As mudanças climáticas representam uma ameaça catastrófica para o futuro da humanidade. A classe capitalista provou ser totalmente incapaz de lidar com esse problema.
Junto a uma profunda crise econômica, grande instabilidade política e guerras imperialistas, milhões de pessoas em todo o planeta também estão vivenciando em primeira mão os impactos das mudanças climáticas. Essas perspectivas cada vez mais sombrias estão levando a um profundo questionamento entre os jovens. Não é surpresa que a palavra de ordem “Mudar o sistema, não o clima!” tenha se tornado um dos principais slogans do movimento Fridays For Future. Mas como seria essa “mudança de sistema”?
Os marxistas não podem prever o futuro com absoluta certeza, mas, analisando as capacidades produtivas que se desenvolveram sob o capitalismo, podemos deduzir quais medidas poderiam ser tomadas para começar a enfrentar as mudanças climáticas e mitigar seus piores impactos.
A condição prévia, no entanto, é derrubar as barreiras que o capitalismo ergueu – as barreiras da propriedade privada e do Estado-nação – e começar a organizar a sociedade em torno da satisfação das necessidades humanas, não do lucro.
Uma espiral fora de controle
Esta será uma tarefa monumental para a humanidade; o planeta já aqueceu o suficiente para que impactos climáticos significativos sejam agora inevitáveis.
A COP de 2015 estabeleceu a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais para evitar os “piores impactos”. No entanto, em fevereiro de 2024, cientistas alertaram que as temperaturas médias globais já haviam ultrapassado esse limite por 12 meses consecutivos.
Mesmo o limite inicial de 1,5°C de aquecimento seria devastador. As assinaturas de capitalistas e políticos neste acordo foram, na prática, promessas de ruína para o planeta. Como disse Marx: “A visão da natureza alcançada sob o domínio da propriedade privada e do dinheiro é um verdadeiro desprezo e uma degradação prática da natureza”.
As ondas de calor estão se tornando mais mortais e destrutivas para as pessoas, a infraestrutura e os ecossistemas. Em Nova Délhi, as temperaturas ultrapassaram os 40 graus durante um mês inteiro em 2024. Mesmo assim, cerca de três quartos da força de trabalho na Índia são obrigados a trabalhar com pouca ou nenhuma opção de refrigeração. Na Noruega, uma onda de calor paralisou as operações hospitalares, pois os sistemas de ar-condicionado, quando existentes, falharam. Um hospital chegou a implementar critérios rigorosos para a admissão de gestantes na maternidade.
Os incêndios florestais estão se tornando mais intensos, com 2025 sendo o pior ano já registrado na Europa. Los Angeles foi consumida por incêndios florestais durante quase todo o mês de janeiro. Esses incêndios estão liberando milhões de toneladas adicionais de dióxido de carbono na atmosfera, além de destruir vastas áreas de terrenos, casas, infraestruturas críticas e matar bombeiros na linha de frente devido à exposição prolongada à fumaça e a cinzas tóxicas.

Inundações catastróficas estão se tornando cada vez mais comuns. Desde julho, as inundações no Paquistão mataram mais de 700 pessoas, com chuvas torrenciais cada vez mais fortes provocando enchentes repentinas em uma região onde até 96 milhões de pessoas vivem às margens dos rios. No mês passado, mais de 1.300 pessoas morreram em decorrência de inundações no Sri Lanka, na Indonésia e na Tailândia.
As tempestades estão se tornando mais destrutivas. No ano passado, houve uma série recorde de ciclones tropicais atingindo as Filipinas.
Esses desastres estão expondo a indiferença e a incompetência de nossos governantes. Em Valência, há um ano, o presidente regional do PP, de direita, atrasou por horas a emissão de alertas de inundação enquanto almoçava em um restaurante. Enquanto isso, os patrões continuavam a mandar trabalhadores para o trabalho em condições extremamente arriscadas. “Els nostres morts, els seus beneficis” (Nossos mortos, seus lucros), dizia uma pichação na época. Um ano depois, a indignação não diminuiu: o presidente regional foi finalmente forçado a renunciar há algumas semanas.
A situação já é assustadora, mas o pior ainda está por vir.
