A eclosão da Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939 encontrou o imperialismo italiano completamente despreparado, tanto militar quanto economicamente. O regime fascista de Benito Mussolini preferiu deixar seu aliado alemão mais forte lutar e se absteve de entrar na guerra.
[Originalmente publicado na revista In Defence of Marxism nº 49]
No entanto, a velocidade com que a Blitzkrieg alemã varreu a Holanda, a Bélgica e o norte da França em maio de 1940 sobressaltou Mussolini e o levou a uma reviravolta repentina. Acreditando que a guerra estaria “acabada em setembro”, ele se gabou:
“Preciso de alguns milhares de mortos para poder comparecer à conferência de paz como um homem que lutou.”
Em 10 de junho de 1940, ele mergulhou a Itália na guerra, esperando comprar um assento no “banquete do vencedor”.
Isso provou ser um erro de cálculo grave. O número total de baixas italianas entre 1940 e 1943 foi de quase 500.000 soldados. A campanha russa foi catastrófica. O exército italiano perdeu 90.000 homens dos cerca de 220.000 mobilizados, que foram enviados muito mal equipados para lutar no congelante inverno russo.
A disciplina rapidamente desmoronou. Após a derrota na Frente Oriental, os soldados alpinos gritaram: “Abaixo Mussolini, assassino dos Alpini” (um batalhão de infantaria do exército) nos trens que os repatriavam. A deserção estava se tornando cada vez mais generalizada.
A situação interna não era menos desesperadora. Entre 1939 e 1942, os preços dobraram. Mas Mussolini ordenou que os salários fossem congelados, porque, segundo ele, aumentá-los teria inflamado a inflação. O racionamento atingiu níveis insustentáveis: em 1942, cada pessoa tinha direito a apenas 80 gramas de carne bovina por semana, um ovo a cada 15 dias, dois quilos de macarrão e 1,8 quilos de arroz por mês.
A queda de Mussolini
O descontentamento estava começando a crescer. Finalmente, o movimento dos trabalhadores começou a dar sinais de ressurgimento, após quase vinte anos de letargia sob a bota da repressão fascista.
As primeiras greves ocorreram já na segunda metade de 1942, particularmente em Turim, Milão e Gênova. Mas foi em 5 de março de 1943 que uma greve, iniciada nas oficinas da Fiat em Turim, rapidamente se espalhou como fogo; primeiro para as outras fábricas em Turim e depois para outras cidades no norte. Rapidamente, mais de 150.000 trabalhadores estavam envolvidos.
As demandas dos trabalhadores eram pelas “192 horas” (o pagamento de um mês adicional de salário ao ano para compensar o aumento do custo de vida); pela escala móvel de salários; pela libertação de presos políticos antifascistas; e pela remoção da milícia fascista das fábricas. “Bandiera Rossa” (Bandeira Vermelha) foi cantada no curso da luta.
Como o hierarca fascista, Roberto Farinacci, escreveu em uma nota a Mussolini:
“Se disserem que o movimento assumiu um caráter puramente econômico, estão mentindo. Nos bondes, nos cafés, nos teatros, nos cinemas e nos abrigos, todos protestam contra o regime.”
As tentativas de repressão foram ineficazes. No início de abril, o governo foi forçado a ceder a todas as demandas econômicas dos trabalhadores.
A burguesia italiana começou a temer pela estabilidade e pela ordem, e a questionar o vínculo de 20 anos que a ligava ao fascismo. Como aconteceu muitas vezes na história, a classe dominante tentou impedir uma revolução a partir de baixo impulsionando mudanças a partir de cima.
Foi, portanto, a entrada em cena da classe trabalhadora que deu o golpe de misericórdia no regime fascista.
O desembarque dos “Aliados” anglo-americanos na Sicília, no início de julho de 1943, não encontrou praticamente qualquer resistência e deixou clara a iminência do colapso do regime. Pouco depois, Mussolini foi demitido e preso na reunião do Grande Conselho do Fascismo, na noite de 24-25 de julho.
Neste verdadeiro “golpe palaciano”, o rei, Victor Emanuel III, ordenou a formação de um novo governo ao marechal Pietro Badoglio, chefe de gabinete de Mussolini até dezembro de 1940, e que não poupou o uso de armas químicas durante a invasão da Abissínia (Etiópia) em 1935-37.
A remoção de Mussolini foi o primeiro passo para concluir a paz com os Aliados. Uma seção majoritária da burguesia italiana considerou necessário colocar-se sob a proteção das tropas americanas e britânicas, para melhor poder conter a alarmante ascensão da luta de classes. O novo governo foi na verdade uma tentativa de preservar o capitalismo italiano por meio de uma ditadura militar.
Para criar a ilusão de mudança, as instituições mais odiadas, como o Partido Nacional Fascista, o Grande Conselho do Fascismo e a Câmara das Corporações, foram dissolvidas. Mas a continuidade do aparato estatal foi assegurada: o poder passou para as mãos dos militares; o fascista “Tribunal Especial para Crimes Políticos” apenas mudou seu nome; e a “OVRA” (a polícia política, Organização para a Vigilância e a Repressão do Antifascismo, em tradução livre ao português) continuou a operar.
A preocupação imediata do governo Badoglio era evitar qualquer perturbação da “ordem pública”. Ele emitiu circulares severas que incluíam: estado de sítio; toque de recolher; censura; proibição da reconstituição de partidos políticos e publicação de projetos de lei políticos; acusação de “tentativa de insurreição” para reuniões de mais de três pessoas; e proibição de usar distintivos que não apresentassem a bandeira italiana.
Somente no dia 26 de julho, a repressão dos Carabinieri (polícia militar) e do exército resultou em 11 mortes, cerca de 80 feridos e quase 500 prisões. Mas nenhuma repressão, por mais dura que fosse, conseguiu deter as enormes manifestações de celebração pela queda do fascismo.
O despertar das massas
O caráter insurrecional dessas manifestações foi vividamente descrito pelo teórico marxista Ted Grant em um artigo escrito na época:
“Greves de massas em todas as cidades industriais, Milão, Turim, Gênova, etc., eclodiram em 24 horas. As ferrovias em todo o norte da Itália foram paralisadas em poucos dias. As prisões foram invadidas pelos trabalhadores e os presos políticos foram libertados. As sedes fascistas nas grandes cidades foram saqueadas e as impressoras fascistas apreendidas pelos trabalhadores em Milão e em outras áreas. Qualquer um que usasse a insígnia do fascismo na Itália no dia seguinte ao desaparecimento de Mussolini corria o risco de ser linchado. O fascismo desapareceu da noite para o dia. O decreto tardio dissolvendo o partido fascista simplesmente reconheceu o fato que já havia sido irrevogavelmente estabelecido pelos próprios trabalhadores e soldados. […] A tentativa de usar os soldados contra as multidões manifestantes em Milão resultou na passagem dos soldados para o lado dos trabalhadores”.
