O capitalismo parou de levar a humanidade para frente. Já deveria ter sido derrubado há muito tempo pela classe trabalhadora. Por que não foi? A chave da resposta está no papel da direção e do partido revolucionário. Este artigo examina os diferentes lados dessa questão e as ricas lições do movimento da classe trabalhadora mundial.
[Publicado originalmente em marxista.ca, em 5 de abril de 2021, em preparação para a Escola marxista de inverno de Montreal, em 2021, baseada na obra homônima de Leon Trotsky]
O ano de 2020 virou o mundo de cabeça para baixo. A pandemia da Covid-19 expôs a falência completa do sistema capitalista aos olhos de milhões de pessoas. O mantra de que “estamos todos juntos” se mostrou como a mentira que realmente é. Em todo o mundo, os lucros vêm antes das necessidades. Enquanto milhões de pessoas perderam seus empregos, os ricos estão mais ricos do que nunca. Nos Estados Unidos, o país mais rico da história da humanidade, milhões de pessoas passam fome.
A crise econômica desencadeada pela Covid-19 se soma ao que foi uma década perdida. Desde a crise anterior, em 2008, a austeridade devastou os serviços públicos, os trabalhadores viram seus salários reais estagnarem ou caírem enquanto os jovens constituem a primeira geração a ser mais pobre do que seus pais desde a 2ª Guerra Mundial.
É com base nisso que as ideias socialistas estão voltando. Este ano, a Victims of Communism Foundation [Fundação Vítimas do Comunismo], que não pode ser acusada de ter um viés favorável ao marxismo, divulgou sua pesquisa anual revelando que 49% dos jovens de 16 a 23 anos de idade (a Geração Z) têm uma visão favorável ao socialismo, nove pontos percentuais a mais desde 2019. Entre os americanos como um todo, essa cifra aumentou de 36% para 40%. Na terra do macarthismo, 18% da Geração Z acham que o comunismo é um sistema mais justo do que o capitalismo!
Essas cifras não são tão surpreendentes quanto se pode imaginar. A geração mais jovem, em particular, não experimentou nada além de austeridade, padrões de vida em declínio, terrorismo, intervenções imperialistas e destruição ambiental. A era de ouro do capitalismo, as décadas de 1960 e 1970, está morta e enterrada. Mais pessoas do que nunca querem ver a derrubada revolucionária do capitalismo.
As condições estão maduras
A realidade é que o sistema capitalista há muito se transformou em um freio ao desenvolvimento humano. Poderia ter sido derrubado há muito tempo por uma revolução dirigida pela classe trabalhadora. Por que isso ainda não aconteceu?
Certamente não porque estejam ausentes as condições objetivas para a construção de uma sociedade socialista baseada na superabundância. Não há dúvidas de que, do ponto de vista econômico, existem todas as condições para satisfazer as necessidades humanas. Temos meios para alimentar toda a população humana. Existem a tecnologia e o conhecimento para produzir as necessidades da vida em harmonia com a natureza. Grandes empresas, como Amazon e Walmart, mostram que é possível organizar a produção e a distribuição em escala global. Muitas tarefas difíceis ou perigosas podem ser realizadas por máquinas.
Marx explicou que o sistema capitalista “cria seus próprios coveiros” ao criar a classe trabalhadora – a classe que constrói os prédios ao nosso redor, produz os itens de consumo de que necessitamos e distribui os bens e serviços. Ele também explicou que o socialismo não era apenas uma boa ideia que surgiu na cabeça de alguns pensadores. Ele mostrou que, sob o capitalismo, é a classe trabalhadora que pode liderar a luta para o estabelecimento de uma sociedade socialista ao assumir o controle dos meios de produção. Marx explicou que essa classe teve que se organizar para superar a resistência dos patrões, dos banqueiros, dos CEOs e seus políticos. Essa classe hoje (ao contrário da época de Marx) forma a esmagadora maioria da sociedade. Uma vez mobilizada e determinada a derrubar o capitalismo, nada pode detê-la.
Então, por que a classe trabalhadora ainda não derrubou o sistema capitalista através de uma revolução?
A culpa é dos trabalhadores?
Leon Trotsky, o líder da revolução russa ao lado de Lênin, escreveu um ensaio fantástico pouco antes de sua morte, intitulado “A classe, o partido e a direção – por que o proletariado espanhol foi derrotado?”.
Como o título sugere, o texto analisa a revolução espanhola de 1931-39 e as razões de sua derrota. Entraremos em alguns detalhes dessa revolução mais tarde. Por ora, basta dizer que apesar dos numerosos levantes, das iniciativas espontâneas dos trabalhadores para assumir o controle das fábricas e dos camponeses para tomar o controle de suas terras, apesar das fortes organizações sindicais e de uma rica tradição de luta, a classe trabalhadora espanhola não tomou o poder. Um regime fascista liderado por Francisco Franco foi estabelecido em 1939 e durou até os anos 1970.
O texto de Trotsky, embora curto (Trotsky foi assassinado antes que pudesse terminá-lo), é uma mina de ouro de lições, explicando tais derrotas revolucionárias – e como se preparar para as vitórias. Este texto deveria ser leitura obrigatória para todo socialista hoje.
“A classe, o partido e a direção” começa com uma polêmica contra um pequeno jornal supostamente marxista, o “Que faire?”. Em um artigo, Que faire? explicou a derrota da revolução espanhola pela “imaturidade” da classe trabalhadora. Se a revolução espanhola fracassou, a culpa recaía sobre as próprias massas.
Essa ideia de culpar as massas é muito comum no movimento operário hoje. Na verdade, para muitos na esquerda a culpa é da própria classe trabalhadora por não ter derrubado o capitalismo.
A classe trabalhadora é supostamente “muito fraca” para mudar o mundo. Essa foi uma das explicações de alguns esquerdistas para o fracasso em completar a revolução venezuelana, que se estende desde o início dos anos 2000. Apesar de uma mobilização histórica durante o golpe de 2002, apesar de votar repetidamente no partido socialista de Hugo Chávez (PSUV), apesar dos trabalhadores assumirem o controle de seus locais de trabalho e apesar de resistirem a novos golpes desde 2019, ainda há pessoas que dizem que a classe trabalhadora venezuelana é muito fraca.
Por exemplo, em “A Economia Política de Transição para o Socialismo”, Jesús Farías, um dos dirigentes do PSUV, afirmou: “Podemos dizer sem medo de nos enganar que um dos principais obstáculos para um desenvolvimento mais acelerado das transformações sociais no país reside na fragilidade organizacional, política e ideológica da classe trabalhadora, incapaz de cumprir hoje o seu papel de principal motor do progresso social”.
Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças do governo Syriza na Grécia em 2015, é outro exemplo dessa tendência. Em um artigo de 2013 com o divertidíssimo título “Confissões de um marxista errático”, explicou que a crise na Europa está “grávida não de uma alternativa progressista, mas de forças radicalmente regressivas”. Dizia isso no momento em que a classe trabalhadora grega já havia realizado 30 greves gerais desde 2008! Sem confiança na classe trabalhadora e vendo apenas a possibilidade de “regressão”, ele afirmou que a única opção era criar uma ampla coalizão que “incluísse direitistas” para salvar a União Europeia e para “salvar o capitalismo de si mesmo”.
Outros jornalistas, intelectuais e personalidades supostamente de esquerda dizem que a classe trabalhadora não quer mudanças e não se deixa atrair por um programa de “esquerda”. É o caso de Paul Mason, um conhecido jornalista de esquerda britânico.
Na Grã-Bretanha, centenas de milhares de pessoas se juntaram entusiasticamente ao Partido Trabalhista após Jeremy Corbyn, um autoproclamado socialista, tornar-se líder do partido em 2015. Desde sua derrota nas eleições de 2019 Corbyn não é mais o líder e a ala direita do partido recuperou o controle sob Sir Keir Starmer, que começou o trabalho sujo de purgar a esquerda do partido.
Na sequência da derrota de Corbyn, Mason argumenta que, para a “classe trabalhadora tradicional” na Grã-Bretanha, certas “partes da agenda da esquerda estão desconectadas dela: as políticas de imigração aberta, a defesa dos direitos humanos, as políticas de bem-estar universal e, acima de tudo, o antimilitarismo e o anti-imperialismo”. Políticas de bem-estar universal, que horror! Ele acrescenta: “Isso ajuda a contar uma história de esperança para um eleitorado que tem pavor a mudanças?”.
