A Revolução Bolivariana da Venezuela foi um momento decisivo na história da luta de classes. Foi um raio de luz nos anos sombrios que se seguiram ao colapso do stalinismo. Muito antes da crise financeira de 2008, do Occupy (nota do tradutor: movimento de ocupação de praças em 2011 contra Wall Street e o 1% mais rico da população), do BLM [Black Lives Matter, movimento Vidas Negras Importam] ou da ascensão de Sanders ou Mamdani, a Revolução Bolivariana deu credibilidade ao anticapitalismo, ao anti-imperialismo e ao socialismo.
[Publicado originalmente em Communistusa.org]
Hugo Chávez personificou a revolução e expressou as aspirações das massas pobres em todo o mundo. O potencial para uma revolução socialista regional era evidente. Se tivesse tido êxito, o planeta seria hoje um lugar muito diferente. Em vez de centenas de milhares de refugiados venezuelanos desesperados fugindo para os EUA, a revolução socialista teria se espalhado como fogo de palha seca pela fronteira.
As terríveis condições e a crescente opressão imperialista que os venezuelanos sofrem hoje são uma consequência direta do fracasso da revolução. É uma lei da história: o preço por não levar a revolução socialista à sua conclusão é a reação e a contrarrevolução.
Inacreditavelmente, muitos dos chamados marxistas afirmam que nunca foi uma revolução. Mas qualquer pessoa que tenha assistido a A Revolução Não Será Televisionada terá visto a disposição de fazer sacrifícios e a elevação espiritual expressas pelas camadas mais humildes da sociedade venezuelana. É precisamente assim que acontece quando as massas entram em cena na história, tomam as rédeas de seus destinos e assaltam o céu.
Revolução inacabada
Por mais de uma década, a Revolução Venezuelana esteve numa encruzilhada. Mas, eventualmente e inevitavelmente, a quantidade se transformou em qualidade, e o caminho para a revolução se fechou – por enquanto.
Este é um lembrete contundente de que, mesmo nas circunstâncias mais excepcionais, as oportunidades revolucionárias não duram para sempre. Não existe uma terceira via entre o socialismo e o capitalismo, e não se pode fazer uma revolução pela metade. Como explica O Manifesto Comunista: “A classe trabalhadora não pode simplesmente se apoderar da máquina estatal já existente e usá-la para seus próprios fins”. Nem pode simplesmente se apoderar da economia capitalista já existente.
Tragicamente, foi isso o que Chávez e seus associados mais próximos tentaram fazer. Apesar dos esforços heroicos das massas, as principais tarefas da revolução permaneceram inacabadas: o estabelecimento de um Estado operário democrático e a expropriação dos bancos, da indústria e das grandes propriedades rurais, tanto estrangeiras quanto nacionais.
O objetivo declarado do imperialismo estadunidense é se apoderar do petróleo da Venezuela, as maiores reservas comprovadas do mundo. Busca também dar uma “lição” às massas venezuelanas sobre quem manda, ao mesmo tempo em que ataca Cuba e a esquerda latino-americana em geral. Acima de tudo, visa contrabalançar a crescente influência da China e da Rússia, enquanto os BRICS ameaçam a hegemonia americana em seu próprio hemisfério.
Os imperialistas esperam que a intensificação da intimidação militar e a sabotagem da economia fragilizada pelas sanções levem a um colapso do governo semelhante ao da Síria. No entanto, a Venezuela não está tão isolada quanto no passado e se prepara para uma guerra assimétrica contra um ataque imperialista há mais de duas décadas. Embora estejam claramente em desvantagem para um confronto direto, podem ser capazes de afundar um navio ou derrubar um avião ou dois, possivelmente muitos mais. Depois do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão, o público americano desenvolveu uma tolerância extremamente baixa para perdas humanas, especialmente se resultarem de uma guerra não provocada e puderem desencadear uma crise de refugiados ainda mais desesperadora.
Até agora, a “Operação Lança do Sul” tem sido um início desastroso para a aparente tentativa de Trump de se limitar ao hemisfério ocidental. O principal advogado do Comando Sul das Forças Armadas dos EUA denunciou os ataques com “dois toques” contra supostos barcos de narcotráfico como ilegais, e o oficial de mais alta patente do Comando Sul está renunciando em protesto contra esses assassinatos extrajudiciais. Hegseth e Trump estão sendo abertamente acusados de cometer crimes de guerra. Além disso, gastar bilhões de dólares para enviar 20% da Marinha dos EUA para intimidar a Venezuela não é exatamente o que os eleitores do MAGA tinham em mente quando lhes foi prometida uma política de “América Primeiro”.