Nas fábricas, a correlação de forças foi revertida. Os trabalhadores reconstituíram as comissões internas (comitês de delegados sindicais) e reelegeram seus representantes. Eles reconstruíram os sindicatos e expulsaram inspetores e capatazes de fábrica, a maioria dos quais eram membros do Partido Fascista. Em suma, eles estavam redescobrindo as tradições revolucionárias do “Biennio Rosso” (“Biênio vermelho”) de 1919-20.
Greves no norte e ocupações de terras no sul caracterizaram os 45 dias de existência do governo Badoglio. Badoglio assistiu impotente enquanto os Aliados intensificavam seus bombardeios nas cidades, cujo objetivo principal era aterrorizar as massas e enfraquecer as mobilizações dos trabalhadores. Enquanto isso, Hitler reforçou maciçamente seu exército na península, dobrando seus números entre julho e setembro.
Badoglio poderia ter sido derrubado nesta etapa. Mas uma aliança de todos os partidos antifascistas, dos liberais ao Partido Comunista Italiano (PCI), que se tornaria o Comitê de Libertação Nacional (CLN), recusou-se a adotar essa posição, por insistência dos liberais e democratas-cristãos. O político reformista e iniciador dessa aliança, Ivanoe Bonomi, pretendia adiar o início da resistência armada aos nazistas até a chegada dos exércitos aliados à península. Enquanto isso, os aliados estavam reconstruindo o aparato estatal na Sicília, contando com a máfia e o clero católico.

A recusa por parte da direção dos trabalhadores em organizar a luta ofereceu a Badoglio um espaço para respirar e fazer as pazes com os Aliados. O armistício foi acordado em 3 de setembro de 1943, mas mantido em segredo até o dia 8. Assim que foi tornado público pelos americanos, os nazistas iniciaram sua operação para tomar o controle da Itália e desarmar os militares italianos.
No dia seguinte, o rei, seu herdeiro, Badoglio, e o alto comando militar fugiram vergonhosamente para Brindisi, na costa sudeste, que agora estava sob o controle dos Aliados. Enquanto isso, o aparato estatal, começando pelo exército, derretia como a neve ao sol.
A classe dominante, diante do perigo da revolução proletária, esqueceu toda a sua retórica sobre a “defesa da pátria” e deixou o controle de grande parte da Itália nas mãos dos nazistas. Em várias cidades, oficiais superiores se recusaram a entregar suas armas aos trabalhadores para lutar contra o exército alemão. Em Roma, eles viam a rendição da cidade aos nazistas como o mal menor.
Os nazistas libertaram Mussolini em meados de setembro e o colocaram à frente de seu governo fantoche: a “República Social Italiana”, mais comumente conhecida como “República de Salò”, em homenagem à cidade onde foi fundada. Após um período inicial de perplexidade, as massas retomaram sua luta, desta vez contra a ocupação nazista e seus colaboradores italianos.
Um exemplo claro do potencial para a revolução proletária foram os “Quattro giornate di Napoli” (Os Quatro Dias de Nápoles), entre 27 e 30 de setembro de 1943. O povo em armas, com a classe trabalhadora à frente, libertou a cidade do exército ocupante com uma insurreição espontânea, sem nenhuma ajuda dos Aliados e sem o apoio do CLN. Nápoles foi de fato a primeira cidade europeia a se levantar vitoriosa contra o nazifascismo. Ela mostrou o caminho a seguir para as massas oprimidas da Europa.
A virada de Salerno
O outono de 1943 viu a Itália dividida, ocupada pelos Aliados no sul e pelos nazistas no norte. A luta de classes estava em ascensão: as greves recomeçaram no norte, e no sul a ocupação de terras por camponeses e trabalhadores agrícolas se generalizou.
Na prática, ficou claro que a luta contra o fascismo estava indissoluvelmente ligada à luta contra o capitalismo. No entanto, a linha política proposta por Palmiro Togliatti, então secretário-geral do PCI, não oferecia nada para satisfazer as demandas sociais das massas.
O governo Badoglio não tinha apoio entre os trabalhadores e camponeses. E, no entanto, já em 10 de setembro, Togliatti declarou desde Moscou que se o governo Badoglio tomasse “em suas mãos, abertamente e sem hesitação, a bandeira da defesa da Itália contra a agressão covarde de Hitler […] o povo lhe daria seu apoio”. []
Togliatti, assim, fomentou ilusões no governo, cujo objetivo principal era sufocar a ascensão revolucionária vinda de baixo.
Mais tarde, em 12 de janeiro de 1944, Togliatti, ainda em Moscou, desenvolveu ainda mais a linha do PCI de apoiar um novo governo italiano de “unidade nacional”, ao declarar que o que era necessário era:
“A criação imediata, de fato, de um governo nacional democrático com a participação de todos os partidos antifascistas”.
De acordo com o diário de Georgi Dimitrov, o antigo secretário-geral da Internacional Comunista, ocorreu uma reunião entre Togliatti e Stalin em Moscou em 3 de março. Dimitrov foi posteriormente informado por Togliatti que Stalin o instruiu a entrar no governo Badoglio após seu retorno à Itália, e a não exigir a abdicação imediata do rei. De fato, a União Soviética reconheceu formalmente o governo Badoglio em 10 de março, antecipando-se a esse movimento.
Esta posição seria reiterada quando Togliatti chegasse à Itália no final de março de 1944, em uma reunião de quadros do PCI nas regiões liberadas. Este evento ficaria conhecido como a “Virada de Salerno”, sendo Salerno a cidade ao sul de Nápoles onde a posição foi tornada pública.
“Frentes Populares”
Este ponto de virada não só foi anunciado com bastante antecedência pelo secretário-geral do PCI, como também estava totalmente dentro da política stalinista de formar “Frentes Populares”, ou seja, alianças com partidos da chamada “burguesia democrática” para deter o fascismo.
A vitória de Hitler em 1933 e o esmagamento do movimento dos trabalhadores alemães que se seguiu provocaram pânico em Moscou, resultando em uma mudança dramática na política da Internacional Comunista.

De acordo com a posição adotada no Sétimo Congresso da Internacional em 1935, a revolução seria dividida em duas etapas claramente separadas, a primeira das quais era derrotar o fascismo e garantir a democracia capitalista. Isso tinha que estar concluído antes que pudesse haver qualquer menção às próprias demandas dos trabalhadores pelo socialismo. Supostamente, qualquer tentativa do proletariado de ir além dos limites do capitalismo seria prematura e fatal. Só mais tarde haveria uma segunda etapa, a etapa socialista.
