Embriagado pelo êxito na Venezuela, Trump pensou que os mesmos métodos poderiam ser usados para forçar o Irã à submissão. Ou uma força naval ameaçadora cercando o país levaria à capitulação, ou um ataque de decapitação rápido e certeiro produziria uma mudança de regime através da ascensão de uma nova liderança disposta a acatar as exigências imperialistas (uma “Delcy em Teerã”, como alguns dizem).
Foi um erro de cálculo muito grave. Trump provavelmente acreditou nas suas próprias bravatas, apesar dos avisos dos estrategistas militares. “Por que eles não se renderam?”, perguntou a si mesmo, antes de lançar uma onda de destruição contra o Irã.
Em seu discurso de sábado, ele previu uma guerra de três dias, na qual a cúpula do governo iraniano seria eliminada, levando setores do regime a concordarem em se submeter ao imperialismo estadunidense. Caso isso não acontecesse, uma revolta popular instauraria um regime pró-ocidental.
A direção foi decapitada, mas isso não levou à capitulação nem houve uma revolta popular. Ambos os cenários eram previsíveis. O regime entende que esta é uma luta existencial. Desconfiam dos EUA nas negociações – por um bom motivo – e estavam preparados para a guerra. Estavam também preparados para um ataque de decapitação. O protocolo da Defesa do Mosaico Descentralizado foi ativado, concedendo ampla autonomia operacional às unidades locais, incluindo o lançamento de mísseis balísticos, para que as forças armadas pudessem continuar lutando em caso de perda parcial ou total das capacidades de comando e controle.
Os EUA e Israel possuem um poderio militar imenso. Eles podem bombardear o Irã. Podem causar danos massivos. Além de terem assassinado o Líder Supremo e grande parte da direção do país, eles praticamente desativaram as defesas aéreas, atingiram alguns lançadores de mísseis, danificaram gravemente a marinha iraniana, etc. Mas será que podem forçar o Irã a se render? Isso já é outra questão.
O Irã cobra um preço altíssimo
Como já havia advertido, o Irã decidiu retaliar contra alvos em todos os países da região, particularmente nos países do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, bem como Israel. Os ataques atingiram tanto instalações militares (bases americanas e radares) quanto infraestruturas (portos, aeroportos), especialmente em áreas econômicas estratégicas (refinarias de petróleo, instalações de gás, centros de dados).
O objetivo é claro. Em primeiro lugar, pretendem infligir o máximo de danos a esses aliados dos EUA, a ponto de que pressionem Washington a cessar o ataque ao Irã, ou mesmo a reconsiderarem se a presença de bases militares americanas em seu território justifica o custo.
As economias desses países baseiam-se na estabilidade e na paz, o que garante investimento estrangeiro, centros de transporte, turismo e exportações de energia. Tudo isso está agora em risco. O fechamento do Estreito de Ormuz é um golpe devastador para a Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Dubai e Emirados Árabes Unidos.
Mais do que isso, porém, o fechamento do Estreito de Ormuz visa extrair um enorme preço econômico dos americanos por sua agressão. Vinte e cinco por cento do petróleo transportado por via marítima em todo o mundo passa pelo Estreito, assim como 20% do gás natural liquefeito (GNL) mundial. Além disso, o Irã atacou a maior planta de GNL do mundo, no Catar, forçando seu fechamento. A maior refinaria de petróleo do mundo, na Arábia Saudita, também foi atacada. Enquanto isso, a produção de petróleo iraquiana está sendo totalmente paralisada.
Isso já está produzindo um grande impacto nos preços do petróleo e do gás em todo o mundo, enquanto as ações estão caindo em todos os lugares.
A Ásia está sendo particularmente afetada. Enquanto a China acumulou grandes estoques de petróleo e é em grande parte independente em termos energéticos, países como Coreia do Sul, Japão e Taiwan dependem quase que exclusivamente do petróleo do Oriente Médio. As ações da bolsa sul-coreana, listadas no índice KOSPI, caíram mais de 18%, incluindo uma queda recorde de 12% em um único dia na terça-feira.
