O dia de ação marcado para 2 de outubro, convocado pelo comitê intersindical de líderes de confederações sindicais, provavelmente será massivo, como tantos dias de ação o foram nos últimos vinte anos. Durante o movimento de massas contra o aumento da idade de aposentadoria para 64 anos, de janeiro a junho de 2023, foram organizados quatorze dias de ação, alguns dos quais mobilizaram mais de 3 milhões de manifestantes. Macron, no entanto, não cedeu um milímetro: a contra reforma foi aprovada.
[Publicado originalmente em francês em marxiste.org]
O papel do comitê intersindical
Com base nessa experiência, muitos jovens e trabalhadores perceberam que dias de ação por si só não são suficientes. Mas o comitê intersindical continua acreditando em sua tática: após o 18 de setembro, “ameaçou” Lecornu com uma novo dia de ação se ele não anunciasse rapidamente o abandono de todas as medidas de austeridade do “plano Bayrou”. Exigiu também “a retirada do aumento da idade de aposentadoria para 64 anos” e a movimentação de “recursos orçamentários” adicionais para os serviços públicos.
Será que Sophie Binet (Confederação Geral do Trabalho – CGT), Marylise Léon (Confederação Democrática Francesa do Trabalho – CFDT), Frédéric Souillot (Força Operária – FO) e todos os outros líderes do comitê intersindical imaginaram por um momento que Macron e Lecornu cederiam a esse “ultimato”? Claro que não. Por que, então, o emitiram? Porque não querem elevar a luta ao nível de força necessário.
Eles temem que o movimento escape ao seu controle e ameace toda a ordem estabelecida. Assim, em vez de intensificar a mobilização, dando continuidade à militância expressa nos dias 10 e 18 de setembro, eles queriam acalmar os ânimos e frear o impulso criado pelo movimento “Bloquons tout” (“Bloquear tudo”).
As ações do comitê intersindical são lamentáveis, mas essa é a realidade. Um número crescente de jovens e trabalhadores compreende isso. Muitos ativistas da CGT, em particular, criticam duramente os líderes da confederação.
O Unité CGT, jornal da ala esquerda da CGT, descreve o comitê intersindical como o “quartel-general da derrota”, pede a “rejeição da estratégia de dias isolados de ação (…) cujo único objetivo é enterrar o movimento social” e enfatiza a necessidade de construir um “movimento de greve por tempo indeterminado” baseado em um programa que coloque o movimento na ofensiva.
O Unité CGT está correto e fala com clareza e contundência. Mas a questão permanece: como construir um movimento de greve por tempo indeterminado em um contexto em que o comitê intersindical, incluindo a direção da CGT, está resistindo? Desde 10 de setembro, milhares de jovens e trabalhadores se fazem essa pergunta. Vamos tentar respondê-la.
Partindo para a ofensiva
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o conservadorismo da direção sindical é apenas um obstáculo relativo – e não absoluto – ao desenvolvimento de um amplo movimento de greves por tempo indeterminado. As greves gerais de junho de 1936 e maio de 1968 se desenvolveram contra a vontade dos líderes sindicais, que se depararam com um fato consumado.
Quando a raiva e a exasperação dos explorados atingem um certo limiar, as eventualidades da vida política e social sempre fornecem a faísca que provoca uma explosão social, independentemente do que os dirigentes sindicais digam ou façam. Em 1936, a faísca foi a vitória eleitoral da Frente Popular. Em 1968, foi a repressão brutal aos estudantes pelo regime do General de Gaulle. Muitos outros exemplos poderiam ser extraídos da história do movimento operário internacional.