Com apenas 15% de apoio à intervenção tanto nos EUA quanto na Venezuela, qualquer ataque poderia ter um efeito contrário desastroso, e os americanos poderiam acabar com um Estado falido nos moldes da Líbia em sua vizinhança próxima – ou poderiam reacender a revolução em todo o continente – inclusive nos EUA. Apesar da pressão implacável dos neoconservadores para atacar, tudo isso certamente está fazendo Trump repensar suas ações. No entanto, não devemos descartar um ataque de falsa bandeira numa tentativa de mobilizar os americanos em torno da derrubada de Maduro – como Pearl Harbor ou o incidente do Golfo de Tonkin.
O Caracazo
Após séculos de domínio espanhol, a Venezuela conquistou sua independência em 1821, após uma longa guerra revolucionária liderada por Simón Bolívar. Mas o país permaneceu economicamente atrasado, antidemocrático e dependente. Após a descoberta de petróleo em 1914, a penetração imperialista na economia acelerou. O ditador da época concedeu generosas concessões a companhias petrolíferas estrangeiras, e uma sequência de juntas militares governou a Venezuela até 1958, quando o regime particularmente repressivo de Marcos Pérez Jiménez foi derrubado por uma revolta popular em massa.
O domínio militar direto foi substituído por um período de democracia formal limitada, conhecido como o Pacto de Punto Fijo. Este foi um acordo de partilha de poder entre os dois principais partidos burgueses – a Ação Democrática (AD) e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (COPEI) – uma oligarquia bipartidária semelhante à dos Republicanos e Democratas.
Em 1976, durante a crise global do petróleo, o presidente Carlos Andrés Pérez (AD) nacionalizou o setor petrolífero e criou a Petróleos de Venezuela, S.A. (PDVSA). Ostensivamente uma empresa estatal, era dominada por uma elite tecnocrática, e empresas estrangeiras mantinham influência significativa. Após mais de uma década de corrupção e crise, o cenário estava pronto para o Caracazo.
Em 1989, Carlos Andrés Pérez foi eleito presidente pela segunda vez. Em fevereiro daquele ano, anunciou um pacote de “ajustes estruturais” imposto pelo FMI, que incluía austeridade massiva, privatizações e desvalorização da moeda. Da noite para o dia, os preços dos alimentos, combustíveis e transporte dispararam com o fim dos subsídios estatais.
Na madrugada de 27 de fevereiro, multidões enfurecidas se reuniram nos bairros pobres do entorno de Caracas para protestar contra o aumento das tarifas de ônibus. Os protestos rapidamente se transformaram em uma revolta espontânea e generalizada, sem liderança organizada ou planejamento. Pessoas famintas e desesperadas saquearam supermercados; ônibus foram incendiados; e símbolos de riqueza e autoridade governamental foram atacados.
Pérez declarou estado de emergência, suspendeu as garantias constitucionais e mobilizou o exército e a polícia. Casas foram invadidas e civis desarmados foram baleados nas ruas. Cerca de 3 mil pessoas foram mortas ou desapareceram, e milhares foram espancadas e presas.
O Estado acabou retomando o controle. Mas o Pacto de Punto Fijo estava morto. Um jovem major do exército chamado Hugo Chávez, profundamente afetado por estes eventos, diria mais tarde que o sangue derramado durante o Caracazo regou as sementes da Revolução Bolivariana.
A ascensão de Chávez
Nascido em uma família pobre da zona rural em 1954, Hugo Rafael Chávez Frías sonhava em se tornar jogador profissional de beisebol, mas, em vez disso, ingressou na Academia Militar da Venezuela. Influenciado por Bolívar, acreditava que a vasta riqueza natural do país deveria ser usada em benefício dos venezuelanos comuns.
Após o Caracazo, ele e outros oficiais progressistas formaram um grupo clandestino chamado MBR-200 e desenvolveram sua ideologia “bolivariana”, fundindo o pan-americanismo de Bolívar ao anti-imperialismo. Já como coronel, Chávez lançou um golpe contra Pérez em 4 de fevereiro de 1992. Infelizmente, a tentativa foi prematura e o golpe fracassou rapidamente. Chávez foi chamado à televisão em transmissão direta para apelar aos seus camaradas que renunciassem.