Portanto, o problema aqui é que os trabalhadores supostamente não querem mudanças – têm medo de mudanças. A conclusão lógica para Mason é apoiar Keir Starmer, o líder moderado do Partido Trabalhista britânico. Mason perdeu completamente a fé na capacidade da classe trabalhadora de mudar a sociedade – supondo-se que ele alguma vez teve essa fé.
O que todos esses indivíduos expressam é a ideia de que são os próprios trabalhadores que não querem ou são incapazes de mudar a sociedade.
Essas ideias demonstram o fato de que essas pessoas não têm confiança na classe trabalhadora para fazer uma revolução, mudar a sociedade e dirigi-la eles próprios. Essas ideias são promovidas por vários jornalistas, liberais e acadêmicos. No entanto, elas também se infiltram no movimento sindical por meio da burocracia sindical. Na maioria das vezes, os líderes sindicais culpam os trabalhadores que os elegeram como dirigentes porque os trabalhadores supostamente “não querem lutar”.
Uma crise de direção
Como os marxistas respondem a esses argumentos? Por que a classe trabalhadora ainda não derrubou o capitalismo?
O ponto de partida para os marxistas é o papel fundamental da classe trabalhadora na mudança da sociedade. Os marxistas nada têm em comum com o pessimismo e o cinismo daqueles intelectuais e jornalistas que desprezam a classe trabalhadora. Não é verdade que a classe trabalhadora é “muito fraca” para derrubar o capitalismo. A realidade é que em inúmeras ocasiões nos últimos 100 anos os trabalhadores se levantaram para derrubar seus exploradores e mudar a sociedade. Eles fizeram tudo ao seu alcance para fazer isso, em várias ocasiões.
Mas em quase todas as vezes foram os líderes do movimento dos trabalhadores – seja dos sindicatos ou dos partidos dos trabalhadores – que detiveram o movimento. Eles fazem acordos com a classe capitalista em vez de tentar tomar o poder. Dezenas de revoluções foram travadas dessa forma pela direção do movimento. Em seu Programa de Transição, Leon Trotsky explica corretamente que “a crise histórica da humanidade se reduz à crise da liderança revolucionária”.
No entanto, devemos ter cuidado para não cair na caricatura dessa posição. Os marxistas não defendem a ideia de que os trabalhadores estão sempre prontos para uma revolução, que estão simplesmente esperando que os líderes socialistas mostrem o caminho. Dizer que a direção do movimento operário atua como freio não significa que, se tivéssemos socialistas à frente dos sindicatos, se tivéssemos uma organização revolucionária à frente do movimento operário, então uma revolução irromperia imediatamente e teria êxito automático na derrubada do capitalismo.
Não é verdade que os trabalhadores estão sempre prontos para lutar e apenas esperando por bons líderes. Um movimento de massa não acontece com um estalar de dedos. No entanto, a história mostra que existem momentos críticos na história quando as massas entram em luta: as revoluções. As questões importantes para qualquer ativista que deseja mudar o mundo são: como podemos organizar nossa classe, a classe trabalhadora, para derrubar o capitalismo? Qual é o papel dos socialistas para conseguir isso? Como podemos nos preparar para isso?
Consciência de classe
A consciência de classe dos trabalhadores não evolui em linha reta.
Foi por meio de um longo processo histórico que os trabalhadores compreenderam a necessidade de se organizarem. Os sindicatos foram criados para defender os trabalhadores na luta contínua contra os patrões. Eventualmente, os trabalhadores criaram organizações, partidos, para expressar suas aspirações políticas. Marx explicou que, sem organização, a classe trabalhadora é apenas matéria-prima para a exploração. Através de sua história de luta, a classe trabalhadora passa a participar da política por meio de sindicatos ou outras organizações. Esse processo é desigual e diferente de país para país.
Chegar à conclusão de que é preciso organizar é uma coisa, chegar à conclusão de que a derrubada revolucionária do capitalismo é necessária é outra coisa completamente diferente. A classe trabalhadora, quando entra em luta, não chega automaticamente a conclusões revolucionárias.
Na verdade, a consciência não é revolucionária. A consciência é geralmente muito conservadora. As pessoas se apegam a velhas idéias, às tradições, ao conforto do que é conhecido. Na maioria das vezes, as pessoas querem apenas viver em paz e em condições decentes. Quem pode culpá-los? Ninguém quer uma grande reviravolta em suas vidas. Os trabalhadores não procuram empregos para fazer greve.
As revoluções são exceções inevitáveis na história. Os trabalhadores não estão constantemente em luta, pelo contrário.
No entanto, há momentos em que o status quo simplesmente não é mais sustentável. Milhões de pessoas estão fartas. A austeridade recai sobre os trabalhadores. O custo de vida aumenta enquanto os salários estagnam. Os serviços públicos são privatizados. Os ricos vão ficando mais ricos, à vista de todos.

Não são os revolucionários ou os socialistas que criam revoluções. É o capitalismo que cria as condições que obrigam milhões a se revoltar. Milhões de trabalhadores, apáticos um dia, estão nas ruas no dia seguinte. A consciência de ontem, que estava atrasada em relação aos eventos, alcança a realidade com uma explosão. E é aí que as revoluções acontecem.
Muitas vezes, é um “acidente” que inicia uma revolução. As revoluções árabes de 2010-2011 começaram na Tunísia quando um jovem vendedor ambulante se imolou em frente ao gabinete do governador local. Essa foi a faísca que acendeu o fogo. Um movimento de massa se seguiu, culminando com a derrubada da ditadura na Tunísia. O movimento então se espalhou para o Egito e depois para todo o mundo árabe. A raiva que vinha crescendo por décadas só precisava de uma faísca. Em quase todas as revoluções pode-se encontrar um evento semelhante.
O que é uma revolução? Trotsky, em sua História da Revolução Russa, explica assim:
“A característica mais indubitável de uma revolução é a interferência direta das massas nos eventos históricos. Em tempos normais, o Estado, seja monárquico ou democrático, se eleva acima da nação e a história é feita por especialistas nesse ramo – reis, ministros, burocratas, parlamentares, jornalistas. Mas naqueles momentos cruciais em que a velha ordem não é mais tolerável para as massas, elas rompem as barreiras que as excluem da arena política, afastam seus representantes tradicionais e criam por sua própria interferência a base inicial para um novo regime. Se isso é bom ou ruim, deixamos para o julgamento dos moralistas. Nós mesmos consideraremos os fatos como eles são fornecidos pelo curso objetivo do desenvolvimento. A história de uma revolução é para nós, antes de tudo, a história da entrada forçada das massas no domínio do governo sobre seu próprio destino.”
Esta citação resume perfeitamente a essência de uma revolução. É antes de tudo a entrada das massas – hoje compostas predominantemente por trabalhadores – no palco da história.
Se olharmos para os últimos 100 anos e até mais, as revoluções não faltaram. Na verdade, não se passou uma década sem pelo menos uma grande revolução.
A revolução russa de 1905 e 1917, a revolução alemã de 1923 e a revolução chinesa de 1925 a 1927, a revolução espanhola de 1931 a 1937, as greves em massa na França em 1936, a onda revolucionária na Itália, na Grécia e na França entre 1943 e 1945 e a revolução chinesa de 1949, a revolução na Hungria em 1956, o Maio de 1968 na França, a revolução chilena de 1970 a 1973, a revolução em Portugal em 1974, a revolução sandinista na Nicarágua de 1980 a 1983, a revolução em Burkina Faso de 1983 a 1987, a derrubada revolucionária da ditadura na Indonésia em 1998, a revolução na Venezuela sob Hugo Chávez nos anos 2000, as revoluções árabes de 2011.
A lista poderia continuar. A história é pontuada por momentos em que as massas não aguentam mais, vão às ruas e tomam seu destino em suas próprias mãos.
As revoluções podem ser comparadas aos terremotos. Ninguém pode prever exatamente quando ocorrerá um terremoto. E os terremotos geralmente são raros. Mas podemos estudar as placas tectônicas. Podemos saber onde ocorrem as condições para terremotos. Terremotos não acontecem o tempo todo, mas são inevitáveis.
