O Partido Liberal Democrata (LDP, em sua sigla em inglês), que dominou a política japonesa no pós-guerra, conquistou o maior percentual de cadeiras na história das eleições japonesas, na recente eleição das Câmaras Baixas. Na realidade, não se tratava de um voto para a LDP, mas sim para a primeira-ministra Sanae Takaichi, que habilmente soube explorar um sentimento “anti-sistema” que não encontrava expressão na oposição japonesa, que se encontrava praticamente inativa.
Essa oposição moribunda é personificada na Aliança Reformista Centrista (CRA, em sua sigla em inglês), uma coligação formada às pressas na véspera da eleição, com um programa confuso e contraditório, que perdeu cerca de 120 cadeiras.
Tudo isso ajudou com que o LDP saísse de uma crise histórica. No último ano, havia perdido a maioria tanto nas Câmara Alta, como na Baixa do Dieta (o parlamento japonês) e seu parceiro de coligação de 26 anos, o Komeitō, rompeu a unidade. No entanto, emergiu com uma supermaioria nas eleições de fevereiro, ganhando mais de dois terços das cadeiras.
Ishiba sai, entra Takaichi
A completa reviravolta do LDP começou quando Takaichi assumiu o cargo de primeira-ministra, substituindo Shigeru Ishiba no outono.
Assim como seus antecessores, Takaichi é uma nacionalista e uma confiável serviçal dos interesses capitalistas. De fato, ela nomeou a infame britânica e conservadora primeira-ministra Margaret Thatcher como seu ídolo político. Mas apesar de em última análise apoiar exatamente o mesmo sistema que o restante da classe dominante (sendo uma protegida do falecido primeiro-ministro do LDP, Shinzo Abe), ela é vista como uma figura relativamente nova.
Ela não vem de uma das famílias políticas dinásticas que dominaram o LDP e o Japão por décadas. A linhagem familiar Sato-Kishi-Abe, por si só, produziu três primeiros-ministros, que governaram o país por um total de 20 anos no período pós-guerra. Takaichi, por outro lado, é filha de uma funcionária administrativa e um policial.
Além disso, ela é vista como uma pessoa carismática e direta, vídeos de seus discursos viralizaram nas redes sociais nos últimos meses. Esses fatores fizeram com que, mesmo antes de anunciar suas propostas, Takaichi já tivesse o apelo de uma “outsider” em relação ao sistema japonês tradicional, que parece cada vez mais senil e incompetente aos olhos da população, principalmente dos jovens.
Essa percepção de que ela é uma “outsider”, juntamente com suas promessas de reduzir impostos e aumentar os salários dos trabalhadores, impulsionou enormemente seus índices de aprovação entre os jovens, que buscam um ponto de referência. Imediatamente após assumir o cargo de primeira-ministra, sua taxa de aprovação entre os jovens, que buscam um ponto de referência. Imediatamente após assumir o cargo de primeira-ministra, sua taxa de aprovação entre os jovens de 18 a 39 anos era de 77%, segundo uma pesquisa da NHK – mais que o dobro dos míseros 38% de seu antecessor, Ishiba.
Mas o LDP, como partido, não recebeu o mesmo suporte otimista, mantendo-se em torno de 30% nas pesquisas. Em outras palavras, milhões de japoneses continuam se opondo ao LDP e deram seu apoio a Takaichi apesar de sua filiação partidária. Esta é uma expressão peculiar do sentimento antissistema que temos observado em todo o mundo.
A crise do capitalismo japonês
Mas as qualidades pessoais de Takaichi não são suficientes para explicar este resultado, que fundamentalmente, é um produto da crise do capitalismo japonês que tem sido traçado desde o colapso econômico da década de 90. O mercado de ações japonês (Nikkei 225) experimentou um declínio prolongado de quase 80% desde 1989 até a metade de 2009, ultrapassando o número de 1989 apenas em 2024. Apesar disso, essa recuperação do mercado de ações não têm combinado com o verdadeiro desenvolvimento econômico.

De 1989 até 2019, o país teve um crescimento médio do PIB de apenas 1,2% ao ano, o que significa que a participação do Japão no PIB mundial diminuiu drasticamente, de 17,8% em 1995, para 3,6% em 2025. Similarmente, a participação do Japão em exportações globais chegou a 8,8% em 1986, comparado com meros 2,9% em 2023. Em outras palavras, o Japão é uma potência de segunda categoria, cuja economia estagnada está sobrecarregada por dívidas, assim como outros países imperialistas antigos.
