Para marcar o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, neste 08 de março, republicamos a análise marxista de Fred Weston sobre as origens da opressão das mulheres e suas raízes no nascimento da sociedade de classes. Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 41 da revista In Defence of Marxism — a revista teórica trimestral da Internacional Comunista Revolucionária.
[Também publicado na revista América Socialista nº 23, em português]
Bilhões de mulheres em todo o mundo enfrentam cotidianamente a discriminação, a violência e a opressão. Mas não foi sempre assim. O antropólogo Lewis Henry Morgan apresentou, de forma pioneira, a ideia revolucionária de que as mulheres na sociedade humana primitiva eram livres e iguais, e que as origens da opressão das mulheres podem ser encontradas no surgimento da propriedade privada e da família “nuclear” monogâmica. Hoje, Morgan é rejeitado pelo establishment acadêmico, mas neste artigo, Fred Weston explica que a ideia básica de Morgan sobre a evolução da família foi respaldada por estudos e descobertas modernas. Os marxistas devem levar em consideração as ideias de Morgan junto às evidências mais recentes, a fim de entender as origens da opressão das mulheres na sociedade, e os meios através dos quais podemos dar um fim a essa opressão de uma vez por todas.
A opressão das mulheres e as origens da família como a conhecemos são questões prioritárias para quem deseja lutar por um mundo melhor hoje. Um grande número de mulheres ainda sofre abuso e assédio sexual. Em algumas partes do mundo, elas vivem em condições de escravidão. Milhões de meninas e mulheres ainda hoje são forçadas a sofrer mutilação genital feminina, um dos métodos mais bárbaros utilizados para controlar a sexualidade feminina, enquan-to milhões de mulheres jovens são traficadas para exploração sexual. A violência contra a mulher ainda é uma ocorrência cotidiana, sendo o feminicídio um fenômeno contínuo.
Esta é a barbárie da sociedade em que vivemos atualmente, e apesar de algumas conquistas importantes, ainda estamos muito longe de alcançar a igualdade genuína e plena entre homens e mulheres. Devemos nos fazer a seguinte pergunta: essa é a forma natural de homens e mulheres se relacionarem entre si? Frequentemente nos dizem que sim; que a família “nuclear” monogâmica, com uma figura paterna dominante e poderosa, sempre existiu e que os homens são naturalmente agressivos com as mulheres. Mas este é realmente o caso?
Marx e Engels responderam a essa questão firmemente pela negativa. Engels, em particular, desenvolveu a abordagem marxista da opressão das mulheres em sua famosa obra, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, publicada em 1884. Ele se baseou principalmente no texto de Lewis Henry Morgan, A Sociedade Primitiva (1877), que argumentava: “o conceito de família é produto do desenvolvimento de etapas sucessivas de desenvolvimento”1, das quais a moderna família monogâmica foi apenas “a última de uma série de formas” . Ele explicou que isso estava claramente conectado ao desenvolvimento de novas técnicas, ferramentas e armas, ou seja, ao desenvolvimento das forças produtivas.
Morgan tinha uma abordagem fundamentalmente materialista sobre essa questão e, inicialmente, exerceu uma grande influência entre os antropólogos de seu tempo. Mas, eventualmente, suas ideias passaram a ser vistas como uma ameaça à estabilidade da sociedade burguesa e esse foi particularmente o caso depois de Engels utilizar suas descobertas para elaborar a visão marxista sobre essa questão.
No século XX, as ideias de Morgan e Engels foram ferozmente atacadas por antropólogos conservadores, tais como Bronislaw Malinowski, que candidamente declarou:
“Se chegássemos ao ponto de acabar com a família individual como o elemento central de nossa sociedade, estaríamos diante de uma catástrofe social em comparação à qual a convulsão política da Revolução Francesa e as mudanças econômicas do Bolchevismo são insignificantes”2
Outros, como aqueles da escola de antropologia de Boas [Franz Boas, antropólogo teuto-americano – NDT], rejeitaram a própria ideia de etapas na história, o “determinismo” e a “teoria da evolução” em favor de uma abordagem idealista que ainda hoje exerce uma poderosa influência sobre esse campo de pesquisa.
Sem dúvida, Morgan estava limitado pelo nível do conhecimento científico disponível em meados do século XIX e algumas de suas ideias não sobreviveram ao escrutínio do tempo. Mas uma questão muito mais importante é: até onde ele estava correto? E o que isso nos diz sobre a evolução da família e seu possível futuro?
Essas questões têm um significado decisivo para a luta por um mundo melhor. E, em última análise, elas somente podem ser respondidas através de uma abordagem genuinamente científica da história de nossa espécie.
Método materialista
Morgan se dedicou ao estudo das formas primitivas da sociedade e realizou uma tentativa genuína de entender suas estruturas sociais internas e o que impulsionava as mudanças nessas estruturas – da mesma forma como Darwin se dedicou ao estudo da evolução biológica.
Morgan percebeu que, ao observar as sociedades contemporâneas em diferentes etapas de desenvolvimento e comparando-as entre si, era possível reconstruir uma imagem de como a sociedade humana havia evoluído em seu conjunto. Ao fazer isso, desenvolveu uma teoria da evolução social: que as sociedades passam por etapas similares de desenvolvimento e que há uma direção para esse processo, de formas menos desenvolvidas a formas mais desenvolvidas.

Morgan entendeu que as instituições sociais passam a existir de acordo com desenvolvimentos específicos nas condições sociais. Ao fazê-lo, ele inconscientemente tirou conclusões muito similares àquelas do materialismo histórico, o método desenvolvido por Marx e Engels. Encontramos um exemplo claro desse método onde Morgan afirma:
“O fato importante de que a espécie humana começou na base da escala e se elevou, é revelado de maneira expressiva por suas sucessivas artes de subsistência. De sua habilidade nessa direção, dependia toda a questão da supremacia humana na terra. Os seres humanos são os únicos de quem se pode dizer que obtiveram um controle absoluto sobre a produção de alimentos, o que, de início, eles não possuíam acima dos outros animais. Sem ampliar a base da subsistência, a humanidade não poderia se propagar a outras áreas que não possuíssem os mesmos tipos de alimentos e, em última análise, a toda a superfície da terra; e, por último, sem obter um controle absoluto sobre sua variedade e quantidade, não poderiam se multiplicar em nações populosas. Em consequência, é provável que as grandes épocas de progresso humano tenham sido identificadas, mais ou menos de forma direta, com a ampliação das fontes de subsistência.”3
A abordagem evolutiva de Morgan sobre o desenvolvimento da sociedade como sendo determinada pelo desenvolvimento das forças produtivas, destaca-se claramente. Ele dividiu a sociedade em diferentes estágios: “selvageria, barbárie e civilização”, com a selvageria abrangendo três períodos, o Inferior, o Médio e o Superior, sendo o menos desenvolvido o período inferior. Morgan explicou que, com novas ferramentas e técnicas, tais como a pesca, ou o arco e a flecha, a humanidade passa de um estágio para outro. Ele dividiu a barbárie, da mesma forma, em três, conforme a cerâmica é dominada; à medida que os seres humanos aprendem a domesticar animais, a plantar, a desenvolver sistemas primitivos de irrigação, a fazer tijolos etc.; e, finalmente, a dominar o uso dos metais, como o bronze e o ferro.