O fim dos combustíveis fósseis é possível
Mais da metade das emissões globais de gases de efeito estufa provém da indústria de combustíveis fósseis. Isso significa que a queima de carvão, gás natural e petróleo para geração de eletricidade e aquecimento é a principal responsável pelo aquecimento global.
Essa é uma fonte inesgotável de lucro para os capitalistas, que não demonstram qualquer intenção de parar. Este ano, a BP (British Petroleum) anunciou que investirá US$ 10 bilhões por ano para intensificar a exploração de campos de petróleo e aumentar a produção. O governo brasileiro concedeu “direitos de exploração” para campos de petróleo e gás em uma área maior que o dobro do tamanho da Escócia. A Noruega anunciou planos para aumentar a perfuração na região do Ártico. E isso é apenas uma pequena amostra do problema.

Ao mesmo tempo, houve grandes avanços na energia solar e eólica, que podem gerar calor e eletricidade sem a emissão de gases de efeito estufa dos combustíveis fósseis e com o potencial de serem muito mais baratas.
Devido, em parte, às condições climáticas favoráveis, em agosto deste ano, a energia solar gerada na Grã-Bretanha produziu mais energia do que em todo o ano de 2024. Isso é eletricidade suficiente para abastecer o metrô de Londres por mais de uma década!
A China se tornou o líder mundial em energia verde, controlando 80% da capacidade global em toda a cadeia de suprimentos de painéis solares e entre 60% e 80% para turbinas eólicas. Somente no primeiro semestre de 2025, a China foi responsável por 67% da nova capacidade de painéis solares, o que representa mais que o dobro da capacidade do resto do mundo combinado.
Mas, sob o capitalismo, nosso próprio êxito em aumentar a produção se transforma em uma barreira para o desenvolvimento futuro e para a plena utilização do potencial criado. Já estamos entrando em conflito com os limites do mercado. Só em 2023, os fabricantes produziram três vezes mais painéis solares do que a economia global conseguiu absorver. Assim, o setor entrou em uma crise de superprodução. Isso significa que caixas e mais caixas de painéis solares estão acumuladas em portos e armazéns, ociosas e sem uso!
Sistema irracional
Seriam necessários cerca de 51 bilhões de painéis solares de 350 W para abastecer o mundo inteiro. Só a indústria chinesa fabricou aproximadamente um bilhão de painéis solares em 2023. A superprodução de painéis solares na China saturou o mercado, o que reduziu os custos em todas as partes da cadeia de suprimentos, com os preços dos painéis solares caindo mais de 80%.
Em vez de aproveitar esses preços baixos para beneficiar a transição para a energia limpa, um grupo de empresas de energia solar pediu ao governo chinês que interviesse para estabelecer um preço mínimo para os painéis solares e reduzir os investimentos no setor, a fim de mitigar os impactos da superprodução e continuar lucrando.
E, em uma tentativa adicional de aumentar suas margens de lucro, as maiores empresas de energia solar eliminaram 87.000 empregos em 2024, alegando que “pelo menos 20 a 30% da capacidade de produção teria que ser eliminada para que as empresas voltassem a ser lucrativas”.
A superprodução chinesa e seu domínio no setor também fizeram com que a indústria de energia solar e eólica dos EUA e da Europa tivesse dificuldades para competir. O setor na Europa, por sua vez, sofreu com falências, fechamento de fábricas e perda de empregos. A Meyer Burger Technology, da Suíça, por exemplo, foi obrigada a fechar uma das maiores fábricas de painéis solares da Europa, na Alemanha, e posteriormente entrou com pedido de insolvência. A Europa, portanto, impôs tarifas sobre as importações chinesas para aumentar sua competitividade.
Os painéis solares chineses tornaram-se tão baratos que, na Holanda e na Alemanha, agora é economicamente viável instalá-los como cercas de jardim (onde funcionam de forma bastante ineficiente) em vez de instalá-los em telhados. No entanto, painéis solares tão baratos e abundantes são um problema para o capitalismo europeu!