É o mesmo com as revoluções. Ninguém pode prever exatamente quando virá uma revolução. Mas podemos estudar as condições econômicas, ver a raiva crescente entre os trabalhadores e prever uma época revolucionária.
A diferença é que as revoluções são feitas pelos seres humanos. Podemos nos preparar para isso e podemos desempenhar um papel que garanta sua vitória. Mas como podemos fazer isso?
Espontaneidade?
Como as revoluções são realizadas na prática? Se os trabalhadores pudessem simplesmente derrubar o capitalismo de uma só vez, não haveria necessidade de teorizar sobre a revolução. Não haveria necessidade de debater ideias, programas, medidas concretas etc. no movimento operário. Não haveria necessidade de criar organizações que defendam um ou outro programa.
Entre os anarquistas, fala-se muito sobre a espontaneidade dos movimentos de massa. Quase todas das várias teorias anarquistas voltam à ideia de que as massas podem de alguma forma alcançar espontaneamente uma sociedade sem classes. Kropotkin, por exemplo, em seu artigo mais famoso sobre o anarquismo, explica que sua contribuição foi “indicar como, durante um período revolucionário, uma grande cidade – se seus habitantes aceitarem a ideia – poderia se organizar nas linhas do comunismo livre”. Implica, portanto, que os trabalhadores poderiam derrubar espontaneamente o capitalismo com uma revolução. Kropotkin não explica, no entanto, como os habitantes “aceitariam a ideia” do comunismo.
Não há dúvida de que há um elemento de espontaneidade em todos os movimentos de massa, em todas as revoluções. É até uma força, no início. Espontaneamente, milhões de pessoas que não estavam envolvidas na política vão às ruas e pegam a classe dominante de surpresa. Na maioria das vezes, a eclosão de uma revolução surpreende até mesmo revolucionários endurecidos. Na época da Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia, os bolcheviques de Petrogrado estavam tão atrasados que, no primeiro dia das manifestações, aconselharam os trabalhadores a não saírem para as ruas!
Mas a espontaneidade é suficiente para derrubar o capitalismo? A história nos mostra que não.
E, de fato, a realidade é que em cada movimento, em cada luta, em cada revolução, por mais espontâneos que pareçam esses eventos, há grupos ou indivíduos que desempenham um papel de direção.
Quer queiramos ou não, as massas de trabalhadores se expressam por meio de organizações, ou pelo menos por meio de indivíduos que desempenham o papel de líderes após terem conquistado a confiança de seus pares.
Mesmo em um movimento aparentemente espontâneo, alguém faz o discurso que convence seus colegas a entrarem em greve em uma assembleia geral. Uma organização ou um indivíduo escreve o folheto que apresenta os argumentos aos trabalhadores para uma greve. Uma organização ou indivíduos têm a ideia de ocupar o local de trabalho. Essas ideias não vêm do nada.
Por outro lado, no movimento dos trabalhadores, organizações ou indivíduos também podem exercer sua autoridade para frear uma luta. Pessoas ou organizações podem argumentar pelo fim da greve. Algumas pessoas dirão que você não pode ocupar um local de trabalho porque isso seria uma violação dos direitos de propriedade dos patrões.
Essa batalha de idéias e métodos não é decidida com antecedência. Nem todos os trabalhadores chegam às mesmas conclusões ao mesmo tempo. Uma minoria perceberá a necessidade de uma ocupação fabril, uma greve geral etc. antes dos demais. Em uma revolução, uma minoria entenderá que existe a possibilidade de os trabalhadores assumirem o controle da economia. Seu trabalho é se organizar para convencer o resto dos trabalhadores.
Mesmo em um movimento que parece espontâneo, as organizações acabarão desempenhando um papel de liderança.
Como Trotsky explica em A classe, o partido e a direção:
“A história é um processo da luta de classes. Mas as classes não exercem todo o seu peso de forma automática e simultânea. No processo da luta, as classes criam vários órgãos que desempenham um papel importante e independente e estão sujeitos a deformações … A liderança política nos momentos cruciais das viradas históricas pode se tornar um fator tão decisivo quanto o papel do comando principal durante os momentos críticos de guerra. A história não é um processo automático. Caso contrário, por que líderes? Por que partidos? Por que programas? Por que lutas teóricas?”
As diferentes tendências do movimento operário se expressam por meio de diferentes organizações. Os marxistas também querem se organizar – e criar um partido revolucionário.
O que é um partido revolucionário?
O termo “partido” tem uma conotação negativa entre algumas camadas do movimento operário e da juventude. E por um bom motivo! Os partidos políticos existentes fazem de tudo para afastar essas camadas. Mesmo os chamados partidos de “esquerda”, uma vez no poder, curvam-se aos ditames dos bancos e fazem o trabalho sujo dos capitalistas, às vezes até mais cruelmente do que a direita. Foi o caso de um dos governos de esquerda mais recentes, o Syriza, na Grécia em 2015.
Quando os marxistas falam sobre a necessidade de um partido revolucionário, não temos uma máquina eleitoral em mente. Um partido é, antes de mais nada, ideias, um programa baseado nessas ideias, métodos de implementação do programa e só então uma estrutura e uma organização que possa espalhar o programa por todo o movimento e conquistar as pessoas.
Como já explicamos, a tendência de organização já está presente na classe trabalhadora, levando à formação de sindicatos e partidos. As diferentes tendências do movimento operário são expressas por meio de diferentes organizações ou agrupamentos.
Os sindicatos, por sua própria natureza, visam reunir o maior número possível de trabalhadores. Quem proporia que os sindicatos incluíssem apenas trabalhadores revolucionários? Esses seriam sindicatos fracos, na verdade. Mas um partido revolucionário é composto de forma diferente dos sindicatos.
Em Uma Carta a um Sindicalista Francês sobre o Partido Comunista, Trotsky explica:
“Como esse grupo de iniciativa [o partido] deve ser composto? É claro que não pode ser constituído por um agrupamento profissional ou territorial. Não se trata de metalúrgicos, ferroviários, nem de carpinteiros de vanguarda, mas dos membros mais conscientes do proletariado de todo um país. Devem agrupar-se, elaborar um programa de ação bem definido, cimentar sua unidade por uma rigorosa disciplina interna e assim assegurar-se de uma influência norteadora em toda a ação militante da classe trabalhadora, em todos os órgãos desta classe e, sobretudo, nos sindicatos.”
Nem todas as camadas da classe trabalhadora e da juventude chegam às mesmas conclusões ao mesmo tempo. Alguns trabalhadores acreditam que o capitalismo é o melhor sistema. Outros não gostam do capitalismo, mas não acreditam que ele possa ser derrubado. Outros são simplesmente indiferentes. Mas outros chegam à conclusão de que a luta pelo socialismo é necessária. Tendo compreendido isso, essas pessoas necessariamente desejarão conduzir o movimento dos trabalhadores nessa direção.
Naturalmente, a tarefa dessa minoria socialista (a que Trotsky chama de “quadros”) será a de se organizar para ganhar a confiança das outras camadas da classe trabalhadora na luta. Essa tarefa será ainda mais eficaz se essa minoria for agrupada em uma organização com um programa comum.
Em “Discussão sobre o Programa de Transição”, Trotsky explica:
“Agora, o que é o partido? Em que consiste a coesão? Essa coesão é um entendimento comum dos eventos, das tarefas, e é esse entendimento comum que é o programa do partido. Assim como os trabalhadores modernos, mais do que os bárbaros, não podem trabalhar sem ferramentas, no partido o programa é a ferramenta. Sem o programa, todo trabalhador deve improvisar sua ferramenta, encontrar ferramentas improvisadas, e uma contradiz a outra.”
Um programa e uma organização precisam ser construídos antes de uma revolução, assim como um trabalhador deve se equipar com ferramentas antes de realizar uma determinada tarefa.
A Revolução Espanhola: uma classe sem partido ou direção
O que acontece quando não há direção revolucionária? Quando não há organização revolucionária? Ou quando as organizações que existem impedem o movimento?
A Classe, o Partido e a Direção de Trotsky fala sobre a derrota da revolução espanhola de 1931 a 1939. Esse evento inspirador é talvez o exemplo mais trágico do que acontece quando uma classe faz de tudo para derrubar o capitalismo enquanto não há uma direção revolucionária, ou quando as organizações existentes se recusam a tomar o poder.
