Um dia, parece que um país está calmo e a camarilha dominante está firmemente entrincheirada no poder. No dia seguinte, as massas revolucionárias estão em frente ao prédio do parlamento em chamas. A polícia fugiu, os parlamentares fugiram e o primeiro-ministro também. As fotografias e vídeos que surgiram recentemente do Nepal são impressionantes. São também surpreendentemente semelhantes às cenas que já vimos antes: no Sri Lanka, em Bangladesh, no Quênia, na Indonésia.
Qual o significado desses eventos? Alguns da esquerda, impressionados com essas cenas, deixam-se levar pela maré que não se detém para se perguntar para onde ela está indo. Agem como líderes de torcida das massas, o que é a última coisa que as massas precisam em uma revolução.
Outros lançam um olhar mais cético sobre tudo isso. Olham para o Nepal, o Sri Lanka ou qualquer um desses outros exemplos e os comparam ao esquema que criaram em suas cabeças de como uma revolução deveria ser.
Eles não veem sovietes. Não veem conselhos de trabalhadores. Em vez disso, encontram as massas organizadas, na medida em que são organizadas, em torno de dirigentes acidentais ou mesmo de meras hashtags de mídia social. Não veem bandeiras vermelhas. Veem bandeiras do Sri Lanka, do Quênia, de Bangladesh e do Nepal.
Consideram as poucas reivindicações desses movimentos vagas e limitadas, especialmente em comparação com o programa final da revolução socialista. E apontam para o fato indiscutível de que, até agora, essas revoluções quase não trouxeram mudanças fundamentais. Declaram com desdém que não se trata de revoluções, depois voltam a dormir e pedem para serem acordados quando a verdadeira revolução chegar.
Como comunistas genuínos, não podemos nos deixar impressionar pelas aparências, nem podemos esperar que as revoluções se encaixem em esquemas preconcebidos. Temos que chegar à essência dos eventos concretos e tirar lições concretas.
Qual é, então, a nossa atitude em relação a esses eventos em andamento?
Essas revoluções, do Sri Lanka ao Nepal, têm características únicas. Mas, neste momento, padrões claros e inconfundíveis já estão surgindo. Em conjunto, eles nos dizem muito sobre o caráter da época em que entramos.
O poder das massas
A primeira coisa a dizer é que não poderíamos pedir mais, em termos de esforço ou heroísmo, das massas revolucionárias. Elas demonstraram o enorme poder latente que possuem.
Há três anos, quando o povo avançou em direção ao palácio presidencial no Sri Lanka, o primeiro dominó a cair, a polícia foi varrida para o lado. Os Rajapaksas fugiram. Nenhuma outra força na sociedade poderia, nem remotamente, igualar esse poder.

O regime se viu, desamparadamente, suspenso no ar. A revolução poderia tê-lo esmagado ali mesmo. Na verdade, o poder estava realmente nas mãos das massas nas ruas. Tudo o que faltava era declarar a queda do antigo regime. Mas as massas não tinham consciência de que detinham o poder, e não havia partido com autoridade suficiente para tomá-lo em seu nome.
Assim, na mesma noite em que essa vitória impressionante foi alcançada, não restou nada às massas revolucionárias a não ser desocupar o palácio presidencial e voltar para casa. Depois disso, o antigo e desprezado parlamento, com a maioria do partido de Rajapaksa, escolheu seu substituto para presidente.
Em 5 de agosto de 2024, o regime em Bangladesh também se viu suspenso no ar. A polícia, que havia desencadeado um reinado de terror nas semanas anteriores, declarou uma “greve”. Na verdade, eles fugiram do local, aterrorizados com o contra-ataque das massas. 450 das 600 delegacias de polícia do país estavam em ruínas. A odiada primeira-ministra Sheikh Hasina foi colocada em um helicóptero pelos militares e levada para fora do país.
As massas revolucionárias tinham o poder e poderiam ter organizado seu próprio governo revolucionário. Mas, novamente, não tinham consciência de seu poder. O antigo regime foi derrotado. Os antigos generais e juízes deveriam e poderiam ter sido afastados. Em vez disso, os líderes estudantis negociaram com os generais derrotados. Concordaram com um governo interino liderado por um ex-banqueiro, no qual ocupariam ministérios simbólicos.
