Já se passaram cinco meses desde o início de uma mobilização militar sem precedentes dos EUA no Caribe, com o objetivo de intimidar a Venezuela e também a Colômbia. Mais de 80 pessoas já foram mortas em ataques criminosos contra pequenas embarcações, que Washington alega serem de narcotraficantes. Mas, até agora, o objetivo de Trump – a mudança de regime na Venezuela – não foi alcançado. O que vem a seguir?
A primeira coisa a se dizer é que essa campanha de agressão não tem nada a ver com drogas, como já explicamos repetidas vezes. Isso ficou ainda mais evidente na semana passada, quando Trump decidiu conceder indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos de prisão nos EUA por… tráfico de drogas e armas!
Alguns argumentam que o verdadeiro motivo para a mobilização militar dos EUA contra a Venezuela é o petróleo. Esse é, sem dúvida, um fator importante. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas do mundo, a maior parte petróleo bruto extrapesado, perfeitamente adequado para refinarias na Costa do Golfo e muito mais próximo dos Estados Unidos do que qualquer fonte no Oriente Médio.
Ao tentar convencer um público americano relutante (onde dois terços se opõem à agressão militar contra a Venezuela), a congressista Maria Elvira Salazar, uma d0s três “cubanos loucos”, insistiu que as empresas petrolíferas americanas teriam um prato cheio na Venezuela, ressaltando que o país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Em um discurso delirante no America Business Forum, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, a venezuelana Maria Corina Machado, falou sobre enormes oportunidades para empresas americanas se apoderarem de “US$ 1,7 TRILHÃO em petróleo, gás, ouro e infraestrutura da Venezuela”, que, segundo ela, seriam submetidos a “um programa massivo de privatização”, “exploração, refino e distribuição”.
Nenhum desses fatores explica completamente a atual escalada militar. O New York Times já noticiou que Maduro estava muito disposto a dar às empresas americanas acesso ao petróleo venezuelano e a outros recursos minerais. Isso fazia parte das negociações com o enviado americano Grenell no início deste ano. Mesmo que se duvide dessas notícias, o fato é que foram as sanções americanas contra a Venezuela que impediram as multinacionais americanas de explorar os recursos do país caribenho, e não as restrições do governo venezuelano.
Outros membros da comunidade cubano-americana reacionária em Miami, incluindo o próprio Marco Rubio, bem como veteranos da Guerra Fria como Elliot Abrahams, são motivados por um ódio cego a qualquer governo que identifiquem como “comunista” (seja ele ou não). Indivíduos como Stephen Miller acreditam que a remoção de Maduro estancará o fluxo migratório da Venezuela, um fluxo gerado por uma crise econômica que foi severamente agravada pelas sanções americanas!
É claro que ninguém em sã consciência acredita que essa campanha de intimidação militar tenha algo a ver com democracia. O imperialismo estadunidense não se importa nem um pouco com as normas da democracia burguesa. Trump chegou a afirmar isso explicitamente: não vamos sair por aí impondo a “democracia”. Não que o imperialismo estadunidense alguma vez tenha feito isso, é claro. Mas, no passado, eles usaram a “democracia” e os “direitos humanos” como pretexto para uma agressão imperialista descarada. Agora, Trump é mais transparente ao descrever seus verdadeiros objetivos: defender os interesses nacionais dos EUA, ou seja, os da classe capitalista estadunidense.
Embora drogas, imigrantes, anticomunismo e petróleo estejam entre os motivos pelos quais os Estados Unidos querem o controle total da Venezuela, existe uma motivação mais profunda por trás da atual escalada militar, que vai além da própria Venezuela.
A subjugação da América Latina: uma questão de segurança nacional para os EUA
O imperialismo estadunidense luta para retomar o controle do Hemisfério Ocidental e quer expulsar seus rivais (China e Rússia) da região. E a Venezuela é o país de toda a América Latina com os laços políticos mais estreitos com a Rússia e a China. Que lugar melhor para enviar um sinal claro de que o imperialismo estadunidense não tolerará outras potências em seu quintal?
Isso agora faz parte da estratégia de segurança nacional do imperialismo estadunidense e foi formalizado em um documento da administração Trump divulgado na semana passada. O documento descreve o primeiro objetivo dessa estratégia da seguinte forma:
“Queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para prevenir e desencorajar a migração em massa para os Estados Unidos; queremos um Hemisfério cujos governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; queremos um Hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou da apropriação de ativos-chave, e que apoie cadeias de suprimentos críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes.” [ênfase nossa]
Isso é descrito como a afirmação e a aplicação de um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. Em outras palavras, um retorno à política de diplomacia das canhoneiras, baseada no princípio da América para o imperialismo americano e mais ninguém.
“Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental… Negaremos aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério.”