Os termos que ele utiliza, “selvageria, barbárie e civilização”, assumiram conotações um tanto depreciativas, mas não devemos ver o uso desses termos por Morgan da mesma forma. O que nos interessa aqui é a essência do significado e não o que esses termos hoje sugerem. De qualquer forma, sua linha do tempo de desenvolvimento não mais corresponde exatamente ao que mais de 150 anos de pesquisas estabeleceram, mas a ideia do desenvolvimento da humanidade através de estágios está essencialmente correta.
Que a sociedade humana passou através de vários estágios de desenvolvimento, baseados fundamentalmente nos materiais utilizados para a produção de ferramentas, é geralmente reconhecido pelos arqueólogos atuais, quando dão a períodos da história nomes como a Idade da Pedra, a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. Através do desenvolvimento das ferramentas, os seres humanos passaram de caçadores-coletores a agricultores no Neolítico, ou “Nova Idade da Pedra”. Mais tarde, foram realizados avanços na metalurgia, primeiro com o bronze e mais tarde com o ferro, o que permitiu o surgimento das grandes civilizações do mundo antigo. Este não foi um processo linear e idêntico em todos os continentes do mundo. Em parte, isso também dependia dos recursos locais disponíveis. Não obstante, esta é a imagem geralmente aceita.
Foi essa abordagem materialista que atraiu a atenção de Marx e Engels. Como explicou Engels em 1884:
“Morgan, à sua maneira, descobriu, novamente, na América, a concepção materialista da história, descoberta por Marx quarenta anos antes, e em sua comparação de barbárie e civilização isso o levou, nos pontos principais, às mesmas conclusões de Marx.”4
De fato, Marx havia estudado A Sociedade Primitiva de Morgan, junto às obras de outros antropólogos do período, e escreveu notas extensas, com a intenção de produzir um texto com sua própria interpretação de suas últimas descobertas. Infelizmente, Marx morreu antes de que pudesse completar esse trabalho, mas suas anotações5 foram utilizadas por Engels para produzir seu texto clássico em 1884, logo após a morte de Marx. O trabalho de Engels sobre as origens da família pode, dessa forma, ser considerado uma obra conjunta dos pais fundadores do Marxismo.
Endogamia e promiscuidade dos humanos primitivos
Morgan sustentava que a sociedade humana primitiva começou com o que ele chamou de família “consanguínea”, isto é, a procriação entre parentes próximos. Só mais tarde, explicou ele, através de vários estágios, a reprodução sexual entre indivíduos aparentados foi eliminada e certas proibições foram estabelecidas.
Quando Morgan levantou essa ideia pela primeira vez, ela foi rejeitada com indignação, e ainda o é em muitos círculos. Afinal, o que poderia ser mais estranho aos costumes sociais de nosso tempo? Por parecer tão antinatural em seu próprio tempo, alguns sociólogos, como Westermarck, afirmaram que havia um instinto natural para evitar a endogamia.
No entanto, estudos recentes respaldaram a ideia de que a endogamia existiu entre os primeiros humanos, demonstrando o quanto nossa noção da família mudou ao longo dos milênios. Um estudo publicado em 2018 concluía que a proporção relativamente alta de deformidades nos esqueletos da Idade do Gelo provavelmente foi causada pela endogamia, uma teoria respaldada pelo baixo nível de diversidade genética encontrado nesses esqueletos.6
Mas isso evidentemente não continuou sendo o caso, e um interessante estudo produzido na Universidade de Cambridge relata que a análise de restos humanos no sítio arqueológico de Sunghir, na Sibéria, mostrou:
“Os primeiros humanos parecem ter reconhecido os riscos da endogamia há pelo menos 34.000 anos e desenvolveram redes sociais e de acasalamento surpreendentemente sofisticadas para evitá-la […]”7
Isso é significativo porque demonstra crucialmente que as relações sexuais entre os seres humanos havia mudado. Em certo estágio a família humana evoluiu, com novas relações emergindo das antigas. De fato, as “sofisticadas redes sociais e de acasalamento” podem até representar as primeiras formas do que mais tarde se tornou conhecido como as “gens”.

Morgan viu quatro estágios subsequentes de desenvolvimento da família baseados na proibição do incesto, onde machos e fêmeas não podiam acasalar com membros de seu próprio clã ou “gens”, para usar a expressão latina. Em outras palavras, surgiram sistemas que proibiam o acasalamento dentro de um determinado grupo.
Ele levantou a hipótese de que, sob esse sistema, o “casamento em grupo” era a norma. Significava isso que todos os homens de um grupo tinham todas as mulheres de outro grupo como suas “esposas” ao mesmo tempo? Não necessariamente. Foram encontradas sociedades onde o “casamento em grupo” envolvia efetivamente uma forma de “aliança” entre os grupos, na qual indivíduos de um grupo só podiam selecionar seus parceiros dentro de outro grupo.
No entanto, o que se deve enfatizar é a natureza relativamente promíscua do acasalamento no período inicial da sociedade humana. Ao contrário da concepção tradicional da família, homens e mulheres não estavam vinculados permanentemente a um parceiro, podendo romper livremente o relacionamento e buscar outro parceiro.
Milhares de anos de uma moralidade que evoluiu sob a pressão da sociedade de classes, onde a mulher era considerada como propriedade do homem, e onde a mulher deve ser fiel a um homem por toda sua vida, deixaram na consciência coletiva a noção de que este é um estado de coisas natural e universal. No entanto, muitos estudos indicam que a “promiscuidade” – no sentido da liberdade dos indivíduos de escolher com quem acasalar, quando e por quanto tempo – estava claramente presente nas primeiras sociedades humanas.
Como explica Engels: “O que significa então a relação sexual promíscua? Que as restrições vigentes atualmente ou em épocas anteriores não existiam”. Mas em seguida ele também acrescenta: “De forma alguma se segue disso, necessariamente, que uma promiscuidade exagerada estava na prática diária. Emparelhamentos separados por tempo limitado não são de forma alguma excluídos; de fato, mesmo no casamento em grupos, eles constituem agora a maioria dos casos.”8
No entanto, a existência do “emparelhamento”, ou de casais no contexto do clã maior ou do “gens”, não deve ser vista como “casamento”, como o conhecemos. Morgan enfatizou que “era baseado no emparelhamento de um homem com uma mulher sob a forma de casamento, mas sem uma coabitação exclusiva […] O divórcio ou a separação ficava a critério de ambos, marido e esposa”9 (Ênfase adicionada). Isso significa que, no casamento, como o conhecemos, tanto o homem quanto a mulher não estavam atados um ao outro permanentemente.
No entanto, isso preparou o terreno para a posterior família monogâmica, que, segundo Morgan: “se fundava no casamento de um homem com uma mulher, com uma coabitação exclusiva; a última constituindo o essencial da instituição. É preeminentemente a família da sociedade civilizada e, portanto, era essencialmente moderna.”10 Mas o surgimento dessa moderna família requeria uma reviravolta completa da ordem existente para vir a existir.
Descendência matrilinear
A posição da mulher não era de subordinação à posição do homem antes do aparecimento da família monogâmica e patriarcal, e é sobre essa questão que Morgan provavelmente fez a maior contribuição para nossa compreensão da sociedade humana.
Morgan não era um antropólogo de poltrona e fez um trabalho de campo real e concreto entre os Iroqueses, aos quais estudou de perto, vivendo entre eles durante um período. Ele também estudou outros povos indígenas das Américas, enquanto reunia informações de muitas outras fontes sobre povos em estágios iniciais de desenvolvimento humano.

Ele viu que as mulheres tinham um status muito mais igualitário entre os Iroqueses do que no mundo “civilizado”. Engels, baseando-se nas pesquisas de Morgan, comentou: “Todos eram iguais e livres – inclusive as mulheres”.11 Mas por que era assim?