“Um painel solar custava 11 centavos de dólar por watt no final de março, ou seja, metade do preço praticado no mesmo período do ano passado, de acordo com a Bloomberg NEF, e a expectativa era de que o preço caísse ainda mais em uma ‘corrida para baixo’, à medida que os fabricantes competissem para se livrar do excesso de oferta. Abaixo de uma ‘linha vermelha’ de 15 centavos de dólar por watt, não seria possível para a empresa investir seriamente na produção europeia… ‘Não dá para fazer isso com uma margem de lucro tão pequena que não cobre os custos.’”
Os investidores também são dissuadidos pela ameaça de preços de eletricidade “abaixo de zero”, que, devido às flutuações provenientes da energia eólica ou solar, significa que a oferta de energia pode aumentar repentinamente, forçando os preços a valores negativos caso o excesso de capacidade energética não possa ser armazenado.
Como relatado pela Bloomberg:
“Embora toda essa energia barata possa ser uma boa notícia para residências e indústrias, é uma séria preocupação para investidores em ativos de energia renovável, já que a volatilidade dos preços representa uma ameaça à estabilidade dos lucros”.
O fato é claro: a tecnologia existe – não no reino da ficção científica, mas no mundo real de hoje – para viabilizar uma transição para a energia verde. Mas ela é freada pela propriedade privada dos meios de produção por capitalistas parasitas, que investem e produzem visando o lucro, e não pelo desejo genuíno de atender às necessidades sociais.
Embora tenha havido um aumento impressionante na produção de energia renovável, como painéis solares, o setor enfrentará um problema: uma vez instalados, os painéis solares fornecerão energia por anos, até mesmo décadas. Assim, o mercado rapidamente se satura e deixa de ser lucrativo. E o investimento seca.
Isso se agrava pelas limitações do Estado-nação, já que a classe capitalista de cada mercado nacional compete para aumentar sua própria competitividade no mercado global. Nos EUA, por exemplo, as tarifas sobre as importações chinesas aumentaram e subsídios foram implementados para os fabricantes de energia solar no país – mas, mesmo com esses subsídios, as indústrias americanas não conseguem competir seriamente com suas contrapartes chinesas.
Sob o capitalismo, o fato de a indústria chinesa ser capaz de produzir imensas quantidades de painéis solares – que poderiam ser instalados em todas as casas e usados para mudar drasticamente a forma como produzimos energia – é algo ruim, pois reduz os lucros de outros grupos capitalistas nacionais. Além disso, como o Ocidente e a China se enfrentam como rivais imperialistas, temendo a dependência um do outro em termos de capacidade de produção de energia, a resposta é tentar dificultar, expulsar e paralisar as indústrias do outro lado por meio de barreiras protecionistas.
Sem a propriedade privada e com uma economia impulsionada pelo planejamento para necessidades sociais, trabalhadores nos EUA poderiam cooperar com trabalhadores na China para exportar a tecnologia necessária para construir painéis solares de alta qualidade em massa nos Estados Unidos.

Na verdade, uma proporção relativamente pequena da superfície do planeta poderia ser usada para viabilizar isso. Precisaríamos de uma área de aproximadamente 115.625 milhas quadradas (cerca de 300.000 km²) para acomodar todos os 51 bilhões de painéis solares necessários. O Deserto do Saara cobre 3,6 milhões de milhas quadradas (cerca de 9,3 milhões de km²) e não sofre com a falta de luz solar. Espaço poderia ser liberado em outros lugares para projetos de reflorestamento, por exemplo, para ajudar o planeta a se recuperar do desmatamento em massa.
Mas empreender um projeto tão gigantesco exigiria níveis enormes de cooperação em todo o mundo. Com o potencial de gerar eletricidade e calor para o mundo inteiro, isso, necessariamente, exigiria que pesquisas e construções fossem feitas por trabalhadores em todo o mundo para garantir que a rede possa se conectar em todos os lugares necessários e operar sem problemas.
Seriam necessários monitoramento e coordenação constantes para superar problemas e manter o sistema em funcionamento. O caráter internacional da economia global, desenvolvido pelo capitalismo, lançou as bases para essa cooperação e a disseminação da tecnologia. O que se faz necessário é remover as barreiras da propriedade privada e do Estado-nação.
A transição para essas fontes de energia também exigirá mais do que apenas a construção de turbinas eólicas ou a instalação de painéis solares. Será necessário construir uma infraestrutura crítica para garantir que essa energia possa ser transportada com segurança. Sob o capitalismo, essa infraestrutura sofreu com a falta de investimentos e agora é incapaz até mesmo de utilizar plenamente a energia eólica e solar já existente.
