Esse artigo foi elaborado pelos camaradas da célula do Espírito Santo da ICR – Brasil, em setembro de 2025, em preparação ao Congresso Nacional realizado em novembro. Publicamos agora este artigo, pois entendemos que ele lança luz sobre como o capital chinês vem penetrando no Brasil e na América Latina, obviamente isso traz consequências políticas importantes.
Considerando o papel da China no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, definido por Lênin como imperialismo, este texto tem por objetivo apresentar elementos concretos para a avaliação da influência do capital chinês no desenvolvimento da economia do estado do Espírito Santo. Em especial, considerando um dos principais produtos da China importados pelo Brasil: os carros elétricos e híbridos.
Pode-se questionar que a exportação de mercadorias não denota, necessariamente, uma relação de dominação por parte de um país imperialista. No entanto, as grandes quantidades de carros chineses exportados para o Brasil fazem com que a China ocupe espaços importantes neste novo mercado antes de seus concorrentes. Um passo seguinte é a exportação de capital propriamente dita, buscando construir unidades de suas montadoras de veículos elétricos no Brasil, para consolidar seu espaço no mercado e prover peças de reposição e serviços de manutenção sem a necessidade de importação desses itens.
Dados preliminares
Desde 2023, os carros chineses superam os carros alemães nas importações pelos portos do Espírito Santo, um dos principais receptores de veículos do Brasil. A empresa BYD, uma das maiores do ramo de carros elétricos e híbridos, importou, em 2024, cerca de 70% de toda a importação nacional pelos portos capixabas. Isto é, 95 mil carros dos 135 mil entraram pelo complexo portuário do estado, especialmente pelos portos de Vila Velha — recentemente privatizados, sob propriedade da empresa Vports — e pelos portos de Aracruz, em especial o Portocel.
Este último porto, no município de Aracruz, recebeu em fevereiro de 2025 uma das maiores operações já registradas com o navio Explorer 1, da BYD, que atracou carregado com 5.524 carros. Cabe destacar que a BYD planeja construir mais 7 navios cargueiros do mesmo portel do Explorer 1 para dar vazão à sua produção e exportação.
Outra operação semelhante ocorreu no porto de Suape, em Pernambuco, com o mesmo Explorer no ano anterior, transportando 5.459 carros. No entanto, considerando o total das importações da empresa chinesa em 2024 (70% pelo ES e o restante divididos entre os demais portos) e os rumos das negociações com empresas e governantes do Espírito Santo, tudo reafirma a importância do estado para as ambições das empresas chinesas de ampliar mercado no Brasil e na América Latina. Apesar do aumento da tarifa de importação entre 2023 e 2024, que passou de 10% para 18%, houve nesse mesmo período um crescimento de 167% nas importações de carros elétricos e híbridos.

O litoral recortado do Espírito Santo sempre foi um dos pontos fortes do estado, que possui um dos principais complexos portuários do país. Além dessas condições naturais desenvolvidas e aprimoradas ao longo de décadas, a posição geográfica em relação aos principais centros de consumo dos carros elétricos (Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Bahia) favoreceu o aumento das operações. Sem deixar de mencionar que desde julho de 2023 foi inaugurada a rota direta de 41 dias do porto de Taicang, na China, para o porto de Vila Velha, sem necessidade de transbordo.
Embora a rota Taicang–Vila Velha tenha sido muito utilizada entre 2023 e 2024, as últimas operações no Portocel, em Aracruz, e a construção do porto privado da empresa Imetame prometem ser os grandes protagonistas das importações no próximo período. Isso porque o porto da Imetame está sendo preparado especificamente para receber navios do porte do Explorer 1,da BYD. Isto é, um porto de águas profundas. Considerando os novos 7 navios do mesmo porte construídos pela BYD, os portos capixabas podem não apenas servir como ponto de entrada dos carros elétricos, mas também se tornar um polo de exportação dos veículos produzidos no Brasil para outros países, como o México. Esse potencial é reforçado pelas facilidades oferecidas pela Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Aracruz.
Além da capacidade dos portos do complexo de Aracruz, duas outras questões prometem potencializar a capacidade logística da região: o Plano Estruturante de Integração Logística – ParklogBR/ES e a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Aracruz-ES, a primeira ZPE privada do Brasil.