Morgan concluiu que, em um período anterior, os humanos se organizavam em clãs matrilineares, nos quais a descendência era traçada através da linha materna, não pela família patriarcal (literalmente, dominada pelo pai) que eventualmente apareceu com o surgimento da propriedade privada e da sociedade de classes.
Existe muito debate sobre se o “matriarcado” alguma vez existiu, mas este é um debate falso e enganoso. O matriarcado implica o domínio das mulheres, mas o que Morgan sublinhou foi a matrilinearidade, isto é, o traçado da descendência pela linha materna no período inicial da sociedade humana, pois a ausência do emparelhamento estrito ou permanente significava que não havia maneira segura de se saber quem era o pai. A matrilinearidade não significava que os homens não desempenhassem nenhum papel ou fossem subordinados à mulher.
Há muitas tentativas de negar a matrilinearidade, e isso porque toda a história escrita, que começa no 4o milênio a.C., é de civilizações que eram sociedades de classe patriarcais. Portanto, é fácil de se perceber de onde vem a ideia de que “os homens sempre dominaram as mulheres”. No entanto, os exemplos sobreviventes de sociedades matrilineares hoje oferecem apoio à teoria de Morgan.
Nas províncias chinesas de Yunnan e Sichuan temos o povo Mosuo, onde a linhagem ainda é traçada através das mulheres da família e a propriedade é transmitida pela linha feminina. As crianças pertencem à mãe e residem em sua casa. Os homens de Mosuo têm o dever de cuidar dos filhos de suas irmãs e primas (um fenômeno que Morgan descreve nas sociedades matrilineares que ele estudou) e estão encarregados da criação de animais e da pesca, coisas que aprendem com seus tios (irmãos de suas mães) e com os membros masculinos mais velhos da família.
Os Bribri da Costa Rica, os Minangkabau da Sumatra Ocidental, alguns dos povos Akan de Gana e Khasi da Índia, ainda traçam sua descendência através da linha feminina. Nenhuma dessas sociedades teve qualquer contato entre elas.
O influente antropólogo, Franz Boas, tentou encontrar exemplos da passagem da patrilinearidade à matrilinearidade, a fim de desacreditar todo o esquema de Morgan. Ele acreditava ter encontrado isso entre os Kwakiutl, na Costa Noroeste do Pacífico da América. Mas isso se revelou mais tarde um exemplo inválido. Boas encontrou a descendência sendo traçada tanto por linhas masculinas quanto por linhas femininas, mas o que ele ignorava era que esta sociedade havia sofrido um enorme trauma sob o impacto do contato com os europeus, e todo o seu sistema estava desmoronando sob esta pressão.
É fácil imaginar como o traçado da descendência e a herança de qualquer propriedade existente, através da linha materna, reforçaria a posição das mulheres na sociedade. Mas há outro fator importante a ser levado em consideração: a natureza extremamente igualitária da sociedade de caçadores e coletores em geral.
Comunismo primitivo
Devemos observar que, embora o próprio Morgan não fosse comunista, e sim um republicano dos EUA e um burguês próspero que acreditava que o sistema político dos EUA era a mais alta forma de sociedade, ele se refere várias vezes em seu livro Ancient Society ao fato de que os primeiros humanos viviam de maneira comunista, ou seja, não havia propriedade privada.
Colin Renfrew é um ex-professor de arqueologia da Universidade de Cambridge e foi um membro Conservador da Casa dos Lordes de 1991 a 2021 – portanto, alguém que não pode ser acusado de ter simpatias comunistas! Em seu livro, Prehistory – The making of the Human Mind, ele declara o que se segue:
“As primeiras sociedades de caçadores e coletores, como aquelas de nossos ancestrais paleolíticos, parecem ter sido sempre comunidades igualitárias, onde os indivíduos participavam com base na igualdade […]”12 (ênfase nossa)
Em que se baseava esse igualitarismo? Nas sociedades de caçadores e coletores não havia divisão em classes, nem proprietários dos meios de produção, nem propriedade fundiária. A pequena “propriedade” que existia eram as rudimentares ferramentas e armas para caçar e abater animais e para forragear, além das roupas que usavam.
Como não havia propriedade privada ou divisão da sociedade em classes, não havia nem exploradores nem explorados e, portanto, nenhum aparato armado pairando acima da sociedade. Morgan afirma:
“O Estado não existia. Seus governos eram essencialmente democráticos, porque os princípios sob quais as gens, a fratria e a tribo se organizavam eram democráticos.”
Em sua descrição dos Iroqueses, ele declara que: “cada família praticava o comunismo ao viver”.13
A ideia de que os humanos viveram no que Marx e Engels chamaram de “comunismo primitivo”, sem nenhuma concepção de propriedade privada durante a maior parte de sua existência, é inaceitável para os que defendem a noção de que ricos e pobres, ou exploradores e explorados, sempre existiram; que a feroz competição individual do capitalismo moderno simplesmente faz parte da “natureza humana” e que temos que aceitá-la.
Como colocou o antropólogo americano Leslie A. White em sua obra The Evolution of Culture, The Development of Civilization to the Fall of Rome:
“[…] tão ameaçadora se tornou a teoria do comunismo primitivo, aparentemente, que membros das três ‘escolas’ antropológicas se sentiram desafiados a acabar com ela. Lowie, da escola de Franz Boas, atacou-a repetidamente. Malinowski, um dos líderes da escola Funcionalista, classificou-a como ‘talvez a falácia mais enganosa que existe na antropologia social’. […] Lowie foi elogiado por estudiosos católicos por sua crítica à teoria do comunismo primitivo, e, por meio disso, por sua oposição às doutrinas socialistas. […] Parece que se fazia um esforço para ‘tornar o mundo seguro para a propriedade privada’.”14
Apesar de todas as objeções, no entanto, existem muitos estudos que confirmam a natureza igualitária das sociedades de caçadores e coletores, onde as mulheres desfrutavam de uma posição muito mais alta na sociedade e eram tratadas como iguais, e não como uma propriedade dos homens.15
Uma característica fundamental dos humanos é sua tendência à cooperação e ao compartilhamento. Os humanos não poderiam sobreviver sem isso. Não somos particularmente rápidos ou fortes quando comparados a muitos outros animais. Como indivíduos isolados, nas condições existentes na época, estaríamos em risco constante de sermos devorados pelos grandes carnívoros, ao mesmo tempo em que teríamos muito mais dificuldades para conseguir comida. Portanto, essa cooperação não veio de algum espírito abstrato de altruísmo, mas de uma necessidade material. A cooperação era necessária não apenas na caça, como também na coleta.
Caça, coleta e matrilocalidade
Parece que havia uma divisão do trabalho entre os sexos nas sociedades pré-históricas de caçadores e coletores, embora variasse de um povo a outro, e não fosse uma divisão estrita, como encontramos em sociedades de classe posteriores, como os Gregos.
Algumas vezes os homens participavam da coleta e as mulheres ajudavam na caça, como ficou demonstrado em descobertas recentes de túmulos de mulheres com suas armas. Mas, em geral, os homens tendiam a sair para caçar e as mulheres tendiam a forragear. E ambas as atividades eram igualmente importantes. De fato, as saídas para caçar algumas vezes eram infrutíferas, enquanto o forrageamento sempre trazia algo para casa. Assim, a divisão do trabalho nesse estágio da sociedade humana não implica a subordinação da mulher ao homem.