Um exemplo disso é a National Grid, empresa britânica de distribuição de energia, que pagou quase 28 bilhões de libras em dividendos aos acionistas desde sua privatização, enquanto o ritmo de investimento na rede elétrica estagnava. Ao mesmo tempo, o investimento em energias renováveis levou à construção de grandes parques eólicos. Na Escócia, esses parques poderiam ter produzido energia suficiente para abastecer todas as residências do país por seis meses, mas os consumidores receberam milhões para não o fazer, pois os cabos de transmissão de energia não suportariam esse “excesso de energia renovável”. Consequentemente, esses custos foram adicionados às contas de luz dos consumidores.
Um resultado catastrófico dessa falha do mercado capitalista anárquico em acompanhar as necessidades de infraestrutura para a transição para energias renováveis foi observado no início deste ano na Espanha. Na Espanha, houve um grande aumento na quantidade de fontes renováveis conectadas à rede. Mas, quando as condições climáticas favoráveis levaram a um pico de energia dessas fontes, a rede sofreu um colapso que resultou em um apagão de grandes proporções em todo o país.
O problema tem solução. Existem meios para aumentar a chamada “inércia” das redes elétricas, mas eles exigem investimento. As empresas de eletricidade privatizadas não fizeram esses investimentos, porque seu principal objetivo é, acima de tudo, cortar custos para aumentar o lucro.
Na Grã-Bretanha, existe agora um segundo gargalo na modernização das próprias redes elétricas. A escassez na cadeia de suprimentos está prejudicando a produção dos cabos necessários para transportar energia eólica e solar, elevando os preços dos cabos ainda disponíveis. Então, basta criar mais capacidade para produzir cabos de alta tensão – qual é o problema?
A instalação dessa infraestrutura é um caso pontual. Do ponto de vista dos fabricantes de infraestrutura, se eles construírem fábricas e atenderem a essa demanda, ficarão com excesso de capacidade produtiva e sem lucros futuros.
Como afirmou a consultoria Baringa:
“Apesar do enorme aumento na construção de redes necessárias para o futuro, os fornecedores estão relutantes em investir em nova capacidade devido à incerteza sobre a demanda de longo prazo por componentes específicos, à regulamentação mais ampla e ao financiamento.”
Para a humanidade, construir a infraestrutura seria uma enorme vantagem. Para os fabricantes, é mais lucrativo continuar produzindo em ritmo lento, o que leva a gargalos na demanda e anos de atrasos… mas também a lucros garantidos!
Revolucionando a agricultura
Em segundo lugar, depois da energia, está a agricultura, responsável por cerca de um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa. As práticas agrícolas atuais alcançam alta produtividade, mas degradam o meio ambiente. Em sua obra O Capital, Marx explicou que:
“Todo progresso na agricultura capitalista é um progresso na arte, não apenas de explorar o trabalhador, mas também de explorar o solo; todo progresso no aumento da fertilidade do solo por um determinado período é um progresso na destruição das fontes duradouras dessa fertilidade…”
Produz-se comida suficiente para alimentar toda a população do planeta, e ainda sobra, mas uma em cada 11 pessoas vai dormir com fome todos os dias. Estima-se que até um terço de toda a comida produzida para consumo humano no mundo sequer seja utilizada. Isso se deve a uma combinação de fatores, como preços altos, ineficiências na cadeia de suprimentos que danificam os alimentos ou o desperdício de alimentos pelos varejistas por falta de venda. Só na Grã-Bretanha, cerca de 9,5 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os anos, o suficiente para alimentar mais de 30 milhões de pessoas, num país onde cerca de 8,4 milhões vivem em situação de insegurança alimentar.
Desenvolver formas de agricultura sustentável que não destruam o meio ambiente e garantir a distribuição racional desses alimentos para que as necessidades humanas sejam atendidas são as tarefas mais urgentes. Assim como vimos com a energia solar, a agricultura está passando por inovações que prometem uma produção de alimentos mais eficiente e ambientalmente harmoniosa.
