A terça-feira, 30 de setembro, tornou-se um dia crucial na revolta em andamento em Madagascar, que começara em 25 de setembro, em protesto contra os cortes de energia.
Como no dia anterior, houve manifestações em massa em todas as principais cidades, lideradas pela juventude estudantil, mas desta vez com a adesão das massas. Na capital, o movimento decidiu convergir para o centro da cidade, Ambohijatovo, o que as autoridades queriam impedir a todo custo.
Desde o início da manhã, os estudantes e a população local partiram – alguns vindos de bairros e de instituições de ensino distantes – marchando por várias horas. Uma coluna partiu de Imerintsiatosika, uma cidade camponesa a 30 quilômetros do centro da capital. No caminho pela estrada RN-1, juntaram-se a eles pessoas de Ambatomirahavavy e, em seguida, do bairro de Fenoarivo. Da mesma direção, vieram estudantes de várias instituições de ensino em Vontovorona.
Em vários pontos, a polícia de choque tentou bloquear as diferentes colunas ou desviá-las para outros pontos da capital, distantes do centro da cidade. As massas não se deixaram intimidar. Jovens estudantes alçaram as mãos e abriram caminho através das linhas policiais, a mesma polícia que havia matado cinco de seus companheiros durante os confrontos de 25 de setembro.
Finalmente, a grande manifestação – uma convergência de várias colunas enormes vindas de todos os lados, algumas delas escoltadas pela mesma polícia que deveria detê-las – chegou à Praça 13 de Maio, em Ambohijatovo. Foi ali que a tropa de choque abriu fogo e lançou gás lacrimogêneo, numa tentativa desesperada de dispersar a multidão. Os jovens reagiram, recuaram e depois avançaram novamente.
O dia terminou com uma clara vitória para o movimento: eles alcançaram seu objetivo de marchar até o centro da cidade, apesar da proibição imposta pelas autoridades cada vez mais enfraquecidas.
As massas agora estão em vantagem e o governo teme recorrer à repressão brutal contra o movimento.
Na noite do dia 29, o presidente Rajoelina, em um discurso televisionado, demitiu o governo e prometeu ouvir as reivindicações do movimento. Tarde demais. Isso não satisfez os manifestantes que exigiam a remoção do prefeito da capital, Antananarivo, a remoção do “general Bomba” (Richard Ravalomanana, o poderoso chefe do Senado), justiça para as vítimas e, cada vez mais com maior insistência, que Rajoelina e seu companheiro empresário Ravatomanga fossem removidos do poder.
Pela primeira vez, a classe trabalhadora entra na luta de forma organizada. Além da ameaça de greve lançada por uma aliança de três sindicatos do setor da saúde, em 30 de setembro o sindicato dos trabalhadores da JIMARA (empresa de eletricidade e água) emitiu uma declaração de total apoio ao movimento, repudiando a repressão, rejeitando a privatização e convocando uma greve. No final do dia, uma declaração oficial do movimento juvenil convocou uma greve dos servidores públicos a partir de 1º de outubro.
Essa mesma declaração, pela primeira vez, exigiu a detenção de Maminiaina Ravatomanga, a apreensão de todos os seus bens e o seu julgamento. Isso é muito significativo, visto que Ravatomanga é um dos empresários mais ricos do país, à frente de uma corporação que estende seus tentáculos a quase todos os setores da economia e não só é muito próximo do presidente Rajoelina, como também esteve envolvido em todos os tipos de escândalos de corrupção em Madagascar e no exterior. Ele é um símbolo de tudo o que o movimento combate: a corrupção, os laços estreitos entre empresas e políticos, a ostentação obscena de riqueza enquanto o povo sofre, etc.
Levantar a questão da apreensão de seus bens é crucial e pode levar o movimento à conclusão de que não deve se limitar à reivindicação de uma “política honesta”, mas também que a questão da propriedade deve ser levantada.