O ParklogBR/ES já conta com um investimento de R$1 bilhão. O projeto inclui a construção da Rodovia ES-115, com o objetivo de integrar os portos de Aracruz ao polo industrial da Serra e à BR 101, além de prever melhorias nos portos, ferrovias e transporte aéreo. O empreendimento também contará com áreas destinadas ao armazenamento e à organização de cargas.

Fortalecer a malha ferroviária como alternativa para o trânsito de produtos com destino ao interior do país é um passo fundamental para o escoamento da produção vinda do Centro-Oeste e de Minas Gerais. Embora não seja esse o centro desta análise, com o avanço das exportações do agronegócio e as consequências da tarifação de Trump, essas melhorias no escoamento de mercadorias se apresentam também como uma alternativa segura para as exportações. Mais uma vez, a proximidade com os principais centros de produção do agronegócio contribui significativamente para esse processo.
Exportações de lítio e o comércio chinês
Um caso à parte é a exportação de lítio do Brasil para a China, elemento essencial na produção de baterias elétricas. Antes de tudo, é importante destacar que a China domina o mercado mundial de baterias elétricas e o Brasil possui um dos maiores potenciais de extração de lítio do mundo.
A Sigma Lithium, empresa brasileira criada no Canadá e situada em MG, em 2023 exportou sua primeira remessa de 15 mil toneladas de lítio verde, além de outras 15 mil toneladas de outros subprodutos de alta pureza, todas pelo porto de Vitória. Entre essa primeira operação, em 27 de julho de 2023, e 1º de julho de 2024, foram realizadas dez remessas vindas do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, chegando à marca de 22 mil toneladas em uma única remessa.
No mesmo ano de 2023, a BYD comprou os direitos de pesquisa e lavra sobre duas áreas do Vale do Jequitinhonha. A BYD e a China Nonferrous Industry Group (CNMC) possuem agora o plano de ao menos abastecer a fábrica de baterias da BYD em Manaus (AM). A demanda tende a aumentar com o pleno funcionamento da fábrica da empresa em Camaçari, na Bahia, onde serão produzidos carros elétricos e híbridos.
A chinesa CNMC chegou ao país no ano passado e comprou a Mineração de Taboca, no município de Presidente Figueiredo (AM), de onde extrai o estanho. A aliança entre as duas empresas fortalecerá a disputa da China com os Estados Unidos por metais estratégicos. É importante ressaltar, de passagem, que a combinação das diversas etapas da produção de uma mercadoria sob o domínio de uma única empresa é um traço típico do período imperialista do capitalismo, segundo Lênin.
A exportação de lítio pode ainda ser facilitada e ter sua produtividade ampliada caso alguma fábrica de automóveis elétricos ou de baterias se instale na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Aracruz. Se, nas condições atuais, essa já é a rota do lítio para a China, uma fábrica nessa ZPE pode permitir ao país consolidar seu mercado de carros elétricos no Brasil e no restante da América, sobretudo considerando as condições altamente favoráveis de exportação pelos portos capixabas, que integram essa zona de livre comércio com o exterior.

A ZPE de Aracruz foi criada por decreto publicado em 19 de outubro de 2023. O documento institui a primeira zona do tipo a ser administrada por uma empresa privada, justamente a Imetame. Trata-se da mesma empresa que está construindo os portos destinados a receber os navios da BYD, com capacidade para cerca de 6 mil carros. A ZPE constitui-se como uma área aduaneira primária, de livre comércio com o exterior.
As empresas que se instalarem na região da ZPE contarão com tratamento tributário e cambial específicos, além de incentivos fiscais próprios da Sudene, que incluem redução de até 75% no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e acesso a linhas de crédito específicas. Há, ainda, a suspensão da cobrança do IPI, Cofins e PIS/Pasep. Nas exportações, são suspensos o Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante e o Imposto de Importação.
Isso significa que as empresas que se instalarem nessa zona não pagarão os mesmos impostos de importação sobre os suprimentos necessários à sua produção. Também poderão exportar para outros países sem arcar com os mesmo impostos e tributações aplicados às empresas que produzem em território nacional.
Dito de outra forma, uma empresa como a chinesa GWM (Great Wall Motors), ao se instalar na ZPE, poderá receber todos os insumos necessários para produzir seus veículos sem pagar taxas de importação e, em seguida, exportá-los para a Argentina, México ou até mesmo para o Brasil. No caso da exportação da ZPE para o território brasileiro, a empresa teria a vantagem de não depender do transporte marítimo: bastaria pagar as taxas de importação ao atravessar a fronteira entre a zona e o restante do território nacional.