Entretanto, os salários reais aumentaram apenas 3% entre 1991 e 2020, em comparação com 50% nos Estados Unidos no mesmo período. A estagnação da economia japonesa está ligada a uma crise de produtividade. A produtividade do trabalho, que costumava crescer 9%% ao ano na década de 60, desde a década de 90 mal atinge um crescimento anual de 1%. O país é agora menos produtivo do que a maioria dos países da OCDE, ficando atrás de nações como Lituânia, República Tcheca e Eslovênia.
Ao invés de investir no desenvolvimento dos meios de produção, os capitalistas recorreram à extração cada vez maior de mais-valia da classe trabalhadora, atacando as conquistas do período pós-guerra. As jornadas de trabalho são notoriamente exaustivas, a metragem habitacional dos japoneses comuns diminuiu continuamente e as relações sociais foram destruídas pelo estresse e pela exploração.
O esgotamento profissional, bornout, e as crises de saúde mental são generalizados a ponto de palavras como “karoshi” (morte por excesso de trabalho) e “hikikomori” (isolamento social) terem entrado no vocabulário cotidiano. Além disso, ao invés de emprego vitalício garantido, que costumava ser a norma, o trabalho em tempo parcial e precário é cada vez mais comum entre os jovens.
Tudo isso é agravado pelo envelhecimento da população. Para sustentar a crescente proporção de idosos, é preciso extrair mais riqueza da população em idade ativa. Mas simplesmente não há crescimento econômico suficiente para isso, nem sequer é possível manter o padrão de vida do passado. A “geração perdida” de trabalhadores, que ingressou no mercado de trabalho após o colapso econômico, possui aposentadorias irrisórias devido aos baixos salários e ao trabalho temporário.
Tudo o que resta para os jovens é uma vida de trabalho exaustivo para sustentar a geração anterior, antes de serem descartados. Quanto mais a geração jovem é pressionada, mais remotas se tornam as perspectivas de que ela consiga formar uma família, e mais a situação demográfica se deteriora.
É por isso que os capitalistas japoneses estão tentando importar mão de obra barata do exterior para lidar com a escassez de trabalhadores. Apesar da retórica anti-imigração de Takaichi, restringir a imigração seria totalmente contraproducente do ponto de vista do capitalismo japonês.
Em consonância com o resto do mundo capitalista, o Banco do Japão aumentou as taxas de juros em 2024 pela primeira vez em 17 anos. Com a inflação alastrando-se pela economia, exacerbando a crise geral do capitalismo japonês, as massas – e especialmente os jovens buscam qualquer tipo de saída. Na ausência de uma alternativa séria e baseada na classe social vinda da esquerda, milhões de japoneses depositaram suas esperanças em Takaichi, pois ela prometeu melhorar a situação econômica do país em vez de perpetuar seu declínio inevitável.
Políticas econômicas de Takaichi
Logo após assumir o cargo, Takaichi fez um discurso declarando que controlar a inflação seria a “principal prioridade do governo” e que retiraria um imposto adicional sobre a gasolina e aumentaria os subsídios aos combustíveis. Ela também prometeu suspender o imposto sobre o consumo (um Imposto sobre Valor Agregado de oito ou dez por cento) por dois anos. Com a inflação em alta durante o governo do LDP, os partidos de oposição adotaram essa demanda como um dos principais pilares de sua política, mas Takaichi acabou por retirá-la de suas mãos.
Ela também afirmou que “abandonará seu próprio equilíbrio entre vida pessoal e profissional” e que “trabalhará, trabalhará, trabalhará”, em uma demonstração de “solidariedade” com os trabalhadores japoneses”. Notavelmente, Takaichi não prometeu acabar com a superexploração no trabalho, mas sua promessa demagógica de “compartilhar o fardo” ainda possui certo apelo.

Em compasso com suas medidas para combater a inflação, Takaichi quer aumentar os gastos militares para 2% do PIB até março e pretende atender às exigências do governo Trump de chegar a 3,5%. Essa promessa, combinada com a retórica belicista de Takaichi em relação a Taiwan (pometendo que o Japão prestará auxílio militar em caso de invasão chinesa), é tanto um sinal de lealdade ao imperialismo estadunidense, quanto um apelo à sua base nacionalista.
