Em 2015, a política reformista foi posta à prova na Grécia em um confronto dramático contra as instituições do capital financeiro europeu. Neste artigo, Arturo Rodriguez faz uma análise desse período histórico para explicar as causas da crise, como as massas se mobilizaram para derrotar os pacotes de austeridade impostos ao país e como esse movimento inspirador foi traído pela direção do Syriza.
[Publicado originalmente na revista teórica da Internacional Comunista Revolucionária In Defence of Marxism nº 50, em julho de 2025]
Os revolucionários marxistas são regularmente descartados como sonhadores utópicos pelos políticos reformistas “sensatos”, que afirmam poder melhorar de forma duradoura as condições de vida da classe trabalhadora dentro da estrutura do capitalismo. Mas, no momento em que o sistema entra em crise, todas as ilusões dos reformistas se desmancham no ar, com consequências desastrosas para as massas.
Hoje, a crise do capitalismo é também a crise do reformismo. Esta não é apenas uma hipótese teórica. Foi comprovada pela experiência recente. Há dez anos, o reformismo foi dramaticamente posto à prova na Grécia. Os eventos do primeiro governo do Syriza, em 2015, estão repletos de lições para a classe trabalhadora.
Crise capitalista
O capitalismo é um sistema repleto de contradições, sendo uma das mais importantes a sua tendência à superprodução. A concorrência força os capitalistas a produzirem da forma mais barata e eficiente possível, mas a exploração e o consumo restrito da classe trabalhadora impedem que a massa cada vez maior de mercadorias lançadas no mercado seja absorvida de forma lucrativa. Essa contradição resulta inevitavelmente em crises, nas quais parte das forças produtivas é paralisada e destruída.
Tais crises não podem ser abolidas sob o capitalismo, mas Marx assinalou que o sistema possui várias maneiras de adiá-las por algum tempo. No entanto, dialeticamente, essas soluções temporárias apenas abrem caminho para crises ainda mais profundas no futuro.
A ferramenta mais importante do sistema para evitar temporariamente as crises é o crédito, que pode expandir artificialmente o mercado. Foi exatamente isso o que aconteceu após a recessão de 2000-2001 nos EUA e na Europa.
Crédito barato foi oferecido aos consumidores em ritmo frenético. O endividamento das famílias nos EUA, por exemplo, quase dobrou entre 2000 e 2007, chegando a US$ 13,8 trilhões, quase o mesmo valor de toda a economia americana.
Mas o outro lado do crédito é a dívida, e as dívidas devem ser pagas com juros. Assim, as coisas se transformam em seu contrário: picos de crédito levam a crises de dívida. Essa foi a essência da recessão de 2008.
O impulso econômico da década de 2000 terminou no fosso de uma crise. A recessão começou nos Estados Unidos, depois saltou para a Europa e, posteriormente, se espalhou para os chamados países “em desenvolvimento” e para a China. No entanto, teve peculiaridades nacionais, que atingiram sua expressão mais acentuada na Europa.
Imperialismo
Outra contradição fundamental do capitalismo é que o caráter internacional da economia se choca com a divisão do mundo em Estados-nação burgueses. As forças produtivas há muito se tornaram vastas demais para essas estreitas fronteiras.
O peso das fronteiras nacionais sobre o desenvolvimento das forças produtivas é mais evidente na Europa, um continente fragmentado em um amontoado de pequenos Estados. O capitalismo, que se desenvolveu primeiro neste continente, rapidamente se deparou com os limites dos pequenos Estados europeus.
Ao atingir esse limite, os mais avançados entre eles construíram enormes impérios globais. Assim, quando uma ambiciosa recém-chegada, a Alemanha, viu sua indústria limitada por suas próprias fronteiras nacionais, foi forçada a tentar construir um império para si mesma às custas das antigas potências hegemônicas do continente, a Grã-Bretanha e a França. O resultado foram duas guerras mundiais no século XX.
A burguesia alemã não conseguiu dominar economicamente a Europa por meio da guerra, mas alcançou o mesmo objetivo pacificamente na segunda metade do século XX, por meio da União Europeia. Isso, no entanto, envolveu muita negociação com as outras classes dominantes do continente e, acima de tudo, com o capitalismo francês, que havia emergido muito enfraquecido da Segunda Guerra Mundial.
Em uma fase de expansão econômica, esse arranjo poderia se manter. O Mercado Comum Europeu (posteriormente o Mercado Único) proporcionou um mercado pronto para os gigantes industriais europeus, dos quais o mais forte era, e ainda é, a Alemanha. Ao mesmo tempo, a classe dominante francesa pôde aproveitar a força da economia alemã para subsidiar a sua própria, enquanto projetava investimentos e influência para o sul, particularmente para suas antigas colônias africanas.
Para os capitalistas europeus, tudo isso parecia ter encontrado o caminho real para “a paz, a prosperidade e a unidade europeia”. Até mesmo uma moeda comum foi alcançada com a introdução do euro em 1999. De fato, os meios pelos quais os capitalistas europeus buscavam superar suas próprias limitações nacionais estavam preparando o caminho para uma crise pan-europeia.
A indústria alemã era, e é, muito mais produtiva que as indústrias grega, espanhola e portuguesa. Mas, dentro da Zona do Euro, as classes capitalistas grega, espanhola e portuguesa não podiam desvalorizar suas moedas para baratear suas exportações e aumentar a competitividade, como haviam feito no passado. Os produtos alemães, portanto, tendiam cada vez mais a pressionar a indústria grega.
Sem a desvalorização da moeda, a classe dominante grega embarcou em uma política de “desvalorização interna”, com um programa de grandes privatizações (incluindo a maioria dos bancos) e ataques às conquistas da classe trabalhadora das décadas de 1970 e 1980. As regras de “disciplina fiscal”, impostas pelo Tratado de Maastricht que fundou a União Europeia em 1993, apenas criaram uma pressão adicional para cortes em áreas como saúde e serviços sociais.
Em troca, a Grécia teve acesso a crédito barato enquanto o boom continuava. A entrada na zona do euro tornou muito mais fácil para os bancos gregos obterem empréstimos a taxas de juros mais baixas do que no passado, o que impulsionou uma orgia de empréstimos.
Antes da crise de 2008, o capitalismo europeu, como em qualquer outro lugar, distribuía crédito para criar novos campos de investimento, prolongando o boom e expandindo o mercado. Na Grécia, o endividamento das famílias aumentou 393% entre 2001 e 2008, e o endividamento das empresas mais que dobrou no mesmo período.

Essa rápida expansão do crédito não só ajudou a impulsionar a demanda e a manter as empresas em funcionamento, como também permitiu que os bancos obtivessem superlucros. O Banco Central Grego relatou em 2005, que os lucros pós tributação dos bancos haviam aumentado 198% em um único ano. Naquela época, a Grécia tinha o maior nível de lucratividade bancária de toda a Zona do Euro.
Mas não foram apenas os banqueiros gregos que lucraram durante os anos de boom. Atraídos por lucros fáceis, vários bancos franceses, alemães e holandeses expandiram maciçamente seus empréstimos a bancos gregos. Bancos estrangeiros também adquiriram ações majoritárias de bancos gregos para aproveitar ao máximo as oportunidades no país.
O colapso
O colapso do banco de investimento americano Lehman Brothers, em 2008, precipitou o colapso do mercado internacional de crédito. Os bancos pararam de emprestar e buscaram recuperar todo o dinheiro possível, pois descobriram repentinamente que bilhões de dólares em “ativos” em seus balanços não valiam nada. Em um piscar de olhos, os bancos gregos se viram sem o dinheiro necessário para se manterem operacionais.
Diante do colapso de todo o setor bancário grego, o governo anunciou um resgate de € 28 bilhões. Uma parcela considerável das dívidas dos bancos foi, assim, transferida para os ombros do Estado.
Um ano depois, o governo social-democrata do PASOK, de Giorgos Papandreou, anunciou um déficit orçamentário de 12,5%. As agências internacionais de classificação de risco imediatamente rebaixaram a classificação de crédito da Grécia, o que, por sua vez, elevou o custo dos empréstimos do governo. O Estado grego acabou tendo que se endividar a taxas de 10%, apenas para pagar os juros de sua dívida de € 300 bilhões.
No início de 2010, tornou-se impossível para o Estado grego financiar-se no mercado de crédito internacional. A Grécia estava efetivamente falida e seu governo foi obrigado a pedir “ajuda”.