Mas talvez a maior crise de todas esteja prestes a atingir a Europa. O preço do gás na Europa disparou, ultrapassando os níveis registrados na época do início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022. O preço de referência do gás na Europa, o TTF holandês, quase dobrou, passando de pouco mais de € 30 por megawatt-hora para mais de € 60.
Uma guerra de desgaste
Após o choque inicial, esta guerra se transformou em uma guerra de desgaste entre os mísseis e drones do Irã e os sistemas de interceptação dos Estados Unidos. Após a experiência da Guerra dos Doze Dias do ano passado, o Irã está plenamente ciente disso.

Há um suprimento limitado dos mísseis muito caros usados em sistemas de defesa aérea, enquanto o Irã possui um grande número de mísseis de diferentes tipos e um fornecimento quase ilimitado de drones de combate muito baratos. Um drone de ataque Shahed pode custar apenas US$ 20.000, enquanto um míssil Patriot tem um preço superior a US$ 4 milhões. Essa disparidade de 1 para 200 levou um especialista a afirmar que é como “lançar Ferraris para deter bicicletas”.
O Irã não perdeu a capacidade de lançar mísseis, mas parece estar seguindo uma política de conservação desses recursos, enquanto dispara um número massivo de drones, que são muito mais difíceis de interceptar e são capazes de causar danos. Às vezes, os mísseis são acompanhados por um enxame de drones, sobrecarregando a capacidade dos sistemas de defesa aérea de atingir objetivos com eficácia.
Os países do Golfo já se queixam do esgotamento dos estoques e estão ressentidos com o fato de os EUA não estarem muito dispostos a substituí-los.
Nas palavras de Suleiman Al-Aqili, analista político saudita, em entrevista à Al Jazeera: “Os Estados Unidos nos abandonaram e concentraram seus sistemas de defesa na proteção de Israel, deixando os estados do Golfo que abrigam suas bases militares à mercê de mísseis e drones iranianos”.
Esse é exatamente o ponto. Ao lançar ataques contra todos os aliados dos EUA simultaneamente, os iranianos estão dizendo: “Vejam, os EUA não podem defendê-los.”
“Os estoques de munições dos Estados Unidos, em nível médio e médio-superior, nunca estiveram tão altos”, Trump publicou furioso no Truth Social. “Como me foi dito hoje, temos um suprimento praticamente ilimitado dessas armas.” O fato de ele sentir a necessidade de fazer afirmações tão absurdas demonstra o quão preocupado ele está. Os fatos contradizem as bravatas de Trump, e os EUA estão até mesmo discutindo a possibilidade de realocar os sistemas Patriot e THAAD da Coreia do Sul para o Oriente Médio.
É evidente que, após o fracasso da tentativa de derrubar o regime, o governo Trump encontra-se em desordem, sem uma saída. Essa é a principal razão para o caos na comunicação do governo Trump. Um dia, trata-se de uma campanha de três dias; no dia seguinte, de uma guerra sem fim; um dia, não há tropas em solo israelense; no dia seguinte, essa possibilidade não é descartada; um dia, “eles querem negociar”; no dia seguinte, “nós não queremos conversar com eles”; um dia, Marco Rubio afirma que os EUA atacaram porque os israelenses estavam prestes a agir sozinhos; no dia seguinte, ele nega ter dito tal coisa; um dia, a operação visa a mudança de regime; no dia seguinte, visa a degradar a capacidade dos mísseis iranianos.
Esta guerra já é muito impopular em casa. 59% se opõem a ela. Agora, está criando enormes divisões dentro da coalizão e da base do MAGA. Isso poderia ser administrado se fosse uma campanha curta com uma vitória decisiva. Mas isso está descartado.
Um dos motivos pelos quais Trump se lançou nessa aventura foi justamente para reforçar seus índices de aprovação em queda livre em casa. Conforme a situação se prolongue e comece a impactar a economia por meio do aumento dos preços da energia, ela se transformará em um pesadelo para ele.