De fato, a divisão do trabalho que existia dentro da família realmente tendia a promover a posição das mulheres em muitos casos. Kit Opie e Camila Power, autoras de Grandmothering and Female Coalitions – A Basis for Matrilineal Priority?16, argumentam que, nas sociedades que analisaram, o número de calorias requeridas para alimentar a todos os adultos e as crianças em um grupo exigiria a cooperação das mulheres e suas parentes do sexo feminino, em particular as avós, ao lado dos homens. Entre os !Kung do deserto do Kalahari, por exemplo, os estudos revelam que “a coleta contribui com 60 a 80 por cento da dieta total”.17
As mulheres que não podem sair para forragear, seja porque estão nos últimos estágios da gravidez ou amamentando bebês recém-nascidos, recebem suas calorias diárias porque as outras mulheres as fornecerão. Mais uma vez, isso não se deve a algum espírito abstrato de altruísmo. É prática padrão que todos se ajudem, porque sabem que, quando se encontrarem na mesma situação, também serão ajudados.

Portanto, a ideia de que as mulheres eram totalmente dependentes dos homens e que, mesmo nas primeiras sociedades humanas, tinham que buscar um homem individual para sobreviver, não se sustenta.
Tudo isso proporciona uma base material sobre a qual repousava a igualdade entre os sexos. Opie e Power também explicam o papel das mulheres mais velhas, que não podiam mais ter filhos, mas que poderiam desempenhar um papel fundamental mais tarde na vida ajudando a sustentar a prole de suas filhas. Isso explicaria a natureza matrilocal das famílias – as mulheres ao lado de suas mães – e também a natureza matrilinear da sociedade.
Elas apontam que:
“Evidências da genética molecular sugerem que uma tendência ancestral dos parentes femininos de se manterem juntos persistiu com o surgimento dos humanos modernos. Os estudos revelam diferenças nos padrões de filopatria [a tendência de um indivíduo retornar ou permanecer em sua área natal ou em seu local de nascimento] entre populações dedicadas à caça e à agricultura na região subsaariana da África.”18
Elas acrescentam: “Quanto maior a dependência da caça nessas populações, menor a probabilidade de serem patrilocais”. Isso significa que as mulheres nas sociedades caçadoras e coletoras tendem a permanecer dentro de um grupo onde as mulheres são aparentadas, com mães, irmãs, primas, mas onde os homens com quem acasalam vêm de fora. Tudo isso é uma impressionante confirmação do que Morgan descreveu em 1877!
Há, naturalmente, exceções a essa regra, tais como o povo indígena do Norte do Alaska, entre os quais encontramos “homens que fornecem quase toda a alimentação”. Eles são caçadores e não agricultores. No entanto, isso não se deve ao fato de que as pessoas ali simplesmente “acham” que caçar é melhor, e “escolhem” não adotar o plantio de lavouras.
Outro artigo explica que em “algumas regiões árticas e subárticas, existem comparativamente poucos animais pequenos e nenhum alimento vegetal de importância dietética, de modo que a caça de grande porte representa uma proporção muito grande de todos os alimentos consumidos.”19 Há uma razão material concreta pela qual os homens desempenham um papel tão importante na obtenção de alimentos em tal situação: “A possibilidade de uma coleta significativa ou de mudança para a agricultura não é provável nessas sociedades árticas ou subárticas.”20
O fato de se encontrarem essas “exceções” não nega o quadro geral da evolução social, onde as condições foram favoráveis ao desenvolvimento da agricultura. Como os autores explicam:
“Com o propósito de entender a transição às sociedades agrícolas, esses grupos também podem ser de interesse limitado como um modelo das sociedades caçadoras e coletoras que vieram a existir na África, na Europa e em outros lugares que experimentaram a transição para a agricultura.”21
Isso claramente tem um enorme significado para a posição das mulheres nessas sociedades. As mulheres, individualmente, não se mudaram da casa de seus pais para a casa de seus maridos e ali permaneceram, cercadas por sua extensa família, como é muito comum hoje em todo o mundo. Isso significava que elas eram destacadamente menos dependentes de seus parceiros. Em vez disso, seu parceiro encontrava-se cercado por todos os lados pelos parentes de sua parceira e era, por extensão, dependente deles.
Em alguns casos, os caçadores do sexo masculino tinham que dar todas as suas capturas à mãe de sua parceira antes que ela a distribuísse entre a família. Não é de admirar que os exemplos que sobrevivem dessas comunidades registrem uma taxa tão baixa de violência contra as mulheres em relação à nossa.
Propriedade, Desigualdade e Monogamia
Essa forma de vida igualitária começou a mudar na sequência do surgimento da agricultura, no que ficou conhecido como a Revolução Neolítica, há cerca de 12.000 anos.
Estudos confirmam que a desigualdade de gênero mudou gradualmente durante um longo período, enquanto os humanos transitavam da caça e da coleta para a agricultura, em particular ao cultivo de safras. Evidências arqueológicas de todo o mundo sugerem uma mudança na divisão do trabalho entre homens e mulheres após a adoção da agricultura. As causas diretas variam de lugar para lugar, mas certo número de fatores importantes desempenharam claramente um papel: a crescente taxa de natalidade e, portanto, maiores responsabilidades com os filhos, maiores exigências de processamento de alimentos e, eventualmente, o uso de implementos mais pesados, como o arado.
Um estudo publicado pela Social Science Research Network em 2012, explica:
“[…] a passagem para a agricultura levou a uma divisão do trabalho dentro da família, onde o homem usava sua força física na produção de alimentos e a mulher cuidava da criação dos filhos, do processamento e produção dos alimentos e de outras tarefas relacionadas à família.”
Continua:
“A consequência foi que o papel das mulheres na sociedade, por si mesmo, já não lhes dava sua viabilidade econômica. Essencialmente, a mudança geral na divisão do trabalho associada à Revolução Neolítica agravou as opções externas das mulheres (fora do casamento), e isto aumentou o poder de negociação dos homens dentro da família, que, ao longo de gerações, se traduziu em normas e comportamentos que moldaram as crenças culturais sobre os papéis de gênero nas sociedades. […] Em resumo, fornecemos novas evidências consistentes com a hipótese de que uma Revolução Neolítica precoce, por meio de seus efeitos sobre as crenças culturais, é uma das fontes dos modernos papéis de gênero.”22
Junto à mudança na divisão do trabalho, também parece ter havido uma mudança da matrilocalidade para a patrilocalidade, o que teria produzido um impacto ainda maior na posição da mulher no lar. Um artigo de 2004 da Universidade La Sapienza de Roma revelou que um estudo do DNA mitocondrial em 4o populações da África Subsaariana mostrou “uma diferença surpreendente na estrutura genética de produtores de alimentos (de fala Bantu e Sudanesa) e populações de caçadores e coletores (Pigmeus, !Kung e Hadza)”23. As mulheres das populações caçadoras e coletoras, como os !Kung e Hadza, eram mais propensas a permanecer com suas mães depois do casamento do que as mulheres de populações produtoras de alimentos dependentes da agricultura, sugerindo uma forte ligação entre a agricultura e a patrilocalidade.
Naturalmente, é quase impossível precisar quando exatamente a descendência matrilinear deu lugar à patrilinearidade. A mudança teria ocorrido em um período remoto do passado não registrado, e cada sociedade individual teria se desenvolvido à sua maneira e em seu próprio ritmo. Mas é certo que essa transição ocorreu em algum momento entre o advento da agricultura e o surgimento das primeiras sociedades de classe, há aproximadamente 5-6.000 anos, porque cada uma dessas sociedades era patrilocal, patrilinear e, acima de tudo, patriarcal.