No Quênia, depois de todo o sacrifício, de todo o derramamento de sangue, ainda menos foi alcançado. Ruto permanece arraigado no poder.
O enigma central em todos esses casos é o contraste entre o poder avassalador demonstrado pelas massas e o quão pouco de substancial realmente mudou.
Isso é resultado de um fator ausente, ao qual continuaremos a retornar: a ausência de uma direção revolucionária. Sem direção, reinou a confusão em relação ao programa e ao objetivo final da revolução. Todas essas revoluções pararam no meio do caminho.
Mas para aqueles que dizem que estas não foram revoluções, nós dizemos: nenhum outro tipo de revolução era possível sob estas circunstâncias. Lênin responde a esta objeção de forma definitiva em sua resposta àqueles que negaram que a Revolta da Páscoa de 1916 na Irlanda tivesse qualquer significado revolucionário, considerando-a um mero “golpe de Estado”:
“Imaginar que uma revolução social é concebível sem revoltas de pequenas nações nas colônias e na Europa, sem as explosões revolucionárias da pequena burguesia, com todos os seus preconceitos, sem o movimento de massas proletárias e semi proletárias sem consciência de classe contra a opressão dos latifundiários, da Igreja, da monarquia, do jugo estrangeiro, etc. – imaginar isso equivale a repudiar a revolução social. Somente aqueles que imaginam que em algum lugar um exército se alinhará e dirá: ‘Somos pelo socialismo’ e em outro lugar outro exército dirá: ‘Somos pelo imperialismo’ e acreditam que esta será a revolução social, somente aqueles que têm uma opinião tão ridiculamente pedante poderiam difamar a Rebelião Irlandesa chamando-a de ‘intentona’. Quem espera uma revolução social ‘pura’ nunca viverá para vê-la. Tal pessoa fala da boca para fora sobre a revolução sem entender o que é revolução.” (Lenin, Resumo da Discussão sobre a Autodeterminação)
O problema da direção
Falta uma direção clara. Mas a questão é que as condições das massas são desesperadoras demais para esperar até que esse fator ausente entre em cena. Os jovens são os menos propensos a esperar pacientemente até que as condições sejam ideais.
Outra característica marcante de todas essas revoltas revolucionárias é a forma como uma nova geração de jovens irrompeu em cena. Os jovens, privados de um futuro, tendo menos a perder e mais a ganhar, sendo a camada mais enérgica, aliviada do peso das derrotas passadas, têm estado na linha de frente em todos os lugares.

No Nepal e no Quênia, chamam isso de “Revolução da Geração Z”. Na Sérvia e em Bangladesh, enormes movimentos estudantis, como um para-raios, atraíram a energia da ira de milhões de trabalhadores comuns e pessoas pobres.
Embora existam diferenças de país para país, a juventude, em geral, relegou a um segundo plano a escassa direção que surgiu. Será que eles geram confusão? Claro que sim. De quem é a culpa? Respondemos enfaticamente: é culpa das direções das organizações de trabalhadores, cuja função é liderar.
O fato condenável é que sua ausência covarde tem sido o contraponto vergonhoso à bravura da juventude na vanguarda.
Assim como os generais no Quênia e em Bangladesh mantiveram os soldados confinados nos quartéis para impedi-los de serem contaminados pela revolução, os batalhões pesados da classe trabalhadora foram “confinados em quartéis” pelos líderes dos trabalhadores.
Isso é criminoso. Em última análise, somente a classe trabalhadora tem o poder em suas mãos para destruir o capitalismo pela raiz, que é a verdadeira fonte de toda a miséria e sofrimento das massas.
A juventude, em muitos casos, tentou se conectar com os trabalhadores. Os estudantes na Sérvia, para seu mérito, corretamente convocaram os sindicatos a organizar uma greve geral contra o regime de Vučić e pediram a formação de zborovi (assembleias de massa) nos locais de trabalho. Mas os torpes burocratas nas sedes sindicais resistiram a todos esses apelos, que viam como uma invasão de seus próprios e pequenos feudos.
No Quênia, o miserável Secretário-Geral da central sindical COTU-K chegou a defender o regressivo Projeto de Lei de Finanças de 2024 de Ruto, que desencadeou todo o movimento!
E no auge da aragalaya (luta) do Sri Lanka em 2022, a ideia de uma hartal (greve geral revolucionária) circulou amplamente. Mas os sindicatos se recusaram a convocar qualquer coisa além de uma greve de 24 horas.