Impotência europeia
A guerra também revelou a insignificância das potências europeias, mergulhadas numa desordem patética. Elas não foram consultadas nem informadas. Inclusive, o Ministro das Relações Exteriores italiano estava de férias em Dubai! Mesmo assim, Trump exigiu a sua colaboração e a utilização de bases militares europeias.
Starmer personifica o dilema deles: primeiro, recusou-se a permitir o uso de bases britânicas, alegando a “ilegalidade” do ataque, embora de olho em seu eleitorado e em seus parlamentares. Depois, em menos de 24 horas, mudou completamente de posição. Agora, afirma que o Reino Unido não está envolvido no ataque ao Irã, mas apenas na defesa de seus aliados na região, que estão sendo atacados pelo Irã. Mas certamente o Irã só está retaliando porque os EUA e Israel o atacaram!
Como mencionado anteriormente, a guerra teve um impacto enorme nos preços do gás no atacado na Europa – um continente que praticamente se isolou das importações de gás russo barato, que representavam 50% do seu abastecimento antes de 2022, e aumentou as compras de gás americano, muito mais caro. Assim que a inflação parecia estar diminuindo um pouco, um novo choque surgiu, que será pago pelas famílias da classe trabalhadora e levará a uma renovada luta de classes para defender o poder de compra dos salários.

A posição de Pedro Sánchez merece um comentário à parte. Ele se recusou enfaticamente a permitir o uso de bases militares conjuntas na Espanha para o ataque ao Irã, o que levou Trump a ameaçar “cortar todo o comércio com a Espanha”. Há um forte elemento de retórica na postura de Sánchez. Seu governo é frágil e depende de uma coalizão partidária muito precária, que lhe garante apoio interno e externo. Ele sabe que o imperialismo estadunidense é extremamente impopular entre seu eleitorado.
A base da sua posição é a mesma dos seus parceiros europeus. Ou seja, ele questiona a legalidade do ataque dos EUA. Mas é preciso dizer que ele é o único que, de fato, tomou medidas concretas em consequência disso.
Continuamos profundamente céticos quanto às implicações práticas da postura desafiadora de Sánchez. Seu histórico em relação a Gaza não é bom. Primeiro, ele afirmou que a Espanha estava bloqueando a venda de armas para Israel; depois, jornalistas descobriram que se tratava apenas de uma questão de não conceder novas licenças de exportação. Em seguida, sob forte pressão da opinião pública, ele declarou um embargo efetivo à venda de armas para Israel… mas a Espanha permaneceu como o maior importador europeu de armas israelenses, financiando, assim, sua máquina de guerra genocida.
Embora Sánchez tenha proibido os EUA de usar suas bases militares na Espanha para o ataque ao Irã, essa decisão só entrou em vigor no sábado. Os EUA conseguiram usar as bases de forma muito eficaz para o preparo prévio ao ataque. Isso era legal sob o direito internacional? Será que Sánchez pensou que eles estavam apenas indo passear no Oriente Médio?
O governo espanhol anunciou agora que enviará ajuda militar para a defesa de Chipre. Na prática, a Espanha fará parte da agressão militar imperialista contra o Irã.
Os curdos
Washington está se esforçando para elaborar uma estratégia de acompanhamento após o fracasso de sua ofensiva inicial. Crescem os rumores de uma incursão armada curda no Irã. Há, sem dúvida, um forte elemento de ilusão e bravata nisso. No entanto, o Mossad, e mais recentemente a CIA e Trump, têm tentado pressionar por uma extensão da guerra nessa direção.
Esta semana, uma nova aliança de seis grupos curdos iranianos que operam a partir do Irã anunciou sua união e pediu a deserção de militares iranianos. Enquanto isso, o próprio Trump conversou por telefone com os líderes curdos iraquianos de direita Masoud Barzani e Bafel Talabani, na região curda do Iraque, para tentar convencê-los a entrar na guerra.
Apesar de serem fantoches leais do imperialismo estadunidense, eles se mostraram pouco entusiasmados, e é fácil imaginar a razão disso. Os iranianos já haviam bombardeado Erbil, e eles logo se tornariam alvos não apenas do Irã, mas também das milícias alinhadas ao Irã dentro do Iraque e do governo turco, que é extremamente hostil a qualquer separatismo curdo.