Morgan identificou a chave dessa mudança dramática na ascensão da propriedade privada, explicando que:
“[…] a questão da herança seguramente surgiria, aumentaria em importância com o aumento da propriedade em termos de variedade e quantidade, e resultaria no estabelecimento de alguma regra de herança.”24
A propriedade não surgiu imediatamente como privada, pois inicialmente as regras de herança estavam baseadas na propriedade comum da terra e dos rebanhos dentro da gens, essencialmente nas unidades familiares mais amplas que formavam a base da sociedade até a formação dos primeiros Estados. Isso significava que a propriedade não poderia ser transferida para fora da gens.
Sob a gens matrilinear, os filhos permaneciam dentro da gens da mãe. Portanto, era através da linha feminina que a propriedade era herdada. Isso significava que os filhos dos homens não se encontravam na gens de seus pais, mas na gens de suas parceiras. No entanto, em certo ponto, em diferentes partes do mundo e em momentos distintos, à medida que os homens acumulavam cada vez mais propriedades, ocorreu uma mudança pela qual os direitos de propriedade passaram para a linhagem masculina.

A desigualdade, as classes e a opressão das mulheres não surgiram imediatamente das primeiras formas de agricultura e domesticação de animais. Mas, uma vez realizada a passagem para a agricultura, estavam criadas as condições para uma produtividade cada vez maior da terra. Como se pode ver em uma série de sítios Neolíticos, o “comunismo na vida” continuou mesmo quando os humanos passaram de uma existência nômade para uma sedentária. No entanto, o excedente que eventualmente era produzido significava que era apenas uma questão de tempo até que surgissem as classes e, com elas, a desigualdade social, cujas primeiras vítimas seriam as mulheres. No período que vai desde as primeiras sociedades agrícolas sedentárias até o surgimento das primeiras civilizações conhecidas na história, esse processo foi concluído.
Isso se repetiu de forma independente em muitas partes do mundo, incluindo a Mesopotâmia (hoje, Iraque), o Egito, as Américas Central e do Sul, a China, o Sul da Ásia e partes da África subsaariana. Nenhuma delas era uma cópia perfeita uma da outra, mas tinham muitas características em comum.
Não podemos dizer exatamente como se deu a passagem da descendência matrilinear à patrilinear. No entanto, Morgan pôde entrevistar membros de várias tribos na América do Norte e notou que algumas delas haviam passado recentemente da herança através da linha feminina à linha masculina – em alguns casos na memória viva. Como ele disse:
“Muitas tribos indígenas agora têm propriedades consideráveis em animais domesticados e em casas e terras pertencentes a indivíduos, entre os quais a prática de doá-las aos filhos durante a vida se tornou comum para evitar a herança gentílica.”25 (ênfase nossa).
Ele explica que, à medida que a propriedade aumentava em quantidade, a deserdação dos filhos dos homens começava a “suscitar oposição à herança gentílica”, ou seja, através da linha materna. Este é, na realidade, um exemplo vivo de como a transição da matrilinearidade à patrilinearidade pode ter ocorrido em outras sociedades.
Assim, o surgimento da propriedade privada foi o elemento chave na determinação da mudança radical no status das mulheres, da igualdade à subordinação aos homens. “A família monogâmica deve sua origem à propriedade”26, escreveu Morgan.
Surgiu uma nova forma de sociedade, onde os homens donos de propriedades passaram a impor às mulheres condições antes desconhecidas. A única forma de garantir que a mulher gerasse os filhos do marido era a imposição de regras estritas de comportamento, como a reclusão das mulheres dentro de casa, a proibição de as mulheres saírem de casa desacompanhadas e a estrita fidelidade. Morgan descreve o processo assim:
“Depois que as casas e as terras, os rebanhos e as manadas, e os bens intercambiáveis se tornaram tão grandes em quantidade, e passaram a ser de propriedade individual, a questão de sua herança pressionaria a atenção humana […].”
Morgan explica que a família acabou se tornando “uma organização de criação de propriedades” e acrescenta:
“Chegara o momento em que a monogamia, tendo assegurado a paternidade dos filhos, afirmaria e manteria seu direito exclusivo de herdar os bens do falecido pai.”27
Morgan, como vimos, não se limitou a observar os Iroqueses, nem às informações que recebia de outros estudiosos e viajantes. Também olhou para outras fontes, por exemplo, para os Gregos e Romanos antigos, e para o que poderia se discernir de seus primeiros escritos, de seus mitos e lendas, sobre suas estruturas familiares anteriores.
Encontra vestígios da gens nos primeiros textos e mitos dos Romanos e Gregos antigos, bem como no “sept” irlandês, no “clã’ escocês no “ganas” sânscrito e assim por diante. Isso é altamente significativo, pois essas culturas nunca poderiam ter tido qualquer contato com as tribos nativas americanas que Morgan havia observado.
Os Gregos e Romanos antigos adotavam uma gens de base masculina, tendo realizado a transição da gens feminina anterior, e ele descreve como isso continuou no período inicial da urbanização.
Na sociedade Grega antiga, vemos a queda das mulheres em uma de suas piores formas. Temendo que qualquer contato com outros homens pudesse levar a relações sexuais, os homens Atenienses não permitiam que suas esposas fossem vistas em público, e aos homens de fora da família não era permitido estar com a mulher da casa. Na antiga Roma, o paterfamilias era a autoridade suprema, com poder de vida e morte sobre todos os membros da família, esposa, descendência e escravos.
Deve-se notar que essa “monogamia” era, na realidade, somente para as mulheres. E, ao lado dessa nova e restrita moralidade, emergiram, nas antigas sociedades de classe, distintas formas de prostituição feminina (e, em alguns casos, masculina). O Estado Ateniense chegou a regulamentar a prostituição, com a introdução de bordéis.
Antes que emergissem essas sociedades de classe, as mulheres eram reverenciadas e honradas como doadoras da vida. Os épicos Gregos referem-se a deusas e guerreiras femininas, elevadas a uma posição de adoração e respeito. Robert Graves, em seu Os Mitos Gregos (1955), expressou a visão de que a Grécia da Idade do Bronze havia transitado de uma sociedade “matriarcal” – poderíamos dizer, matrilinear – a uma patriarcal. Ele se refere à história de Zeus engolindo Metis, a Deusa da Sabedoria, após o que “os Aqueus suprimiram seu culto e arrogaram toda sabedoria a Zeus como seu deus patriarcal”.28
Esse rebaixamento divino da mulher era claramente um reflexo de seu rebaixamento real na terra. William G. Dever argumentou em seu livro, Did God Have a Wife? [Teve Deus uma Esposa?], que um processo semelhante ocorreu na mitologia dos antigos hebreus, que em seu período inicial acreditavam que Javé (seu deus) tinha uma esposa, considerada como a Rainha dos Céus.29
Morgan e Engels sobre o futuro da família
O que Morgan tinha a dizer sobre o desenvolvimento passado da família desafiava a visão tradicional, mas o que ele disse sobre o futuro da família era ainda mais desconcertante para os burgueses:
“Quando se aceita o fato de que a família passou através de quatro formas sucessivas, e se encontra agora em uma quinta forma, surge imediatamente a questão de se saber se essa última forma pode permanecer no futuro. A única resposta que pode ser dada é que deve avançar à medida que a sociedade avança, e mudar à medida que a sociedade muda, como aconteceu no passado”.30
Engels foi mais longe:
“[…] o que podemos conjecturar atualmente sobre a regulação das relações sexuais após o iminente desaparecimento da produção capitalista é, no essencial, de um caráter negativo, limitado principalmente ao que vai desaparecer. Mas, o que será adicionado? Isso será resolvido depois que uma nova geração tiver crescido: uma geração de homens que nunca em toda as suas vidas tiveram a oportunidade de comprar a rendição de uma mulher seja com dinheiro ou através de outros meios de poder social, e de mulheres que nunca foram obrigadas a se render a qualquer homem por qualquer consideração que não seja o amor verdadeiro, ou de abster-se de se entregar ao seu amado por medo das consequências econômicas. Uma vez que apareçam essas pessoas, elas não se importarão nem um pouco com o que hoje pensamos que elas deveriam fazer. Elas estabelecerão sua própria prática e sua própria opinião pública, compatível com isso, sobre a prática de cada indivíduo – e ponto final.”31
Engels é frequentemente caluniado como um homem do período Vitoriano, mas nessas poucas frases vemos que ele estava realmente muito à frente de seu tempo na questão da família e sobre como os humanos se relacionariam sexualmente no futuro.