Poderá tal movimento desenvolver-se na França nas próximas semanas e meses? Sim, é possível, porque a exasperação das massas está atingindo níveis muito elevados. E, mais cedo ou mais tarde, o que é possível tornar-se-á inevitável.
É claro que ninguém está sugerindo que fiquemos de braços cruzados à espera de que as massas tomem a iniciativa. Por outro lado, não se trata de tentar desencadear artificialmente uma luta global através de iniciativas isoladas. A tarefa central dos indivíduos mais militantes, ativistas da CGT, ativistas da France Insoumise, a “esquerda radical” em geral, é unir as suas forças num esforço sistemático para elevar o nível de consciência e organização do movimento.
As tentativas deliberadas do comitê intersindical de sabotar o movimento devem ser combatidas com um plano de batalha claro e ofensivo. Este deve então ser sistematicamente promovido e defendido nos locais de trabalho, universidades, escolas de ensino médio, manifestações, assembleias gerais, reuniões públicas e em todas as organizações do movimento operário.
Qual programa?
Um plano de batalha sério começa com um bom programa. O comitê intersindical apresenta um programa muito limitado, vago e defensivo. Suas reivindicações incluem a retirada das medidas do “plano Bayrou”, “a retirada da aposentadoria aos 64 anos”, “um alto nível de proteção social”, “recursos orçamentários adequados para os serviços públicos”, “a reindustrialização da França” e assim por diante.
Tais reivindicações vagas e moderadas são um obstáculo ao desenvolvimento de um movimento grevista poderoso. A maioria dos trabalhadores não pode sacrificar um ou mais dias de salário por algo tão rebaixado: a greve deve valer a pena e os objetivos da luta devem ser proporcionais aos sacrifícios feitos.
É por isso que “dias de ação”, mesmo quando massivos, nunca são verdadeiras greves gerais de 24 horas: no setor privado, em particular, a participação nestas jornadas é sempre muito baixa (exceto nas empresas que já estão em greve).
Em um discurso aos ativistas da CGT em 22 de setembro, a Secretária Geral da CGT, Sophie Binet, reconheceu esse fato, mas culpou os ativistas de base e, de passagem, criticou a ala esquerda da CGT: “Antes de falar sobre uma greve por tempo indeterminado, precisamos primeiro entrar em greve e fazer com que nossos colegas se juntem a nós!” Na realidade, o problema não é a falta de disposição dos ativistas da CGT para lutar: é o programa ultra moderado de Sophie Binet.
Devemos defender e popularizar um programa ofensivo: pelo direito à aposentadoria aos 60 anos (no máximo), um aumento geral dos salários e sua indexação à inflação, um aumento massivo do número de funcionários públicos, a contratação de milhões de desempregados com base em grandes obras públicas e a redução da jornada de trabalho, a revogação de todas as contrarreformas dos últimos dez anos e a nacionalização (sob controle dos trabalhadores) de todas as grandes empresas que estejam demitindo trabalhadores ou ameaçadas de fechamento.
É claro que também devemos adotar a palavra de ordem gritada por tantos manifestantes nos dias 10 e 18 de setembro: “Macron, renuncie!”. Por fim, devemos defender a necessidade de substituir o “governo dos ricos” por um governo dos trabalhadores, que são os que criam toda a riqueza da sociedade e sabem como administrar a economia em benefício da maioria.
Por uma ampla campanha de agitação
Um bom programa é essencial, mas não é uma varinha mágica com a qual se pode mobilizar as massas instantaneamente. Este programa deve ser levado a todos os cantos do país, empresa por empresa, distrito por distrito, como parte de uma vasta campanha de agitação.

Tal campanha também é a melhor maneira de avaliar com precisão a militância de diferentes camadas da classe trabalhadora. Em 1935, Leon Trotsky escreveu sobre a situação na França:
“Uma greve geral é possível em um futuro próximo? Não há uma resposta a priori para tal pergunta […]. Para obter uma resposta, é preciso saber como fazer a pergunta. Quem? As massas. Como fazê-las? Por meio da agitação.
“A agitação não é apenas um meio de comunicar certas palavras de ordem às massas, de convocá-las à ação, etc. A agitação também é um meio para o partido ouvir as massas, avaliar seu humor e pensamentos e, dependendo dos resultados, tomar certas decisões práticas. […] Para os marxistas, para os leninistas, a agitação é sempre um diálogo com as massas, [um diálogo que permita saber] os detalhes necessários, particularmente no que diz respeito ao ritmo do movimento e às datas das principais ações.”
Uma ampla campanha de agitação permitiria determinar quais setores da classe trabalhadora estão prontos para a ação e quais setores ainda hesitam e precisam ser convencidos. Sem um levantamento sistemático de toda a classe trabalhadora, não é possível elaborar um plano de batalha sólido.
É claro que esta é uma tarefa longa e árdua. É mais fácil, mas muito menos conclusivo, lançar aos quatro ventos convocações para uma “greve geral”. Como Trotsky apontou, novamente em relação à França: “Uma vitória revolucionária só é possível após um longo período de agitação política, um longo período de educação e organização das massas.”
Por sindicatos militantes!
Se o comitê intersindical, ao invés de ficar de conversinha com Macron e Lecornu, elaborasse um plano de batalha sério, baseado em um programa de luta e em uma ampla campanha de agitação, não temos dúvidas de que a massa de jovens e trabalhadores responderia com entusiasmo. Mas, como já dissemos, e como todos sabem: o atual comitê intersindical não tem a menor intenção de seguir esse caminho.

Devemos tirar todas as conclusões necessárias disso. Os quadros mais militantes, que têm a tarefa de liderar a luta contra a burguesia e seu governo, não devem perder de vista a necessidade de combater, também resolutamente, o conservadorismo dos dirigentes sindicais. Essas duas lutas se complementam; na verdade, são inseparáveis.
Dirigentes sindicais conservadores e carreiristas, que dedicam seu tempo a “negociar” ataques contra trabalhadores e jovens, devem ser substituídos por dirigentes determinados a organizar uma luta séria. Isso se aplica, é claro, ao nível das confederações, mas também a todos os outros níveis do movimento sindical.
Em março de 2023, o 53º Congresso da CGT foi marcado por uma polarização sem precedentes em décadas. A esquerda estava forte e na ofensiva, embora a direita tenha conseguido colocar um dos seus, Sophie Binet, no cargo de secretária-geral. Essa luta deve continuar a todo custo, sem medo de “dividir” a CGT. A unidade é algo muito bom, mas não quando significa a participação da direção da CGT no “quartel-general da derrota”, segundo a excelente frase cunhada pelos camaradas da Unité CGT.
A CGT só poderá desempenhar plenamente o seu papel se estiver unida em torno de uma estratégia e de um programa ofensivo, radical e revolucionário. Quando foi fundada, há 130 anos, a CGT estabeleceu como objetivo defender e melhorar as condições de vida e de trabalho da classe trabalhadora, mas também a pôr um fim ao capitalismo e à exploração. É chegada a hora de intensificar e sistematizar a luta dentro da CGT para se reconectar com as suas origens revolucionárias.