Contra a corrupção
Ao longo desses movimentos, vimos como as massas têm como alvo os símbolos mais óbvios e poderosos que despertam sua fúria.
As camarilhas governantes corruptas que dominam o país, tão odiadas por sua brutalidade quanto por sua corrupção, atraíram sobre si toda a fúria das massas: a camarilha Rajapaksa no Sri Lanka; a camarilha Hasina em Bangladesh; a camarilha Ruto no Quênia; os governantes e seus “nepo babies” no Nepal; os políticos que concedem aumentos salariais fabulosos a si mesmos na Indonésia; Vučić e seus capangas na Sérvia.
Acima de tudo, as massas no Sri Lanka, Quênia, Bangladesh, Nepal, Indonésia e outros lugares estão lutando, em primeiro lugar, contra a corrupção.
Muitos céticos apontam para isso e zombam, dizendo que isso prova seu ponto de vista de que estas não são revoluções. Uma verdadeira revolução, dizem eles, seria contra o capitalismo, não contra a corrupção.

Mas a corrupção é apenas o sintoma mais potente e extremo de toda a podridão do próprio sistema capitalista. As massas se enchem de um profundo sentimento de injustiça, ódio e indignação ao pensar nos níveis verdadeiramente assombrosos de riqueza que as cercam. Mas, na visão delas, essa riqueza está sendo desviada por uma elite corrupta.
Comentaristas ocidentais apontam a corrupção como uma característica lamentável do chamado “Terceiro Mundo” e a apontam como a causa do subdesenvolvimento. É claro que o fazem para encobrir os rastros do imperialismo, a principal causa da pobreza e do subdesenvolvimento.
Mas corrupção semelhante é comum em todos os países capitalistas, principalmente na Europa. Considerem a semelhança entre o crime do desabamento da cobertura de Novi Sad, na Sérvia, e o desastre ferroviário de Tempi, na Grécia, que levaram enormes massas às ruas. Em ambos os casos, os políticos corruptos são os culpados. Eles contam o dinheiro que ganharam com a corrupção e seus negócios corruptos, enquanto os pobres contam seus mortos nos desastres causados pela corrupção.
Enquanto isso, um pobre condutor de riquixá no Sri Lanka ou em Bangladesh precisa apenas comparar seu sofrimento diário aos projetos opulentos de vaidade como a Torre de Lótus em Colombo ou a Ponte Padma sobre o Ganges para sentir o enorme abismo que o separa de seus governantes. Enquanto Jacarta é um inferno para os pobres, o governo indonésio está ocupado construindo uma nova e reluzente capital, a muitos quilômetros de distância da pobreza e da sujeira da capital atual.
Quando as massas se manifestaram contra o regime no Sri Lanka, na Indonésia, em Bangladesh, no Nepal, foi a esses hipócritas mimados, esses “líderes da nação”, que eles atacaram. Instintivamente, atacaram essas camarilhas podres diretamente na cabeça, e nos deram aquelas cenas de prédios parlamentares invadidos, palácios presidenciais saqueados e escritórios partidários e residências de parlamentares incendiados.
As massas demonstraram o instinto certo ao atacar esses gângsteres corruptos que, por meio de seus cargos, enriquecem até a enésima potência. No fim das contas, porém, se essas pessoas forem expulsas, outras estarão à espreita, esperando para tomar seus lugares. A questão é que, para acabar com a corrupção, precisamos acabar com o domínio do capital. E isso significa abolir a propriedade privada e destruir os corpos armados do Estado capitalista, que constituem a verdadeira fonte de poder da classe dominante.
Ódio a todos os partidos
Há um sentimento em quase todos esses movimentos de que não é apenas a atual camarilha governante, mas todos os políticos e partidos que são tão ruins quanto os outros. A chamada “oposição” provou, na maioria dos casos, ser tão podre quanto eles.
E não é apenas pela corrupção que eles são odiados. O próprio fato de participarem do mesmo jogo parlamentar odiado e de falarem a mesma língua carregada de mentiras mancha a oposição, assim como os governantes.
Assim, no Sri Lanka, ao lado da palavra de ordem “Vai para casa, Gota”, visando o presidente corrupto Gotabaya Rajapaksa, as massas levantaram a palavra de ordem “Vai para casa, 225” – ou seja, fora todos os 225 parlamentares que compõem o parlamento.