É verdade que, se existe alguma região do Irã onde uma revolta armada contra o regime é mais provável, essa região é a área curda. Desde 2018, durante as repetidas revoltas contra o regime iraniano, as áreas curdas têm estado na linha de frente. Em muitas ocasiões, grupos armados curdos chegaram a conseguir expulsar temporariamente as forças da República Islâmica.
Contudo, as massas curdas sempre negaram as acusações da República Islâmica de que tinham intenções separatistas. Os trabalhadores e jovens mais progressistas tinham a intuição apurada de que a força dos movimentos dependia da sua união com os seus irmãos e irmãs em todo o Irã, que lutavam pela queda do regime.
É evidente, no entanto, que o Mossad tem fomentado ligações com grupos armados, que se deixam manipular pelo imperialismo israelense-americano.
Resta saber se tudo isso levará a algo ou não, mas duas observações já podem ser feitas.

A primeira lição é que os curdos não devem confiar no imperialismo estadunidense. Em 1991, durante a primeira Guerra do Golfo, George Bush pai conclamou os curdos [e os árabes xiitas dos pântanos] a se levantarem contra Saddam Hussein. Quando o fizeram, os EUA os abandonaram e permitiram que fossem massacrados. Dezenas de milhares foram mortos. Mais recentemente, Washington traiu os curdos de Rojava depois que eles deixaram de ser úteis. As lições são claras. Os direitos das nações oprimidas são meros trocados nas maquinações das grandes potências.
Em segundo lugar, o objetivo final dos Estados Unidos não coincide completamente com o de Israel. Os EUA querem um regime submisso em Teerã. Os métodos usados por Trump para subjugar a Venezuela supostamente se baseavam em lições aprendidas com a mudança de regime no Iraque e na Líbia. No Irã, eles podem estar caminhando justamente para o cenário que queriam evitar.
Fomentar uma insurgência armada curda pode levar a uma fragmentação extremamente desastrosa do país e à sua transformação em um pesadelo semelhante ao da Líbia. Isso, no entanto, seria conveniente para Israel, que almeja a destruição e o desmembramento do Irã e de qualquer outro país da região que possa contrabalançar seu poder.
Precisamos ser claros. A liberdade ou a democracia jamais foram conquistadas com base na agressão militar dos EUA.
Imprudência
Como um jogador, Trump está desperdiçando dinheiro, numa tentativa desesperada de reverter a situação. Ele está criando uma situação ainda mais catastrófica, na qual os interesses do imperialismo americano sofrerão um golpe devastador.
O bombardeio massivo de Teerã fortaleceu o apoio ao regime. O assassinato de Khamenei o transformou em um mártir, ao mesmo tempo em que abriu caminho para um sucessor que pode de fato desejar desenvolver armas nucleares. A manipulação imprudente da questão curda ameaça envolver a Turquia, enquanto mergulha o Iraque em uma nova guerra civil.
Protestos que beiram a insurreição eclodiram no Bahrein. Embaixadas americanas estão sendo fechadas em toda a região. E a economia mundial está entrando em colapso.
Para quê?
Para milhões de pessoas, está claro que se trata de dominação imperialista. Na mente de grande parte da população, isso está ligado ao escândalo Epstein. Somos governados por uma classe de bilionários, a “classe Epstein”, que não hesita em cometer atrocidades contra pessoas comuns, seja no país ou no exterior. Isso está preparando o terreno para a desintegração do movimento MAGA e para uma guinada massiva à esquerda nos EUA e em muitos outros países.
A ousada aposta de Trump em atacar o Irã pode se revelar um fator crucial no desmoronamento de toda a sua presidência.
Nunca foi tão fácil defender a ideia de que devemos nos organizar para derrubar a classe bilionária e seu sistema capitalista imperialista, para que a humanidade possa viver em paz em qualquer lugar deste planeta.
Dizemos:
Tirem as mãos do Irã! Abaixo o imperialismo EUA-Israel!