Isso era idêntico à política seguida pelos mencheviques em relação à Revolução Russa, que Lênin criticou duramente. A aplicação dessa política pela Internacional Comunista na década de 1930 teve consequências catastróficas, como o exemplo da Frente Popular na Espanha mostrou. Os dirigentes do Partido Comunista na Espanha fizeram de tudo para impedir o movimento revolucionário das massas, em nome da manutenção de sua aliança com a “burguesia antifascista”. O resultado foi a vitória de Franco em 1939, que isolou ainda mais a União Soviética e tornou outra guerra mundial inevitável.
Crucial para se entender essa política desastrosa foi o fato de que, a essa altura, a direção da Internacional Comunista havia abandonado completamente a luta pela revolução mundial, sobre a qual havia sido fundada. Em vez disso, ela se converteu em uma ferramenta auxiliar para facilitar as manobras diplomáticas da burocracia stalinista em Moscou.
O giro para a “Frente Popular” refletiu a mudança nas prioridades de Stalin no sentido da normalização das relações com os países imperialistas “democráticos”, o que significava necessariamente a contenção e a supressão da revolução em toda a Europa.
A burocracia soviética também buscou defender seu poder e privilégios em casa, por todos os meios necessários. Consequentemente, ela via qualquer revolução genuína dos trabalhadores fora de suas fronteiras como um perigo mortal para sua própria posição. Tal desenvolvimento poderia ter se tornado um ponto de referência alternativo dentro do movimento internacional dos trabalhadores. Poderia ter oferecido um exemplo de democracia genuína dos trabalhadores, oposta ao regime burocrático e repressivo na URSS que usurpou o nome do socialismo e da Revolução de Outubro.
Essa política traiçoeira foi mantida durante todo o curso da guerra. Como um sinal concreto de sua boa vontade para com seus aliados imperialistas, Stalin dissolveria a Internacional Comunista em 15 de maio de 1943, sem nem mesmo a pretensão de convocar um congresso.
Uma conferência dos ministros das Relações Exteriores da União Soviética, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, realizada em Moscou no final de outubro de 1943, discutiu, entre outras questões, a situação italiana. Eles aprovaram uma declaração conjunta sobre a luta contra o nazifascismo a ser realizada com a participação no governo italiano “daqueles setores do povo italiano que sempre se opuseram ao fascismo”. Assim, a linha de colaboração de classe acordada entre Stalin e Togliatti foi posta em prática.
Reivindicações democráticas
Qual posição os comunistas deveriam ter adotado nas condições pertinentes à Itália naquele momento? Com os nazifascistas ocupando a maior parte da Itália e a ditadura militar de Badoglio no sul, eles deveriam ter ignorado a luta por demandas democráticas?
Já em 1930, Leon Trotsky abordou a questão do caráter da futura revolução italiana e a posição que os comunistas deveriam adotar em relação a ela, em uma carta endereçada a três membros importantes do PCI que haviam rompido com o stalinismo. Ele explicou que, no caso da derrubada revolucionária do regime fascista pelos trabalhadores à frente das massas oprimidas, os capitalistas buscariam preservar seu governo de classe estabelecendo um estado parlamentar, ao mesmo tempo em que tentariam suprimir o movimento revolucionário da classe trabalhadora em nome da “revolução democrática”.
No entanto, o fato de que a classe dominante e seus agentes no movimento dos trabalhadores tentariam usar demandas democráticas para enganar as massas não significava de forma alguma que os comunistas deveriam rejeitar todas as palavras de ordem democráticas. Como Trotsky explicou:
“Se a crise revolucionária explodisse […] as massas de trabalhadores, operárias e camponesas, certamente acompanhariam suas demandas econômicas com palavras de ordem democráticas (como liberdade de reunião, de imprensa, de organização sindical, representação democrática no parlamento e nas municipalidades). Isso significa que o Partido Comunista deve rejeitar essas demandas? Pelo contrário. Ele terá que revesti-las com o caráter mais audacioso e resoluto possível. Pois a ditadura do proletariado não pode ser imposta às massas populares. Ela só pode ser realizada travando-se uma batalha — uma batalha completa — por todas as demandas, exigências e necessidades transitórias das massas, e à cabeça das massas.”
No Programa de Transição, um dos principais documentos da Quarta Internacional em seu congresso de fundação, em 1938, Trotsky escreveu uma formulação ainda mais concreta das tarefas que os comunistas teriam pela frente nos países fascistas:
“Uma vez que ela irromper, a onda revolucionária nos países fascistas terá um alcance imediato e grandioso e sob nenhuma circunstância se deterá ante […] o ressurgimento de algum tipo de [regime democrático-burguês]. […]
“Claro, isso não significa que a Quarta Internacional rejeite palavras de ordem democráticas como um meio de mobilizar as massas contra o fascismo. Pelo contrário, tais slogans em certos momentos podem desempenhar um papel sério. Mas as fórmulas da democracia (liberdade de imprensa, direito de sindicalização, etc.) significam para nós apenas palavras de ordem incidentais ou episódicas no movimento independente do proletariado e não um laço democrático preso ao pescoço do proletariado pelos agentes da burguesia (Espanha!). Assim que o movimento assumir algo de caráter de massa, os slogans democráticos se entrelaçarão aos de transição; comitês de fábrica, pode-se supor, aparecerão antes que os velhos acostumados com a rotina saiam correndo de suas chancelarias para organizar sindicatos; sovietes cobrirão a Alemanha antes que uma nova assembleia constituinte se reúna em Weimar. O mesmo se aplica à Itália e ao resto dos países totalitários e semi-totalitários.”
É claro que os comunistas na Itália, embora fossem os lutadores mais determinados contra o nazifascismo, precisavam manter a independência de classe completa em relação à burguesia. Nessas condições, seria correto defender demandas democráticas básicas, como a abolição da monarquia e a convocação de uma assembleia constituinte, e exigir a restauração completa das liberdades democráticas, como o direito de reunião, manifestação, organização em partidos e sindicatos. No campo, eles deveriam ter lutado por uma reforma agrária genuína, com a expropriação de latifúndios e a redistribuição de terras.
No entanto, essas demandas democráticas deveriam estar combinadas às demandas que trouxessem a questão do poder dos trabalhadores ao primeiro plano e ressoassem com o estágio real do movimento, como a expropriação dos capitalistas, o controle dos trabalhadores sobre as fábricas e a formação de conselhos de trabalhadores como órgãos de luta.