No Quênia, os jovens se referem aos parlamentares como “MPigs“. Com toda a razão! Enquanto legislam para empobrecer os pobres, esses “MPigs” – todos eles – têm o focinho enterrado no cocho das despesas e privilégios parlamentares. Os jovens quenianos não querem nada com Ruto, mas também não querem nada com líderes da oposição como Odinga, que logo se viu encolhido de medo da juventude revolucionária por trás da bota de Ruto.
Sua palavra de ordem, “sem tribo, sem liderança, sem partido”, refletia uma rejeição instintiva muito saudável a todas essas gangues tribais-capitalistas que são chamados de “partidos políticos” no Quênia.

Mas se todos os partidos existentes são instrumentos desta ou daquela fração corrupta da classe dominante, isso significa que os trabalhadores e a juventude podem prescindir de um partido e ponto final? Não. A situação clama por um partido e uma direção próprios que representem seus interesses.
A esquerda é tão ruim quanto
Essa rejeição a todos os partidos políticos também reflete o fato de que, na maioria dos casos, os chamados partidos de “esquerda” são tão ruins quanto os partidos de direita!
Em alguns casos, a “esquerda” se tornou tão corrupta quanto os partidos de direita. Muitas vezes, esses alpinistas sociais invejosos acabam sendo ainda piores, conferindo um odor insuportável à própria palavra “esquerda”.
Isso não é simplesmente o produto de algum defeito moral ou de uma falha da esquerda. Essa podridão tem suas raízes em falsos princípios teóricos. A culpa particular por esse lamentável estado de coisas deve ser atribuída ao stalinismo, com sua teoria venenosa do “etapismo”. Isso levou diretamente muitos partidos de esquerda a se alinharem com os piores e mais podres elementos da classe dominante.
De acordo com essa teoria, as tarefas mais urgentes dos países atrasados não são as tarefas socialistas, mas as tarefas democrático-burguesas. Existe um elemento de verdade nisso.
O desejo mais claro e urgente das massas nos países capitalistas atrasados como Nepal, Bangladesh, Sri Lanka e Indonésia é romper com o regime corrupto e arbitrário dos regimes atuais. Acima de tudo, as massas que vivem sob esses regimes brutais querem respirar livremente. Elas querem direitos democráticos.
Em si mesmas, essas demandas não têm um caráter socialista. São o que os marxistas chamariam de tarefas “democráticas-burguesas”.
Mas, partindo dessa premissa de que a revolução se depara com tarefas democrático-burguesas, a teoria “etapista” do stalinismo conclui que devemos buscar uma ala “progressista” da burguesia para liderar a revolução. Somente após anos de desenvolvimento capitalista, que a etapa nacional burguesa da revolução supostamente inaugurará, o país finalmente estará maduro para o socialismo.
Há apenas um pequeno problema. Não existe tal ala “progressista” da classe capitalista em nenhum país atrasado hoje. É uma classe totalmente parasitária, completamente dependente do imperialismo. Ela tem pavor das massas revolucionárias, e especialmente da única classe consistentemente revolucionária na sociedade, que é a classe trabalhadora. Todas as suas políticas, ações e declarações comprovam isso.
Na busca pela utopia de uma ala “progressista” da classe capitalista, os stalinistas se viram agarrados às saias de uma ou outra camarilha apodrecida.
O Partido Comunista de Bangladesh apoiou, ao longo de décadas, a Liga Awami de Hasina e seu pai, Mujib. Eles retrataram a Liga Awami como defensora “progressista” da libertação nacional de Bangladesh e justificaram seu apoio contínuo a ela alegando que a Liga Awami, por ser “laica”, era o mal menor frente aos fundamentalistas religiosos do Jamaat-e-Islami.
Agora, eles compartilham o descrédito de Hasina, enquanto os reacionários do Jamaat-e-Islami podem se apresentar como mártires do regime da Liga Awami de Hasina.
Sem um partido revolucionário que possa vincular a questão da corrupção ao capitalismo, os islamitas se manifestaram e começaram a falar sobre “combater a corrupção”. “Sim, também somos contra políticos corruptos”, dizem eles. “Precisamos de uma política mais limpa, de novos rostos em vez dos antigos.” Esses reacionários desviam a culpa da corrupção do capitalismo para outras supostas causas, como a falta de moral ou de piedade por parte dos secularistas.