Impactos econômicos e sociais
O Brasil é o segundo maior importador de carros da China, ficando atrás apenas da Rússia. Considerando a expansão do mercado de carros elétricos e híbridos no Brasil e as experiências dos portos capixabas em 2023 e 2024, representantes do governo do estado e de empresas do Espírito Santo têm visitado com frequência a China, visando atrair investimentos e alavancar a economia local.
É importante dizer que a GWM, uma das maiores montadoras de carros elétricos do mundo, pretende abrir mais uma fábrica no Brasil. As negociações para a instalação no Espírito Santo estão bastante avançadas. A montadora chinesa já possui uma fábrica em Iracemápolis (SP), e a escolha pelo Espírito Santo se dá pela logística já existente, considerando que todos os carros da GWM já são importados pelo porto de Vitória-ES.
Além do anúncio da GWM, a estatal chinesa JMCG, em parceria com o Grupo Renault, está próxima de construir suas fábricas na cidade de Jaguaré, no norte do estado. Esse município se aproxima também dos portos de Aracruz e da ZPE. Essa parceria prevê a oferta de veículos com valores abaixo de R$100 mil e o registro, como patente brasileira, dos primeiros carros elétricos com câmbio manual. A produção inicial será destinada às autoescolas e, posteriormente, expandida para o mercado geral. Será a primeira produção desse tipo que se aproxima da experiência com os carros a combustão.
Toda essa movimentação tem como objetivo consolidar o Espírito Santo como um hub estratégico para inserção do estado, e do Brasil, de maneira mais intensa no mercado exterior. Em todos os casos, tanto pela infraestrutura existente quanto pelo potencial de desenvolvimento de investimentos privados e públicos, somados à posição central do estado em relação ao território nacional, tudo aponta para um grande potencial ainda não plenamente realizado, tanto nas importações quanto nas exportações pelos portos capixabas.
Esse movimento de preparação logística e de dinamização do escoamento de mercadorias já movimenta uma quantia significativa de capital e tem se mostrado um forte atrativo para investidores de diversos setores. Além disso, apenas o escoamento das mercadorias, tal como ocorre hoje, mobiliza cerca de 1.200 trabalhadores, operando uma frota de 380 caminhões. Somam-se a isso os empregos gerados indiretamente em concessionárias automobilísticas, postos de combustíveis e outras empresas especializadas, fatores relevantes para a classe trabalhadora capixaba. Isso sem contar os novos postos de trabalho a serem criados nas montadoras em construção.
Todo esse impacto econômico é visto como um novo ciclo de desenvolvimento, que coloca o município de Serra (ES) no centro desse processo. O avanço também mobiliza os municípios vizinhos que a separam de Aracruz, onde estão localizados os principais portos a serem utilizados nesse novo ciclo. A necessidade de expansão decorre da saturação dos portos de Vitória e da total dedicação do Porto de Tubarão ao escoamento dos produtos da VALE e da ArcelorMittal — principalmente aço e minério de ferro.
As operações do ParklogBR/ES prometem, portanto, colocar o parque industrial da Serra no mercado mundial. Mais do que isso, devem transformar o município em um verdadeiro “corredor de suporte às operações portuárias de Aracruz”, nas palavras do vice-governador do estado Ricardo Ferraço. Além disso, o governo do estado mantém conversas avançadas com a gigante da celulose Suzano, com o objetivo de transformar a área do entorno do Contorno de Jacaraípe — parte da obra da rodovia ES-115, do ParklogBR/ES — em um celeiro de novos empreendimentos, em vez de extensas plantações de celulose.

Desafogar a ES-010 e construir uma ligação alternativa entre Aracruz e Serra deve gerar empregos diretos e indiretos, que prometem aquecer a economia local. Além disso, a proposta busca potencializar a vocação turística dos balneários dos municípios envolvidos, todos com belíssimas praias — em especial os balneários de Jacaraípe e Nova Almeida, ambos situados no município de Serra, que tiveram fama nacional nos anos 1990 e início dos anos 2000.
