Uma pergunta que muitos de nós fazemos é como Jeffrey Epstein e seus associados justificam moralmente seus crimes. Daniel Morley explora essa questão e destaca que “a moralidade nada mais é do que uma expressão das relações reais da sociedade”.
[Publicado originalmente em communist.red]
Um dos grandes mistérios da sociedade é o que pensam sobre seu comportamento aqueles que cometem atos abomináveis e injustificáveis . Como justificam o injustificável?
Ao fazer essa pergunta, muitas vezes a resposta é que eles negam o que realmente fizeram; ou admitem o ocorrido, mas dizem a si mesmos que fizeram a coisa certa, que era para o bem maior de todos, etc.
A divulgação de (alguns dos) arquivos de Epstein revela que não apenas os crimes mais depravados imagináveis são rotineiramente cometidos por amplas camadas da classe dominante, mas que, em muitos casos, aqueles que os cometem não negam seus atos.
Eles também não se preocupam em apresentar qualquer justificativa real para seus atos além de: “Eu posso me safar porque sou especial. As regras não se aplicam a mim e aos meus amigos”.
A moral deles e a nossa
É isso o que a moral é, e sempre foi, dentro da classe dominante. Como Engels e Trotsky apontaram: “a moral, mais do que qualquer outra forma de ideologia, tem um caráter de classe”.
A moralidade nada mais é do que uma expressão das relações reais da sociedade. Numa sociedade de classes, a classe dominante, que vive da exploração e da opressão de todos os demais, jamais viveria de acordo com a moralidade que deveria reger toda a sociedade.
O escândalo Epstein é certamente o maior escândalo da história do capitalismo. Não apenas a classe dominante americana, mas a classe dominante de todo o mundo ocidental está envolvida. O mundo inteiro está despertando para a constatação de que é governado por uma quadrilha de pedófilos.
Epstein e seus parceiros conspiradores da classe dominante não eram “imorais” do ponto de vista de sua classe. E isso pode ser claramente visto em sua correspondência e no simples fato de que vastos setores das classes dominantes de vários países participaram.
Esta é simplesmente a verdadeira moralidade da burguesia em sua decadência: egoísmo míope e ganância extrema (que para eles são coisas boas), combinadas com uma solidariedade de classe consciente. “Nós nos ajudamos mutuamente [desde que os favores sejam retribuídos] e cerramos fileiras, para que todo esse circo sórdido possa continuar funcionando.”
Depravação perturbadora
A vida e a psicologia de Epstein e seus amigos deixam isso claro.
Durante a infância e a adolescência, Epstein não exibia sinais de transtornos psicológicos. Não se metia em problemas na escola; seus amigos não o descreviam como alguém dissimulado, violento ou qualquer outra coisa do tipo. Na verdade, era considerado uma pessoa amável e até mesmo gentil.
Na vida adulta, mesmo cometendo atos depravados com frequência, ele parece ter sido popular entre seus pares.
Analisando sua correspondência, ele geralmente parece manter um bom relacionamento com seus associados – pelo menos tanto quanto se pode esperar, considerando que ele estava organizando uma operação de tráfico de crianças e chantagem.
Qualquer pessoa que observe a classe dominante por um período de tempo percebe algo extremamente perturbador. As mesmas pessoas que tomam decisões que arruínam a vida de inúmeras pessoas e que mentem descaradamente para o público, frequentemente não são lunáticos desequilibrados.
Geralmente, essas damas e cavalheiros não tratam todos ao seu redor como lixo; nem se tornam odiados pela maioria de seus amigos, familiares e colegas – embora esses tipos certamente existam.
Na verdade, muitas vezes eles parecem, dentro de seu círculo social e entre seus pares de classe, relativamente populares e razoáveis.
Poder, abuso e exploração
Jeffrey Epstein era claramente um monstro absoluto; quase certamente um psicopata com delírios de grandeza e de superioridade em relação aos outros.
Disso não se depreende que ele tenha procurado abusar e explorar qualquer pessoa indiscriminadamente. Pelo contrário, ele descontava seu narcisismo e crueldade naqueles de outra classe – a classe trabalhadora.
Ele também foi transformado nesse monstro por sua posição no topo de uma sociedade capitalista decadente.
Não há relatos de que ele tenha abusado de pessoas mais jovens até que tivesse poder para fazê-lo. O primeiro caso é o de que ele teria se comportado de maneira “inapropriada” com meninas às quais dava aulas em seu primeiro emprego, e é possível que isso tenha levado à sua demissão em 1976.
Portanto, é bem possível que ele tenha se tornado pedófilo desde os vinte e poucos anos de idade. Mas não há evidências de que ele tenha se comportado dessa maneira até a década de noventa, época em que já era um financista influente há quase vinte anos.