A crise da década de 1930 atingiu fortemente a Espanha. A classe trabalhadora e os camponeses foram esmagados por uma pobreza avassaladora. Proprietários de terras e capitalistas (frequentemente os mesmos indivíduos) reduziram as condições de vida a um estado miserável para manter os lucros. Em 1931, diante da crescente raiva das massas, a classe dominante foi forçada a sacrificar a monarquia e a república foi proclamada. Mas, por si só, a transição para uma república democrática nada fez para resolver os problemas da classe trabalhadora e dos camponeses pobres.

Em fevereiro de 1936, após dois anos de governo de direita, as massas levaram a Frente Popular ao poder. Esse governo era composto por socialistas, comunistas, o POUM (um partido supostamente marxista, mas que oscilava constantemente entre a revolução e o reformismo) e até mesmo os anarquistas que lideravam a principal federação sindical, a CNT. Essas organizações de trabalhadores também incluíam os republicanos burgueses da Frente Popular. A presença dos partidos capitalistas forçou o governo a moderar seu programa, a desacelerar as reformas em favor dos camponeses e operários, a deixar intacta a propriedade burguesa. O governo da Frente Popular chegou ao ponto de reprimir os trabalhadores em luta.
Sem esperar pelas reformas prometidas pela Frente Popular, os trabalhadores implementaram por conta própria a jornada de trabalho de 44 horas semanais, os aumentos salariais e libertaram os presos políticos do governo anterior de direita. Entre fevereiro e julho de 1936, todas as grandes cidades espanholas viveram pelo menos uma greve geral. Um milhão de trabalhadores entraram em greve no início de julho de 1936.
O movimento dos trabalhadores estava indo longe demais para os capitalistas. Em 17 de julho de 1936, o general Francisco Franco deu início a um levante fascista, com o total apoio dos industriais e proprietários de terras da Espanha. O objetivo era derrubar o governo, destruir os sindicatos e partidos operários e construir um governo forte para que os capitalistas pudessem perpetuar a exploração dos trabalhadores e camponeses sem sua constante luta. Diante do golpe fascista, os partidos da Frente Popular se recusaram a armar os trabalhadores para resistir.
Apesar da passividade desses partidos, os trabalhadores espontaneamente fizeram tudo ao seu alcance para repelir os fascistas. Eles pegaram varas, facas de cozinha e outras armas à mão, confraternizaram com os soldados e invadiram quartéis para encontrar armas de verdade. Os trabalhadores organizaram milícias que tomaram o lugar da polícia burguesa. Além dessas medidas de defesa “militar” contra o fascismo, os trabalhadores tomaram medidas econômicas. Na Catalunha, o transporte e as indústrias foram colocados quase completamente nas mãos de comitês de trabalhadores e comitês de fábrica. Ao lado do governo central de Madri e do governo da Catalunha, um segundo poder – o dos trabalhadores – estava surgindo.
Mas o que se seguiu? A direção de todas as organizações – os socialistas, os comunistas, o POUM e a CNT anarquista – freou o movimento. Na Catalunha, eles participaram do desmantelamento dos comitês de trabalhadores. Os socialistas e comunistas estavam na vanguarda ao dizer aos trabalhadores para irem para casa, não tomarem as fábricas e deixarem o governo burguês liderar a luta contra o fascismo. O POUM acompanhou as outras organizações e entrou no governo burguês catalão no outono de 1936, sancionando políticas destinadas a conter a revolução.
De particular interesse é a atitude dos dirigentes anarquistas da CNT. Nesse período, os dirigentes da CNT chegaram a se gabar de que poderiam ter chegado ao poder: “Se quiséssemos chegar ao poder, poderíamos tê-lo conquistado em maio [1937] com certeza. Mas somos contra a ditadura”.
Por serem anarquistas e, portanto, contra o poder em geral, os dirigentes da CNT se recusaram a consolidar a democracia operária que estava nascendo. A oportunidade foi perdida. Mas esses mesmos anarquistas, que se recusaram a tomar o poder em nome da classe trabalhadora, ficaram felizes em se juntar ao governo burguês da Catalunha! Não se pode esconder isso.
Os trabalhadores ficaram completamente desmoralizados. Esta trágica história termina com a vitória de Franco e dos fascistas na guerra civil de 1936 a 1939.
Por que a Revolução Espanhola foi derrotada?
Os trabalhadores espontaneamente rechaçaram os fascistas e assumiram o controle dos locais de trabalho, especialmente na Catalunha. Os trabalhadores estavam se movendo na direção certa. Mas todos os líderes das organizações da classe trabalhadora detiveram o movimento das massas. Como Trotsky explica em A classe, o partido e a direção, em tal situação não é fácil para a classe trabalhadora superar o conservadorismo de seus líderes. Uma alternativa já deve existir:
“Não se deve entender exatamente nada na esfera das inter-relações entre a classe e o partido, entre as massas e os líderes, para se repetir a afirmação vazia de que as massas espanholas apenas seguiram seus líderes. A única coisa que pode ser dita é que as massas, que buscaram o tempo todo abrir caminho para a direção correta, descobriram estar além de suas forças produzir no próprio fogo da batalha uma nova direção que correspondesse às demandas da revolução. Diante de nós está um processo profundamente dinâmico, com os vários estágios da revolução mudando rapidamente, com a direção ou várias seções da direção rapidamente desertando para o lado do inimigo de classe.”
E depois:
“Mas, mesmo nos casos em que a velha direção revelou sua corrupção interna, a classe não pode improvisar imediatamente uma nova direção, especialmente se não herdou do período anterior fortes quadros revolucionários capazes de aproveitar o colapso do antigo partido dirigente.”
Não é história antiga
A Revolução Espanhola está longe de ser um exemplo isolado ou de pertencer ao passado.
Tão recentemente quanto em 2019, uma onda revolucionária varreu a América Latina, o Norte da África e o Oriente Médio. Chile, Equador, Colômbia, Iraque, Líbano, Argélia e Sudão passaram por greves gerais, movimentos de massa ou revoluções. E, em todos os lugares, a mesma questão da direção revolucionária foi colocada, e sua ausência deixou sua marca nos acontecimentos.
O caso do Sudão é particularmente notável. Em dezembro de 2018, um movimento de massa estourou contra o ditador Omar al-Bashir. A pobreza extrema, a austeridade imposta pelo FMI e o desemprego em massa levaram as massas às ruas. Uma manifestação em massa foi até organizada pelos revolucionários na capital, Cartum.
Um artigo do Financial Times explicou:
“Não se pode saber ao certo como a Rússia se sentia em 1917, quando o czar estava sendo derrubado, ou a França em 1871, nos dias estonteantes e idealistas da curta Comuna de Paris. Mas deve ter sido algo como Cartum em abril de 2019.”
Essa foi uma verdadeira revolução! Em abril, a classe dominante foi forçada a tirar o ditador. Um Comitê Militar de Transição foi formado para garantir que o exército mantivesse o poder.
A principal organização por trás dos protestos foi a Associação Profissional do Sudão (SPA, na sigla em inglês). Essa organização convocou manifestações e até uma greve geral no final de maio para exigir que o exército cedesse o poder. Essa greve paralisou completamente o país.
No início de junho, o regime enviou milícias para reprimir a manifestação de Cartum. Em vez de assustar os trabalhadores sudaneses, outra greve geral foi organizada pela SPA, paralisando o país mais uma vez. Comitês de resistência foram criados.
Aqui tivemos uma oportunidade real para os trabalhadores tomarem o poder, tomarem o controle da economia. Mas, em vez disso, o SPA pediu o fim da greve. Em seguida, negociou um acordo com o conselho militar para uma transição de três anos antes de realizar eleições. Como resultado, dois anos depois, o exército ainda está no poder e a miséria continua.
O que estava faltando no Sudão? Os trabalhadores fizeram duas greves gerais, fizeram um protesto contra a repressão e formaram comitês de base para organizar o movimento. Os trabalhadores fizeram tudo o que puderam. Eles poderiam ter assumido o poder.
Mas a principal organização que tinha autoridade entre as massas fez um acordo com o exército em vez de tomar o poder. Como já explicamos, em tal situação você não pode inventar uma nova organização do nada.