Depois que Engels produziu sua obra clássica, as fileiras da II Internacional e, mais tarde, da Internacional Comunista, foram educadas nas ideias que ele elaborou sobre esta questão. Quando os Bolcheviques chegaram ao poder em 1917, começaram a implementar essas ideias, o que se pode ver nas várias leis e reformas adotadas em relação ao casamento, aos direitos das mulheres, aos cuidados dos filhos etc.
Juntamente com as reformas políticas, Lênin e Trotsky enfatizaram a necessidade de uma igualdade social e política genuína, liberando as mulheres do fardo do trabalho doméstico, do cuidado dos filhos, etc., que até hoje pesam desproporcionalmente sobre as mulheres.
O isolamento da revolução em um único país atrasado significava que muitas dessas reformas progressistas só poderiam ser parcialmente alcançadas, pois a União Soviética não tinha suficientes recursos materiais para mantê-las. No entanto, suas ousadas reformas nos proporcionaram um vislumbre do que uma sociedade genuinamente socialista poderia alcançar. E é precisamente por esta razão que não só os Bolcheviques, mas inclusive o próprio Morgan, não poderiam ser perdoados pela classe dominante.
Reação burguesa contra Morgan e Engels
Vale a pena notar aqui o tratamento muito diferente dado a Darwin e a Morgan. Darwin também não entendeu plenamente como a evolução ocorreu, e isso porque certas descobertas científicas ainda não tinham sido realizadas, como a genética. Isso não diminui seu papel histórico de ter impulsionado fortemente nossa compreensão de como evoluiu a vida.
Morgan teve tratamento diferente. A burguesia pode conviver com a ideia da evolução biológica. Até tentam torcê-la a fim de utilizá-la para justificar a própria sociedade capitalista. Mas não podem conviver com uma ideia que leva inevitavelmente à conclusão de que o próprio capitalismo é uma mera etapa, destinada a chegar ao fim.
Embora Morgan não fosse inimigo do capitalismo, suas descobertas nas mãos de Engels apontavam em uma direção: assim como a sociedade havia mudado no passado em linha com o desenvolvimento das forças produtivas, então um maior desenvolvimento dessas forças estava preparando as condições para o fim do próprio capitalismo e, com isto, da família como era conhecida durante milhares de anos sob as diferentes formas de sociedades de classe. Portanto, as ideias de Morgan tinham que ser minadas e desacreditadas, porque minar seu ponto de vista significava também minar Engels e a visão dos marxistas, que eram vistos como promotores de ideias perigosas que ameaçavam a estabilidade da sociedade burguesa.
É claro que é necessário sermos objetivos ao tratarmos de Morgan e da antropologia de seu período. Por exemplo, ele não compreendia o nível de desenvolvimento alcançado pelas culturas ameríndias mais avançadas, como a dos Astecas. Acreditava que estavam no mesmo nível dos Iroqueses. Mesmo quando seu erro foi apontado por um de seus discípulos, ele persistiu nessa visão.
No entanto, continua claro que Morgan havia rompido claramente com a visão estreita de seus predecessores – e mesmo contemporâneos – e, inconscientemente, aplicou o método do materialismo histórico à compreensão do desenvolvimento humano inicial. Ele deu uma importante contribuição à nossa compreensão do desenvolvimento da sociedade humana e isto deve ser reconhecido.
O que temos de entender, no entanto, é que aqueles que atacam Morgan ou Engels não o fazem do ponto de vista de aguçar nossa compreensão com base em estudos mais atualizados – algo a que o próprio Engels estaria aberto. Não, eles atacam e tentam desacreditar seu método científico, o método do materialismo dialético, como parte de um ataque mais amplo e geral contra o marxismo.
Até meados do século XIX – o período da ascensão capitalista – os primeiros economistas, historiadores, paleontólogos e antropólogos burgueses ainda buscavam, de forma genuína, descobrir os mecanismos que determinavam o desenvolvimento da sociedade. Adam Smith, por exemplo, estava lidando com os mecanismos que determinavam como o capitalismo funcionava. Mas isso exigiu que Marx tirasse todas as conclusões lógicas.
No entanto, na virada do século XX, quando o capitalismo alcançou seus limites e começou a estagnar e a entrar em crises, a classe capitalista deixou de desempenhar qualquer papel genuinamente progressista, e isso impactou também em sua abordagem a tais estudos.
A classe burguesa havia se tornado totalmente reacionária e estava buscando ideias para justificar sua existência continuada. A razão é muito clara: suas riquezas e privilégios dependem da continuação do atual sistema e, portanto, eles buscam mostrar que ele nunca pode acabar.
O renomado antropólogo, Bronislaw Malinowski, foi uma importante figura nessa investida burguesa. “A família individual sempre existiu, e […] está invariavelmente baseada no matrimônio de pares solteiros”32, declarou ele em 1931.
Malinowski estava reagindo à ideia de que a família havia evoluído ao longo do tempo, passando por diferentes formas. Sua posição era que a análise histórica das formas anteriores da família carecia de evidências e que ela sempre foi, é e será nuclear. Como citado acima, ele acreditava que a “família individual” (com o homem à cabeça) era o “elemento central de nossa sociedade”, e que eliminá-la seria uma “catástrofe social”.
Vemos aqui como muitos antropólogos que tentaram entender as sociedades anteriores, as viram através das lentes da sociedade em que nasceram. Na ciência pode haver uma coisa chamada preconceito social. A ciência não é um “foro” neutro para as ideias; é um campo de batalha que reflete todas as pressões da sociedade de classes.
A antropologia, por ser um estudo da sociedade humana, é uma das ciências mais propensas a tal tipo de preconceito social. A fé religiosa, as tradições, a moralidade e os preconceitos de classe podem desempenhar um papel em cegar os antropólogos sobre o que realmente está à frente deles, particularmente quando se trata das normas sexuais, mas também da questão da propriedade.
Portanto, desde o início do século XX, a antropologia viu uma reação crescente contra as ideias de Morgan. Marvin Harris, em seu The Rise of Anthropological Theory (1968), explica que a moderna antropologia entrou no século XX com o mandato de “expor o esquema de Morgan e destruir o método em que se baseava”33 (ênfase nossa).
Qual era o método que eles pretendiam destruir? Harris explica que: “Os antropólogos do século XIX acreditavam que os fenômenos socioculturais eram governados por princípios legítimos detectáveis”. No século XX, no entanto, “passou a ser amplamente aceito que a antropologia nunca poderia descobrir as origens das instituições ou explicar suas causas”34.