Em vez de pedir desculpas pelo fracasso da empreitada, ele assumiu total responsabilidade e acrescentou que os objetivos do movimento não haviam sido alcançados “por enquanto”. Eletrizados por sua coragem e autenticidade, milhões o viam como um herói do povo. Condenado e preso, ele continuou a se instruir e a se conectar com os movimentos populares do país. Sob pressão popular, Chávez e seus companheiros conquistaram indultos depois de apenas dois anos.
Chávez entrou para a política e viajou por todo o país. Embora fosse um exemplo clássico de como uma necessidade pode se expressar através de um acidente, ele deixou sua marca inconfundível nos acontecimentos. Compreendia os problemas enfrentados pelos trabalhadores e camponeses pobres. Transbordava carisma e lhes conferia o respeito e a dignidade que mereciam. Combinava com naturalidade referências a Bolívar, à revolução, ao socialismo e a Jesus Cristo. Senhoras idosas e gentis exigiam fervorosamente que Chávez carregasse a Bíblia em uma mão e a espada de Bolívar na outra – para decapitar os oligarcas.
Em 1997, fundou o Movimento Quinta República (MVR) e lançou uma campanha presidencial, apoiado pelos “círculos bolivarianos” que proliferavam por todo o país. Sua plataforma defendia uma assembleia constituinte para reescrever a Constituição e exigia que a riqueza petrolífera da Venezuela fosse usada para financiar programas sociais para os pobres. Sua campanha era modesta em recursos financeiros e enfrentou forte hostilidade da mídia e dos dois principais partidos, que apoiaram um único candidato para detê-lo. Mas sua campanha popular foi imparável, e ele foi eleito presidente em 6 de dezembro de 1998, com expressivos 56% dos votos.
Em abril de 1999, 87,75% dos eleitores votaram a favor da convocação de uma Assembleia Constituinte, e uma nova Constituição foi elaborada após amplo debate e consulta pública. Embora sua estrutura geral ainda fosse burguesa, era muito mais progressista do que as versões anteriores.
O país foi oficialmente denominado “República Bolivariana da Venezuela” e uma nova bandeira foi adotada. A Constituição reafirmou o controle estatal sobre os recursos naturais, especialmente o petróleo, e proibiu a privatização da PDVSA. Garantiu a igualdade de direitos para as mulheres e ampliou os mecanismos de democracia direta, incluindo referendos e eleições revogatórias. Garantiu saúde e educação gratuitas como direitos constitucionais. Entre outros, reconheceu os direitos dos povos indígenas e afro-venezuelanos às suas terras, línguas e culturas,.
Em dezembro daquele ano, a constituição foi aprovada com 71,78% dos votos a favor. Seguiram-se as “megaeleições” de julho de 2000, para confirmar a presidência e todos os outros cargos eletivos sob a nova constituição, e ele aumentou sua porcentagem de votos para 59,76%. Com seu mandato renovado, ele buscou exercer controle efetivo sobre a PDVSA e a indústria petrolífera.
O Golpe de Abril de 2002
Em novembro de 2001, a Assembleia Nacional aprovou uma Lei Habilitante, permitindo que Chávez legislasse sobre questões específicas por meio de decretos executivos durante um ano. Usando esses poderes, ele promulgou 49 decretos, incluindo uma lei de redistribuição de terras e a Lei dos Hidrocarbonetos, que aumentou os royalties do Estado sobre a extração de petróleo e reafirmou o controle sobre a PDVSA.
Como era de se esperar, isso foi demais para os oligarcas e seus apoiadores imperialistas. Eles lançaram uma campanha histérica, chamando os decretos de “comunistas” e “ditatoriais”. Mas o que temiam não eram tanto as modestas reformas em si, mas as massas que apoiavam Chávez.
Fedecámaras, um consórcio das famílias e empresas mais poderosas, sabotaram a economia desde o início. Estocaram óleo de cozinha, arroz, papel higiênico e outros bens básicos, causando escassez artificial. Fecharam fábricas, retiraram capital do país e se recusaram a investir. Eles organizaram protestos, greves e bloqueios de estradas para tornar o país ingovernável.