Goste ou não, a direção é um fato da vida. Não se pode escapar da necessidade de se organizar. Enquanto o movimento dos trabalhadores estiver sendo dirigido pela direção errada, enquanto as organizações da classe trabalhadora estiverem sustentando o movimento, a tarefa em mãos é construir uma alternativa com antecedência – um partido revolucionário genuíno.
A Revolução Russa de 1917
Em uma discussão sobre o papel de um partido revolucionário, é impossível ignorar a Revolução Russa de 1917.
Não é à toa que os marxistas dedicam tanto tempo ao estudo dessa revolução. Pela primeira vez na história, exceto pelo breve episódio da Comuna de Paris de 1871, os trabalhadores e os oprimidos tomaram o poder, derrubaram o capitalismo e deram os primeiros passos para estabelecer uma democracia operária e uma sociedade socialista. Para construir as vitórias do futuro, os revolucionários devem estudar as vitórias do passado.
A vitória dos trabalhadores russos em outubro de 1917 não aconteceu por si só.
Em fevereiro de 1917, a Guerra Mundial estava devastando a Rússia. Os trabalhadores e camponeses uniformizados na frente de batalha não queriam mais lutar por uma causa que não lhes dizia respeito. Os trabalhadores das fábricas e suas famílias estavam morrendo de fome. O status quo não era mais sustentável. Por iniciativa das operárias de Petrogrado, os trabalhadores da cidade entraram em greve e, após uma semana de mobilização em massa, o czar foi forçado a abdicar.

No meio da luta, o soviete de Petrogrado foi formado e os sovietes se espalharam pela Rússia. Os sovietes eram comitês de greve ampliados que começaram a controlar o funcionamento da sociedade. Na verdade, eles detinham o poder.
Mas, ao lado dos sovietes, a burguesia formou o que chamou de “governo provisório”, ansioso para manter o capitalismo no lugar. Essa situação de “duplo poder” durou até outubro de 1917.
Entre fevereiro e outubro, nos altos e baixos da revolução, o governo provisório demonstrou que não tinha intenção de satisfazer as demandas das massas: paz e pão para os trabalhadores e terra para os camponeses.
Dentro dos sovietes, os partidos reformistas da época, os socialistas-revolucionários (SRs) e os mencheviques, tiveram a confiança da maioria dos trabalhadores e camponeses durante os primeiros meses da revolução e usaram sua posição para fazer com que os sovietes apoiassem o governo provisório burguês. Seus líderes até entraram nesse governo. Os mencheviques e os SRs acreditavam que era “muito cedo” para a classe trabalhadora tomar o poder, que a burguesia deveria governar e que a luta pelo socialismo viria mais tarde.
Com o passar dos meses, os mencheviques e os SRs viram-se completamente desacreditados aos olhos dos operários, dos soldados e dos camponeses. Mas, felizmente, havia uma alternativa. É para os bolcheviques, liderados por Lênin e Trotsky, que as massas se voltam. Depois de passar meses explicando pacientemente que era necessário e possível tirar o poder das mãos da burguesia, e tendo conquistado sua confiança, os bolcheviques foram capazes de canalizar a imensa energia e iniciativa das massas para a vitória em outubro de 1917.
O Partido Bolchevique e Lênin
Com a Revolução Russa, pela primeira vez na história os trabalhadores tomaram o poder e conseguiram mantê-lo. Por que eles tiveram sucesso onde tantos outros movimentos falharam?
A explicação não pode estar na “maturidade” dos trabalhadores russos em comparação, por exemplo, com os trabalhadores espanhóis da década de 1930. Não é que os trabalhadores russos fossem mais combativos do que os espanhóis. Nem era que os trabalhadores russos fossem particularmente mais inteligentes ou algo parecido. A diferença era a presença do Partido Bolchevique.
Os bolcheviques não criaram a Revolução Russa. Embora os militantes bolcheviques tenham desempenhado um papel em fevereiro, o clima de luta das massas foi criado pelo capitalismo, pela situação desastrosa do país. Trotsky explica isso em sua História da Revolução Russa: “Eles nos acusam de criar o estado de ânimo das massas; isso está errado, nós apenas tentamos formulá-lo”.
Esse é precisamente o papel de uma organização marxista: formular conscientemente o que os trabalhadores passam a entender de forma semiconsciente ou inconsciente.
Mas o Partido Bolchevique não apareceu espontaneamente em 1917. Você não pode mudar o mundo da noite para o dia. Construir um partido revolucionário requer tempo e energia.
Os marxistas russos começaram seu trabalho nas décadas de 1880 e 1890 ao criar pequenos grupos isolados que organizavam círculos de discussão sobre os fundamentos do marxismo. O Partido Operário Social-democrata Russo (POSDR) foi criado oficialmente em 1898. A divisão bolchevique e menchevique ocorreu em 1903, onde se tornaram frações do POSDR. Os bolcheviques foram implacáveis em sua defesa do marxismo e se separaram para sempre dos mencheviques em 1912 para se tornarem um partido independente.
Às vezes ouvimos hoje que a esquerda deve simplesmente se unir e deixar de lado suas diferenças. Por que existem tantas organizações socialistas ou de esquerda, perguntam-nos? Por que a CMI insiste tanto na teoria marxista? A realidade é que, se os grupos se unem sem realmente concordar, é uma receita pronta e acabada para a paralisia. Diferenças teóricas surgirão em todas as questões importantes, e a organização “unida” não será capaz de seguir em frente. Um caiaque com duas pessoas remando em direções opostas ficará girando sem parar, enquanto uma única pessoa em um caiaque se moverá para frente.
Qualquer grupo político deve estar baseado em alguma teoria. Essa é uma das lições mais valiosas da história do bolchevismo. Como Lênin explicou já em 1900:
“Antes de podermos nos unir, e para que possamos nos unir, devemos antes de tudo traçar linhas de demarcação firmes e definidas. Caso contrário, nossa unidade será puramente fictícia, ela ocultará a confusão prevalente e atrapalhará sua eliminação radical. É compreensível, portanto, que não tenhamos a intenção de fazer de nossa publicação um mero depósito de visões diversas. Pelo contrário, devemos conduzi-lo no espírito de uma tendência estritamente definida. Essa tendência pode ser expressa pela palavra marxismo.”
Durante 20 anos antes da revolução, os marxistas do partido bolchevique pacientemente construíram uma organização baseada em um programa comum, educando ativistas antecipadamente nas ideias do marxismo com o objetivo de desempenhar um papel de direção no movimento dos trabalhadores. O estudo da teoria e da história é essencial para a construção de uma organização revolucionária hoje.
Deixados à própria sorte, os mencheviques e SRs teriam conduzido a revolução à derrota. Felizmente, havia uma alternativa com os bolcheviques, que conquistaram os trabalhadores em 1917 com base na própria experiência das massas, entre fevereiro e outubro. Isso é o que Trotsky explica em A classe, o partido e a direção:
“Só gradualmente, e apenas com base em sua própria experiência em várias etapas, as amplas camadas das massas podem se convencer de que uma nova direção é mais firme, mais confiável e mais leal do que a antiga. Certamente, durante uma revolução, ou seja, quando os eventos se movem rapidamente, um partido fraco pode rapidamente se transformar em um partido poderoso, desde que compreenda lucidamente o curso da revolução e possua quadros firmes que não se embriaguem com frases e não fiquem aterrorizados pela perseguição. Mas esse partido deve estar disponível antes da revolução, visto que o processo de educação dos quadros requer um período de tempo considerável e a revolução não oferece esse tempo.”
Na Rússia, esse partido já existia. Havia 8 mil bolcheviques em fevereiro de 1917. Na época de sua tomada do poder, em outubro, com base em uma perspectiva política correta, eles haviam crescido para 250 mil membros.
O papel da direção dentro do partido
Mas como os bolcheviques chegaram a uma perspectiva política correta? A existência do partido, por si só, é suficiente?
A ascensão dos bolcheviques ao poder não foi uma linha reta. Não é um fato conhecido que, entre março e abril de 1917, os líderes do Partido Bolchevique na Rússia naquela época não tinham a intenção de lutar pelo poder. Com Lênin e Trotsky ainda tentando voltar do exílio para a Rússia, os principais dirigentes bolcheviques presentes em Petrogrado naquela época eram Stalin e Kamenev. Sob sua liderança, o jornal bolchevique Pravda defendeu essencialmente a política dos mencheviques: de que era “muito cedo” para os trabalhadores tomarem o poder.