O capitalismo europeu havia se rompido no seu elo mais fraco. Mas a Grécia foi acompanhada por uma longa cadeia de elos fracos no sul da Europa, desdenhosamente chamados de PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha, com a França não muito atrás).
Sem uma intervenção imediata, uma sequência de calotes poderia ameaçar a existência do euro e até mesmo da própria União Europeia. A classe dominante europeia, portanto, interveio para salvar o sistema, mas se asseguraria de que fosse a classe trabalhadora quem iria pagar a conta.
A Troika
A Grécia foi socorrida pela primeira vez por uma “Troika” composta pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em troca, exigiram medidas de austeridade brutais e privatizações, conforme estabelecidas em um “memorando de entendimento”. A Troika enviou seus burocratas aos ministérios em Atenas para supervisionar esses cortes na prática.
No entanto, esse resgate não conseguiu reduzir o peso da dívida grega. Lançou a Grécia em uma recessão ainda mais profunda, já que sua austeridade reduziu a demanda da economia. Papandreou planejou realizar um referendo sobre um segundo resgate (de modo a transferir a responsabilidade pela austeridade para as massas), mas foi chantageado a não o fazer pelos governos alemão e francês.
Papandreou acabou renunciando no final de 2011. Um governo “tecnocrático” sob Loukas Papademos foi então imposto sem eleições, e obedientemente assinou um memorando para um segundo resgate, que exigia mais austeridade.
Há inúmeros indicadores da devastação excepcional que a Troika causou na sociedade grega. Assemelham-se aos de um país devastado pela guerra. O PIB do país caiu 27%. Os salários médios caíram quase 40% e as pensões, 50%. O desemprego subiu para 27% e os serviços sociais básicos praticamente entraram em colapso. Trabalhadores e parte da pequena burguesia foram levados à miséria e ao desespero.
As classes dominantes da Europa alegaram que o povo “perdulário” da Grécia, ao contrário do povo “trabalhador” do norte da Europa, “tinha vivido além de suas possibilidades”. A própria classe dominante grega juntou-se ao coro de culpar “a irresponsabilidade das massas” pela crise.
De fato, na década até 2005, os trabalhadores gregos trabalharam o maior número de horas por ano entre todos os países da Europa, com uma média de 1.900 horas por trabalhador, seguidos pela Espanha. O mito dos “trabalhadores gregos preguiçosos” injetou chauvinismo na situação, mas era falso do início ao fim.
As verdadeiras causas da crise residiam nas contradições do próprio capitalismo europeu e na especulação cega dos bancos, que a Troika tentava salvar, usando os trabalhadores gregos como bodes expiatórios no processo.
A Troika não socorreu a Grécia para garantir a sustentabilidade das finanças públicas gregas. Apenas uma pequena fração dos resgates foi para os cofres do Estado, com a maior parte sendo embolsada pelos credores do país. Tratou-se, na verdade, de um resgate indireto de bancos europeus, principalmente franceses e alemães (mas também gregos), que haviam comprado até € 200 bilhões em dívida pública grega. Ao fazer isso, a principal preocupação da Troika era a viabilidade do sistema financeiro internacional.
Em termos absolutos, a dívida grega era pequena. No entanto, era politicamente significativa. Se as dívidas da Grécia tivessem sido perdoadas, outros países se sentiriam incentivados a renegociar suas obrigações, incluindo pesos pesados como a Espanha, a Itália ou mesmo a França. Isso, por sua vez, representava um sério risco para o sistema bancário internacional, ameaçando arrastar a economia mundial para uma crise ainda mais profunda.
Os capitalistas estavam perfeitamente cientes desse risco e, portanto, recusaram-se a fazer concessões.
Houve também uma dinâmica interna na Grécia que os reformistas, especialmente os mais à esquerda, nunca compreenderam. Através dos resgates da Troika, o Estado grego recapitalizou o arruinado sistema bancário do país. Portanto, este foi também um resgate do sistema financeiro grego e, por meio dele, da classe dominante grega. É por isso que a burguesia grega nunca vacilou por um segundo em sua defesa dos memorandos, mesmo que a austeridade tenha pulverizado a economia grega.
A classe dominante grega, fraca e dependente, precisa da proteção da UE e do imperialismo ocidental e se curvará diligentemente a todos os seus ditames. Portanto, a resistência à austeridade não era em nome do “interesse nacional”. Era uma luta de classes que se chocaria contra os senhores estrangeiros da Grécia, mas também contra sua própria burguesia, como os eventos logo revelariam.
As lutas de 2010-2014
A Troika socorreu a Grécia para salvar o sistema financeiro mundial, impondo uma severa austeridade. No entanto, as tentativas da burguesia de alcançar a estabilidade econômica perturbaram o equilíbrio político.
De fato, a classe trabalhadora grega não aceitou esses ataques passivamente. Travou lutas históricas. Em todos os momentos-chave, a iniciativa estava em suas mãos. Mais uma vez, os trabalhadores provaram na prática seu imenso poder.
Os anos de 2010 a 2014 foram marcados por manifestações em massa e quase 40 greves gerais com duração de 24 a 48 horas cada, levantes, lutas de bairro, organização popular, etc., que por vezes alcançaram um caráter insurrecional.
No verão de 2011, diretamente inspirados pelos eventos revolucionários no Egito que derrubaram o ditador Hosni Mubarak, apoiado pelos EUA, centenas de milhares ocuparam a Praça Sintagma, em Atenas, e outras praças por todo o país. Novamente no inverno de 2012, meio milhão de pessoas cercaram o prédio do parlamento.
As massas inalaram toneladas de gás lacrimogêneo e lançaram coquetéis molotov sobre a polícia em batalhas campais. Episódios dramáticos pontuaram os combates de rua, como o suicídio público do aposentado Dimitris Christoulas em protesto político contra o regime e a penúria. Em sua poderosa nota de suicídio, ele escreveu:
“Não vejo outra solução senão este fim digno para a minha vida, por isso não me encontro vasculhando latas de lixo em busca do meu sustento. Acredito que jovens sem futuro um dia pegarão em armas e enforcarão os traidores deste país na Praça Sintagma, assim como os italianos fizeram com Mussolini em 1945.”¹
Enquanto isso, entre a tropa de choque, ocorria um processo de seleção interna, no qual apenas aqueles que se beneficiavam da violência contra trabalhadores e jovens permaneceram na força. A organização fascista Aurora Dourada começou a recrutar policiais. “Nos últimos três anos, houve muitos incidentes em que colegas policiais toleraram a violência de membros da Aurora Dourada”, admitiu um porta-voz da polícia.²
Os capangas do Aurora Dourada atacaram ativistas de esquerda e migrantes. Suas atividades provocaram uma contrarresposta feroz, especialmente após o assassinato do rapper de esquerda Pavlos Fyssas em setembro de 2013. Dezenas de milhares de antifascistas saíram às ruas para protestar contra o Aurora Dourada em um clima de raiva e desafio. A classe dominante foi forçada a conter esses capangas por medo de que pudessem criar uma explosão incontrolável.
Sob o chicote da crise, os trabalhadores comuns tentaram tomar o destino do país em suas próprias mãos. No processo, tiraram conclusões radicais sobre seu próprio poder e sobre a natureza da crise.
As massas, no entanto, se depararam com um grande obstáculo: a falta de uma direção revolucionária.
A maioria dos dirigentes sindicais desempenhou um papel lamentável. A greve geral, que geralmente é uma arma formidável nas mãos dos trabalhadores, foi transformada pela burocracia sindical grega em uma farsa rotineira para que seus filiados pudessem extravasar sua raiva.
Movimentos espontâneos, como a ocupação das praças na primavera de 2011, logo fracassaram, por falta de um programa e de um plano de ação. Após uma fase de frenéticas mobilizações de rua entre 2010 e 2014, as massas começaram a buscar uma saída na frente eleitoral.
A ascensão do Syriza
Desde o final da década de 1970, a maioria dos trabalhadores gregos votava no partido social-democrata PASOK.
O PASOK surgiu em um momento de luta revolucionária dos trabalhadores gregos, após a queda da junta militar em 1974. Naquela época, refletia o grau de radicalização, seus dirigentes, como Andreas Papandreou, chegaram a falar com uma linguagem que soava revolucionária.
As ações do PASOK, no entanto, estavam longe de ser revolucionárias. Mas sua conexão com os trabalhadores foi, mesmo assim, cimentada pelas reformas que introduziu durante os anos de “prosperidade” da década de 1980.