Um exemplo disso é a Holanda – o segundo maior exportador mundial de produtos agrícolas em termos de valor, atrás apenas dos EUA, que têm uma área territorial 270 vezes maior. Isso se deve à especialização em fazendas verticais, que utilizam energia renovável para produzir luz para plantas cultivadas em bandejas, ocupando menos espaço do que os métodos tradicionais de cultivo. Toda a água utilizada é reciclada, atingindo uma eficiência hídrica de quase 100%.
Isso é surpreendente, visto que as mudanças climáticas ameaçam catastroficamente as fontes de água doce e a perspectiva de guerras por água é iminente. A Grande Barragem do Renascimento Etíope, no Nilo Azul, já contribuiu para o azedamento das relações entre Etiópia e Egito. A questão dos direitos sobre a água também é um tema relevante entre a Índia e o Paquistão, já que o rio Indo atravessa a região da Caxemira.

O controle de Israel sobre as Colinas de Golã, por onde passa o Rio Jordão, e a margem oeste do Jordão é uma questão de expansão colonial em geral. É também uma questão de controle da água em particular.
Os métodos agrícolas holandeses, contudo, deram uma ideia do que mais poderia ser feito com a escassez de água. Comprovou-se ser um dos métodos mais eficazes para o cultivo de hortaliças, ervas, tomates, pepinos, abobrinhas e certas espécies de frutos silvestres. Em particular, a indústria holandesa de tomates produz hoje mais tomates por quilômetro quadrado do que em qualquer outro lugar do mundo ao utilizar essa técnica.
Outro avanço é a “agricultura de precisão”, que utiliza a tecnologia para analisar a química do solo, o teor de água e a taxa de crescimento, a fim de deduzir as condições ideais para o desenvolvimento das culturas. Ao contrário de uma abordagem padronizada, essa tecnologia permite uma utilização muito mais eficiente dos recursos.
Um agricultor que utiliza essa técnica na Holanda obtém uma produção média de 20 toneladas de batatas por acre, enquanto a média global (utilizando métodos de cultivo convencionais) é de cerca de 9 toneladas.
Essa pesquisa agrícola inovadora poderia ser aplicada em todo o mundo para garantir que a agricultura seja praticada da maneira mais eficiente e sustentável possível.
Atualmente, 44% das terras habitáveis do mundo são utilizadas para a agricultura, uma área cerca de cinco vezes maior que os Estados Unidos. No entanto, como demonstrado pelas técnicas agrícolas holandesas, é evidente que poderíamos produzir safras de maior qualidade com menos terra, em todo o mundo, e ajudar a conter o desmatamento – 90% do qual é impulsionado pela agricultura.
Isso poderia liberar rapidamente terras atualmente utilizadas para a agricultura para outros fins, como habitação, infraestrutura e projetos de reflorestamento. Pesquisas na China e no Panamá mostraram que o plantio de florestas com espécies vegetais mistas ajuda a regular as temperaturas, armazenar maiores quantidades de dióxido de carbono e sustentar a vida selvagem.
Outro estudo, publicado na revista Science, estimou que poderíamos absorver 25% de todo o dióxido de carbono atmosférico plantando meio trilhão de árvores em 2,2 bilhões de acres. Essa área equivale a 19% das terras atualmente utilizadas para a agricultura.
Com base na racionalização da agricultura em todo o mundo, e no compartilhamento das técnicas mais avançadas, isso seria perfeitamente viável. Mas não há absolutamente nenhuma maneira de fazer isso sob o capitalismo, porque não há um único centavo de lucro a ser obtido em reorganizar completamente a agricultura apenas para plantar árvores. É claro que não se trata “apenas” de garantir árvores, mas sim de garantir um futuro para a nossa espécie.
Além disso, esses programas exigiriam planejamento e monitoramento cuidadosos em nível internacional. Eles alterariam completamente o tipo de trabalho que milhões de agricultores e trabalhadores rurais realizam. Exigiriam um plano central para requalificar e realocar racionalmente essa mão de obra, garantindo pleno emprego útil para milhões. Exigiriam que a propriedade privada da tecnologia relevante fosse socializada e colocada à disposição desse plano.