De fato, a partir de 1943 até o final da década de 1940, um movimento de massa de comitês de fábrica se desenvolveu nas cidades, ao mesmo tempo em que uma onda de ocupações de terra se desenvolvia por todo o país.
Tal programa poderia, portanto, ter forjado uma aliança entre a classe trabalhadora e as outras camadas oprimidas da sociedade italiana, o campesinato em particular, ganhando-os para a luta revolucionária pelo socialismo.
Em vez disso, a linha do PCI liderada por Togliatti era a de uma “democracia progressista”; um regime de Frente Popular (ou seja, burguês) que supostamente satisfaria as demandas das massas oprimidas, no qual a assembleia constituinte (ou seja, um parlamento burguês) representaria “o início de uma renovação profunda e radical de toda a vida do país”.
Em consonância com essa política, em 22 de abril de 1944, o PCI entrou no Segundo Governo Badoglio, uma coalizão que incluía o Partido Socialista Italiano (PSIUP, como era conhecido na época), os Liberais, os Monarquistas e os Democratas Cristãos, com Togliatti assumindo o papel de “vice premiê”.
Este governo agiu de forma decisiva para estabilizar o capitalismo na Itália, incluindo a reconstrução do estado burguês. Nenhum expurgo sério de fascistas foi implementado, membros do alto comando militar não foram processados, e os corpos repressivos do estado, começando com os Carabinieri, foram fortalecidos. Foi desde o início um governo de contrarrevolução burguesa, mal disfarçado sob uma forma “democrática”.
Começa o movimento partisan
Paralelamente ao governo burguês, o CLN foi criado imediatamente após o armistício. Este órgão foi nomeado para dirigir as formações partigiani, com estruturas regionais e provinciais.

Aqui também, o PCI seguiu o padrão da Frente Popular. Os partidos que compunham o CLN — o PCI, o PSIUP, a Democracia Cristã e três outros partidos burgueses e pequeno-burgueses menores — tinham representação igual. Isso inflou enormemente o peso dos partidos burgueses, que de outra forma tinham uma pequena minoria nas brigadas partidárias e na sociedade como um todo. Seu mecanismo de tomada de decisão unânime forneceu aos líderes do PCI e do PSIUP a desculpa para renunciar a qualquer ação considerada “muito ousada” pelos componentes burgueses.
O CLN, portanto, estava longe de ser um embrião de futuros sovietes; em vez disso, era uma ferramenta para conter as massas partigiani. Mas isso levanta a questão de como o PCI foi capaz de desempenhar esse papel contrarrevolucionário.
Sob o fascismo, o PCI conseguiu, graças ao seu aparato clandestino, manter-se mais solidamente do que o Partido Socialista. Após a queda de Mussolini, tornou-se o principal partido entre a classe trabalhadora. Sua popularidade baseava-se no fato de ser visto como o partido que havia lutado contra a ascensão dos fascistas, além de ser visto como o representante direto da União Soviética.
A esmagadora maioria de seus ativistas havia despertado recentemente para a política. Estima-se que, no início de 1943, o PCI tinha cerca de 6.000 membros. Em 1944, este número aumentaria rapidamente para 501.000 e em 1945 atingiria colossais 1.770.000.
Esses trabalhadores e jovens estavam imbuídos de um espírito revolucionário, mas tinham muito pouca experiência.
Ante as críticas e explosões revolucionárias da base, a direção do PCI às vezes reprimia os membros que expressavam visões dissidentes, acusando-os de “sectarismo” ou “trotskismo”. Na maioria das vezes, no entanto, a liderança se concentrava em enganar a base em relação às perspectivas e tarefas da revolução.
A “teoria das duas etapas” menchevique foi usada com esse propósito: os compromissos de hoje eram necessários em vista do que aconteceria amanhã, quando foi prometido que eles “acertariam contas” com os capitalistas e fascistas.
Ao mesmo tempo, o mito da “duplicidade” de Togliatti foi promovido. Quaisquer ações ou comportamentos oportunistas da direção do PCI eram apresentados como manobras inteligentes. A linha oficial e moderada enganaria os adversários, enquanto, sob essa cobertura, alegavam eles, o partido se prepararia para a tomada do poder assim que a situação o permitisse.
Esta “duplicidade”, que não se dirigia à classe dominante, mas aos trabalhadores e aos partigiani, tinha a vantagem de não se opor frontalmente às aspirações das massas, evitando assim transformar as suas dúvidas sobre a linha do PCI numa oposição consciente de esquerda.
Oposição à linha do PCI
Além das dúvidas e críticas dentro do partido, também havia organizações e movimentos fora do PCI que se opunham à linha de Togliatti.
A criminalização do PCI em 1926 interrompeu até certo ponto a história do movimento comunista na Itália. Muitos ativistas que resistiram durante os anos sombrios do fascismo, e os outros que chegaram ao comunismo naqueles mesmos anos, sabiam pouco ou nada sobre a ruptura entre Stalin e Trotsky, ou sobre a eliminação física de toda a velha guarda bolchevique. Ao entrarem na luta política, no entanto, muitos redescobriram as ideias dos fundadores do partido, como Gramsci e Bordiga, e sua intransigência de classe.
Essas camadas criticavam a linha do PCI por sua colaboração de classe, sua aceitação da monarquia e sua ausência de internacionalismo. Muitos, corretamente, vinculavam a luta contra o nazifascismo à perspectiva revolucionária de transformação da sociedade.
Esses não eram grupos insignificantes. O Movimento Comunista da Itália, sediado em Roma, mais conhecido pelo nome de seu jornal, Bandiera Rossa (Bandeira Vermelha), era similar em tamanho ao PCI durante o período de clandestinidade e, em 1944, ainda contava com 5.000 militantes. Stella Rossa (Estrela Vermelha), em Turim, tinha cerca de 2.000 militantes. A Fração de Esquerda dos Comunistas e Socialistas Italianos, entre cujos fundadores também estavam os principais líderes do CGL Rossa (sindicato Vermelho CGL), tinha cerca de 10.000 ativistas em todo o sul no verão de 1944, incluindo cerca de 1.000 em Nápoles.
Mas a Fração de Esquerda se viu obstaculizada em seu crescimento posterior por sua própria abordagem sectária. Sua negação da utilidade das palavras de ordem democráticas, por exemplo, cortou-a de uma ampla camada das massas, que estavam despertando para a luta revolucionária por meio da luta contra o fascismo.
As outras organizações à esquerda do PCI sofreram por sua falta de compreensão da natureza da URSS. Para elas, Stalin estava executando a política de Lênin e Togliatti e os outros líderes do PCI estavam simplesmente traindo as diretrizes da União Soviética.