No entanto, a crise de 2010 reduziu a pedaços a base de apoio do partido. Longe de conceder reformas, realizou ataques ferozes. Caiu nas pesquisas de opinião e, em 2014, cambaleou à beira do colapso. Seu adversário tradicional, o partido de centro-direita Nova Democracia, não se saiu muito melhor.
As condições pareciam propícias para a ascensão do Partido Comunista da Grécia (KKE). Tratava-se de uma organização de massas da classe trabalhadora com tradições heroicas que remontavam à luta contra o fascismo na década de 1940. Seu sectarismo, no entanto, e sua atitude passiva impediram seu desenvolvimento.
Nas lutas heroicas de 2010 a 2014, a falsa política do KKE conseguiu isolar muitos dos melhores combatentes de classe da corrente geral de radicalização das massas.
A frente sindical do KKE, a PAME (Frente Militante de todos os Trabalhadores), por exemplo, frequentemente realizava comícios de grande porte nos muitos dias de greve geral. Mas o fazia separadamente dos comícios, muitas vezes muito maiores, organizados pela GSEE (Confederação Geral dos Trabalhadores da Grécia), sob a desculpa de que estes últimos, até ontem, eram associados ao PASOK.
O partido também desprezou muitas das enormes manifestações na Praça Sintagma, alegando que as massas estavam agitando a bandeira grega e não a vermelha. Eles não conseguiam compreender o clima de desafio nacional, visto que a nação grega estava sendo esmagada pelo imperialismo alemão. Chegaram até a condenar as ocupações em massa das praças no verão de 2011 como “mobilizações que todas as forças políticas burguesas e oportunistas cercavam com carinho”.³
Após a queda de Papandreou em 2011, uma sucessão de governos frágeis se alternou no poder. Buscando uma saída, as massas passaram a olhar para um partido pequeno politicamente, sem muitas chances eleitorais: a Coalizão da Esquerda Radical, o Syriza.
Este partido teve suas origens em uma dissidência do Partido Comunista na década de 1960. Era uma pequena formação à margem da vida política, que obteve 4,6% dos votos nas eleições de 2009.
No entanto, as massas se aferraram a ele precisamente por ser um outsider político inexperiente e, além disso, por usar uma linguagem bastante radical. Prometia acabar com a austeridade, reverter as privatizações, cancelar os memorandos, estatizar os bancos e até mesmo falou sobre a “crise estrutural do capitalismo” []. Parecia oferecer uma ruptura clara com o passado.
Em maio de 2012, sob a nova direção de Alexis Tsipras, o Syriza saltou para 16,8% nas pesquisas. Na reeleição de junho, aumentou para mais de 26%, tornando-se a principal oposição ao odiado governo de direita da Nova Democracia, de Antonis Samaras.
O partido defendia um governo de esquerda envolvendo os comunistas e outros partidos menores de esquerda, uma mensagem que repercutiu entre milhões de pessoas que queriam ver o que consideravam como diferenças não essenciais deixadas de lado para expulsar os partidos tradicionais.
Isso preparou o terreno para a ascensão do Syriza ao poder em janeiro de 2015, quando obteve 36,3% dos votos e ficou a apenas duas cadeiras da maioria absoluta.
O Syriza prometeu auditar a dívida e reverter a austeridade e as privatizações. O chamado “programa de Tessalônica” de Tsipras continha muitas reivindicações positivas em prol dos trabalhadores, como aumentos salariais, benefícios, subsídios, pensões e investimento público. No entanto, os dirigentes do Syriza acreditavam que era possível alcançar isso dentro da estrutura do capitalismo (e do euro e da UE).
A fórmula deles para acabar com a austeridade era taxar os oligarcas gregos, que mantêm seus ativos em paraísos fiscais; nacionalizar os bancos e usá-los para financiar investimentos públicos (apesar da falência dos bancos!); e exigir um acordo mais favorável da Troika. Esta última exigência era o mesmo que pedir a um tigre que passasse a comer alface. Na verdade, Tsipras não acreditava realmente em seu próprio programa, que, segundo um de seus principais aliados, era apenas “um apelo à ação para reunir nossas tropas”. []
O problema era que a austeridade não era consequência de “dogmas neoliberais” ou da “maldade alemã”, como afirmava a direção do Syriza, mas sim decorrente da crise do capitalismo.
A única maneira de romper com a austeridade era romper com o capitalismo. Isso significava deixar de pagar a dívida e nacionalizar as grandes corporações para planejar a economia de modo a satisfazer as necessidades sociais em vez do lucro privado.
O Estado grego reacionário e corrupto não conseguiu realizar tal ruptura, que só é possível aproveitando a energia e a criatividade da classe trabalhadora. Isso exigiria novas instituições; requer o controle e o poder dos trabalhadores.
Tal transformação, contudo, não pode ser consolidada dentro dos limites de um país pequeno e empobrecido como a Grécia. Teria que se espalhar para o resto da Europa e para além dela. Para sobreviver, a revolução socialista grega precisava de uma política internacionalista.
Para os cínicos dirigentes do Syriza, tal programa era considerado irrealista. Para eles, socialismo e revolução são, na melhor das hipóteses, uma aspiração nebulosa para um futuro distante, mas nunca uma perspectiva prática.
Os acontecimentos, no entanto, rapidamente provariam que os reformistas eram os verdadeiros utópicos. À medida que o Syriza se aproximava do poder em 2012-2015, começou a diluir seu programa, que já era bastante moderado. Isso não foi por acaso. O partido começou a sofrer pressão da classe dominante, que começou a “corrigir” suas promessas irresponsáveis.
Os comunistas, no entanto, devem sempre diferenciar os dirigentes traidores dos partidos reformistas de seus apoiadores honestos.
Normalmente, em sua busca por uma saída para a crise, as massas buscam primeiro o reformismo, que promete uma solução fácil e indolor para seus problemas. A educação política das massas não vem dos livros, mas da vida. Somente por meio da experiência, colocando os reformistas à prova na prática, as massas podem perceber que suas reivindicações mais básicas são incompatíveis com todo o sistema capitalista, que deve ser derrubado.
Portanto, a ascensão do Syriza teve grandes consequências, pois inaugurou uma nova fase importante na luta de classes. No entanto, como explicaremos, não se pode presumir automaticamente que as massas tirarão as conclusões corretas da experiência. O que é necessário é a presença de um partido revolucionário de tamanho considerável, com uma política adequada, que possa conquistar as massas, ajudá-las a superar suas ilusões reformistas e elevar a luta a um patamar mais alto, rumo a uma revolução vitoriosa.
O que se destacava na Grécia, no entanto, era o alto nível de compreensão das massas. A vida ensina, e 2010-2014 foram anos de formação. Os eleitores deram ao Syriza um mandato entusiasmado, mas não um cheque em branco. Eles mantiveram uma visão crítica. Assim, apesar de seu impressionante crescimento eleitoral, o Syriza sempre teve um número relativamente baixo de filiados, especialmente em sua ala jovem.
“No dia da votação”, lembrou um candidato proeminente do Syriza, “as pessoas vinham até mim, me davam tapinhas nas costas e me faziam prometer que não voltaria atrás na minha palavra. ‘Nós os apoiamos, mas não ousem mudar de ideia, porque se o fizerem, nos voltaremos contra vocês’”, era a mensagem unânime. []
Chantagem
Assim que o Syriza assumiu o poder, em 26 de janeiro de 2015, imediatamente sofreu uma pressão irresistível do capitalismo.
Sentindo o sopro da classe dominante em sua nuca, Tsipras confiou ministérios importantes a reformistas moderados e convencidos, como Giorgos Stathakis para o Ministério da Economia e Yanis Dragasakis como vice-primeiro-ministro. Por outro lado, colocou algumas figuras da ala esquerda do partido em ministérios secundários, a fim de dividir a responsabilidade e cobrir seu flanco esquerdo.
O fato de o Syriza não ter alcançado a maioria absoluta no Parlamento significou que Tsipras foi forçado a buscar uma coalizão. Ele firmou uma aliança com o político nacionalista de direita Panos Kammenos, do partido Gregos Independentes.
Tsipras não fez uma exigência aberta ao KKE para apoiar seu governo, respaldando esse apelo com uma campanha de massa. Na verdade, ele estava bastante feliz em se aliar a Kammenos, obtendo assim uma desculpa conveniente para as traições que previa. Nessa operação, ele foi inadvertidamente auxiliado pelo sectarismo da direção do KKE, que não queria ter relações com o Syriza e, assim, abriu caminho para que Tsipras se unisse a Kammenos.