Os sentimentos nacionalistas da própria Takaichi são bem conhecidos, tendo ela visitado regularmente o santuário Yasukuni antes de se tornar primeira-ministra, local onde muitos criminosos e assassinos japoneses da Segunda Guerra Mundial estão sepultados e homenageados. Ela está empenhada em projetar a imagem de líder forte que enfrentará a China e defenderá o Japão da instabilidade no cenário mundial. Isso contrastava fortemente com o ex-primeiro-ministro Ishiba, que era visto como fraco e incompetente.
Mas, além disso, Takaichi representa uma ala da classe dominante que deseja transformar o Japão no xerife regional do Pacífico para combater a influência chinesa, sem a ajuda dos Estados Unidos. Trump aparentemente não está disposto a auxiliar Taiwan em caso de invasão chinesa, concentrando sua atenção na dominação do hemisfério ocidental, o capitalismo japonês está sob pressão para reconstruir urgentemente suas forças armadas a fim de preencher o vácuo, mantendo, ao mesmo tempo, boas relações com Washington. Esses são mais sintomas da mudança na correlação de forças no “mundo multipolar”.
“Sanaeconomics” versus Banco do Japão
Agora que ela detém uma maioria expressiva, a questão é se Takaichi conseguirá levar adiante seu programa. Para reduzir impostos e redirecionar gastos para a defesa, o governo precisa compensar a perda de verbas em outras áreas.
Os cortes nos preços da gasolina resultarão em uma perda de receita de 1,5 trilhão de ienes (aproximadamente R$ 49 bilhões), enquanto o corte no imposto sobre o consumo significa uma perda de 5 trilhões de ienes (aproximadamente R$ 164 bilhões). Isso equivale a US$ 41 bilhões que precisam ser contabilizados no orçamento do governo, o maior até hoje, de 122 trilhões de iene (aproximadamente R$ 4 trilhões) – graças, em grande parte, a um orçamento militar recorde de 9 trilhões de ienes (aproximadamente R$ 295 bilhões). Takaichi afirmou que esses gastos serão cobertos pela redução de subsídios para as empresas e pelo aumento de impostos para os mais ricos, as suas propostas não abrangem toda a perda da receita.
Isso implica que o estado recorrerá a mais empréstimos, o que está deixando a classe capitalista apreensiva. O Japão possui uma dívida pública gigantesca equivalente a 237% do PIB, um percentual superado apenas pela dívida do Sudão, país devastado pela guerra. O custo do serviço da dívida deverá subir para mais de 30 trilhões de ienes (aproximadamente R$ 984 bilhões) devido ao aumento das taxas de juros, e essa situação só tende a piorar com o tempo. Assim, os mercados (ou seja, banqueiros e capitalistas) estão pressionando Takaichi para que não continue com o processo de desvalorização do iene, os títulos da dívida pública dispararam em janeiro.
O ex-membro do conselho do Banco do Japão (BOJ), Takahide Kiuchi, deixou bem claro que qualquer intervenção para impedir a queda livre do iene está descartada:
“Se os títulos estiverem sendo vendidos em negociações especulativas, o Banco do Japão (BOJ) poderia ver margem para intervir. Mas é evidente que a recente alta nos rendimentos reflete a preocupação do mercado com a política fiscal japonesa. Cabe ao governo, e não ao BOJ, lidar com as consequências da desconfiança do mercado em relação à política fiscal.”
Na imprensa internacional, foram feitas algumas comparações com Liz Truss, cujo mandato como primeira-ministra da Grã-Bretanha foi interrompido após ela tentar aprovar um orçamento com cortes de impostos massivos para os ricos em meio a uma crise inflacionária. Os mercados reagiram ameaçando arruinar a economia britânica, o que levou a cúpula do Partido Conservador a intervir e destituir Truss do cargo.
Contudo, ao contrário de Truss, que nunca foi eleita e não tinha uma base de apoio popular expressiva, Takaichi possui um amplo mandato, provavelmente haveria uma reação maciça se uma manobra semelhante fosse tentada antes que Takaichi tivesse a oportunidade de se desacreditar. Isso explica, em parte, porque o iene se valorizou desde a eleição, com os estrategistas do capital aguardando o momento certo em vez de tentar forçar Takaichi a abandonar seu programa populista imediatamente.