Quando ficou evidente, sem sombra de dúvida, que a linha política do PCI era totalmente compartilhada por Moscou, muitos desses grupos se encontraram em um beco sem saída. A autoridade de Togliatti estava ligada à União Soviética e ao Exército Vermelho que estava desmantelando o nazismo na Europa e, portanto, era inquestionável entre os trabalhadores e jovens italianos.
O problema fundamental era que Bandiera Rossa, Stella Rossa, a Fração de Esquerda e outros não tinham realmente uma estrutura teórica alternativa ao stalinismo. Por outro lado, os militantes que se consideravam trotskistas eram poucos e isolados.
Assim, o stalinismo emergiu por um longo período histórico como a tendência política dominante dentro do movimento operário italiano.
Março de 1944: A greve geral
Com as greves de março de 1943, o dique que segurava a classe trabalhadora finalmente se rompeu, e a agitação dos trabalhadores continuou inabalável desde então. Mas a retomada da produção sob ocupação alemã no outono de 1943, com o objetivo de apoiar o esforço de guerra do Reich, provocou uma nova etapa na luta.
Após semanas de agitação e reuniões clandestinas, o Comitê Secreto de Agitação do Piemonte, Lombardia e Ligúria – um órgão promovido pelo PCI e PSIUP – publicou um manifesto convocando uma greve geral.
Às 10h do dia 1º de março de 1944, aniversário das greves de 1943, 300.000 trabalhadores em Milão e 50.000 em Turim pararam de trabalhar. Não foram apenas os trabalhadores industriais; os trabalhadores dos transportes e os gráficos também se juntaram à ação. A greve rapidamente se espalhou para muitas outras cidades no norte da Itália.
Foi a maior greve organizada na Europa ocupada pelos nazistas. Estima-se que entre 500.000 e 1 milhão de trabalhadores saíram às ruas, ignorando o lockout dos patrões e as ameaças das autoridades nazifascistas.
A plataforma da greve tinha um conteúdo político claro: a palavra de ordem principal era a da derrubada do nazifascismo. Mas as massas também entendiam que a responsabilidade pela guerra e pela miséria não era apenas do fascismo, mas também dos capitalistas, que escolheram se apoiar nas baionetas nazistas para manter a paz social nas fábricas.
No curso da luta, os trabalhadores corajosamente apresentaram suas próprias demandas de classe, até mesmo colocando a questão do controle operário. Por exemplo, um folheto distribuído pelo comitê de greve de Milão nos dias anteriores à greve continha as seguintes demandas:
“Pagamento integral do custo de vida; suspensão de todas as demissões e redução da semana de trabalho para menos de 40 horas; libertação de todos os partigiani, trabalhadores ou não […]; os trabalhadores não devem mais ser deportados para a Alemanha. […] Vamos criar comitês de greve nas oficinas! Vamos criar esquadrões de defesa dos trabalhadores contra a violência fascista e nazista!”
Uma greve geral sob ocupação militar inevitavelmente levantava a questão da insurreição e a necessidade de armar a classe trabalhadora. Os trabalhadores decidiram fazer a greve com a convicção de que o movimento partidário apoiaria a ação. No entanto, a intervenção dos Grupos de Ação Patriótica (as formações partidárias ativas nas cidades) foi extremamente limitada.
A ausência de apoio armado substancial impediu os grevistas, exceto em alguns casos, de irem às ruas e desafiarem abertamente as autoridades ocupantes. A desmoralização tomou conta dos trabalhadores e a greve terminou em 8 de março.
Luta de classes e guerra partisan
O fracasso dos grupos partigiani armados em apoiar a greve não foi acidental. A coalizão CLN, incluindo a direção do PCI, insistiu em que a Resistência não deveria ter um caráter de classe, mas exclusivamente de libertação nacional.

Assim, o centro do conflito deveria se mover das cidades para as montanhas. Isso implicava a transferência de quadros e ativistas do partido para o campo, ou das fábricas para as formações militares.
Nas cidades, a ação partidária se baseava exclusivamente na sabotagem e nos ataques individuais. Os partidários tinham que operar completamente às escondidas e, portanto, estavam isolados do movimento de massa de greves e manifestações.
Esse afastamento das cidades nem sempre foi bem recebido por alguns dos melhores quadros do PCI em seus locais de intervenção, como pode ser visto em um relatório de 27 de novembro de 1943 de Arturo Colombi, que operava em Turim:
“Nossas forças políticas são terrivelmente pequenas: há falta de quadros intermediários e a direção [local] ficou enfraquecida ao mandar para longe de Turim os melhores camaradas e desviar o restante para o trabalho militar. Temos apenas um punhado de homens que, entre outras coisas, são completamente novos no ambiente ou sumiram há muitos anos. Nenhum de nós jamais dirigiu grandes greves, editou jornais, etc. Vocês nos bombardeiam com incitações para dar tudo ao trabalho militar e hoje percebemos que deveríamos ter dado um pouco menos porque a possibilidade de promover greves políticas de massa e a greve geral, etc., mostram como a mobilização política das massas em um grande centro é de enorme importância para os efeitos da luta geral.”
Sob ocupação militar, a luta armada dos partigiani era absolutamente necessária. No entanto, a pergunta que deve ser feita é: qual estratégia era necessária para orientar a luta militar geral?
O que era necessário era integrar a luta dos trabalhadores às formações guerrilheiras que operavam no campo e nas montanhas. A classe trabalhadora precisava ser reconhecida como a força líder da luta antifascista, dado seu papel na produção.
Os comitês clandestinos de agitação deveriam ter sido transformados em embriões de conselhos operários, por meio dos quais a classe trabalhadora poderia liderar greves, organizar destacamentos de trabalhadores armados e assumir a gestão da produção, com o objetivo de conquistar o poder político.
O potencial para se construir tais milícias de trabalhadores era enorme. Nas semanas que antecederam a libertação de Roma, Bandiera Rossa pediu o estabelecimento de um “Exército Vermelho” na capital. Mais de 40.000 “camaradas de todas as tendências comunistas”, incluindo alguns oficiais superiores do exército, responderam a esse apelo, e até 34 divisões foram formadas. Mas o PCI, aterrorizado por tal cenário, colocou pressão política e material sem precedentes sobre os líderes de Bandiera Rossa, incluindo ameaças de cortar os suprimentos dos aliados. Isso conseguiu forçá-los a desistir de executar a iniciativa.
“Libertação nacional” vs guerra de classes
A primavera de 1944 deu um importante impulso à luta partisan. Foi decisiva no aumento das fileiras partidárias a repressão após a greve de março de 1944, que forçou muitos trabalhadores a se juntarem às brigadas partidárias para escapar da deportação para a Alemanha.