Assim que assumiram o cargo, Tsipras e seus ministros tiveram que embarcar em inúmeras viagens a Bruxelas e Frankfurt para negociações com os credores do país. Após dois resgates, o Estado grego ainda cambaleava à beira da falência. Seu sistema bancário estava sob tremenda pressão e precisava de liquidez para sustentar suas operações cotidianas. A Troika usou essa vulnerabilidade para chantagear o Syriza.
As palavras repugnantes proferidas aos enviados do Syriza pelo chefe do Mecanismo Europeu de Estabilidade, o alemão Klaus Regling, dão uma ideia do tom das “negociações”: “Vocês nunca, jamais devem dar calote no FMI. Em vez disso, suspendam todos os pagamentos de pensões. É isso que vocês devem fazer.” []
O tratamento despendido pela UE, BCE e FMI ao governo grego democraticamente eleito, ficará registrado nos anais das relações internacionais por seu cinismo e insensibilidade. Em tempos normais, a diplomacia sob o capitalismo é envolta em um véu de formalidades e linguagem esopiana ocultando a dominação de um punhado de valentões imperialistas nas relações mundiais. Mas a intensidade da crise da zona do euro revelou a verdade: espera-se que pequenas nações como a Grécia dancem ao som das grandes potências.
Os eventos de 2015 expuseram o verdadeiro funcionamento da “democracia” capitalista: parlamentos e eleições são ótimos, desde que os interesses fundamentais dos banqueiros e dos capitalistas não sejam questionados. Se os trabalhadores ousarem eleger um governo que desafie esses interesses, este governo será submetido a pressões até ser intimidado ou derrubado.
Quando a burguesia ocidental fala de “democracia” e “soberania”, como agora faz com frequência em relação à Ucrânia, lembremo-nos de como ela esmagou a Grécia. Essas palavras são apenas desculpas para seus interesses vorazes. É preciso dizer, no entanto, que as constantes concessões por parte do Syriza aguçaram o apetite dos capitalistas.
Acima de tudo, a pressão dos capitalistas era econômica. A burguesia usa sua propriedade da economia para impor sua vontade a governos indisciplinados, ameaçando privar o sistema de capital. Em particular, o BCE ameaçou interromper a recapitalização dos bancos gregos, usando a estabilidade dos bancos como uma espada de Dâmocles contra o governo de Atenas.
Todas as “instituições internacionais” respeitáveis – a UE, o BCE, o FMI – foram mobilizadas para estrangular o Syriza. A classe dominante também conduziu uma campanha política ininterrupta contra o novo governo. A campanha foi submetida a uma enxurrada de propaganda cuidadosamente orquestrada pela mídia capitalista europeia e grega, que trabalhou em estreita colaboração com os funcionários da Comissão Europeia.
Os ataques não vieram apenas do exterior, mas, como relata um ministro do Syriza, também do próprio Estado grego.
O Banco Central Grego colaborou abertamente com a Troika em sua tentativa de manipular Tsipras. Os serviços secretos gregos grampearam telefones de ministros e vazaram informações para minar o governo. O presidente Pavlopoulos, um direitista do Nova Democracia que o próprio Tsipras havia nomeado para apaziguar a burguesia, também aumentou a pressão no verão, ameaçando dissolver o governo.
Não só as ideias econômicas dos reformistas de “domesticar” o sistema capitalista são utópicas, também o são as suas ideias políticas, uma vez que acreditam que o Estado burguês pode ser usado para mudar a sociedade.
No entanto, o Estado não é uma ferramenta passiva entregue ao vencedor após as eleições. Ele tem um marcado caráter de classe: protege os interesses dos ricos e poderosos.
Isso vem à tona especialmente em tempos de intensa luta de classes, quando o Estado mostra sua verdadeira face. Ou melhor, o Estado tende a se dividir em classes, com seus escalões superiores se aliando abertamente à burguesia e seus escalões inferiores se aproximando dos trabalhadores. Em última análise, a classe trabalhadora deve criar novos órgãos de poder para transformar a sociedade.
Já em fevereiro de 2015, a Troika exigiu novas negociações para liberar o pagamento de um resgate pendente. Começou a fazer exigências draconianas a Tsipras, que chegou ao poder prometendo o fim da austeridade, mas que se viu confrontado com um novo memorando ainda mais brutal.
A expulsão da Grécia da zona do euro foi ameaçadoramente apresentada a Tsipras. Sob o capitalismo, isso significaria um retorno ao dracma, a desvalorização repentina da moeda grega e o empobrecimento dramático do país.
Um acordo temporário foi firmado no final de fevereiro, prometendo a liberação de uma parcela pendente do resgate. Esse acordo empurrou o governo grego para uma ladeira escorregadia de concessões. O acordo forçou o Syriza a continuar as “reformas” anteriores e a se abster de medidas “unilaterais”. A Troika então descumpriu suas promessas, retendo os fundos devidos à Grécia.
O aspecto mais preocupante dessa rendição foi que o governo a saudou como uma vitória, alegando ter “vencido a batalha”. Ao insistir que era possível alcançar um “compromisso honroso” por meio de negociação, os dirigentes do Syriza semearam a confusão entre a classe trabalhadora.
Yanis Varoufakis
A figura-chave nas negociações com a Troika foi o ministro da Fazenda, Yanis Varoufakis. Como um renomado acadêmico, Tsipras esperava lograr um acordo favorável em Bruxelas.
Durante anos, Varoufakis esteve à direita da direção do Syriza. Ele relembra em seu livro, “Adultos na Sala“:
“Minha preferência era que o Syriza apresentasse aos eleitores um programa básico, progressista, europeísta, logicamente coerente e não populista, como base para construir a imagem de um futuro governo confiável, capaz de negociar o plano de fuga do país com a UE e o FMI. […] Quando li o segmento de política econômica do manifesto eleitoral do Syriza de 2012, minha irritação foi tanta que parei depois de algumas páginas.” []
Embora se definisse como um “marxista errático”, admitiu ter abandonado suas visões de esquerda para salvar o sistema. “É dever histórico da esquerda, neste momento específico, estabilizar o capitalismo; salvar o capitalismo europeu de si mesmo”, disse ele. []
Seu plano parecia bastante moderado: reestruturar a dívida pública grega, adiar os pagamentos até que certas metas de crescimento fossem cumpridas, estabelecer metas menores de superávit orçamentário e desvincular a dívida bancária grega do Estado, com os bancos inadimplentes sendo assumidos pela UE. Em última análise, ele esperava que o BCE financiasse o Estado grego imprimindo dinheiro.
Para isso, pretendia explorar as tensões entre os esquemas expansionistas de compra de títulos do presidente do BCE, Mario Draghi, e a agenda conservadora do Bundesbank alemão; e colocar os americanos (que estavam menos expostos à dívida grega) contra os alemães extremistas, combinando tudo isso com manobras midiáticas inteligentes.
O Sr. Varoufakis entrou nessas negociações com a cabeça cheia de modelos abstratos da “teoria dos jogos”. Tudo parecia muito inteligente, mas negligenciou completamente a realidade fora da sala de negociações e, acima de tudo, o equilíbrio de forças de classe em toda a Europa.
O Syriza mal tentou capitalizar o enorme apoio que obteve das massas, tanto na Grécia quanto no exterior. Houve inúmeras manifestações contra a Troika nesses meses, na Grécia e em outras partes da Europa, incluindo o cerco aos escritórios do BCE em Frankfurt. Mas essas mobilizações foram iniciativas locais e não parte de um plano conjunto da direção do Syriza. Eles nunca cogitaram a possibilidade de convocar manifestações em massa em qualquer lugar. Em vez disso, apostaram tudo na “astúcia” de Varoufakis.
Na visão de Varoufakis, a austeridade deprimiu ainda mais a economia grega e ajudou a minar sua capacidade de se autofinanciar, criando um ciclo vicioso sem fim que pôs em risco a estabilidade geral do capitalismo. As políticas da Troika, afirmou ele, eram uma “loucura organizada”. []
O problema com Varoufakis, assim como com outros economistas pequeno-burgueses, é que ele acredita que o capitalismo pode se assentar sobre uma base sólida por meio de reformas. No entanto, o capitalismo não ouve a razão.