Esta foi uma recusa de uma abordagem científica e materialista aos estudos antropológicos e uma virada para os métodos anticientíficos e idealistas. Isso levou a uma situação em que:
“Com base em evidências etnográficas parciais, incorretas ou mal interpretadas, emergiu uma visão da cultura que exagerava todos os ingredientes quixotescos, irracionais e inescrutáveis da vida humana. Encantados com a diversidade dos padrões, os antropólogos buscavam eventos divergentes e incomparáveis. Enfatizaram o significado interno e subjetivo da experiência com exclusão dos efeitos e das relações objetivas. Negaram o determinismo histórico em geral e, acima de tudo, negaram o determinismo das condições materiais de vida.”35
Essa abordagem idealista recusou o métodos evolucionário materialista e, com ele, a ideia de que se poderia elaborar uma visão histórica global e de longo prazo do desenvolvimento da sociedade; recusou a ideia de que as leis de desenvolvimento da sociedade podiam ser encontradas e, em vez disso, insistiu em que cada cultura poderia ser vista de forma isolada como única e sem nenhuma ordem específica para o desenvolvimento. Franz Boas (1858-1942) foi um dos pioneiros dessa tendência, com sua teoria do “particularismo histórico”.

Isso, de fato, foi uma antecipação do pensamento pós-moderno, que viu uma série de esquerdistas desiludidos e mesmo “marxistas” se afastarem de uma perspectiva científica e materialista em direção à negação não só das leis de desenvolvimento, mas também do próprio desenvolvimento.
Houve antropólogos que lutaram contra essa tendência, tais como Leslie A. White e Marvin Harris, os quais à sua maneira resistiram à deriva ao idealismo e mantiveram uma abordagem materialista. Mas, como Harris comentou em 1999 em seu Theories of Culture in Postmodern Times: “Devo confessar que a virada dada pela teoria – afastando-se das abordagens processuais cientificamente orientadas e em direção a um pós-modernismo ‘vale tudo’ – tem sido muito mais influente do que eu pensava ser possível quando olhei para a frente a partir do final da década de 1960”36. Essa virada não foi uma coincidência.
Com as abordagens de Franz Boas e, mais tarde, dos pós-modernistas, tudo o que resta é uma massa de estudos de casos individuais, de fatos isolados, desconectados uns dos outros, sem nenhuma tentativa de estabelecer uma relação de causa e efeito, com a conclusão final de que a realidade é incognoscível.
Uma das críticas que a escola de Boas fez a Morgan e a todos os evolucionistas sociais do período, foi que eles tinham uma visão rígida de como se desenvolviam as culturas humanas, impondo um modelo no qual todas as culturas locais tinham que ser enfileiradas.
É verdade que as sociedades humanas não evoluíram todas exatamente da mesma maneira, preenchendo cada fase dentro de uma espécie de plano pré-ordenado. Podemos negar que em diferentes condições geográficas e climáticas houve diferentes ritmos e direções de desenvolvimento? Isso seria absurdo e anticientífico. Por exemplo, foi demonstrado que houve casos em que as culturas que haviam embarcado nas primeiras formas de agricultura, posteriormente retornaram à caça. Por que isso? Porque nas condições dadas, a agricultura se mostrou menos produtiva, ou as mudanças climáticas obrigaram esses grupos humanos a se deslocarem. Havia uma razão concreta e material para essa mudança de volta ao que se poderia presumir uma forma menos desenvolvida de sustento.
Se aplicarmos isso à família, veremos que, apesar de sua adoção da agricultura e da domesticação de animais, alguns sítios Neolíticos sugerem uma igualdade continuada entre os sexos, mesmo por períodos de tempo muito longos. E também podemos encontrar sociedades caçadoras e coletoras onde a opressão das mulheres surgiu sob a influência de formas posteriores de sociedade, onde houve contato com agricultores – um exemplo marcante da lei do desenvolvimento desigual e combinado.
No entanto, isso não refuta que existam leis discerníveis de evolução social e estágios. A questão é que o processo geral tendeu em uma direção e por razões materiais que podemos entender. Nem uma só sociedade de classes apresentou o nível de igualdade observado em uma ampla gama de sociedades caçadoras e coletoras, passadas e presentes.
Uma visão objetiva do desenvolvimento da sociedade, uma observação dos fatos apresentados, mostra que, sim, a evolução social tomou rumos ligeiramente diferentes, dependendo das condições locais. Mas uma coisa é reconhecer isso e outra coisa completamente diferente tirar disso a conclusão de que não há leis discerníveis de desenvolvimento social.
Boas não foi de forma alguma o único antropólogo a adotar tal perspectiva. Outros, depois dele, adotaram uma abordagem igualmente idealista. O que podemos afirmar é que seu método, independentemente da intenção, se adapta à classe capitalista atual. Em vez de usar a linguagem abertamente reacionária de Malinowski, eles podem se esconder por trás de uma filosofia que se apresenta como progressista, quando, na verdade, é profundamente reacionária.
A necessidade de uma compreensão teórica
Para concluir, podemos apresentar a questão: Por que tudo isso é importante? Por que defendemos as ideias centrais elaboradas por Morgan e Engels da evolução social e, com elas, a ideia de que a família evoluiu? A resposta a essa questão é que uma compreensão teórica é indispensável na luta pela abolição da opressão.
Este debate não é de mero interesse acadêmico. O conflito entre materialismo e idealismo em todas as esferas da vida é um conflito entre o progresso e a reação. Na verdade, faz parte da luta de classes.
Se aceitarmos a perspectiva antimaterialista e idealista que passou a dominar a antropologia no século XX – e continua a fazê-lo hoje – ficaremos sem uma compreensão real de como e por que razão a sociedade mudou, de como e por que razão a família mudou e, portanto, de como e por que razão pode mudar mais uma vez no futuro. Ficaremos com a ideia de que é a mente dos indivíduos que determina as mudanças e não a mudança das condições que determina as mudanças no pensamento.
O afastamento da perspectiva materialista e evolutiva na antropologia foi um passo atrás, pois não deixou espaço para uma compreensão científica genuína de como a sociedade humana evoluiu desde seus estágios iniciais, através de várias formas até a sociedade industrial atual.
Isso nos deixa com a ideia de que não adianta lutar por uma mudança radical na estrutura da sociedade. Em vez disso, devemos trabalhar com os indivíduos que compõem a sociedade. Isso nos deixa sem uma maneira completa de mudar as condições materiais. Significa, no caso da luta pelos direitos das mulheres – e de outras camadas oprimidas da sociedade – que a luta de classes não tem nenhum papel a desempenhar. Tudo se torna uma batalha por palavras, por significados. Nessa estrada o movimento acaba em um beco sem saída.
O que é necessário é um retorno à ideia de que há uma direção para o desenvolvimento da sociedade, que os diferentes estágios de desenvolvimento nos trouxeram até onde hoje estamos, e que o atual estágio, o da sociedade capitalista, apenas preparou o terreno para um estágio mais alto, o do socialismo, pelo qual é preciso lutar.
O futuro da família
Para aqueles que negam que a família evoluiu através de várias formas diferentes, podemos apontar para o fato de que, apesar dos fervorosos desejos de figuras como Malinowski, está muito claro que a família passou por muitas mudanças mesmo no período relativamente curto que nos separa dos dias de Morgan e Engels.