Da mesma forma, o “Bando Graziani”, o recrutamento militar obrigatório de jovens italianos para o novo exército do regime fascista reconstituído no norte, foi um fator-chave. Qualquer um que não respondesse ao chamado dos fascistas às armas enfrentaria a pena de morte. Dos 180 mil recrutados, apenas algumas dezenas de milhares apareceram. Todos os outros desertaram, muitos dos quais fugiram para se juntar às primeiras brigadas partigiani.
Assim, a milícia partisan cresceu para quase 100 mil combatentes no verão de 1944. A composição social era predominantemente proletária, e a idade média era muito jovem. A ideia de que se estava às vésperas de uma insurreição armada era generalizada.
As “brigadas Garibaldi” lideradas pelos comunistas eram as mais numerosas e constituíam quase 50% das forças partigiani. A radicalização à esquerda era cada vez mais evidente.
Nessa época, a direção do PCI usou toda a sua autoridade para conter a mobilização. Togliatti foi muito explícito em uma de suas diretrizes quando recomendou “sempre lembrar que a insurreição que queremos não tem o objetivo de impor transformações sociais e políticas em um sentido socialista e comunista, mas tem como objetivo a libertação nacional e a destruição do fascismo” []. (ênfase nossa)
O PCI, no entanto, teve dificuldades para conter a radicalização. Como escreveu o historiador Claudio Pavone, o vermelho estava amplamente presente “no simbolismo dos lenços de cabeça, das camisas, das estrelas, das foices e martelos, das saudações de punhos cerrados e das canções”.
No entanto, isso não agradou ao comando das Brigadas Garibaldi da Valtellina, que ordenou:
“Vamos remover as estrelas vermelhas imediatamente. Nenhum distintivo além do elegante cocar tricolor deve ser permitido. Da mesma forma para as canções, que não devem ser as canções do partido, mas apenas de caráter nacional.”
A subordinação do CLN aos partidos burgueses teve consequências práticas importantes. Uma delas foi o fracasso dos partigiani em libertar Roma. Em 4-5 de junho de 1944, Roma foi de fato libertada pelas tropas aliadas. Foi a única grande cidade italiana a não ser libertada pelos partigiani.
A motivação era clara. Se a capital do país tivesse sido libertada pelos jovens e pelos trabalhadores armados, quem poderia ter impedido uma revolta popular no resto do país? Assim, os democratas-cristãos e os liberais, a conselho dos aliados e do Vaticano, se opuseram aos planos do PCI e do PSIUP de libertar a “Cidade Eterna” pelos partigiani.
No entanto, apesar da linha conciliatória adotada pela alta direção, o impulso para a insurreição armada estava crescendo de baixo para cima. Se o PCI tivesse lançado o apelo para a insurreição entre o verão e o outono de 1944, os 100 mil partigiani nas montanhas e no campo teriam sido acompanhados por milhões de trabalhadores que estavam apenas esperando a ordem do partido.
A resistência armada ao nazifascismo não era um fenômeno isolado apenas na Itália. Movimentos partigiani de massa existiam na Grécia, França, Bélgica e Holanda. Enquanto isso, os partigiani de Tito libertaram Belgrado em 20 de outubro de 1944. Este foi o primeiro passo para a libertação de toda a Iugoslávia, que finalmente seria realizada em 1º de março de 1945.

O exército alemão estava sendo empurrado para trás em todas as frentes, e houve inúmeros incidentes de deserção. Mas foi nesse ponto, no limiar da vitória, que os exércitos aliados de repente recuaram, isolando os partigiani no norte.
Em 9 de outubro de 1944, em Moscou, Stalin havia assegurado a Churchill que a Itália permaneceria dentro da órbita do Ocidente. Portanto, não havia mais necessidade de os Aliados avançarem o mais rápido possível, a fim de suprimir quaisquer movimentos em direção à revolução por parte dos partigiani. Confiantes de que seu aliado, Stalin, seguraria o movimento, eles voltaram sua atenção para a preparação da estabilização do governo burguês.
Os Aliados, em essência, abandonaram os partigiani aos nazistas. Foi no outono e no início do inverno de 1944 que os nazifascistas desencadearam suas represálias mais ferozes. Entre eles estavam os massacres de civis em Marzabotto, nos Apeninos Bolonheses, com 1.830 mortos, e em Sant’Anna di Stazzema, no norte da Toscana, com 560 mortos.
Enquanto isso, a direção do CLN assinou sua capitulação total ao imperialismo em dezembro de 1944. O acordo, proposto pelo comando Aliado e também assinado por Pajetta pelo PCI, garantia o desarmamento total dos partigiani, quando necessário. Além disso, sob o acordo, os dirigentes dos partidos antifascistas seriam excluídos do comando militar do CLN, para serem substituídos por Cadorna, um ex-general fascista.
25 de abril de 1945: Dia da Libertação
Os Aliados tentaram replicar a estratégia de libertação de Roma por toda a Itália, mas a pressão vinda de baixo da classe trabalhadora e da base camponesa foi muito grande.
Na primavera de 1945, os partigiani contavam com uma força de 240 mil efetivos. Correndo o risco de serem envolvidos pelo fervor revolucionário das massas, o PCI tentou conter a revolta dentro de limites pré-estabelecidos. Eles, portanto, emitiram o apelo para começar a insurreição.
O CLN havia emitido um telegrama codificado com a ordem, que mais tarde se tornou famosa: “Aldo dice 26×1” (Aldo diz 26×1). A “hora X” da insurreição deveria ser 1 da manhã do dia 26 de abril. Mas “na prática”, escreve Pietro Secchia, um dos dirigentes do PCI no alto comando das brigadas Garibaldi, “os partigiani se levantaram em quase todos os lugares antes do tempo determinado”. []
Como Togliatti queria dar à insurreição um caráter puramente “nacional”, não previu nenhum papel decisivo para a classe trabalhadora, e era para os guerrilheiros agirem meramente como auxiliares das tropas aliadas que avançavam.
As massas trabalhadoras, no entanto, desempenharam um papel central. Em 18 de abril, a greve começou em Turim. Então, entre os dias 21 e 23, Modena, Bolonha, Ferrara, Reggio Emilia e La Spezia se levantaram. Gênova foi libertada entre os dias 23 e 26, e Milão no dia 25.
Dada a importância de Milão como a principal cidade do norte da Itália, este dia, 25 de abril, foi posteriormente adotado como a data simbólica em que a libertação do nazifascismo é celebrada.