A burguesia não se deixa levar por apelos à racionalidade, à democracia ou à moralidade. Cada capitalista e cada grupo nacional de capitalistas é movido pela busca do lucro, não pela estabilidade geral do sistema. Cada um age de forma bastante racional, do ponto de vista de seus próprios interesses.
Varoufakis isolou unilateralmente um aspecto da crise, desconsiderando o quadro geral, e tirou todas as conclusões erradas. Embora a austeridade tenha afundado a Grécia ainda mais em uma depressão, dificultando o pagamento de sua dívida, era muito mais importante para a burguesia proteger os interesses e a autoridade do sistema financeiro mundial, transformando a Grécia em um bode expiatório.
As potenciais divisões entre Washington e Berlim, que Varoufakis esperava, não se materializaram. O Syriza foi confrontado por uma frente única capitalista. Quando seus interesses estão em jogo, as diferentes gangues nacionais de capitalistas deixam suas diferenças de lado.
A ascensão do Syriza representou uma ameaça política para a burguesia. Ceder aos pedidos do primeiro governo de esquerda radical da Europa em décadas teria encorajado demandas semelhantes em outros lugares, especialmente do Podemos na Espanha. Considerações políticas e econômicas se entrelaçaram. O Syriza e o povo grego tiveram que aprender uma lição.
As propostas “inteligentes” de Varoufakis eram adequadas para seminários universitários e outros públicos impressionáveis, mas completamente inadequadas quando se trata de uma luta real contra um inimigo de classe. Como ele admitiu mais tarde, com bastante franqueza:
“Minha equipe e eu trabalhamos arduamente para apresentar propostas baseadas em trabalho econométrico sério e análises econômicas sólidas. Depois de testadas por algumas das mais altas autoridades em suas áreas, de Wall Street e da City a acadêmicos de alto nível, eu as levava aos credores da Grécia. Então, eu me recostava e observava uma paisagem de olhares vazios. Era como se eu não tivesse falado, como se não houvesse nenhum documento diante deles. […] Eu tinha saudades pelos meus dias acadêmicos, quando as divergências eram resolvidas pelo poder da argumentação, e não pela força bruta.” []
O referendo
No início do verão, Tsipras e Varoufakis se encontravam em uma situação difícil. O dinheiro prometido em fevereiro não foi entregue, embora a Grécia continuasse pagando sua dívida.
Varoufakis ofereceu cada vez mais concessões, ultrapassando todas as suas “linhas vermelhas”. Mas a Troika não cedeu. Em 25 de junho, propôs um novo memorando escandaloso (uma versão revisada da última enxurrada de concessões de Varoufakis), com medidas de austeridade ainda mais brutais e com contrarreformas adicionadas. Se o Syriza assinasse, violaria todas as suas promessas.
O tempo e o dinheiro estavam se esgotando. Encurralado, Tsipras anunciou um referendo sobre o acordo da Troika para 5 de julho.
Como Varoufakis explica em suas memórias, Tsipras chamou o referendo de um blefe desesperado, esperando que forçasse concessões suficientes para permitir que o Syriza vendesse o acordo. Mas, longe de enervar a Troika, o referendo despertou a fúria dos capitalistas internacionais, que redobraram a pressão: financeira, política e midiática.
Os gregos foram informados de que, se rejeitassem o memorando, seriam expulsos do euro, sem o qual poderiam se transformar em uma república das bananas em ruínas.

Por sua vez, o BCE apertou o cerco aos bancos gregos, impondo limites a seu colchão de liquidez, ou seja, a tábua de salvação para manter os bancos solventes. Em resposta, o governo foi forçado a introduzir controles de capital para evitar uma corrida bancária caótica. Isso incluiu limitações aos saques em caixas eletrônicos.
Na Grécia, os partidos de oposição de direita manobraram para um golpe parlamentar, em conluio com o presidente (mais uma vez, nomeado pelo Syriza!), que defendeu a formação de uma “ampla frente de forças democráticas” []. Todo o establishment grego, incluindo a Hierarquia da Igreja Ortodoxa e os donos dos grandes clubes de futebol, apoiou a campanha do SIM para aceitar o memorando da Troika.
Se acreditamos em Varoufakis (e não temos motivos para não acreditar), Tsipras esperava que o voto “NÃO” perdesse ou, na melhor das hipóteses, vencesse por uma margem pequena, o que lhe facilitaria a assinatura de um acordo humilhante.
Se o medo e o desespero reinavam na sede do Syriza, o clima nas ruas era completamente diferente. A classe trabalhadora enfrentou o desafio heroicamente. Nos primeiros meses de 2015, os trabalhadores permaneceram em grande parte parados, acompanhando atentamente as negociações. Agora, eles entraram em cena com força total.
Entre 27 de junho, quando o referendo foi convocado, e 5 de julho, quando ocorreu, um clima revolucionário se desenvolveu na Grécia por meio da interferência direta das massas nos acontecimentos. Varoufakis relembra o clima na véspera da votação:
“Os estudantes forçados a emigrar pela crise e que haviam retornado para votar imploraram para que eu não desistisse. Um aposentado me prometeu que ele e sua esposa doente não se importariam em perder suas pensões, desde que recuperassem a dignidade. E todos, sem exceção, gritaram para mim: Não à rendição, custe o que custar!” []
Assembleias de bairro, comitês locais, campanhas de propaganda popular e inúmeros comícios deram um forte impulso ao voto pelo NÃO. Na capital, isso foi coroado por algumas das maiores manifestações da história da Grécia, incluindo um comício de quase meio milhão de pessoas em 3 de julho. Esse movimento foi em grande parte espontâneo.
Tsipras, sentindo a onda crescente, tentou ativamente conter a campanha pelo NÃO, cancelando comícios e diminuindo as expectativas. Enquanto isso, a campanha pelo SIM não conseguiu ganhar força significativa nas ruas.
Contra toda a pressão da máquina de propaganda capitalista, contra o terror econômico e, de fato, contra as vacilações do governo, o povo grego votou massivamente pelo NÃO.
Este foi, acima de tudo, um voto da classe trabalhadora, com maior peso nos bairros proletários de Atenas, Tessalônica e outros centros urbanos, enquanto o voto pelo SIM venceu nos distritos mais ricos.
No entanto, a campanha do NÃO contou com o apoio de uma camada considerável da pequena burguesia: estudantes, profissionais liberais, agricultores, intelectuais, etc. No total, 61,3% dos eleitores rejeitaram o acordo da Troika, dando a Tsipras um forte mandato para uma ruptura radical. Considerando tudo isso, este foi um voto pela revolução, apoiado por mobilizações de massa.
Nas palavras de um comentarista burguês grego:
“O resultado do referendo revelou um comportamento extremamente arriscado por parte do eleitorado, que se expressou em termos de classe […], trazendo às ruas um conflito que deveria ter permanecido confinado ao Parlamento e, talvez, aos programas de televisão.” []
Na noite de 5 de julho, quando os resultados foram divulgados, milhares de pessoas se reuniram na Praça Sintagma, em Atenas, para celebrar a vitória. Mas não se tratava apenas de uma celebração. Os trabalhadores gregos estavam se mobilizando para uma batalha que, aos seus olhos, estava apenas começando. Eles haviam flexionado seus músculos e adquirido a noção de sua própria força. A palavra de ordem da multidão era Oute vima piso! “Nem um passo para trás!”.
Em uma entrevista à TV após a votação, o ministro Lafazanis contou como foi parado por uma mulher na rua que lhe disse: “Não me importo se eu acabar comendo do lixo, mas vocês não vão recuar!” []. Isso sintetizava o clima no país.
As massas compreenderam o caráter internacionalista da tarefa em questão. Acima de tudo, apelaram aos trabalhadores espanhóis, que depositavam cada vez mais suas esperanças no partido de esquerda Podemos. Este partido havia surgido do nada, paralelamente ao Syriza, graças aos enormes protestos dos indignados a partir de 2011. Eles esperavam que os trabalhadores espanhóis os seguissem em sua revolta contra os banqueiros, os capitalistas e seus representantes da Troika.
“Syriza, Podemos, venceremos”, gritava-se nas praças []. Se o Syriza tivesse sido um partido revolucionário, poderia ter varrido o capitalismo na Grécia, o que teria repercutido por toda a Europa e além.
Os marxistas têm uma confiança inabalável na classe trabalhadora. Isso não é uma fé cega. Baseia-se na compreensão do papel dos trabalhadores na sociedade capitalista. Eles detêm as alavancas da economia em suas mãos. Devido à sua concentração, coesão e peso econômico, ao caráter cooperativo de seu trabalho e ao seu antagonismo com a burguesia, eles têm o potencial de desenvolver uma consciência socialista consistente, derrubar o capitalismo e reconstruir a sociedade sobre bases mais elevadas.