Nós o testemunhamos na memória viva. Quase 50% de todos os casamentos nos Estados Unidos hoje terminam em divórcio ou separação, enquanto a cifra no Reino Unido está em torno de 42%. Estimativas recentes também mostram que cerca de 40% dos nascimentos nos Estados Unidos ocorrem fora do casamento.37
Em muitos países ao redor do mundo, os casamentos estão se tornando menos comuns, as pessoas estão se casando mais tarde e há uma “dissociação” entre paternidade e casamento. Como diz certo artigo: “Dentro das últimas décadas a instituição do casamento mudou mais do que em milhares de anos antes”.38
Estas mudanças ocorreram devido a vários fatores, o mais importante deles sendo a enorme entrada das mulheres no mercado de trabalho, dando às mulheres um maior grau de independência.
No entanto, ainda há uma significativa disparidade salarial entre os homens e as mulheres. Apesar dos avanços realizados, particularmente desde a década de 1970, a maioria das mulheres não é totalmente independente economicamente devido à persistente desigualdade, pobreza e austeridade. Mas ainda é verdade que as mulheres não são tão dependentes dos homens como costumavam ser no passado – pelo menos nos países industrializados avançados – e com essa maior independência financeira veio uma maior demanda das mulheres por igualdade na lei e nas condições sociais.
Portanto, poderíamos colocar outra questão: se nos últimos 70 anos todas as mudanças acima descritas ocorreram na família, por que mudanças ainda maiores não ocorreram durante dezenas de milhares de anos, e por que não podem vir a mudar em uma direção progressista no futuro?
Tendo dito isto, fica claro que a opressão das mulheres não passará pacificamente sob o capitalismo. Além das barreiras materiais enfrentadas pelas mulheres, milhares de anos de sociedade de classes, de cultura e ideologia misóginas ainda determinam, em um grau ou outro, a perspectiva de bilhões de pessoas hoje. Preconceito e moralidade baseados na classe se acumularam um sobre o outro e ainda permanecem fortes sob o capitalismo.
Muitas vezes se afirma erroneamente que o capitalismo é a raiz da opressão das mulheres. Isso é simplificar enormemente a questão. Como vimos, a dominação masculina sobre as mulheres surgiu há milhares de anos, quando surgiram as primeiras formas de sociedade de classes. No entanto, o que é verdade é que a cultura misógina continua a florescer sob o capitalismo e é ativamente utilizada pela classe dominante quando sua posição é ameaçada, como vemos atualmente.
Qualquer coisa que possa ser utilizada para dividir a classe trabalhadora é útil para os capitalistas. Racismo, homofobia, transfobia, divisões religiosas e étnicas, todos são vistos como ferramentas úteis para colocar um grupo de trabalhadores contra outro. Esta é uma poderosa razão pela qual a família nuclear é ainda apresentada como uma das “pedras angulares da civilização”, e sempre o será sob o capitalismo.
A emancipação final e verdadeira das mulheres somente será alcançada quando a sociedade de classes for eliminada de uma vez por todas. Como Marx e Engels colocaram, “a revolução é a força motriz da história”39. Nossa tarefa hoje é lutar pela derrubada do atual sistema capitalista opressor, que sobreviveu ao seu papel histórico.
Uma vez removidas todas as contradições que decorrem dessa sociedade, uma vez que as forças produtivas sejam libertadas das restrições da motivação do lucro e sejam colocadas sob o controle daqueles que produzem a riqueza, a classe trabalhadora, as condições materiais mudarão radicalmente e, com essa mudança radical, serão as gerações futuras que decidirão como desejam se relacionar entre si. As relações entre os humanos serão finalmente libertas das carências materiais e da moralidade distorcida imposta pela sociedade de classes.
Referências:
[1] L H Morgan, Ancient Society, Bharati, 1947, pg 498
[2] M F A Montagu (ed.), Marriage, Past and Present – A Debate Between Robert Briffault and Bronislaw Malinowski, Extending Horizons, 1956, pg 76
[3] L H Morgan, Ancient Society, Bharati, 1947, pg 19
[4] F Engels, The Origin of the Family, Private Property and the State, Wellred Books, 2020, pg xxvii
[5] L Krader (ed.), The Ethnological Notebooks of Karl Marx, Van Gorcum & Comp. B.V., 1974
[6] E Trinkaus, “An abundance of developmental anomalies and abnormalities in Pleistocene people” in PNAS, Vol. 115, No. 47, 2018
[7] “Prehistoric humans are likely to have formed mating networks to avoid inbreeding”, University of Cambridge, 5 October 2017
[8] F Engels, The Origin of the Family, Private Property and the State, Wellred Books, 2020, pg 16
[9] L H Morgan, Ancient Society, Bharati, 1947, pg 28
[10] ibid.
[11] F Engels, The Origin of the Family, Private Property and the State, Wellred Books, 2020, pg 78
[12] C Renfrew, Prehistory – The making of the Human Mind, Modern Library, 2007, pg 135
[13] L H Morgan, Ancient Society, Bharati, 1947, pg 66, 69
[14] L A White, The Evolution of Culture, The Development of Civilization to the Fall of Rome, McGraw-Hill, 1959, pg 256
[15] See H Devlin, “Early men and women were equal, say scientists”, The Guardian, 14 May 2015
[16] K Opie, C Power, “Grandmothering and Female Coalitions: A Basis for Matrilineal Priority?” in Early Human Kinship, From Sex to Social Reproduction, Wiley, 2008, pg 168-186
[17] C W Hansen et al., “Modern Gender Roles and Agricultural History: The Neolithic Inheritance” in Journal of Economic Growth, Vol. 20, 2015, pg 7-8
[18] K Opie, C Power, “Grandmothering and Female Coalitions: A Basis for Matrilineal Priority?” in Early Human Kinship, From Sex to Social Reproduction, Wiley, 2008, pg 185
[19] S L Kuhn, M C Stiner, “What’s a Mother To Do? The Division of Labor among Neandertals and Modern Humans in Eurasia” in Current Anthropology, Vol. 46, No. 6, 2006, pg 995
[20] C W Hansen et al., “Modern Gender Roles and Agricultural History: The Neolithic Inheritance” in Journal of Economic Growth, Vol. 20, 2015, pg 9
[21] ibid.
[22] ibid. pg 3-5
[23] G Destro-Bisol et al., “Variation of Female and Male Lineages in Sub-Saharan Populations: the Importance of Sociocultural Factors” in Molecular Biology and Evolution, Vol. 21, No. 9, 2004, pg 1673
[24] L H Morgan, Ancient Society, Bharati, 1947, pg 74
[25] ibid., pg 168
[26] ibid., pg 398
[27] ibid., pg 554
[28] R Graves, The Greek Myths, Penguin Books, 1972, pg 20
[29] William G. Dever’s Did God have a Wife?, 2005
[30] L H Morgan, Ancient Society, Bharati, 1947, pg 449
[31] F Engels, The Origin of the Family, Private Property and the State, Wellred Books, 2020, pg 63
[32] M F A Montagu (ed.), Marriage, Past and Present – A Debate Between Robert Briffault and Bronislaw Malinowski, Extending Horizons, 1956, pg 41
[33] M Harris, The Rise of Anthropological Theory, Thomas Y Cromwell, 1968, pg 249
[34] ibid., pg 1
[35] ibid., pg 2
[36] M Harris, Theories of Culture in Postmodern Times, Altamira, 1999, pg 13
[37] E Wildsmith et al., “Dramatic increase in the proportion of births outside of marriage in the United States from 1990 to 2016”, Child Trends, 8 August 2018
[38] E Ortiz-Ospina, M Roser, “Marriages and Divorces”, Our World in Data, 2020
[39] K Marx, F Engels, The German Ideology, Prometheus Books, 1998, pg 61