Mussolini fugiu de Milão naquela noite, indo para o norte para escapar do país. Ele e outros 50 fascistas proeminentes se juntaram a uma coluna alemã da Luftwaffe enquanto ela recuava em direção à fronteira com a Suíça. Embora os eventos subsequentes sejam contestados, acredita-se amplamente que eles foram interceptados por partigiani comunistas no dia 27 e executados no dia seguinte.
Na região do Piemonte, a ordem de levante só foi emitida no dia 26. Mas Turim, a principal cidade da região, foi libertada pelos trabalhadores antes mesmo da chegada dos partigiani.
O historiador Guido Quazza, que na época era membro do Partito d’Azione, um partido antifascista pequeno-burguês, descreve a situação de poder dual que surgiu em abril de 1945:
“Antes de 25 de abril, por 10 dias, as massas populares exerceram o poder real no norte da Itália, as tropas aliadas ainda estavam longe, e por algum tempo ainda tiveram o apoio entusiasmado da maioria da população, o controle sobre as fábricas e um grande levantamento camponês em muitas áreas.”
Em outras palavras, embora o poder formal estivesse nas mãos dos militares, dos aliados ou dos nazifascistas; o poder real estava nas mãos das massas.
Todas as cidades e aldeias no norte foram libertadas antes da chegada dos exércitos aliados, pelos partigiani e pelas massas trabalhadoras. Para muitos deles, a libertação do nazifascismo foi apenas o primeiro ato, a ser seguido pelo segundo: o da revolução comunista. O chamado para a tomada do poder era aguardado ansiosamente. Os trabalhadores nas cidades, e os camponeses e trabalhadores rurais no campo, tinham elaborado uma lista de patrões e proprietários de terras com os quais deviam lidar.
O estado de ânimo foi resumido por um membro do PCI de Bolonha:
“Mas queríamos destruir a propriedade privada, queríamos que o trabalho fosse posse de todos, um direito de todos. Aspiramos a uma sociedade sem explorados nem exploradores, e me parece que ainda estamos muito longe disso.”
Da mesma forma, um metalúrgico de Reggiane relembrou:
“Naquela época, sempre falávamos sobre o desenvolvimento de uma sociedade socialista cujo modelo era a União Soviética. Estávamos convencidos de que o alcançaríamos em breve, que construiríamos o novo homem: comprometido, trabalhador, capaz de construir um mundo sem explorados nem exploradores…”
Vale lembrar aqui que esse “próximo estágio” era o que os dirigentes do PCI e do PSIUP prometeram. Foi assim que os “compromissos temporários” foram aceitos. Foi por isso que tantos partigiani – homens, mulheres e jovens – deram suas vidas (os números oficiais da Resistência relatam 44.700 mortos e 22.000 feridos).
A contrarrevolução sob uma forma democrática
A burguesia e seus partidos eram fracos demais para esmagar por si mesmos esse levantamento revolucionário das massas. Eles, portanto, confiaram no “governo CLN” que foi instalado em abril de 1945 – e nos outros governos de coalizão que se seguiram até 1947 – como uma fase de transição necessária para restaurar a ordem, enquanto desacreditavam os dirigentes do movimento dos trabalhadores.
Enquanto isso, eles usaram esse espaço para respirar e para construir uma “alternativa moderada” em torno do recém-criado partido da Democracia Cristã (DC).
Como costuma ser o caso nessas alianças de Frente Popular em uma situação revolucionária, os representantes da classe dominante preferem não aparecer abertamente. Eles enviam os dirigentes reconhecidos da classe trabalhadora para fazer o trabalho sujo para eles, enquanto dirigem suas políticas nos bastidores.
A coalizão CLN instalada após a libertação tinha enorme autoridade aos olhos das massas. Com Ferruccio Parri, um dos comandantes partigiani mais conhecidos, como primeiro-ministro, parecia para muitos que a resistência havia chegado ao poder.
De fato, a “esquerda” tinha as posições mais prestigiosas no novo governo. Parri também era ministro do interior; o socialista Nenni era vice-primeiro-ministro com a responsabilidade de expurgar os fascistas; enquanto o PCI tinha Togliatti como ministro da justiça, Gullo como ministro da agricultura e Scoccimarro como ministro das finanças.
O governo CLN parecia em uma posição verdadeiramente invejável para iniciar uma mudança radical. Ao mesmo tempo, as fábricas estavam sob o controle dos trabalhadores, e a terra era ocupada pelos camponeses e trabalhadores agrícolas. A burguesia estava em retirada total.
Mas os dirigentes comunistas e socialistas não tinham a intenção de realizar uma revolução. Em vez disso, eles agiram como bombeiros diante de um incêndio florestal.
Antes de 25 de abril, o Comando Geral das brigadas Garibaldi sentiu-se compelido a lembrar a seus combatentes de que eles “não realizam expropriações contra ninguém que não seja pró-nazista”. Mas era extremamente difícil encontrar um capitalista em 1945 na Itália que ainda se proclamasse fascista!
A palavra de ordem do PCI de “democracia progressiva” era central para a linha do “novo partido”. Esta era supostamente uma democracia na qual as massas oprimidas desempenhariam um papel de direção, mudando a correlação de forças em favor dos interesses dos trabalhadores. Esta fórmula permaneceu como o eixo da política do partido nas décadas seguintes.

Fatalmente, a propriedade dos capitalistas sobre as forças produtivas deveria ser deixada intacta, dentro de um sistema de democracia burguesa. Mas toda a história da sociedade de classes mostra a impossibilidade de que duas classes dominantes coexistam ao mesmo tempo. Uma sempre prevalecerá sobre a outra, e nenhuma classe pode governar sem tomar o poder econômico e político.
Os objetivos da burguesia foram totalmente alcançados, com os comunistas desempenhando um papel decisivo na reconstrução do aparato estatal burguês após a queda de Mussolini e a libertação do nazifascismo.
Os líderes do PCI vergonhosamente celebraram esse período como uma transição vitoriosa do fascismo para a “democracia”. Essa foi precisamente a “contrarrevolução com uma face democrática” prevista por Trotsky em 1930. E ainda assim, após o assassinato de Trotsky em 1940, a direção da Quarta Internacional sustentava mecanicamente que seria impossível restaurar regimes democráticos burgueses por toda a Europa durante esse período.