Talvez a acusação mais contundente à teoria stalinista do “etapismo” pode ser encontrada no Nepal, onde os maoístas dominam o cenário político do país.

Após uma década de insurgência, os maoístas chegaram ao poder impulsionados por uma onda revolucionária em 2006. O que fizeram? Assinaram imediatamente um Acordo comum de 12 Pontos, com partidos abertamente burgueses, como o Partido do Congresso Nepalês, e desde então o país tem sido governado por coalizões dos chamados “comunistas” com esses elementos burgueses.
Sua justificativa para isso era que todas as forças “progressistas” e “antifeudais” precisavam se unir para suprimir a monarquia e construir uma república. Isso levaria ao desenvolvimento do capitalismo nepalês que, em determinado momento, lançaria as bases para uma revolução socialista no Nepal.
Mas entre 2008 e 2025, nenhum progresso foi registrado. O Nepal caiu da 140ª para a 145ª posição entre 193 países no Índice de Desenvolvimento Humano. Milhares de jovens do país fogem da pobreza todos os anos para trabalhar no exterior, a ponto de um terço do PIB do país ser composto por remessas do exterior.
Administrando o Estado em nome da classe capitalista por uma década e meia, os próprios políticos maoístas tornaram-se alvo do ódio das massas. Eles estão tão atolados em corrupção quanto os partidos abertamente burgueses.
Entre os “nepo babies”, cuja riqueza ostensiva desencadeou os eventos recentes, quem encontramos? Jovens como Smita Dahal, ostentando joias que valem muitas vezes o salário médio mensal de um trabalhador nepalês, cujo avô é ninguém menos que o Presidente Prachanda, o ex-líder da guerrilha maoísta.
Revoluções coloridas?
Há uma visão, popular entre os defensores das virtudes do novo mundo “multipolar”, de que o que estamos vendo é o oposto de revolução. Dizem que se trata de contrarrevoluções ou revoluções “coloridas”. Ou seja, conspirações obscuras de agências de inteligência ocidentais para manipular as massas.
O mesmo tem sido dito frequentemente sobre a Primavera Árabe, que apresentou muitas semelhanças com a atual onda de revoluções. Podemos entender por que algumas pessoas acreditam erroneamente que foi obra de uma conspiração. A classe trabalhadora no Egito não conseguiu tomar o poder. O resultado? Al-Sisi substituiu Mubarak, e as coisas estão cem vezes mais difíceis hoje no Egito do que em 2010. Na Líbia e na Síria, o imperialismo conseguiu mergulhar esses países em uma guerra civil bárbara.
O fato de o foco da atual onda de revoluções ser o Sul da Ásia, e de alguns dos regimes que estão sendo abalados se inclinarem para a China, dá credibilidade à ideia de que se trata de uma mudança de regime orquestrada pelo Ocidente.
Há uma ironia na ideia de que o que estamos vendo agora é uma onda de revoluções coloridas.
Os defensores da “multipolaridade” afirmam que a esquerda deve combater o imperialismo apoiando regimes burgueses “progressistas” e “anti-imperialistas” no “Sul Global”. Mas eles ignoram o fato de que a razão pela qual a esquerda está tão desacreditada, deixando um vácuo que os reacionários podem tentar preencher, é precisamente porque a esquerda manteve a mesma utopia de uma burguesia nacional “progressista” e “anti-imperialista” por anos!
A ideia de que estes são casos de “revoluções coloridas” é falsa. Conspirações não explicam o que estamos vendo. Mas é uma ideia falsa que contém um elemento de verdade. Sem uma direção revolucionária, a contrarrevolução pode ganhar vantagem, os imperialistas podem encontrar brechas para intervir e as coisas podem degenerar em uma direção muito reacionária.
Temos que dizer sem rodeios que o balanço dessas revoluções confirma isso, e que essa é uma lição que precisa ser tirada.
Na Síria, o fracasso da revolução em formular um programa proletário permitiu que os imperialistas sequestrassem o movimento e o transformassem em uma insurgência islâmica. Da mesma forma, a revolta da juventude iraniana de 2018, por não conseguir desenvolver uma abordagem de classe clara, deslocou-se para a órbita da oposição liberal apoiada pelo Ocidente.

