.
Diante disso, o líder dos israelitas ficou sério. E respondeu: “Temido monarca, lamento informar que não podemos avançar para a segunda fase, porque os filhos de Gaza são um povo obstinado e se recusam a se desarmar, como o senhor instruiu.”
E o homem na Casa Branca ficou extremamente irado e disse: “Que eles conheçam a ira do Senhor. Que sejam punidos com espada e fogo, até que aprendam a nos respeitar e a fazer o que lhes é ordenado.”
E o líder dos israelitas respondeu: “Grande Senhor, há outro pequeno problema. O maligno Império Persa está novamente ameaçando a paz, reconstruindo seus arsenais nucleares e construindo novos mísseis.”
“Mas isso é impossível! Porventura não destruí o programa nuclear deles com explosivos de grande poder destrutivo?”
“Temido Senhor, esses persas são tão sutis quanto a serpente no Jardim do Éden, e extremamente astutos. Eles encontraram maneiras de contornar isso.”
“Então, nós os atacaremos com espada e fogo. Nós os golpearemos, da cabeça aos pés, e os lançaremos nas trevas exteriores, onde tudo é choro e ranger de dentes.”
“Assim seja, Grande Senhor. Seja feita a Tua vontade!”
E ele retorna a Jerusalém, com um sorriso de orelha a orelha, com o novo contrato de armas debaixo do braço.
E assim o mundo aguarda mais guerras, explosões, mortes e destruição.
Benditos sejam os pacificadores, pois eles herdarão o Prêmio Nobel da Paz – mais cedo ou mais tarde.
Agradeço a sua atenção.
Feliz Ano Novo!