Somente Ted Grant analisou corretamente a natureza do processo conforme ele se desenrolava. Como ele explicou na época:
“[Os capitalistas] encontram uma ferramenta pronta e disponível na forma das organizações social-democratas e stalinistas para represar a ascensão revolucionária das massas em canais seguros e inofensivos de colaboração de classe por meio de uma forma ainda mais degenerada de frente popular do que a que existia no passado. Assim, eles combinarão repressões com reformas ilusórias. Destruindo os órgãos embrionários do governo dos trabalhadores e desarmando as massas, enquanto simultaneamente proclamam seu desejo por um governo ‘representativo’ e de liberdades ‘democráticas’. […] É verdade que a contrarrevolução do capital em seus estágios iniciais, dentro de um curto período de tempo após o estabelecimento do governo militar, assumirá uma forma ‘democrática’.”
A revolução traída
A anistia geral emitida para os fascistas, assinada por Togliatti, como Ministro da Justiça, liberou milhares de fascistas por seus crimes. Em 1946, o aparato estatal foi trazido de volta ao controle da classe dominante, removendo todos os prefeitos e comissários de polícia que vieram da Resistência.
Mais vergonhosamente, o PCI ordenou o desarmamento das brigadas partigiani e a devolução das fábricas ocupadas aos seus donos “legítimos”.
Giorgio Amendola, um membro do PCI no parlamento de 1948 até sua morte em 1980, e uma figura-chave da ala direita do Partido Comunista Italiano, explicou em 1962 quais eram os objetivos dos líderes do PCI naquele momento crucial:
“Durante os dias da insurreição, os patrões […] abandonaram seus postos. Os trabalhadores, os técnicos, os trabalhadores de colarinho branco, reunidos em torno dos Comitês de Libertação Nacional nas empresas [os CLNAs], assumiram a gestão das fábricas.”
Ele explicou, no entanto, que isso não era “para estabelecer um regime de classe com a eliminação dos proprietários, mas para garantir sua gestão no interesse da comunidade nacional”.
O que Amendola quis dizer com isso? Ele explicou que o objetivo era “obter um retorno dos proprietários às fábricas […] para que eles assumissem suas responsabilidades”, e reinvestissem seu “capital oculto nas empresas, e aceitassem o controle dos conselhos de gestão” [].
“Conselhos de gestão” surgiram em muitas das fábricas abandonadas. Mas os dirigentes do PCI insistiram que estes deveriam ter apenas um “papel consultivo”, enquanto facilitavam o retorno dos capitalistas. O que Amendola não explica é o fato de que uma vez que esses patrões voltassem para “assumir suas responsabilidades”, eles rapidamente se moveriam para demitir aqueles trabalhadores que tinham desempenhado um papel fundamental na proteção das fábricas das forças nazistas em retirada.
De fato, no início de 1946, o PCI aprovou o fim do congelamento das demissões, enquanto a inflação disparava. A reforma agrária, embora tenha se tornado lei, mal foi implementada.
Nas eleições para a Assembleia Constituinte em junho de 1946 (que coincidiram com o referendo sobre manter ou não a monarquia), a DC [Democracia Cristã] ficou em primeiro lugar. O PSIUP era o principal partido de esquerda em Milão e Turim, e obteve 21% nacionalmente. Foi seguido de perto em terceiro lugar pelo PCI com 19% dos votos. A “esquerda” havia se afirmado nas cidades e no norte, mas pagou por sua colaboração no governo.
Um governo de “unidade nacional” foi formado para liderar a nova República Italiana. Isso durou até que o primeiro-ministro De Gasperi, um democrata cristão, fez uma viagem aos Estados Unidos em janeiro de 1947. Washington lhe garantiu seu total apoio, incluindo ajuda financeira sob o que viria a ser conhecido como o “Plano Marshall”, com a condição de que o PCI e o PSIUP fossem removidos do governo — o que aconteceu em maio.
O mesmo processo ocorreu em toda a Europa. As coalizões nascidas da Resistência chegaram ao fim com a expulsão dos comunistas e socialistas. Desde que o aumento da luta de classes atingiu o pico, eles esgotaram seu papel para a burguesia.
1948: uma última oportunidade
O longo período revolucionário finalmente chegou ao fim em 1948. A esquerda foi derrotada eleitoralmente em 18 de abril, onde a lista única do PCI-PSIUP recebeu 31% dos votos, em comparação aos 48% da DC.

Apesar desse revés, uma nova oportunidade revolucionária surgiu de repente. Na manhã de 14 de julho, Togliatti foi gravemente ferido por um fanático anticomunista. De repente, toda a Itália parou. Quase não havia um trabalhador, camponês ou trabalhador que não se juntasse aos protestos.
Em Turim, todas as fábricas foram ocupadas e patrulhadas por trabalhadores em armas. Em Gênova, os trabalhadores ocuparam as praças e as ruas e levantaram barricadas. Eles prevaleceram facilmente nos confrontos com a polícia, enquanto estações de rádio e jornais eram capturados pelos insurgentes.
Em Milão, centenas de milhares de trabalhadores lotaram a Piazza del Duomo. Todas as fábricas foram ocupadas. Sesto San Giovanni, a cidade industrial mais importante da Lombardia, estava nas mãos dos trabalhadores. Situações semelhantes se repetiram em cidades por toda a Itália, incluindo Bolonha, Florença, Veneza e Nápoles. Em Roma, confrontos com a polícia ocorreram em todas as partes da cidade.
Mais uma vez, o PCI traiu o impulso revolucionário das massas. “Não ceder a hipóteses insurrecionais”, decretou a direção do partido.
Apesar disso, nos três dias de greve geral que se seguiram, a classe trabalhadora mostrou que estava firmemente determinada a ir até o fim. A pequena burguesia simpatizou com os trabalhadores, e a burguesia estava impotente, pelo menos nos dois primeiros dias. A polícia ficou sobrecarregada.
O que faltou foi um partido comunista genuíno, uma vanguarda revolucionária para levá-los à tomada do poder. Mas esse, tragicamente, era o fator que faltava durante todo esse extraordinário período.
A burguesia se recuperou do medo, levantou a cabeça novamente e desencadeou uma repressão implacável, com milhares presos e dezenas de milhares de demitidos.
O movimento dos trabalhadores italianos levou mais de vinte anos para se recuperar dessa derrota histórica, com o “outono quente” de 1969.
Hoje, 80 anos após a libertação do nazifascismo, há contradições explosivas na Itália, assim como no resto do mundo, que estão preparando o terreno para uma nova situação revolucionária. Desta vez, no entanto, o forte partido comunista que exercia controle quase total sobre as massas trabalhadoras não existe mais.
Ainda há necessidade de se construir um partido comunista, um partido com um programa revolucionário, que absorva as lições dessa revolução traída e as torne disponíveis para os jovens e trabalhadores. Se tal partido for construído na Itália, o próximo período revolucionário verá a classe trabalhadora conquistar e varrer o capitalismo para sempre.