É evidente que a CIA esteve fortemente envolvida. A National Endowment for Democracy [Fundação Nacional para a Democracia] e a USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional] treinaram ativistas de direita em métodos de mudança de regime. Doaram milhões à oposição dos extremistas de direita, os escualidos, incluindo a laureada com o Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado. Essa grande patriota venezuelana prometeu entregar os vastos recursos naturais de seu país às corporações americanas e adoraria vê-lo transformado em uma nova Síria, contanto que ela e seus comparsas criminosos recebessem sua parte. Ela chegou a pedir que Netanyahu invadisse seu país para libertá-lo.
Com o controle das riquezas da PDVSA em jogo, lançaram uma espécie de “revolução colorida” em abril de 2002. Como fariam novamente na Ucrânia em 2014, orquestraram um confronto armado entre manifestações rivais, usaram atiradores de elite para matar pessoas de ambos os lados e culparam o governo. O alto comando militar se rebelou e as forças reacionárias cercaram o palácio presidencial. Chávez se recusou a assinar sua renúncia e foi levado às pressas para uma ilha para ser retirado do país pelos americanos.
Em 12 de abril, Pedro Carmona – líder da Fedecámaras – tomou posse como presidente e foi imediatamente reconhecido pelo governo de George W. Bush. A nata da reação se reuniu no palácio presidencial, regozijando-se e aplaudindo enquanto Carmona dissolvia todas as instituições democráticas da República Bolivariana – tudo em nome da democracia, é claro.
Em meio a uma onda de prisões em massa, de repressão e de um cerco brutal à embaixada cubana, os ministros de Chávez foram forçados a se esconder. Os imperialistas e a oligarquia local pensavam que tudo continuaria como antes – mas as massas tinham outros planos. Elas haviam elegido Chávez e elas decidiriam quando ele deixaria de ser seu presidente.
Na manhã de 13 de abril, espalhou-se pelos bairros a notícia de que Chávez não havia renunciado e estava sendo mantido em cativeiro. Assim como em 1989, uma avalanche humana desceu sobre o centro de Caracas, exigindo o retorno de Chávez. Unidades militares leais ao seu regime, incluindo a guarda presidencial, entraram em ação contra os golpistas. Aqueles que não foram presos escaparam como ratos – mas somente depois de saquearem os cofres da presidência. No início da manhã de 14 de abril, Chávez foi levado de volta ao palácio presidencial e reconduzido à presidência.
Pela primeira vez na história da América Latina, um golpe instigado pelos EUA foi revertido pela ação revolucionária das massas. O antigo aparato estatal ficou suspenso no ar. Os trabalhadores e os pobres dominavam as ruas, e os militares de base estavam com a revolução. Como Alan Woods explicou na época, tudo o que Chávez precisava fazer era levantar o dedo mindinho e a revolução poderia ter sido realizada sem derramamento de sangue ou guerra civil.
Ele poderia ter convocado a ocupação e nacionalização das fábricas e propriedades rurais, a expropriação do imperialismo e o não pagamento da dívida externa. Poderia ter convocado a formação de comitês de ação popular – sovietes – e de uma milícia popular armada para defender a revolução e substituir o exército e a polícia. As massas estavam preparadas e prontas, apenas aguardando a ordem. Todo o curso da história da humanidade poderia ter mudado naquele momento. As comportas da revolução socialista teriam sido abertas. Toda a América Latina teria seguido o exemplo – e muitos outros lugares também.
Em vez disso, o momento foi perdido. Nas primeiras horas da manhã, Chávez pediu paz e calma e que todos voltassem para casa. Nenhuma das pessoas envolvidas no golpe foi presa. Até mesmo “Pedro, o Breve”, como Carmona era apelidado, teve permissão para andar livremente pelas ruas de Caracas e Miami.
“Todo 11 tem seu 13”
É impossível exagerar a magnitude desta oportunidade perdida. Mesmo assim, a ideia de que “todo 11 tem seu 13” tornou-se parte da memória coletiva das massas venezuelanas. O chicote da contrarrevolução pode ser neutralizado por uma ação revolucionária combinada, e abril de 2002 na Venezuela é a prova disso.
Nos anos seguintes, a luta desesperada entre revolução e contrarrevolução continuou a se intensificar. A oligarquia e o imperialismo permaneceram implacáveis e inflexíveis. Haviam perdido a batalha, mas não a guerra. Em vez de acabar com eles, Chávez tentou apaziguá-los. Mas, como todos sabem, a debilidade é um convite à agressão.
Apenas alguns meses depois, em dezembro de 2002, outra tentativa de mudança de regime foi lançada, desta vez na forma de um lockout [greve] patronal na indústria petrolífera. Os computadores que controlavam as operações remotamente desde Houston foram desconectados. Equipamentos foram destruídos, válvulas foram danificadas e areia foi despejada nos oleodutos. Bilhões em receitas foram perdidos.