Alguns militantes comuns do Partido Bolchevique rejeitaram essas ideias. Atuando no terreno, viram que era inteiramente possível e necessário que os trabalhadores tomassem o poder por meio dos sovietes. Na verdade, eram os sovietes que governavam o país, mas eles ainda precisavam consolidar seu poder. O que eles poderiam responder ao argumento de que era “muito cedo” para assumir o poder?
Como Trotsky explica em sua História da Revolução Russa: “Esses operários revolucionários careciam apenas de recursos teóricos para defender sua posição. Mas eles estavam prontos para responder ao primeiro e claro apelo”.
Esse apelo veio com o retorno de Lênin à Rússia em abril de 1917. Naquele momento, Lênin foi categórico: a classe trabalhadora, aliada ao campesinato pobre, poderia tomar o poder através dos sovietes, e não apenas libertar os camponeses, trazer paz e pão para os trabalhadores, mas começar as tarefas socialistas e começar a revolução socialista internacional.
Em abril de 1917, Lênin foi o único dirigente do Partido Bolchevique a defender essa perspectiva (Trotsky ainda não havia chegado à Rússia e ingressou no partido apenas em julho). Mas devido à sua imensa autoridade pessoal, e especialmente ao fato de que sua política correspondia à experiência dos militantes bolcheviques na base, Lênin conseguiu que sua perspectiva fosse adotada na conferência do partido bolchevique realizada no final de abril. A partir desse momento, o Partido Bolchevique, sob a liderança de Lênin, estabeleceu como objetivo explicar pacientemente aos trabalhadores a necessidade de os sovietes tomarem o poder.
O que teria acontecido se Lênin não tivesse conseguido chegar à Rússia? Em uma revolução, o tempo é um fator chave. Os líderes bolcheviques poderiam ter chegado a compreender a necessidade do poder soviético, mas não há indicação de que o teriam compreendido enquanto os trabalhadores ainda estivessem mobilizados. A classe trabalhadora não pode permanecer constantemente em luta. Em algum momento, ou a revolução vence ou a dúvida e a apatia começam a se instalar. Se Lênin não interviesse em 1917, a direção do Partido Bolchevique provavelmente teria perdido a chance de tomar o poder. Portanto, não basta construir um partido, esse partido deve ter uma direção que saiba para onde está indo.
Uma revolução socialista vitoriosa não pode ser realizada sem a participação da classe trabalhadora. Mas essa classe deve ter um partido. E esse partido deve ter uma direção que saiba o que está fazendo. Esses três ingredientes são a chave para o sucesso das revoluções futuras.
O papel do indivíduo na história
Comparando Espanha e Rússia, pode-se perguntar: não é mera sorte que a classe trabalhadora russa pudesse contar com um indivíduo como Lênin? Não seria necessário apenas um Lênin espanhol e tudo ficaria bem?
Em primeiro lugar, o próprio Lênin não nasceu Lênin: ele foi, em certo sentido, uma criação do movimento operário russo. Lênin foi o resultado do trabalho de construção de um partido revolucionário, para o qual muito contribuiu. Sem o partido, Lênin não poderia ter disseminado suas ideias em 1917 e desempenhado o papel que desempenhou. Mas, inversamente, a autoridade de Lênin em seu partido veio do fato de que ele passou quase 25 anos pacientemente construindo-o.
Trotsky resume essas ideias perfeitamente em A classe, o partido e a direção:
“Um fator colossal na maturidade do proletariado russo em fevereiro ou março de 1917 foi Lênin. Ele não caiu dos céus. Ele personificou a tradição revolucionária da classe trabalhadora. Para que as palavras de ordem de Lênin chegassem às massas, era necessário que existissem quadros, embora numericamente pequenos no início; tinha que existir a confiança dos quadros na direção, uma confiança baseada em toda a experiência do passado… O papel e a responsabilidade da direção em uma época revolucionária são colossais.”
Da mesma forma na História da Revolução Russa:
“Lênin não foi um elemento acidental no desenvolvimento histórico, mas um produto de todo o passado da história russa. Ele estava incrustado nela com raízes mais profundas. Junto com a vanguarda dos trabalhadores, ele viveu sua luta durante o quarto de século anterior… Lênin não se opôs ao partido de fora, mas foi ele próprio sua expressão mais completa. Ao educá-lo, educou-se a si mesmo.”
A direção revolucionária fornecida por Lênin e os bolcheviques não surgiu do nada. Foi o resultado de um quarto de século de trabalho paciente na construção de uma organização. Na construção do partido, Lênin tornou-se Lênin. Milhares de outros bolcheviques, ao construir o partido, também se tornaram líderes do movimento operário. Este fato é resumido na anedota de que, em 1917, um único bolchevique em uma fábrica poderia conquistar todos os seus colegas para o programa do partido. Essa autoridade veio de todo o trabalho anterior de construção do partido. Dialeticamente, a construção do partido construiu esses indivíduos que desempenharam um papel tão importante.
A Revolução Russa é um exemplo notável do papel do indivíduo na história. A construção de uma organização revolucionária, um empreendimento coletivo, possibilita a formação de indivíduos que podem desempenhar um papel decisivo no movimento. O todo é maior do que a soma de suas partes e construir o todo fortalece as partes! Devemos aprender com isso e repetir o que os bolcheviques fizeram.
Tragicamente, um destino diferente aguardava a grande marxista e contemporânea dos bolcheviques, Rosa Luxemburgo. Embora ela tenha passado sua vida lutando contra a burocracia reformista no Partido Social-Democrata Alemão (SPD), Luxemburgo não construiu uma facção revolucionária organizada no partido, como Lênin havia feito no POSDR com os bolcheviques. Foi somente em 1916 que a Liga Espartaquista foi fundada e era mais uma rede descentralizada do que uma organização revolucionária.

Quando a Revolução Alemã explodiu em novembro de 1918, a Liga tinha pouca conexão com as massas. Em dezembro, a Liga se transformou no Partido Comunista. No entanto, desde o início, o partido foi permeado por um sectarismo que o prejudicou gravemente. Os militantes do partido recusaram-se a intervir nos sindicatos e o partido boicotou as eleições para a Assembleia Nacional, o que lhe daria a oportunidade de ter uma plataforma para divulgar as suas ideias. Naquele jovem partido comunista, Rosa Luxemburgo se opôs a esse ultra-esquerdismo. Mas ela não tinha um grupo de quadros que entendesse a situação política tão bem quanto ela e que pudesse absorver suas idéias. O Partido Comunista cometeu um erro após o outro.
Em janeiro de 1919, o governo social-democrata provocou uma revolta da classe operária em Berlim para isolar e reprimir os trabalhadores avançados e, sobretudo, o Partido Comunista. A inexperiência e fraqueza de influência do Partido Comunista sobre os trabalhadores significava que eles eram incapazes de evitar a provocação. Durante esses eventos, a própria Luxemburgo, junto com o outro líder notável, Karl Liebknecht, foram assassinados. Assim, o fato de Luxemburgo não ter construído um partido revolucionário antecipadamente levou a uma trágica derrota e à sua própria morte, decapitando a direção da classe trabalhadora alemã. Daí em diante até 1923, o Partido Comunista, privado da direção de suas duas principais figuras, foi incapaz de conduzir a classe trabalhadora alemã ao poder. As revoluções russa e alemã servem para sublinhar o mesmo ponto, embora de dois ângulos diferentes: a necessidade vital de uma direção revolucionária.
Poucos dias antes de seu assassinato, Rosa Luxemburgo tirou conclusões dos primeiros meses da revolução alemã. Sua conclusão está muito longe do “espontaneísmo” que seus supostos seguidores atribuem a ela:
“A ausência de direção, a inexistência de um centro responsável pela organização da classe trabalhadora berlinense, não pode continuar. Se a causa da revolução deve avançar, se a vitória do proletariado, se o socialismo é algo mais que um sonho, os operários revolucionários devem constituir organizações dirigentes capazes de guiar e usar a energia de luta das massas.”