No último período, houve uma constante migração para o município de Serra, que nos últimos dez anos contribuiu para o acréscimo de 10 mil habitantes por ano. Essa tendência deve se intensificar, e talvez estejamos diante do início da expansão do que se compreende como região metropolitana do Espírito Santo. Ou, no mínimo, colocando a Serra em outro patamar de desenvolvimento
Essa nova situação econômica e social tende a aquecer e a gerar novos embates entre a classe trabalhadora, seus dirigentes e os patrões. Daí a importância de armar os trabalhadores e a juventude com uma compreensão correta da realidade concreta e de suas perspectivas utilizando o método do marxismo, o método da análise concreta da situação concreta. Esse é um requisito fundamental para construir uma posição clara sobre os diversos elementos que constituem esse desenvolvimento econômico local, estrategicamente planejado e claramente condicionado.
A análise sobre a situação no estado do Espírito Santo, em particular, não deixa dúvidas quanto à tendência de uma submissão cada vez maior do Brasil ao imperialismo chinês. Uma submissão que já vem produzindo profundos impactos econômicos e sociais, percebidos por todos os capixabas.
Perspectivas para o Espírito Santo
Como apontado, a construção da primeira ZPE privada do Brasil e as obras do ParklogBR/ES envolvem rodovias, fortalecimento dos portos e ferrovias, além da construção de pátios de armazenamento e distribuição de mercadorias, bem como aeródromos. Tudo isso, somado à construção do porto da Imetame, deve provocar uma mudança significativa na forma como se compreende o espaço urbano da região metropolitana do estado do Espírito Santo.
A proximidade do governo do estado com as empresas chinesas, além do comércio já consolidado, deixa claro o intuito de oferecer toda essa estrutura para fortalecer ainda mais essa relação e solidificar a posição do ES como um hub estratégico nas relações comerciais entre o Brasil e a China.
Salta aos olhos, evidentemente, a posição de submissão do Brasil ao imperialismo chinês quando se observa a exportação de lítio e a importação de carros elétricos. Ou seja, a clássica relação de exportação de matéria-prima e importação de mercadorias com alto valor agregado, fruto do desenvolvimento tecnológico e industrial.
Essa relação torna-se ainda mais evidente quando percebemos que ela movimenta toda uma estrutura (governo do estado, prefeituras e iniciativa privada), projetando-se em um futuro próximo marcado pela consolidação de mercados e de relações entre empresas que já estão em pleno vapor.
Construção de fábricas e infraestrutura, ampliação da classe operária empregada, criação de empregos diretos e indiretos, transformação do espaço urbano, aumento da concentração populacional urbana, novos conflitos sociais e agravamento dos já existentes. Essas são as perspectivas para o desenvolvimento da luta de classes no Espírito Santo, especialmente no município de Serra.
Tudo isso ocorre diante dos limites da capital Vitória para sustentar o crescimento da força de trabalho necessária à reprodução do capital, bem como do esgotamento da capacidade de escoamento de mercadorias pelos portos de Vitória e pelo Complexo de Tubarão.
Todas essas transformações, sem sombra de dúvida, terão profundas implicações sobre as universidades e os institutos federais das regiões envolvidas. Surgirão ou serão reforçados cursos, programas de ensino e bolsas voltadas a atender às demandas desses setores econômicos, novos ou em expansão.
Compreender esse processo é fundamental para que os militantes se sintam fortalecidos na análise e explicação dos acontecimentos, tornando-se capazes de agir conscientemente sobre a realidade e de desenvolver a confiança e o entusiasmo necessários para conquistar e formar novos militantes. Um entusiasmo que nasce de ideias corretas, correspondentes à realidade viva em que os militantes estão inseridos.
É fundamental ter uma análise concreta da situação no Espírito Santo para armar os militantes na compreensão do que se passa (uma conjuntura marcada por mudanças radicais nas relações sociais e no espaço urbano, de trabalho e de estudo). Apenas assim a organização poderá agir com acerto e ser capaz de conectar-se e atrair os elementos mais avançados da juventude capixaba radicalizada.
Nessa luta é fundamental compreender que, quando levantarmos a palavra de ordem “Fora o imperialismo das terras de Aracruz! Pela estatização da ZPE e pela imediata reintegração do território sob domínio estatal; pela estatização sob controle dos trabalhadores de todas as empresas instaladas na ZPE”, quando levantarmos essas consignas, nosso alvo principal, ao que tudo indica, será a burguesia capixaba emaranhada com o imperialismo chinês.