À medida que sua riqueza e poder cresciam, seu próprio senso de privilégio e superioridade sem dúvida também aumentava. Sua capacidade de abusar sexual e fisicamente de pessoas mais jovens e sair impune também deve ter crescido. E ele deve ter aprendido, passo a passo, que podia ultrapassar cada vez mais os limites.
Ele não apenas desenvolveu um gosto por isso, mas também uma certa habilidade: fazer amizade com as pessoas certas; empregar outros para intimidar as vítimas ou ajudá-lo a encobrir as coisas, etc.
Em determinado momento, ele também teve a ideia não apenas de colaborar com indivíduos burgueses de mentalidade semelhante, mas de usar isso para chantageá-los, gravando secretamente suas atividades depravadas.
Desprezo de classe
Nos últimos anos, houve uma profusão de casos de abuso extremo perpetrados por homens poderosos que conseguiram se safar quase que às claras durante décadas: Harvey Weinstein, Jimmy Savile, Mohamed Al-Fayed, R. Kelly, P. Diddy – a lista é enorme.

O que isso nos diz? Que esses homens, embora possivelmente já tivessem uma tendência a abusar de outros, tiveram sua capacidade de fazê-lo – sem consequências – ampliada a um grau sobre-humano graças à natureza da sociedade capitalista.
Epstein e seus comparsas não eram apenas membros da classe dominante. Eram membros de uma classe dominante em sua fase decadente – ou seja, uma classe dominante incapaz de conduzir a sociedade adiante; que só consegue sobreviver destruindo os meios de produção, deixando para trás regiões industrializadas e decadentes, alienação e desigualdade crescente.
Sua psicologia e ideologia são moldadas por isso. A “classe Epstein” de especuladores financeiros e similares nutre um desprezo absoluto pela classe trabalhadora. Eles consideram que sua tarefa consiste em destruir as conquistas da classe trabalhadora no período pós-guerra e submetê-la completamente ao poder do capital.
Epstein ascendeu à proeminência nas décadas de 1990 e 2000 – o período exato em que, graças ao colapso do stalinismo e às vitórias de Thatcher e Reagan, a classe de Epstein ficou embriagada pelo êxito; a era em que indivíduos como Epstein foram coroados como os “mestres do universo” das finanças.
Riqueza e poder
Que Epstein estava no epicentro desse processo é demonstrado por sua cumplicidade com Peter Mandelson – então o vice-primeiro-ministro de fato da Grã-Bretanha – contra o próprio governo de Mandelson, a fim de reduzir os impostos sobre os bônus dos banqueiros.
Neste caso, dois homens de países diferentes conspiraram por e-mail para sabotar uma política moderadamente progressista de um governo eleito.
É óbvio que esse tipo de comportamento é constante entre os membros da classe dominante, especialmente nas últimas décadas, em que os super-ricos concentraram mais riqueza e poder do que nunca.
Aos olhos de Epstein e de muitos de seu círculo íntimo, eles não estavam ignorando as normas morais apenas porque podiam. Para eles, era correto fazer isso, porque eram super-homens especiais, iluminados e livres.
Pelas trocas de e-mails entre eles, fica claro que se deleitavam em comportamentos depravados, transgredindo as normas morais do povo comum, da massa.
“Sem qualquer pudor”
A mesma psicologia se manifestava literalmente em suas propriedades, que apresentavam todo tipo de bugigangas, pinturas e até mesmo construções bizarras e repugnantes (como um templo de aparência ocultista em uma de suas ilhas), que celebravam de maneira quase satânica o hedonismo pervertido que ele praticava.
Em um e-mail, um membro de sua equipe relata que ele solicitou a instalação de uma pintura retratando bebês devorados. O apelido de seu avião era “Lolita Express”. Ele abraçou a identidade de ser um pervertido e abusador sexual.
Como escreveu Joscha Bach, um acadêmico que conheceu Epstein e manteve correspondência com ele:
“Epstein tinha uma psicologia incomum. Era extremamente nervoso, intensamente curioso e totalmente desprovido de medo, culpa ou vergonha. Na ausência dessas características humanas básicas, ele era um sociopata altamente funcional, regido apenas por regras e lealdades que descobriu por si mesmo.
“De tempos em tempos, Epstein convidava um círculo de cientistas de alto nível e políticos de alto escalão a um escritório em Harvard, onde discutiam ciência e política com uma abertura radical e desprezo pelos campos ideológicos e tabus públicos.
“Durante parte do meu tempo em Cambridge, Epstein me enviava com frequência e-mails curtos e disléxicos com ideias aleatórias. Eu tentava sondar e entender sua visão de mundo, que era extremamente incomum e, muitas vezes, mais sombria e radical do que a de qualquer outra pessoa com quem eu já tivesse conversado.”