Quando munidos de um objetivo claro, os trabalhadores podem perceber seu enorme poder latente e revelar a militância mais abnegada. Os eventos de julho de 2015 revelaram isso mais uma vez.
As lamentações em retrospectiva de esquerdistas cínicos, que buscam desviar a culpa da direção reformista de esquerda pela derrota subsequente e, em vez disso, culpar os próprios trabalhadores, não podem esconder o fato de que a classe trabalhadora grega se ergueu como um só homem e desafiou as instituições imperialistas do capitalismo mundial.
Traição
As massas celebraram e se prepararam para a luta, mas Tsipras entrou em desespero. Na noite do referendo, sua residência “parecia fria como um necrotério, alegre como um cemitério”, lembra Varoufakis []. Tsipras se viu entre o martelo da Troika, que exigia sua parte, e a bigorna das massas, que tinham se expressado de forma tão inequívoca no referendo e estavam nas ruas.
Tsipras correu para Bruxelas em busca de um novo acordo. Após o referendo, a classe capitalista estava dividida. Uma ala em torno do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, e seus asseclas do Leste Europeu queriam expulsar a Grécia da zona do euro. No entanto, a chanceler alemã, Angela Merkel, estava cautelosa quanto ao impacto econômico e político que isso produziria. Os capitalistas americanos e franceses também se opunham ao “Grexit”. Em parte como resultado dessas divisões, Tsipras recebeu um memorando ainda mais severo do que em junho.
Em 12 de julho, Tsipras assinou o acordo, desrespeitando todas as suas promessas, seu mandato eleitoral e o resultado do referendo. Como muitos parlamentares do Syriza se rebelaram (32 votaram contra e 11 se abstiveram), Tsipras teve que pressionar os partidos de oposição de direita para aprovar o memorando no Parlamento.
A traição é inerente ao reformismo, especialmente ao reformismo de esquerda. Isso ocorre porque promete muito mais do que pode cumprir dentro dos estreitos horizontes do capitalismo, para os quais não consegue vislumbrar alternativa.
Na tentativa de se reconciliar com os capitalistas, os reformistas sempre acabam abandonando seu programa. Quando testada na prática, a lacuna entre as palavras e as ações torna a desonestidade parte integrante do reformismo, na medida em que tenta distorcer e ocultar suas capitulações.
Para críticos como Varoufakis, Tsipras traiu por ser desonesto e por seu caráter inseguro. Mas sua falência moral foi consequência de sua falência política.
Para preparar o terreno para essa traição, Tsipras reorganizou seu gabinete e pressionou Varoufakis a renunciar. Para seu crédito, Varoufakis denunciou o terceiro memorando e alertou que era melhor deixar a zona do euro do que assinar tal acordo.
No entanto, Varoufakis era apenas um economista “errático” que não tinha a capacidade, ou a vontade, de organizar uma oposição a Tsipras. Outros estavam em melhor posição para fazê-lo. Falharam miseravelmente nessa tarefa.
A Plataforma de Esquerda
Syriza, a Coalizão da Esquerda Radical, era composto por várias frações e tendências. O maior agrupamento era a Plataforma de Esquerda, uma fração flexível que reunia diferentes personalidades e grupos.
Controlando mais de um terço do Comitê Central do partido, a Plataforma de Esquerda era uma força a ser reconhecida. Contava com cerca de 30 parlamentares e tinha um ministério no gabinete de Tsipras, que foi assumido por sua principal figura, Panagiotis Lafazanis. Muitos de seus quadros foram absorvidos pela administração pública, alimentando ilusões carreiristas e minando sua vontade de enfrentar Tsipras.
Nos primeiros cinco meses, Lafazanis e a Plataforma de Esquerda não conseguiram apresentar uma análise coerente dos acontecimentos. Aberta ou tacitamente, aceitaram as diferentes concessões do governo, incluindo o acordo de fevereiro com a Troika e a nomeação do direitista Pavlopoulos como presidente, recusando-se a organizar a esquerda do Syriza.
Embora alguns representantes da Plataforma de Esquerda tenham expressado algumas críticas, nunca levaram sua oposição à sua conclusão lógica: agitação aberta dentro do partido e entre as massas trabalhadoras pelo repúdio da dívida.
Após o referendo, quando Tsipras voltou atrás em suas promessas, os parlamentares da Plataforma de Esquerda e seus aliados se recusaram a votar a favor do memorando. Tendo perdido a maioria parlamentar, Tsipras convocou novas eleições.
Depois disso, Lafazanis anunciou a saída da Plataforma de Esquerda do partido. Apesar de toda sua indignação, essa foi uma atitude derrotista que, na verdade, facilitou muito as coisas para Tsipras. A esquerda do partido recusou-se a travar uma batalha séria para arrancar o controle da ala de Tsipras.
Derrubar Tsipras em julho era perfeitamente possível, já que ele ficou completamente isolado no Syriza. Tsipras perdeu o Comitê Central (109 de 201 assinaram uma declaração contra o acordo), perdeu as seções do partido e a juventude do Syriza. Até mesmo o órgão máximo do partido, o secretariado, protestou.
A Plataforma de Esquerda e seus aliados deveriam ter convocado um congresso extraordinário, que tinham boas chances de ganhar. Embora em julho a Plataforma de Esquerda tenha sugerido a convocação de um congresso do partido, o fizeram timidamente e sem mobilizar a base. Além disso, convocaram um “congresso permanente do partido”, ou seja, uma reunião dos delegados do congresso anterior, que não teriam o poder de eleger uma nova direção. Somente a Tendência Comunista (hoje Organização Comunista Revolucionária, seção grega da ICR) convocou uma luta séria para derrubar a direção por meio de um congresso extraordinário.
Assim que Tsipras convocou as eleições de setembro, a Plataforma de Esquerda começou a organizar um novo partido. Isso representou um divórcio amigável com Tsipras. Por que fizeram isso? A resposta a essa pergunta está relacionada às limitações políticas mais amplas da Plataforma de Esquerda.
A Plataforma de Esquerda abrangia diferentes matizes de opinião, mas o principal eixo de seu programa pode ser resumido na saída do euro e da UE no contexto do capitalismo. A Grécia deveria deixar de pagar sua dívida, argumentaram Lafazanis e companhia, emitir uma nova moeda para capitalizar os bancos e nacionalizá-los, e usar sua soberania monetária para implementar algumas políticas a favor dos trabalhadores e estimular o desenvolvimento capitalista.
A expropriação da classe capitalista claramente nunca fez parte do plano. Em essência, trata-se de uma variante mais “esquerdista” do reformismo, que vislumbrava um novo tipo de capitalismo grego “progressista” fora da UE, que não fosse “neoliberal”. Trata-se de uma utopia perigosa.
A covardia da Plataforma de Esquerda e sua relutância em combater Tsipras seriamente decorriam da falta de um programa revolucionário.
Certamente, se a Grécia tivesse se mantido firme nas negociações com a Troika, teria sido expulsa do euro. Mas o caos econômico resultante poderia ter sido contido por meio de medidas socialistas rápidas e audaciosas: a expropriação não apenas dos bancos, mas também dos escalões mais altos da economia, o planejamento da produção para atender às necessidades básicas da população e a introdução de um monopólio estatal sobre importações e exportações. Essas medidas teriam levantado a questão de qual classe detém o poder na sociedade grega.
O Estado burguês grego teria sido incapaz de implementar medidas socialistas. Os altos escalões do exército, da polícia e do funcionalismo público teriam sido o foco de conspirações golpistas e sabotagens. Tal programa teria exigido mobilizações em massa, ocupações de fábricas, controle operário e a criação de comitês operários, contando com a energia, a criatividade e a vigilância da classe trabalhadora.
Essas medidas teriam pavimentado o caminho para a transformação socialista da sociedade grega, com um tremendo impacto em toda a Europa.
A União Europeia é uma instituição capitalista reacionária. Ela deve ser derrubada e substituída por uma Federação socialista da Europa. Uma ruptura com Bruxelas era, portanto, necessária.
Mas começar com a reivindicação do Grexit era contornar a verdadeira questão: socialismo ou capitalismo? O confuso programa reformista apresentado pelos dirigentes da Plataforma de Esquerda era totalmente insuficiente. Eles não acreditavam no socialismo e não tinham fé na classe trabalhadora. Nem acreditavam em si mesmos.