E nestes exemplos mais recentes? No Quênia, Ruto permanece no poder. É um fato evidente que a juventude não conseguiu derrubá-lo com simples dias de ação. Em Bangladesh e no Sri Lanka, o antigo regime foi derrubado. E, no entanto, em todos os três, os governos estão implementando medidas de austeridade e atacando a classe trabalhadora e os pobres a mando do FMI. Todos são compelidos a implementar essa política porque é a única política possível sob o capitalismo.
Em meio ao entusiasmo efusivo pela “recuperação” no Sri Lanka, até o ano passado, a taxa de pobreza permanecia o dobro do que era no início de 2022. Os jovens buscam emigrar se puderem, ou então se veem presos a trabalhar horas intermináveis para sobreviver. Em Bangladesh, cerca de 2,1 milhões de empregos foram perdidos desde o movimento em julho de 2024.
As condições continuam a piorar. O fato é que a causa raiz do sofrimento e do descontentamento das massas decorre da crise do capitalismo, e essas revoluções não atingiram a raiz do capitalismo.
A corrupção também não foi eliminada. Em Bangladesh, os líderes estudantis gastaram a maior parte de sua autoridade. A cereja do bolo foi o que aconteceu com o sistema de cotas que desencadeou a revolução em Bangladesh. Os estudantes se mobilizaram no ano passado para acabar com a discriminação: especificamente, para acabar com as cotas de empregos públicos bem remunerados para os familiares dos veteranos da Guerra da Independência de 1971. Era um sistema que, de fato, fornecia empregos para os lacaios de Hasina e do regime da Liga Awami.
Esse sistema de cotas foi de fato descartado… e substituído por um sistema de cotas de empregos alocados para os familiares dos veteranos da revolta de julho de 2024!
Tudo o que é possível sob o capitalismo é uma nova divisão do que é pilhado, mas nunca há um fim para a pilhagem.
Processos inacabados
Revoluções não são dramas de um só ato, e este não é o fim da história. No Sri Lanka, Nepal e Bangladesh, o odiado antigo regime foi derrubado. As massas obtiveram vitórias iniciais que se mostraram deslumbrantes. Mas, sob uma análise mais aprofundada, verifica-se que a vitória foi mais aparente do que substancial. O chefe do regime se foi, mas o antigo Estado, a antiga classe dominante, ainda detém o poder.
Há uma analogia entre o que vimos aqui e o que aconteceu na Rússia em fevereiro de 1917.
Os trabalhadores russos irromperam em cena em uma greve geral revolucionária. Em poucos dias, o czar foi forçado a abdicar. Um governo provisório foi estabelecido. Mas, quando o entusiasmo passou, descobriu-se que os antigos generais e burocratas monarquistas permaneciam no poder. Os capitalistas ainda eram donos das fábricas, os latifundiários ainda detinham todas as terras. Era o czarismo, mas sem o czar.
A vitória não seria completa até que o antigo Estado fosse destruído e os próprios trabalhadores assumissem o poder. Isso aconteceu na Revolução de Outubro de 1917. E isso só foi possível devido à presença do Partido Bolchevique, que esclareceu os objetivos da revolução e ganhou a classe trabalhadora e as outras massas oprimidas da Rússia para sua bandeira.
Se não estivesse presente, a velha classe dominante poderia muito bem ter arrastado a Rússia para a barbárie. Uma guerra civil, acompanhada de pogroms, teria se instaurado. Muito provavelmente, a Rússia teria sido dividida entre as potências imperialistas e muitos milhões teriam morrido.
Em outras palavras, a Rússia teria sofrido um destino semelhante ao que o Sudão sofre hoje. Lá, as massas revolucionárias tiveram a oportunidade perfeita de tomar o poder em 2019. A liderança deixou passar, e agora o país está sendo dilacerado por uma guerra civil bárbara entre duas gangues armadas reacionárias e as várias potências imperialistas que estão por trás dessas gangues.
É claro que um resultado reacionário tão devastador como o que estamos vendo agora no Sudão não é de forma alguma inevitável. A força da classe trabalhadora e uma série de outros fatores entram em jogo para determinar o resultado. Mas, mesmo assim, é um aviso brutal.
Quem será o próximo?