Mas, em poucos dias, os trabalhadores da PDVSA formaram conselhos de coordenação e começaram a retomar a produção – manualmente. Em poucas semanas, o vasto maquinário da PDVSA estava sob o controle dos trabalhadores – sem depender da gerência – e muitos deles sequer se davam conta da magnitude do que haviam feito.
Nos anos seguintes, dezenas de outras fábricas sofreram lockouts ou fechamentos. Em muitos casos, os trabalhadores responderam com ocupações, e o lema “fábrica fechada é fábrica ocupada!” tornou-se a palavra de ordem. Houve também um aumento orgânico na sindicalização, à medida que os trabalhadores rompiam com a corrupta CTV e formavam seus próprios sindicatos democráticos, sob a égide da União Nacional dos Trabalhadores (UNT).
Chávez implementou os famosos programas sociais das Missões, que incluíam supermercados subsidiados, campanhas de alfabetização e educação gratuita. A assistência médica básica foi disponibilizada para bairros pobres e vilarejos remotos, com a chegada de médicos cubanos em troca de petróleo. Terras ociosas foram distribuídas a camponeses pobres e um programa emergencial de moradias populares foi lançado. A Missão Milagre ofereceu cirurgias gratuitas de catarata e outros problemas oculares para que pessoas pobres pudessem enxergar novamente.
Esses programas mudaram a vida de milhões de pessoas, literalmente – e não apenas na Venezuela. A Citgo, empresa estatal venezuelana de energia nos EUA, forneceu óleo de aquecimento gratuito ou a baixo custo para reservas indígenas e bairros pobres em Boston e no Bronx.
Nos anos seguintes, várias outras tentativas foram feitas para depor Chávez. A oposição lançou revoltas da guarimba, frequentemente com a ajuda de paramilitares colombianos de extrema-direita. Eles atacaram prédios do governo e lançaram carros-bomba contra autoridades chavistas.
Organizaram boicotes eleitorais numa tentativa de deslegitimar o processo democrático, embora de qualquer forma perdessem as eleições. Em 2004, organizaram um referendo revogatório após coletarem assinaturas suficientes para convocá-lo – inclusive de recém-nascidos e pessoas falecidas. Chávez venceu com 59% dos votos. Em 2005, sabotaram a companhia aérea nacional, a VIASA.
Baseado na experiência vivida da revolução e no comportamento da classe dominante, Chávez chegou à conclusão de que a única solução era o socialismo. Como ele próprio expressou ao declarar a necessidade do “Socialismo do Século XXI” no Fórum Social Mundial em Porto Alegre: “Ou capitalismo, que é o caminho para o inferno, ou socialismo, para aqueles que querem construir o reino dos céus aqui na terra”.
A participação nas eleições presidenciais de 2006 foi de 78%, e ele obteve 62% dos votos. Observadores internacionais, incluindo Jimmy Carter, certificaram as eleições como livres e justas. Mesmo assim, a grande mídia continuava a chamar Chávez de ditador.
Em 2007, ele anunciou a formação de um novo partido político, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Em poucas semanas, 5,5 milhões de membros se filiaram – quase 20% da população. Diante da onda de ocupações de fábricas, ele pediu à sua ministra do Trabalho que elaborasse uma lista de fábricas ociosas para serem nacionalizadas e administradas sob controle operário. Ela listou 1.200 fábricas.
A burocracia bolivariana
No entanto, pouquíssimas delas foram nacionalizados e apenas algumas operavam sob controle operário. Não só não estavam integradas a uma economia racionalmente planejada, como a burocracia estatal, cada vez mais inchada, mobilizava-se com todas as suas forças para sufocar as iniciativas mais ousadas de Chávez. Quando ele convocou uma Quinta Internacional para substituir os moribundos partidos socialistas e comunistas do passado, sua proposta foi cinicamente ignorada pelos membros conservadores dos comitês que o rodeavam.