Foi por isso que saíram de cena sem opor resistência: porque tinham medo de assumir o poder. Contentaram-se em deixar a batata quente nas mãos de Tsipras, formando um pequeno partido reformista de esquerda que salvaguardaria suas carreiras parlamentares. As massas viram isso com clareza e não deram crédito a Lafazanis e companhia.
A “correlação de forças”
Confrontado com a falta de uma perspectiva socialista, Stathis Kouvelakis, um proeminente teórico da Plataforma de Esquerda, argumentou que toda conversa sobre “algum tipo de poder mítico dos trabalhadores [note-se seu tom frívolo] subestima completamente (a) a correlação de forças dentro da sociedade grega e a posição da esquerda radical propriamente dita, e (b) confunde um objetivo mais estratégico com objetivos e demandas transitórias”. []
Por “objetivo estratégico”, Kouvelakis aparentemente estava sugerindo que o socialismo é um objetivo de longo prazo para um futuro distante, mas irrealista para o presente.
Por sua vez, Tsipras e seus apologistas também culparam a “correlação de forças desfavorável na Europa” [] por forçá-los a aceitar um novo resgate. Examinemos essa “correlação de forças” que intimidou os reformistas.
A primeira coisa que se destaca em seu fatalismo é que os reformistas, mesmo os mais “esquerdistas”, nunca consideraram a direção da classe trabalhadora como um fator ativo no “equilíbrio de forças”.
Ao contrário, eles parecem considerar a direção como um espelho que reflete passivamente a situação “objetiva” da sociedade. Se os trabalhadores têm uma direção ruim, a lógica diz que é apenas porque eles têm a direção que merecem. Esse fatalismo evoca uma das últimas polêmicas de Trotsky sobre a derrota da Revolução Espanhola, A Classe, o Partido e a Direção:
“Segundo ele [um autor do periódico pseudomarxista Que Faire], uma falsa política de massas só pode ser explicada como a ‘manifestação de uma certa condição das forças sociais’, a saber, a imaturidade da classe trabalhadora e a falta de independência do campesinato. Quem buscasse tautologias não encontraria, em geral, uma mais plausível. Uma ‘falsa política de massas’ se explica pela ‘imaturidade’ das massas. Mas o que é a ‘imaturidade’ das massas? Obviamente, sua predisposição a falsas políticas. Em que consistia a falsa política e quem foram seus iniciadores: as massas ou os dirigentes – isso é silenciado por nosso autor. Por meio de uma tautologia, ele descarrega a responsabilidade sobre as massas. Esse truque clássico de todos os traidores, desertores e seus advogados é especialmente revoltante em relação ao proletariado espanhol.” []
Como Trotsky observa, a direção é, de fato, um fator decisivo que molda poderosamente a correlação de forças. Uma direção revolucionária ousada teria levado a um resultado muito diferente em 2015. O fatalismo dos reformistas é uma forma de se esquivar da responsabilidade de sua traição, ou melhor, de descarregar a responsabilidade sobre as massas que acabaram de trair, a quem acusam de “imaturidade”.
Os fatalistas do Syriza desconhecem o caráter autodestrutivo de seu argumento. Todo o problema, dizem eles, era que a correlação de forças na Grécia e Europa era desfavorável a uma ruptura socialista com a Troika. Melhor manter o poder mesmo ao custo de sacrificar nosso programa, pensavam eles, na esperança de que a “correlação de forças” pudesse melhorar algum dia.
Mas, na verdade, a linha que defendiam apenas piorou muito essa correlação de forças, desmoralizando seus apoiadores em casa e no exterior. De fato, o declínio do Podemos após 2015 esteve em parte relacionado aos eventos na Grécia.
Os anos de 2010 a 2014 testemunharam mobilizações em massa sem precedentes. Em 2015, o Syriza chegou ao poder e conquistou a simpatia de mais de 80% do eleitorado. Mais de 61% do eleitorado votou contra o acordo, ignorando as ameaças e a propaganda de todos os poderes instituídos. As massas saíram às ruas não apenas para comemorar, mas para lutar.
Quando os resultados do referendo foram divulgados, a classe capitalista estava dividida e desorientada. Isso coincidiu com uma grande onda de radicalização na Espanha, onde o partido de esquerda Podemos estava em ascensão. Os acontecimentos revolucionários na Grécia teriam abalado toda a Europa. A consciência se desenvolvia a passos largos.
Tais mudanças repentinas na consciência são uma característica fundamental da revolução, onde a “correlação de forças” evolui dinamicamente, semana após semana, dia após dia e até mesmo hora após hora. Negar que a revolução fosse possível nessas condições é negar a possibilidade da revolução em geral.
Os reformistas, tanto no Syriza quanto na Plataforma de Esquerda, responderam que a Grécia era um país pequeno, que corria o risco de isolamento e que passaria por dificuldades se optasse pelo caminho da revolução. Eles se assemelhavam ao chefe cretense Kambanaros, do famoso romance de Nikos Kazantzakis, Capitão Michalis, que exigia garantias absolutas de vitória antes de embarcar em qualquer revolta contra os otomanos e foi ridicularizado, com razão, por seus camaradas por sua covardia.
Se você busca garantias absolutas, não deve entrar na política. A vitória é o produto da luta, na qual forças vivas se enfrentam. Certamente, a revolução grega teria ficado isolada por algum tempo e teria enfrentado dificuldades. Mas o capitalismo está fadado a se romper em seu elo mais fraco.
O elo grego, no entanto, fazia parte de uma cadeia mais longa. Uma revolução teria se espalhado facilmente para além de suas fronteiras, começando pela Espanha, especialmente se adotasse uma política internacionalista ativa. Durante os primeiros meses difíceis, a solidariedade de toda a Europa teria dificultado as tentativas de sufocar a revolução grega.
Toda a conversa sobre a “correlação de forças” desfavorável reflete a falta de confiança dos reformistas na classe trabalhadora, que era o seu único ponto de apoio firme em seu conflito com a Troika. Sem isso, Tsipras sentia-se sem chão firme, o que explicava sua profunda insegurança. Esse desprezo pela classe trabalhadora era compartilhado pelos dirigentes da Plataforma de Esquerda.
A amarga verdade é que a classe trabalhadora estava madura para a revolução em julho de 2015. Era a direção do Syriza que não estava madura: à esquerda, à direita e ao centro do partido. As massas poderiam ter esmagado o inimigo de classe com o dedo mindinho. Mas eram leões guiados por burros. O que faltava era o fator subjetivo, a presença de uma organização revolucionária de tamanho considerável.
Nas palavras de Trotsky:
“O desenvolvimento da revolução consiste precisamente nisso: que a correlação de forças muda incessante e rapidamente sob o impacto das mudanças na consciência do proletariado, da atração das camadas atrasadas pelas avançadas, da crescente confiança da classe em sua própria força. A mola mestra vital nesse processo é o partido, assim como a mola mestra vital no mecanismo do partido é sua direção. O papel e a responsabilidade da direção em uma época revolucionária são colossais.” []
O KKE e a esterilidade do sectarismo
Em meio a esses grandes eventos, havia uma força política na Grécia que, de fato, defendia a revolução socialista. O Partido Comunista da Grécia (KKE) reúne alguns dos trabalhadores e jovens com maior consciência de classe do país. Durante os anos de crise, apresentou ousadas reivindicações anticapitalistas. No entanto, suas políticas sectárias ergueram um muro entre o partido e as massas.
O KKE perdeu muitos votos nas eleições de 2012, com a maioria dos trabalhadores se inclinando para o Syriza, que, na época, defendia um amplo governo de esquerda. O KKE criticou o Syriza desde o início, e muitas de suas críticas ao seu programa reformista estavam inteiramente corretas. Mas foram formuladas de forma histérica, em vez de forma paciente, e não conseguiram conectar entre os eleitores do Syriza, que o KKE poderia ter conquistado de outra forma.
Após as eleições de janeiro de 2015, o KKE deveria ter denunciado a aliança com Kammenos, condenado o adiamento interminável do programa do Syriza em favor de negociações e oferecido seu apoio a quaisquer medidas pró-trabalhadores que ajudassem a reverter os memorandos e a romper com os ditames da Troika. Isso teria ajudado a desmascarar Tsipras e, além disso, teria repercutido entre muitos eleitores do Syriza.