Até mesmo a pecuária – um dos principais fatores do desmatamento para liberar terras necessárias, direta ou indiretamente, para a alimentação dos animais – poderia fazer parte desse reflorestamento. Estudos em “sistemas silvo pastoris” demonstraram que a integração de árvores, plantas e animais na mesma área resulta em maior remoção de dióxido de carbono da atmosfera e maior fertilidade do solo. Pesquisas também mostraram que as emissões de metano do gado poderiam ser reduzidas em até 80% com a mudança da dieta das vacas para algas vermelhas.
Em última análise, um punhado de monopólios gigantes controla a agricultura – eles determinam o que é cultivado, como e por quanto é vendido no mercado. Por exemplo, apenas quatro empresas controlam 85% do mercado de carne dos EUA. A indústria alimentícia é altamente lucrativa, gerando cerca de US$ 1,9 trilhão em vendas anualmente somente nos EUA. Os métodos mais lucrativos para eles são os piores para o meio ambiente – mais da metade da área territorial dos EUA é usada para a agricultura, sendo dois terços destinados à pastagem de animais.
Nenhuma das consequências negativas para a humanidade aparece nos balanços dessas gigantescas empresas do agronegócio. De fato, eles têm uma palavra para isso: “externalidades”. E, de fato, essas são “externalidades” quando se trata de obter lucro.
Os CEOs, acionistas e seus pares corruptos no governo não mudarão isso apenas por “boa vontade”. Seus métodos atuais são lucrativos, e nenhum capitalista irá desmantelar toda a sua linha de produção e investir somas vultosas em novos métodos se isso reduzir seus lucros.
Somente expropriando a indústria alimentícia e planejando a produção de alimentos de forma racional, sob o controle dos trabalhadores, poderemos aplicar o potencial existente para solucionar os problemas que a humanidade enfrenta.
Superadas as barreiras impostas pelo capitalismo, não há razão para que todas as formas de agricultura não possam ser revolucionadas.
Habitações à prova de mudanças climáticas
Embora o investimento em formas de produzir os bens essenciais à vida de maneira mais ecológica e sustentável seja vital, muitos danos já foram causados ao planeta. Portanto, é necessário analisar a adaptação às mudanças climáticas que estão ocorrendo em todo o mundo, como o calor extremo e tempestades mais violentas.
Será necessário um projeto de grande escala para tornar os edifícios em todo o mundo “seguros para o clima”. A maioria não está preparada para as mudanças climáticas que estamos vivenciando agora, muito menos para as mudanças que estão por vir. Por exemplo, prevê-se que as escolas em Londres fiquem expostas a até dez semanas de “calor extremo” por ano. No entanto, pesquisas mostram que existem maneiras de construir com eficiência energética, que promovam brisas refrescantes, ventilação, paredes isolantes e redução da radiação térmica, tudo isso podendo ser implementado em larga escala para evitar o aquecimento extremo em ambientes internos.
Existe também a ameaça que incêndios florestais, secas, tempestades e inundações representam para edifícios e residências. Nos próximos 15 anos, por exemplo, a região de Nova York poderá perder mais de 80.000 casas devido a inundações se nenhuma medida for tomada para construir defesas contra enchentes.
No entanto, planejadores urbanos e incorporadores imobiliários já conhecem medidas que podem ser tomadas para mitigar os piores efeitos desses desastres, salvando vidas e reduzindo a probabilidade de pessoas perderem suas casas e serviços essenciais na comunidade, como supermercados, escolas e hospitais.
Alguns exemplos incluem casas “à prova de furacões”, onde as residências são construídas acima dos padrões mínimos de segurança exigidos, como por meio de fundações mais profundas, a 2,1 metros de profundidade em vez de 90 centímetros; construção de espaços habitáveis a 4,8 metros acima do nível do mar; reforço das casas com cintas de aço; e enterramento da fiação elétrica em vez de deixá-la a céu aberto, para protegê-la de danos causados pelo vento.
Um exemplo marcante é o do furacão Milton, que atingiu principalmente o México, Cuba, Bahamas e Flórida em 2024, deixando três milhões de pessoas sem energia elétrica. Mas o conjunto habitacional de Hunters Point, construído de maneira semelhante ao descrito acima, sobreviveu e manteve todas as luzes acesas.