Em discurso para comandantes militares no Centro Reagan no fim de semana, o Secretário da Guerra, Pete Hegseth, reiterou esses objetivos, conferindo-lhes um tom ainda mais ameaçador e enfatizando bastante o “nosso” em “nosso hemisfério”. Não sabemos quem decidiu que todo o continente americano é propriedade dos Estados Unidos, mas o que está claro é que o imperialismo estadunidense decidiu que é do seu “interesse de segurança nacional” e que assim seja. E está preparado para mobilizar unidades militares para respaldá-lo. Como explica o documento de estratégia de segurança nacional de Trump:
“Os Estados Unidos devem reconsiderar sua presença militar no Hemisfério Ocidental… Um reajuste de nossa presença militar global para lidar com ameaças urgentes em nosso Hemisfério, especialmente as missões identificadas nesta estratégia… Desdobramentos direcionados para garantir a segurança da fronteira e derrotar os cartéis, incluindo, quando necessário, o uso de força letal para substituir a estratégia fracassada de policiamento ostensivo das últimas décadas.”
Precisamos entender a atual e agressiva expansão militar dos EUA no Caribe não apenas como um capricho passageiro do governo Trump, mas sim como parte de uma nova estratégia do imperialismo estadunidense para reafirmar seu domínio sobre todo o continente. Está lá, preto no branco, no documento de estratégia de segurança nacional de Trump:
“Competidores de fora do Hemisfério têm feito grandes incursões em nosso Hemisfério, tanto para nos desfavorecer economicamente no presente, quanto de maneiras que possam nos prejudicar estrategicamente no futuro. Permitir essas incursões sem uma reação séria é outro grande erro estratégico americano das últimas décadas. Os Estados Unidos devem ser preeminentes no Hemisfério Ocidental como condição para nossa segurança e prosperidade — uma condição que nos permita afirmar nossa presença com confiança onde e quando precisarmos na região.” [ênfase nossa]
O objetivo político do imperialismo estadunidense é, portanto, trazer a Venezuela de volta ao controle, como parte de um esforço mais amplo direcionado a todo o continente e que envolve medidas tomadas contra o Panamá, a Colômbia, o Brasil, interferência em Honduras, resgates financeiros na Argentina, etc.
Como enfrentar o imperialismo norte-americano
Por essa razão, devemos afirmar que a posição assumida pelo presidente colombiano Petro nos últimos dias é um erro. Embora ele tenha resistido à intimidação imperialista estadunidense por meses, em uma mensagem de 6 de dezembro na qual rejeitou corretamente uma invasão estadunidense da Venezuela, ele ofereceu como alternativa ao derramamento de sangue: “deve haver um governo de transição na Venezuela, acordado pelo povo venezuelano”. Ele pareceu insinuar que, para evitar uma invasão militar estadunidense, a Venezuela precisa ceder às exigências dos EUA.
Isso seria um erro fatal. Qualquer concessão ao imperialismo estadunidense seria vista, com razão, como um sinal de fraqueza e encorajaria Washington a exigir ainda mais. Se um “governo de transição” for instaurado na Venezuela, os EUA exigirão a destituição de Petro na Colômbia, a derrubada da Revolução Cubana, etc.
A única maneira eficaz de enfrentar o imperialismo estadunidense é por meio da mobilização em massa dos trabalhadores e camponeses em toda a região: por meio da tomada de rédeas da situação pelos trabalhadores da região, da expropriação dos interesses das multinacionais estrangeiras, da apropriação de seus bens, do repúdio à dívida externa e da preparação para repelir a intervenção militar estadunidense, com armas em punho, se necessário.
As opções de Trump
A “ferramenta” política escolhida por Trump parece ser a de ameaçar Maduro para forçá-lo a renunciar. A intenção é forçá-lo a renunciar através da ameaça de um poderio militar esmagador. Houve relatos de negociações envolvendo a concessão de salvo-conduto e imunidade ao presidente venezuelano. Catar, Rússia e Turquia foram mencionados como possíveis destinos. Essas notícias na mídia capitalista devem ser encaradas com cautela, pois podem ser apenas parte da mesma guerra psicológica que os EUA estão travando.
Alguns veículos da mídia capitalista sugeriram que Maduro propusesse uma transição de dois anos, após a qual a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiria o poder e organizaria novas eleições. Aparentemente, essa proposta foi rejeitada por Trump. Novamente, isso pode ou não ser verdade. No entanto, é significativo que um artigo de análise do The New York Times de 5 de dezembro, intitulado “Trump quer a saída do líder da Venezuela. Eis quem poderia substituí-lo“, ao discutir possíveis sucessores de Maduro, tenha descrito Delcy Rodríguez em termos elogiosos.
“A Moderada: Delcy Rodríguez, Vice-Presidente” era o subtítulo. E foi assim que o Times a apresentou: “Uma moderada relativa, a Sra. Rodríguez é a arquiteta de uma reforma pró-mercado que estabilizou a economia venezuelana após um longo colapso. Sua privatização de ativos estatais e política fiscal conservadora… Com formação parcial na França, a Sra. Rodríguez cultivou laços com as elites econômicas da Venezuela e com investidores e diplomatas estrangeiros, apresentando-se como uma tecnocrata cosmopolita em um governo militarista e dominado por homens.” [ênfase nossa]
Aqui a temos. A solução perfeita para o imperialismo estadunidense e os interesses das multinacionais americanas! Isso, aliás, confirma o que temos dito há algum tempo: o governo Maduro é o oposto da Revolução Bolivariana de Chávez. E mesmo assim, os EUA querem destituí-lo. Por quê? Para dar um exemplo. Como uma clara demonstração a outros países latino-americanos de que os Estados Unidos não estão para brincadeira e não tolerarão um regime que não se submeta.