A direção do movimento hoje
Não é segredo que em todo o mundo o movimento marxista sofreu um retrocesso por todo um período histórico. O boom do pós-guerra lançou as bases para o reformismo no Ocidente, enquanto a queda da União Soviética foi acompanhada por uma ofensiva ideológica sem precedentes contra o marxismo. Os mais pretensiosos, como Francis Fukuyama, chegaram a proclamar o “fim da história”, que teria encontrado sua realização na democracia liberal.
O movimento sindical também experimentou reveses durante as décadas de 1980 e 1990, ao passo que a década de 1970 foi uma época de movimentos de massa e revoluções. Foi durante as décadas seguintes que a direção do movimento dos trabalhadores mudou para a direita.
Em Quebec, por exemplo, foi na década de 1980 que a FTQ, a maior central sindical da província, deixou de falar em “socialismo democrático” e a segunda maior, a CSN, abandonou as ideias anticapitalistas expressas no manifesto Ne comptons que sur nos propres moyens [Depende apenas de nossos próprios meios]. Muitas vezes, os líderes que se encontram hoje no topo do movimento trabalhista colaboram com os patrões em vez de mobilizar seus membros. O atual presidente da CSN, por exemplo, disse no 50º aniversário do Conseil du patronat (sindicato patronal), sede da burguesia de Quebec: “Às vezes brigamos e temos pontos de vista diferentes, mas nos damos muito bem quando se trata de promover o emprego, fomentar boas condições de trabalho e garantir o crescimento econômico de Quebec”. Esse está longe de ser um exemplo isolado. Tal é o estado da direção do movimento trabalhista hoje.
No movimento operário, um dos principais ataques aos marxistas é a caricatura que nos mostra afirmando que, se houvesse uma direção revolucionária, os trabalhadores estariam sempre em luta, sempre prontos para a ação. Segundo essas pessoas, criticamos os dirigentes sindicais como se fosse possível aos dirigentes realizar magicamente os movimentos de massa.
Essa ideia é uma caricatura completa da análise marxista da relação entre a classe trabalhadora e sua direção.
Como já explicamos, os trabalhadores não estão em luta constante. As revoluções são exceções históricas que surgem inevitavelmente da própria luta de classes. Mas o que acontece antes de uma revolução? Qual deve ser o papel da direção do movimento operário quando a situação não é revolucionária – isto é, na maioria das vezes?
Correndo o risco de soar repetitivo, a classe trabalhadora não é homogênea. Até o dia da revolução, haverá camadas apáticas, camadas céticas, enquanto outras vão querer lutar contra os ataques dos patrões. O caráter contraditório e heterogêneo da consciência de classe é um fato com o qual não temos escolha a não ser lidar.
Os líderes sindicais não têm o poder de criar um movimento magicamente. Mas o papel que uma boa direção pode desempenhar na luta de classes é preparar a base, estabelecer um plano de ação e educar os sindicalistas para gerar um movimento de massa. Não, não é possível organizar magicamente um movimento. Mas, sim, é possível educar os trabalhadores sobre a necessidade desta ou daquela demanda, deste ou daquele método de luta.
Um excelente exemplo do que uma boa direção política pode realizar pode ser encontrado na greve estudantil de 2012 em Quebec. Em 2010, o governo liberal de Quebec deu a entender que as mensalidades seriam aumentadas. Os ativistas estudantis já estavam começando a se organizar. Em março de 2011, o aumento de 75% das mensalidades foi oficialmente anunciado, a ser implementado no outono de 2012.
A direção da ASSÉ, o sindicato estudantil mais radical da época, passou o ano de 2011 educando os alunos sobre o que significava o aumento da mensalidade, mobilizando os alunos com o plano consciente de organizar uma greve geral ilimitada. Alguns ativistas da ASSÉ, muitos dos quais tinham tendências anarquistas, certamente não gostariam dos termos “direção” ou “dirigente” associados a eles, mas não se pode mudar a realidade mudando um nome – eles certamente estavam desempenhando um papel de direção, e um bom papel!
Com o plano consciente de organizar a greve, e porque esses métodos de luta eram o que o movimento precisava em face de um governo inflexível, a liderança da ASSÉ organizou a maior greve estudantil da história da América do Norte.
Desempenhar um papel de direção não é de forma alguma contraditório à plena participação popular. Pelo contrário – foi porque a direção da ASSÉ forneceu orientação, educando milhares de ativistas sobre a necessidade de combater o aumento, que desencadeou o espírito de luta e a criatividade das centenas de milhares de estudantes envolvidos no movimento em Quebec.
O exemplo da greve estudantil mostra o papel da boa liderança. Mostrar o caminho a seguir cria as condições para que milhares de pessoas participem ativamente da luta. Certamente os dirigentes da ASSÉ cometeram alguns erros. No verão de 2012, quando os liberais anunciaram uma eleição, eles se recusaram a apoiar Québec Solidaire, o único partido principal a apoiar a educação gratuita e, em vez disso, ignoraram a eleição enquanto a maioria dos estudantes encerrava a greve para lutar pela expulsão dos liberais. Analisamos todo o processo em outro texto. Mas esse erro não tira a lição principal: a necessidade de direção.
A questão da direção é uma questão candente no movimento dos trabalhadores e nos sindicatos em todo o mundo. Quantas vezes ouvimos que os trabalhadores supostamente não querem lutar? Que você não pode organizar uma greve com um estalar de dedos? Em Quebec, os sindicatos do setor público estão em negociações há mais de um ano. O governo de direita da Coalition Avenir Qebec [Coalizão pelo Futuro de Quebec] (CAQ) não cede e está oferecendo condições ridículas aos seus trabalhadores. Enquanto alguns sindicatos de professores estão caminhando para uma greve total, outros sindicatos de professores votaram em mandatos de greve de apenas cinco dias, a serem implementados “no momento apropriado”. Já criticamos essa situação em outro texto. Em uma reunião pública organizada pela seção canadense da CMI, Labor Fightback, em Quebec, um presidente local de um desses sindicatos com mandato de greve de cinco dias explicou sua visão do papel da liderança sindical assim:
“Não nos cabe [a direção do sindicato] decidir [por uma greve], cabe aos nossos membros, e eles podem decidir se os informarmos … no FSE [sindicato] poderíamos ter convocado a greve geral, mas nos “platôs” [sindicalistas locais] não vejo nenhum delegado dizendo “vamos lá, greve total” … Temos que compartilhar informações, somos fantoches quando somos [dirigentes sindicais], não somos aqueles que têm que dizer às pessoas o que fazer … Na minha assembleia geral local, se alguém viesse e dissesse ‘Eu quero uma greve geral’, eu adoraria, acho que explodiria de alegria.”
Essa lógica, levada ao extremo aqui, é encontrada em todo o movimento. Por essa lógica, se os trabalhadores não falam em greve geral, não cabe aos dirigentes sindicais propor. Essa lógica é uma profecia autorrealizável: se os líderes não fazem nada e não propõem uma solução ousada aos membros (que consideram como “dizer às pessoas o que fazer”), então é normal que os trabalhadores não tenham confiança de que podemos lutar e vencer e não proporão formas militantes de lutar contra si mesmos!
Não estamos dizendo que você pode organizar um movimento de massa estalando os dedos. Mas o que estamos dizendo é que o papel dos líderes sindicais é dar direção e não apenas ser um escritório de informações e esperar que os próprios membros cheguem a conclusões radicais. A liderança sindical precisa definir um plano, educar os membros, dar-lhes confiança e, assim, criar as condições para que os membros estejam preparados para seguir o caminho da luta de classes intransigentemente – assim como a liderança do movimento estudantil o fez em 2012.
Construindo uma direção socialista para o movimento
No momento, o movimento dos trabalhadores é liderado por pessoas que acreditam no sistema capitalista e que não acreditam que ele possa ser derrubado. Os dirigentes sindicais se distanciaram das condições dos trabalhadores. Eles preferem o status quo a lutar contra os patrões. Eles são céticos e não acreditam na criatividade e no espírito de luta de seus membros.
A atual direção do movimento dos trabalhadores entrará cada vez mais em conflito com a realidade do capitalismo. A austeridade logo estará na ordem do dia. O capitalismo se mostrará cada vez mais pelo que realmente é: horror sem fim para os trabalhadores. Já estamos começando a ver isso com a pandemia da Covid-19.