Mais uma vez, a habitação sob o capitalismo é construída com base na obtenção de lucro, o que leva a cortes de custos e ao desrespeito às medidas de segurança. Com uma economia planificada focada em atender às necessidades sociais, a construção de moradias seria diferente. Essas casas também são acessíveis apenas a uma pequena parcela da população que pode pagar por imóveis de US$ 1,4 a 1,9 milhão.

A produção para atender às necessidades, e não ao lucro, permitiria que todos vivessem em moradias seguras e construídas para resistir a eventos climáticos extremos. As construtoras devem ser nacionalizadas e administradas democraticamente pelos trabalhadores, que poderiam desenvolver um programa em larga escala para a construção dessas casas e edifícios, além de reformar as construções existentes para adequá-las aos padrões exigidos.
Utilizar as pesquisas e tecnologias existentes hoje certamente contribuiria muito para o bem-estar da humanidade, ao mesmo tempo em que trabalharia para restaurar o meio ambiente e mitigar o aquecimento global. Isso demonstra o potencial da tecnologia que já possuímos, que pode ser aplicada às necessidades sociais.
Os exemplos destacados neste artigo são apenas alguns vislumbres do que poderia ser alcançado se as necessidades da humanidade fossem priorizadas em detrimento do lucro. Mas o que mais poderia ser conquistado se homens e mulheres fossem libertados do trabalho árduo e tivessem acesso a todas as ferramentas da ciência e da indústria para encontrar novas maneiras de mitigar e reverter a crise climática?
Já existem exemplos da engenhosidade que reside na classe trabalhadora, mantida reprimida pelo fato de o capitalismo reduzir o trabalhador à posição de mero apêndice da máquina.
O Plano Aeroespacial da Lucas, na Grã-Bretanha, é um exemplo muito interessante que demonstra como a propriedade pública e o controle democrático dos trabalhadores podem revolucionar a produção e planejá-la de acordo com as necessidades humanas. Na década de 1970, a empresa era utilizada para produzir tecnologia militar, mas, diante da possibilidade de perda de empregos em meio à crise econômica, os próprios trabalhadores elaboraram um plano alternativo para o uso da fábrica e de suas habilidades.
Eles mostraram como a empresa poderia criar novos produtos socialmente úteis. O plano incluía 150 projetos, como soluções de energia renovável – eles chegaram a pesquisar tecnologia de células solares, bombas de calor para residências e propulsão híbrida para carros –, o que era extremamente visionário para a época, quando as mudanças climáticas eram pouco discutidas.

Engenheiros envolvidos nesse processo afirmaram que foi uma experiência esclarecedora, com um deles dizendo: “…se eu pudesse viver minha vida novamente, não trocaria a experiência do Plano Lucas por nada”.
O Plano Lucas demonstra o potencial criativo ilimitado da classe trabalhadora quando lhe é dada a oportunidade de controlar a produção. O fato de esses trabalhadores, em uma fábrica de armamentos, terem sido capazes, por meio de sua criatividade e conhecimento coletivo, de desenvolver um plano sério e economicamente viável para redirecionar suas fábricas para fins socialmente úteis, ganha um novo significado 50 anos depois.
Hoje, a classe dominante está investindo centenas de bilhões em armas de destruição. A classe trabalhadora tem o poder não apenas de interromper essa corrida desenfreada pelo rearmamento, como também de tomar posse dessas fábricas e, em pouco tempo, convertê-las na própria arma que utilizaremos contra as mudanças climáticas.
Os comunistas lutam para tornar isso uma realidade em todo o mundo. Podemos apenas começar a imaginar as alturas que a sociedade poderia alcançar à medida que as possibilidades de coexistência entre humanos e natureza se expandem. A própria existência da classe trabalhadora – composta por bilhões de trabalhadores em todo o mundo, capazes de administrar e impulsionar a produção para atender às necessidades sociais – fornece a base para aproveitar e expandir a tecnologia necessária para mitigar as mudanças climáticas e, possivelmente, detê-las por completo.
A propriedade dos meios de produção pela classe capitalista parasitária e as limitações do Estado-nação impedem a humanidade de fazer retroceder a ruína do planeta sob o sistema capitalista. O futuro do planeta depende da sua derrubada.