Essa descrição contém outra informação reveladora sobre essa psicologia.
Parte essencial da visão que Epstein tinha de si mesmo como um super-homem era a ideia de que as inibições morais que ele abandonou não passavam de tabus e superstições primitivas.
Ele “comprovou” isso ao se associar constantemente a intelectuais de todos os tipos. E talvez ele visse seu círculo social como uma espécie de salão “libertino”, um lugar onde gênios e poderosos podiam se encontrar sem o julgamento da “matilha”.
Malthusianismo e eugenia
Um exemplo de sua psicologia “transgressora” pode ser encontrado em um e-mail no qual ele discute a filantropia de Bill Gates na África. Nele, ele afirma que:
“Não quero que ele me peça apoio para suas causas africanas… Ele é brilhante, assim como Warren [Buffett], será que eles não conseguem elaborar uma estrutura e um objetivo melhores para a fundação, em vez de fazer a afirmação ridícula de que todas as vidas são iguais?”
Ele também criticou o assistencialismo para os pobres seguindo a linha malthusiana, porque acreditava que isso levaria à superpopulação.
Outro exemplo foi sua frequente incursão na ideia de eugenia – especialmente a eugenia racial, e a ideia racista de que raças diferentes possuem capacidades intelectuais diferentes (com a sua própria raça no topo, naturalmente).
De fato, ele frequentemente questionava a possibilidade de usar um de seus ranchos como um criadouro, no qual ele poderia, de alguma forma, semear uma raça humana superior usando sua própria genética superior.
Ilusão nietzschiana
Há mais de cem anos, quando a classe capitalista começou a enfrentar um impasse e se viu seriamente ameaçada pela crescente força da classe trabalhadora, as ideias de Nietzsche ganharam enorme popularidade entre os intelectuais burgueses.
O que suas ideias proporcionaram a essas camadas foi uma maneira de disfarçar interesses profundamente reacionários com ideias dramáticas, até mesmo com um tom “revolucionário”.

O programa mais repugnante de esmagamento da classe trabalhadora, que era o que Nietzsche realmente defendia, foi distorcido e transformado em algo que soava libertador.
Ele defendia, de forma extravagante, que os “super-homens”, gênios artísticos e aspirantes a governantes poderosos deveriam estar livres da “moralidade escrava” mesquinha, invejosa e inibidora da massa, para realmente realizarem seus feitos e transformarem o mundo.
Esse era o tipo de psicologia que tinham Epstein e seu círculo. Todos os seus atos mais repugnantes e cruéis eram, para eles, prova de seu brilhantismo heroico, de sua singularidade.
Aparentemente, Epstein queria que sua cabeça e pênis fossem congelados para que pudesse ser trazido de volta à vida, além de seu desejo já mencionado de semear uma versão superior da raça humana.
Parasitas capitalistas
Longe de ter a psicologia de um verdadeiro “super-homem”, Epstein tinha a psicologia do que ele realmente era: um parasita.
À medida que o capitalismo entrava em sua decadência senil, seu corpo foi tomado por tumores cancerígenos; ou seja, gigantescos monopólios financeiros que se apropriavam de toda a atividade produtiva.
Dessa espécie de parasita, os mais parasitários de todos devem ser os gestores de patrimônio, os sonegadores fiscais profissionais e os facilitadores que lubrificam as engrenagens de negócios escusos.
Foi exatamente isso que Epstein fez. Ele administrou a riqueza dos super-ricos e extraiu uma parte exorbitante para si próprio por meio de chantagens e conexões.
No capitalismo, ninguém contribui menos, tira e, de modo geral, prejudica mais a sociedade do que os profissionais dessa área. Suas ilusões sobre a própria genialidade são necessárias para compensar o fato de serem parasitas.
A natureza doentia de sua posição e de sua classe social em geral se cristalizou em seu comportamento obsceno, que agora está vindo à tona por completo.
Hipocrisia descarada
Agora vemos a hipocrisia extrema da classe dominante ocidental.
Constatamos que aqueles que pregam os direitos humanos, que distribuem Prêmios Nobel, que patrocinam instituições de caridade e ONGs, participam dos atos mais depravados que os seres humanos podem cometer.
Essa é a moralidade e a psicologia da classe dominante: pura e repugnante hipocrisia.
A revelação de tudo isso serve como um mandamento para as massas do mundo inteiro: jamais acreditem neles novamente. Que sua autoridade seja completamente destruída.
Não permitam que todo o sofrimento que suas vítimas tiveram que tolerar seja em vão. Expulsem a classe dominante!