Mas o que acontecerá se os dirigentes do movimento sindical permitirem que os trabalhadores sejam atacados e não fizerem nada? Eles ficarão desacreditados aos olhos dos trabalhadores que deveriam representar. Trotsky explica como esse processo se desenvolve:
“Uma direção é formada no processo de confrontos entre as diferentes classes ou no atrito entre as diferentes camadas dentro de uma determinada classe. Uma vez surgida, a liderança invariavelmente se eleva acima de sua classe e, portanto, torna-se predisposta à pressão e à influência de outras classes. O proletariado pode “tolerar” por muito tempo uma direção que já sofreu uma degeneração interior completa, mas ainda não teve a oportunidade de expressar essa degeneração em meio a grandes acontecimentos. Um grande choque histórico é necessário para revelar agudamente a contradição entre a liderança e a classe.”
A pandemia da Covid-19 e a crise econômica que está apenas começando são um desses choques históricos. Em todo o mundo, a raiva das massas está aumentando. Os trabalhadores sofrem com o desemprego, com a redução das condições de vida e de trabalho, enquanto os ricos acumulam fortunas que aumentam a cada dia. Agora que estamos entrando em uma época de revoluções em todo o mundo, a direção do movimento dos trabalhadores ainda está presa ao passado.
Então o que os socialistas podem fazer?
Em um artigo recente, intitulado Líderes socialistas não salvarão os sindicatos, um militante dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW) afirma:
“As pessoas pensam que liderança é uma questão de ter a faixa e a tiara, que em virtude de ser eleito para um cargo, você tem toda essa credibilidade e todo mundo vai ouvir você – e isso simplesmente não é verdade.”
“Na verdade, você precisa simplesmente organizar a base. E não é que você não possa fazer isso como dirigente sindical, mas também não é o caso de que ser dirigente sindical contribua para isso.”
Em certo sentido, concordamos com nossos companheiros anarco-sindicalistas. Eles estão atacando a tendência dos socialistas individuais de se jogarem de paraquedas em posições de direção em um sindicato desconectado da base para promulgar políticas socialistas militantes. Existem numerosos exemplos de bons ativistas que tomam atalhos apenas para se isolar em estruturas de direção e serem engolidos pela burocracia. Os marxistas se opõem totalmente a assumir posições de direção sem primeiro construir uma base.
Mas essa dicotomia entre a organização de base e a direção sindical é fundamentalmente defeituosa e vê apenas a metade do problema. Na verdade, muitos líderes sindicais reformistas concordariam com a ideia de que os dirigentes eleitos não podem se organizar nas bases, porque isso os absolve de ter que agir! Além disso, a mobilização na base é em si um ato de direção – significa conduzir seus colegas para um determinado curso de ação. Mas depois que você se organizou na base, o que acontece a seguir? E se as pessoas em posições de liderança sindical procurarem desorganizar ativamente a base? Eles precisarão ser impedidos de fazê-lo. Como? Se você não está preparado para substituir essas pessoas por dirigentes sindicais que querem lutar, isso significa deixar o controle nas mãos dos maus dirigentes. Quer queiramos ou não, voltamos à necessidade de uma boa direção no movimento, de contrapor os militantes lutadores de classe a dirigentes sindicais distanciados dos trabalhadores.
Qual é, portanto, o papel dos socialistas no movimento operário? Dizemos que, sim, devemos nos organizar entre as bases, defender os métodos da luta de classes, educar os trabalhadores sobre a necessidade de combater o capitalismo. E, com base nisso, podemos ganhar a confiança e autoridade de outros trabalhadores para assumir posições de direção nos sindicatos e liderar o movimento. E a melhor maneira de fazer isso é pertencer à mesma organização revolucionária.
A realidade é que existem alguns indivíduos em direções sindicais que se autodenominam socialistas em Quebec e, de fato, não estão “salvando os sindicatos”. O problema é que estão isolados, não têm uma organização que lhes permita realmente aplicar políticas socialistas contra a resistência de outros líderes do movimento que não querem lutar. Para ter peso real no movimento, é necessário reunir na mesma organização aqueles que compreenderam a necessidade do socialismo.
A história mostrou mais de uma vez, e não apenas no movimento operário como tal, o que acontece com os indivíduos socialistas ou radicais que não constroem uma organização revolucionária. Inevitavelmente, essas pessoas capitularão diante das organizações existentes. Por exemplo, Angela Davis, uma ex-ativista comunista altamente respeitada, há muito desistiu da ideia de construir um partido revolucionário. Ela acabou apoiando o Partido Democrata e Joe Biden na última eleição. O mesmo vale para o anarquista Noam Chomsky ou o supostamente marxista acadêmico David Harvey. A política é feita por meio de organizações. Quando você não constrói uma alternativa, inevitavelmente cairá no “mal menor” existente.
Otimismo revolucionário
A consciência de classe é algo que se desenvolve muito rapidamente. Quantos participantes da luta estudantil de 2012 não sabiam nada sobre o aumento das mensalidades poucos meses antes da greve? Quantos desses estudantes estavam apáticos e desinteressados antes que uma campanha fosse travada para a preparação do movimento? As mesmas perguntas podem ser feitas a todo movimento de massa ou revolução. A consciência é conservadora, mas tem potencial para se tornar radical e revolucionária.
Os céticos se baseiam no lado fraco da classe trabalhadora, em suas camadas apáticas e desmoralizadas, e concluem que uma revolução não é possível. Os marxistas, ao contrário, baseiam-se no imenso potencial revolucionário de nossa classe.

Não, os trabalhadores nem sempre estão prontos para dirigir uma revolução. Mas lutando agora pelas ideias socialistas para ganhar autoridade no movimento dos trabalhadores, podemos contribuir para uma revolução vitoriosa quando as massas se moverem.
Com a pandemia da Covid-19, uma miséria sem precedentes está se instalando para milhões de trabalhadores em todos os lugares. Mas desse caos está surgindo uma nova geração de jovens que querem lutar contra o sistema capitalista.
O maravilhoso movimento de massa nos Estados Unidos, desencadeado pelo assassinato de George Floyd, mostrou que mesmo a maior potência imperialista não consegue escapar da raiva crescente. As condições estão sendo criadas para os movimentos revolucionários em todo o mundo. É nesse potencial que se baseia o otimismo revolucionário inabalável dos marxistas.
A revolução socialista não acontecerá automaticamente. Requer que os militantes defendam conscientemente um programa socialista dentro do movimento. Como ativista socialista isolado, você não pode realizar nada. Mas, unidos sob uma bandeira comum, com um programa e ideias comuns, podemos ter um impacto infinitamente maior do que qualquer ativista individual pode ter. Ao ingressar em uma organização revolucionária, você se fortalece e ajuda a fortalecer outras pessoas. Ao ingressar em uma organização revolucionária, você constrói uma alternativa às organizações existentes que conduzem a classe trabalhadora de derrota em derrota, em vez de aceitá-las e capitular diante delas. Ao ingressar em uma organização revolucionária, você ajuda a levar as idéias do marxismo à classe trabalhadora de uma forma que nenhum indivíduo pode fazer por conta própria. Isso é o que a Corrente Marxista Internacional oferece aos trabalhadores e à juventude. Convidamos você a se juntar a este projeto maior do que todos nós.
Vamos deixar a última palavra para Trotsky, que nos deixou estas linhas inspiradoras alguns meses antes de seu assassinato:
“O mundo capitalista não tem saída, a menos que uma agonia de morte prolongada seja considerada uma saída. É necessário se preparar para longos anos, senão décadas, de guerra, levantes, breves interlúdios de trégua, novas guerras e novos levantes. Um jovem partido revolucionário deve se basear nesta perspectiva. A história lhe proporcionará oportunidades e possibilidades suficientes para se testar, acumular experiência e amadurecer. Quanto mais rápido as fileiras da vanguarda se fundirem, mais a época das convulsões sangrentas será encurtada e menos destruição nosso planeta sofrerá. Mas o grande problema histórico não será resolvido em qualquer caso até que um partido revolucionário esteja à frente do proletariado. A questão do tempo e dos intervalos de tempo é de enorme importância, mas não altera a perspectiva histórica geral nem a direção de nossa política. A conclusão é simples: é necessário continuar o trabalho de educar e organizar a vanguarda proletária com dez vezes mais energia.”