Além disso, o “petrossocialismo” da Venezuela era financiado pelo redirecionamento das receitas do petróleo que antes enriqueciam a oligarquia. Durante o boom do preço do petróleo na década de 2000, as receitas com a venda do petróleo chegaram a mais de US$ 90 bilhões anualmente. Mas quando os preços despencaram após 2014, o chavismo não tinha uma base produtiva na qual se apoiar. Não só não conseguiram expropriar o capitalismo e estabelecer uma democracia operária, como também não diversificaram a economia. Dependiam da importação de tudo, desde alimentos e carros até eletrônicos, mas não tinham mais dinheiro para pagá-los. Os bilhões em receitas petrolíferas também introduziram graves distorções inflacionárias que acabariam por ter efeitos catastróficos. Todos esses petrodólares também reforçaram as tendências conservadoras da “boliburocracia” que se desenvolveu no seio do processo revolucionário. Este era o “estado paralelo” da Quinta República, que Chávez nunca conseguiu quebrar ou controlar.
Hugo Chávez morreu em 5 de março de 2013, após uma longa batalha contra o câncer. Assim como Lênin antes de sua morte, ele percebeu a crescente burocratização e clamou por uma mudança de rumo. Mas o futuro já estava traçado.
Ele foi, sem dúvida, um revolucionário honesto e defensor de seu povo. Ele se alimentava e se inspirava no fervor e no ímpeto revolucionários das massas. Apreciava e frequentemente citava Marx, Lenin, Trotsky e Alan Woods. Mas ele nunca foi verdadeiramente um marxista – uma falha fatal para a conclusão da revolução socialista.
A “bolioligarquia” que agora controla o Estado e o PSUV ridicularizou o chavismo sem Chávez. Maduro liderou uma variante da reação termidoriana, revertendo a maior parte das conquistas da revolução. Ele privatizou o que havia sido nacionalizado, eliminou o controle operário e devolveu as grandes propriedades rurais aos latifundiários. Ele reprimiu a esquerda e a mídia crítica, e esmagou qualquer oposição ao seu governo, inclusive nos sindicatos. Apesar das ameaças de Trump, ele tentou apaziguar o imperialismo e reabriu a PDVSA para empresas estrangeiras como a Chevron.
Dito isso, existem certos graus de contrarrevolução. Se o imperialismo e a velha guarda voltassem ao poder diretamente, haveria uma onda de retaliação e um banho de sangue na escala da derrotada Comuna de Paris.
Para se entender a morte lenta da revolução, é preciso considerar o seguinte: embora Chávez tenha conquistado o poder por meio de eleições burguesas, ele nunca o deteve de fato. E os trabalhadores venezuelanos certamente também nunca o tiveram.
Este foi um caso peculiar de uma revolução socialista que tentou seguir os canais tradicionais, mas a questão do poder jamais foi resolvida. Embora a burguesia tenha perdido o controle direto do Estado, este permaneceu um Estado burguês. O exército e a polícia foram expurgados diversas vezes, mas mantiveram sua natureza burguesa. Uma nova burocracia cristalizou-se em torno desses e de outros resquícios do antigo aparato estatal.
Embora algumas fábricas tenham sido nacionalizadas e administradas sob controle operário, a maioria permaneceu em mãos privadas. Os capitalistas usaram essa situação para sabotar o processo revolucionário. Em vez de expropriações, Chávez impôs controles de preços e de câmbio. As sanções impostas durante o primeiro mandato de Trump agravaram ainda mais a situação. Tudo isso levou a um manicômio econômico que não era planejado de forma racional e centralizada, nem entregue à mão irracional, porém reguladora, do mercado.
Tirem as Mãos da Venezuela!
O resultado foi o caos e a instabilidade sem fim, levando a um mercado negro descontrolado e à inflação galopante. Compreensivelmente, grandes camadas da sociedade venezuelana ficaram decepcionadas e perderam seu fervor revolucionário, e a porta para a contrarrevolução bolivariana de Maduro foi aberta.
No entanto, acertar as contas com Maduro é tarefa dos trabalhadores venezuelanos. O que Trump quer com a escalada militar sem precedentes no Caribe não é “restaurar a democracia”, nem “combater o narcoterrorismo”. Em vez disso, ele busca subjugar a Venezuela e afastá-la da influência da China e da Rússia. O principal inimigo dos Comunistas Americanos está em casa. Defendemos incondicionalmente a Venezuela contra o imperialismo e dizemos: “Tirem as Mãos da Venezuela!”
A lição fundamental é clara: uma direção revolucionária deve ser preparada com antecedência e não pode ser improvisada no calor do momento. A ausência de tal direção é a tragédia da Venezuela e de todas as outras revoluções desde 1917 – algo que os Comunistas Revolucionários da América estão tratando de construir.