Mas, até agora, as táticas de Trump não funcionaram. Ele aumentou a pressão militar, chegando a um virtual bloqueio aéreo e naval: aviões foram avisados para não entrarem no espaço aéreo venezuelano, enquanto petroleiros russos foram impedidos de chegar à costa. Cerca de 20% de toda a Marinha dos EUA foi mobilizada para o Caribe. Há sobrevoos provocativos regulares de caças e bombardeiros, ameaças constantes e prazos…
Mas tudo isso é combinado através de um telefonema, descrito por fontes como “cordial” e “sem ultimatos”. Num dia, Trump declara o espaço aéreo venezuelano fechado e, no dia seguinte, os EUA solicitam à Venezuela que receba mais voos de deportação de migrantes.
Como Maduro não cedeu à intimidação – e por que deveria? – Trump se vê com opções cada vez mais limitadas. Ou intensifica o conflito, o que implica algum tipo de ação militar – ataques dentro da Venezuela, uma operação especial para prender Maduro – ou recua. A primeira opção pode se tornar muito complicada rapidamente e não há garantia de resultados imediatos. A segunda implicará uma enorme perda de reputação para Trump e para o imperialismo americano em um momento em que o país tenta projetar domínio e dissuadir rivais pela força.
Assassinato de sobreviventes náufragos no mar e a hipocrisia dos Democratas
Nos Estados Unidos, a campanha eleitoral está sob crescente escrutínio, com alegações de que o Secretário de Guerra, Pete Hegseth, deu uma ordem para “matar todos”, o que levou à morte de dois sobreviventes do primeiro ataque a uma lancha em setembro, atingidos duplamente por tiros. Tanto Trump quanto Hegseth se apressaram em rejeitar qualquer responsabilidade por essa decisão, culpando o Almirante Bradley. Matar sobreviventes náufragos no mar é contra o código militar dos EUA e pode acarretar consequências legais que eles querem evitar.
Os detalhes da operação que emergem do vídeo mostrado aos representantes americanos são verdadeiramente perturbadores:
“Tínhamos um vídeo de 48 minutos de dois homens se equilibrando na lateral de um barco. Havia tempo suficiente para fazer uma análise clara e sóbria”, disse o representante americano Adam Smith à CNN na quinta-feira. “Havia dois náufragos no topo do pequeno pedaço de barco que restou após o naufrágio. Eles não estavam sinalizando para ninguém. E a ideia de que esses dois seriam capazes de retornar ao combate — mesmo levando em consideração todas as premissas legais questionáveis em torno dessa missão, desses ataques — ainda é muito difícil imaginar como eles poderiam voltar a lutar nessas condições.”
Por mais repugnante que pareça, é repulsivo ver políticos Democratas se concentrando nessa questão legalista e usando-a como arma para atacar Hegseth e Trump, quando, no fundo, concordam com o objetivo de mudança de regime na Venezuela, o que é igualmente ilegal.
A hipocrisia dos Democratas não tem limites. Eles não pestanejaram quando Biden defendeu as ações genocidas de Netanyahu em Gaza. Foi uma Ordem Executiva assinada por Obama, declarando a Venezuela uma “ameaça grave e extraordinária à segurança nacional dos EUA”, que levou às sanções e que sustenta toda a campanha bipartidária de agressão contra um país soberano.
Não devemos esquecer que foi Clinton quem autorizou os ataques aéreos ao prédio da estação de TV sérvia em Belgrado em 1999, matando 16 jornalistas e técnicos. Foi Clinton quem realizou um ataque com mísseis à fábrica farmacêutica al-Shifa no Sudão. Foi Obama quem conduziu um ataque com drones contra uma festa de casamento no Iêmen em 2013. Os crimes do imperialismo norte-americano são bipartidários.
Isto não é, como a mídia às vezes gosta de apresentar, “um conflito entre os EUA e a Venezuela”, ou um “confronto entre Maduro e Trump”. Não. Trata-se de uma campanha crescente de agressão imperialista estadunidense contra um país soberano. A potência imperialista mais poderosa e reacionária da Terra está tentando subjugar uma nação latino-americana. Independentemente do que se pense sobre o governo Maduro, e não o apoiamos, só há uma posição que podemos adotar como comunistas revolucionários: mãos fora da Venezuela, mãos fora da Colômbia, ianques fora da América Latina, abaixo o imperialismo estadunidense!
Uma vitória do imperialismo estadunidense seria um retrocesso para as massas em toda a região e além. Uma derrota do imperialismo estadunidense neste conflito seria uma vitória para os trabalhadores e camponeses em todo o continente.