A abordagem sectária equivocada do KKE atingiu seu ápice no referendo de julho. Em vez de pedir um voto crítico para o NÃO, pediu um voto nulo! Equipararam o governo e a Troika:
“O povo, por meio de sua atividade e de sua escolha no referendo, deve responder ao engodo da falsa questão colocada pelo governo e rejeitar a proposta da UE-FMI-BCE e também a proposta do governo SYRIZA-ANEL.” []
Mas o povo via as coisas de forma diferente. Numa época em que a sociedade grega se dividia em dois campos opostos, um apoiando o ultimato da Troika e o outro se opondo a ele, a posição do KKE era manter-se distante dessa batalha, que considerava uma farsa. Embora seja verdade que Tsipras considerava esse conflito uma forma de obter uma posição mais forte nas negociações, as massas o percebiam como uma oportunidade de desferir um golpe contra a Troika.
Para que os comunistas conquistem a massa trabalhadora, precisam ser capazes de se identificar com esse sentimento e ajudar o povo a tirar todas as conclusões necessárias. Esta é a verdadeira política do leninismo.
O KKE não deveria ter suspendido suas críticas ao governo Tsipras. Mas o que a direção do KKE deveria ter dito às centenas de milhares que se mobilizaram contra o ultimato da Troika é: estamos com vocês, lutaremos ombro a ombro contra a Troika, mas não confiamos na direção do Syriza. Mesmo que ganhemos o referendo, para acabar com a austeridade, precisamos repudiar a dívida e romper com o capitalismo.
O KKE, portanto, permaneceu à margem durante uma batalha de classes decisiva. Consequentemente, foi visto com desconfiança por aqueles que corajosamente votaram NÃO. O KKE foi, portanto, incapaz de capitalizar o descrédito que se abateu sobre o governo quando este assinou o terceiro memorando.
Toda a política do KKE, de fato, provou ser contraproducente e indiretamente ajudou Tsipras. Devido ao seu distanciamento sectário, o KKE recusou-se a assumir qualquer responsabilidade na luta de classes, lançando suas farpas de uma distância segura.
A decomposição do Syriza
Após assinar o terceiro memorando, Tsipras realizou novas eleições em setembro de 2015, nas quais venceu com folga. O KKE não obteve nenhum ganho, oscilando em torno de 5%, enquanto a Unidade Popular, dirigida por Lafazanis, sequer chegou ao parlamento. Por sua vez, os odiados partidos burgueses continuaram perdendo votos.

Como venceu Tsipras, se ele havia traído todas as suas promessas e desrespeitado o referendo? Isso equivale a perguntar por que a Unidade Popular fracassou.
Por cinco meses, Lafazanis foi ministro no gabinete de Tsipras, onde se absteve de fazer críticas abertas. Após a assinatura do memorando, Lafazanis e a esquerda do partido saíram indignados do Syriza. Mas essa cisão não foi politicamente preparada.
A Plataforma de Esquerda acompanhou o governo, fazendo críticas veladas aqui e ali, mas sem oferecer uma explicação coerente para a situação. Além disso, seu programa por um Grexit capitalista, compreensivelmente, não conseguiu entusiasmar ninguém — nem a eles próprios.
Tsipras apresentou a explicação mais coerente para os acontecimentos do verão: negociamos o máximo que pudemos, mas fomos esmagados pela Troika e, tendo prometido não sair do euro, não tivemos outra opção senão aceitar o memorando, que prometemos aplicar da forma mais justa e humana possível.
Lafazanis e a Unidade Popular, que haviam permanecido em silêncio nos meses anteriores, não conseguiram responder de forma convincente a esses argumentos. As massas não rompem facilmente com suas antigas organizações.
Nas palavras de Trotsky: “somente com base em sua própria experiência, ao longo de várias etapas, as amplas camadas das massas podem se convencer de que uma nova direção é mais firme, mais confiável e mais leal do que a antiga” []. Lafazanis não era nem mais firme nem mais confiável.
Nas eleições de setembro de 2015, a oposição ao terceiro memorando se expressou principalmente por meio da abstenção, que aumentou 7,5 pontos percentuais.
Com o tempo, a autoridade de Tsipras ruiu. O Syriza implementou o novo memorando integralmente, realizando novas rodadas de cortes. Sem surpresa, ele perdeu as eleições de 2019 para o Nova Democracia, de Kyriakos Mitsotakis, que se mantém no poder desde então.
Muitos ex-esquerdistas do Syriza falam hoje de uma guinada “estrutural” à direita na sociedade grega. Sua lógica é a seguinte: as massas não estavam prontas para uma revolução em 2015, portanto, as condições objetivas para a luta eram desfavoráveis à direção do Syriza. Após os eventos de 2015, as massas ficaram desmoralizadas e supostamente deram uma guinada para a direita.
O objetivo desse sofisma é livrar os reformistas da responsabilidade. Mas a verdade, de fato, é o oposto: foi a traição dos reformistas que preparou as condições para o retorno da direita. As massas lutaram como leões, demonstrando notável coragem e determinação. Levantaram-se sem sua direção e, às vezes, contra ela. Toda a maior honra é devida à classe trabalhadora grega. Nada mais poderia ter sido pedido a ela.
O que faltou foi uma direção revolucionária adequada, que é o fator crucial na situação.
Quase uma década após o referendo, nenhum dos problemas fundamentais foi resolvido. Embora a dívida grega tenha caído de seu pico de 210% do PIB em 2020, ela ainda permanece extremamente alta, em 142%. Uma nova crise está sendo preparada.
A classe trabalhadora está mais uma vez começando a se mover. Sua direção revolucionária deve ser forjada antes que ocorram eventos decisivos. Esta é a tarefa que a Internacional Comunista Revolucionária se propôs, na Grécia e internacionalmente.
Referências:
[1] Quoted in M Papasimakopoulos, ‘Note found on Syntagma suicide victim’, Athens News, 4 April 2012
[2] Quoted in ‘Thousands join fresh Greece protests against Golden Dawn’, BBC News, 25 September 2013
[3] ‘Οταν στις πλατείες ζεσταινόταν το «αυγό του φιδιού»’, Ριζοσπάστης, 29 September 2013, our translation
[4] ‘Πολιτική Απόφαση 1ου (Ιδρυτικού) Συνεδρίου’, Σύριζα, 22 July 2013, our translation
[5] Y Varoufakis, Adults in the Room: My Battle with Europe’s Deep Establishment, The Bodley Head, 2017, pg 90
[6] Y Varoufakis, Adults in the Room: My Battle with Europe’s Deep Establishment, The Bodley Head, 2017, pg 140
[7] ibid. pg 339
[8] ibid. pg 62
[9] Y Varoufakis, ‘Confessions Of An Erratic Marxist In The Midst Of A Repugnant European Crisis’, Z, 8 February 2015
[10] Y Varoufakis, Adults in the Room: My Battle with Europe’s Deep Establishment, The Bodley Head, 2017, pg 115
[11] ibid. pg 308-309
[12] ‘Αποφασισμένος ο Παυλόπουλος να διασφαλίσει την πορεία της χώρας στην Ευρώπη’, Πρώτο Θέμα, 16 June 2015, our translation
[13] Y Varoufakis, Adults in the Room: My Battle with Europe’s Deep Establishment, The Bodley Head, 2017, pg 463
[14] C Iordanidis, ‘A short step from here to barbarity’, Kathimerini, 9 July 2015
[15] enikosgr, ‘Λαφαζάνης: Πολιτικός σεισμός το αποτέλεσμα του δημοψηφίσματος’, Youtube, 5 July 2015
[16] J L Aranda, L Almodóvar, ‘Miembros de Syriza: “Estamos en un momento histórico para Grecia”’, El País, 6 July 2015
[17] Y Varoufakis, Adults in the Room: My Battle with Europe’s Deep Establishment, The Bodley Head, 2017, pg 467
[18] S Kouvelakis, ‘Greece: Phase One’, Jacobin, 22 January 2015
[19] ‘Απόφαση της Κ.Ε. του ΣΥΡΙΖΑ’, 10-11 October 2015, our translation
[20] L Trotsky, ‘The Class, the Party and the Leadership’, Fourth International, Vol 1, No 7, 1940, pg 191
[21] ibid. pg 193
[22] ‘The referendum on the 5th of July and the stance of the KKE’, kke.gr, 29 June 2015
[23] L Trotsky, ‘The Class, the Party and the Leadership’, Fourth International, Vol 1, No 7, 1940, pg 194