Os eventos revolucionários que estamos precensiando provavelmente continuarão a se repetir por vários anos no Sri Lanka, Bangladesh, Nepal, Indonésia, Quênia e outros lugares. Haverá altos e baixos e, sem dúvida, até novos levantes insurrecionais.

Se a história do bolchevismo de 1903 a 1917 nos ensina alguma coisa, é que um partido deve ser construído antes da revolução para que desempenhe um papel decisivo. Hesitamos em afirmar que um partido revolucionário não pode ser construído sob condições de revolução, mas construí-lo não é uma tarefa fácil.
Dirigimos o que temos a dizer agora, portanto, aos trabalhadores e jovens revolucionários mais avançados do resto do mundo que ainda não foram abalados pela revolução. A tarefa de construir o partido revolucionário deve ser empreendida com urgência, agora! Todos esses exemplos que listamos acima apontam para esse fato.
É preciso tempo para construir os quadros de um futuro partido revolucionário de massas. Tempo não é algo que tenhamos em abundância. As condições que deram origem às revoluções em todos os países mencionados anteriormente estão amadurecendo rapidamente em todos os lugares.
É impressionante como as condições que produziram essas revoluções eram semelhantes.
À primeira vista, esses não eram nem mesmo os países mais afetados pela crise que percorre o mundo. Longe disso. Eles estavam crescendo a taxas que fariam os economistas dos países capitalistas avançados morrerem de inveja.
Entre 2010 e 2024, excluindo o ano da pandemia de 2020, o Nepal experimentou um crescimento médio anual de 4,7%; o Quênia, 5,2%; e a Indonésia, 5,23%. O Sri Lanka entrou em crise antes, mas nos anos de 2010 a 2018, também experimentou um crescimento médio de 6,43% ao ano.
Mas, ao se analisar a situação mais detidamente, o que se vê? Um crescimento extremamente desigual e que não gera empregos, pobreza persistente e uma montanha de dívidas usurárias impagáveis com os imperialistas. O que mais preocupa a classe dominante é o alto desemprego entre os jovens e a ausência de um futuro decente, um problema comum em todos esses países.
No Sri Lanka, o desemprego entre os jovens era de 25% em 2021, quatro a cinco vezes a taxa média. 7 milhões dos 44 milhões de jovens da Indonésia estão desempregados. Em Bangladesh, menos de um em cada cinco jovens de 25 a 29 anos tem um emprego estável com contrato com duração superior a um ano. Antes da pandemia, 39% dos recém-formados estavam desempregados em Bangladesh.
“Não temos emprego nem futuro”, como disse um jovem queniano, “então temos todo o tempo do mundo para derrubá-los e nada a perder lutando contra vocês”.
Serão essas características únicas desses países? Não são. São notavelmente semelhantes às condições de muitos, muitos países.
Em 2023, 21 países, onde vivem 700 milhões de seres humanos, estavam falidos ou à beira da falência. 3,3 bilhões de pessoas em todo o mundo vivem em países que gastam mais com o pagamento de juros da dívida do que com saúde ou educação.
Mesmo durante os “bons tempos”, as massas já se esforçavam para se manter respirando. Isso é particularmente verdadeiro para os países pobres e os chamados de renda média, que não tinham as reservas necessárias para suportar os estragos da crise que eclodiu com a pandemia da COVID-19.
Quando a revolução tomou conta do Sri Lanka em 2022, previmos que eventos semelhantes ocorreriam em um país após o outro, porque todos compartilham as mesmas características fundamentais. E assim aconteceu, e prevemos com confiança que a longa lista de países ainda não está completa. As classes dominantes da Índia e do Paquistão, e seus muitos “nepo babies”, devem estar tremendo de medo ao assistir a esses acontecimentos.
Essa onda revolucionária começou nos países mais pobres e menos desenvolvidos, mas não permanecerá restrita a eles. Como Trotsky explicou: “Os efeitos da gota começam no dedo mínimo ou no dedão do pé, mas uma vez iniciada, progride até atingir o coração.”
As chamas da revolução já estão queimando as bordas da Europa na Sérvia, e o movimento dos “bloquons tout” na França mostra que a revolução realmente chegará ao coração. O mundo está em chamas, e explosões revolucionárias estão na ordem do dia. Temos que absorver esse fato, e tudo o que dele decorre para nós, em termos da responsabilidade que nos impõe, como revolucionários, de construir com urgência.