Revisão constitucional
O enorme orçamento militar necessário para fortalecer o imperialismo japonês baseia-se na remoção do artigo 9 da Constituição (a “cláusula anti-guerra”). Desde a Segunda Guerra Mundial, o Japão mantém oficialmente uma política externa pacifista e só consegue manter suas chamadas “Forças de Autodefesa” e sua indústria de defesa devido a uma interpretação duvidosa da Constituição.
Isso significa que qualquer remilitarização séria poderia provocar uma crise constitucional. Para além das considerações práticas, alcançar a revisão constitucional fortaleceria significativamente os nacionalistas dentro do LDP, ao retirar apoio do partido populista de direita Sanseitō, além de aumentar enormemente o prestígio de Takaichi entre os nacionalistas.
A Constituição nunca foi emendada porque exige maioria de dois terços tanto na Câmara Alta quanto na Câmara Baixa, antes de obter maioria simples em um referendo popular. No período pós-guerra, o antimilitarismo exerceu forte influência sobre as massas devido ao horror e à humilhação da Segunda Guerra Mundial, o que limitou a margem de manobra da classe dominante.
Mas esses sentimentos estão mudando em resposta a uma situação mundial cada vez mais caótica, à ascensão da China e ao relativo declínio do imperialismo dos EUA, tradicional garantidor da segurança nacional do Japão. Uma pesquisa realizada pela Kyodo News indicou 48,8% de apoio para que o Japão exerça seu direito à autodefesa coletiva em caso de uma invasão à Taiwan, com 44,2% contrários.
Além disso, muitos jovens japoneses rejeitaram o pacifismo moral que define os partidos de esquerda, como o Reiwa Shinsengumi e o Partido Comunista, cujo antimilitarismo nunca foi acompanhado de propostas sérias para melhorar a vida do povo japonês. Esses partidos passaram de um total combinado de 17 cadeiras para apenas cinco nesta eleição.

A ambivalência de uma parcela crescente da sociedade japonesa em relação ao militarismo abre uma possibilidade concreta de que Takaichi consiga revisar a Constituição, o que representaria um desenvolvimento titânico na direção da militarização do Pacífico.
Para onde vai o LDP?
Desde sua fundação, o LDP, em diversas ocasiões, adotou e aprovou políticas da oposição — ainda que de forma diluída — como meio de enfraquecê-la e manter-se no poder. No entanto, uma coisa é aprovar reformas e comprar a paz social durante um período histórico de ascensão do capitalismo, como o LDP fez nos anos 60 com a Lei Nacional de Pensões e a implementação da cobertura universal de saúde. Outra coisa bem diferente é tentar fazer o mesmo após mais de trinta anos de estagnação econômica, em meio à mais profunda crise mundial do capitalismo.
Uma vantagem para o capitalismo japonês é que cerca de metade da dívida de US$ 8,6 trilhões (aproximadamente R$ 44 trilhões) do Japão é, na verdade, dívida externa, sendo um quarto desse montante composto por títulos do Tesouro dos EUA, uma parcela significativa dos quais foi acumulada nos anos 90. Se necessário, essa dívida externa poderia ser utilizada como alavanca para pagar os credores do Estado. Mas isso seria apenas uma forma de adiar o problema.
Talvez o LDP consiga arrancar algumas concessões com a margem de manobra que ainda lhe resta — vamos ver. Mas, mesmo que obtenha sucesso no curto prazo, a crise do capitalismo japonês permanecerá. Mais cedo ou mais tarde, será necessário fazer grandes cortes para arcar com os pagamentos cada vez maiores da dívida e com o orçamento militar. Isso levará a divisões dentro da classe dominante sobre como equilibrar as contas, ao mesmo tempo em que se evita uma reação das massas. Sem mencionar o impacto de uma recessão global iminente.
A direita sente uma euforia com seu triunfo. Mas o gabinete de Takaichi é um colosso com pés de barro. Não possui soluções reais, agravará as tensões dentro da classe dominante e inevitavelmente frustrará expectativas, preparando o terreno para um deslocamento em massa para o polo político oposto.
A tarefa dos lutadores de classe japoneses é combater o nacionalismo de Takaichi com o internacionalismo da classe trabalhadora, e não com o pacifismo; oferecer uma solução comunista para a crise com base no poder dos trabalhadores, e não no reformismo; e, acima de tudo, construir uma organização revolucionária capaz de conduzir a próxima revolução japonesa ao sucesso.