A declaração também amplia o escopo do movimento, já que não exige mais apenas a destituição do presidente, como também a dissolução do Senado, do Tribunal Superior Constitucional e do Conselho Nacional Eleitoral (CENI). Em outras palavras, o movimento de massas se posiciona contra todos os poderes estabelecidos.
A dinâmica da situação é uma em que o poder está passando das instituições (cada vez mais suspensas no ar) para as ruas. Há rumores (não confirmados, até o momento) de que o presidente esteja fugindo do país.
Hoje, 1º de outubro, as manifestações continuam por todo o país, sem que a polícia possa fazer nada. Uma reivindicação predomina: “Miala Rajoelina!” (Fora Rajoelina).
É neste momento que todos os tipos de políticos oportunistas, que não desempenharam qualquer papel na revolta, estão surgindo para tentar se posicionar como substitutos do governo em colapso de Rajoelina. Isso inclui o ex-presidente de direita Marc Ravalomanana, bem como o jovem prefeito de Imerintsiatosika. O movimento desconfia, com razão, desses recém-chegados.
Este é um momento extremamente perigoso para a revolta malgaxe. O regime oscila entre concessões e repressão. Se o movimento continuar avançando, Rajoelina ruirá como um castelo de cartas, pois perdeu todo o apoio popular.
O regime tentará garantir que haja mudanças de cima para baixo, para que nada realmente mude. Como vimos no Nepal e, anteriormente, em Bangladesh, o exército pode desempenhar um papel nessa “transição” controlada, com uma figura “limpa” sendo trazida para liderar um novo governo, no qual talvez alguns dos líderes estudantis possam ser incluídos.
As massas devem confiar apenas em suas próprias forças. Até agora, o movimento tem tido um caráter amplamente espontâneo e tem sido organizado e coordenado através do Discord e das redes sociais. Isso tem servido bem ao movimento até agora, mas, à medida que caminha para uma revolta nacional, são necessárias estruturas mais organizadas. Na realidade, o movimento levantou a questão de quem governa o país. Deveria dar uma resposta clara.
Devem ser criados comitês democráticos de ação em todos os lugares, entre os estudantes, nos bairros operários e pobres, entre os trabalhadores e agricultores pobres nas cidades e vilas. Esses comitês devem ser coordenados em nível local, regional e nacional por meio de delegados eleitos, responsáveis e revogáveis a qualquer momento por aqueles que os elegeram. Uma assembleia nacional de representantes eleitos dessa forma deve ser convocada o mais rápido possível, para assumir todo o poder.
Os comitês também devem organizar a autodefesa e garantir a ordem pública. Um apelo deve ser feito às fileiras da Gendarmaria e das Forças Armadas para que se juntem ao movimento e se recusem a obedecer às ordens de repressão. Os soldados são recrutados entre os trabalhadores e os pobres e sofrem condições semelhantes. Eles devem ser incorporados ao movimento nacional de massas por meio de seus próprios comitês e devem ser chamados a prender qualquer oficial que tente organizar um golpe.
A alternativa a Rajoelina e sua camarilha corrupta não é um “governo honesto” dentro dos limites do capitalismo e da democracia burguesa. Isso, mais cedo ou mais tarde, nos levaria de volta à estaca zero. Não esqueçamos que o próprio Rajoelina chegou ao poder como um político “honesto” e jovem, prometendo uma maneira diferente de fazer as coisas. A alternativa é um governo dos trabalhadores e camponeses, baseado nesses comitês democráticos de massa.
Para resolver as necessidades prementes das massas, das quais o corte de energia e o corte de água são apenas a manifestação mais aguda, toda a riqueza do país deve ser colocada nas mãos da população trabalhadora organizada. Isso significa o repúdio à dívida externa, a expropriação de toda a propriedade imperialista, a reestatização de todas as empresas privatizadas para que passem a ser administradas sob o controle dos trabalhadores e a nacionalização das principais alavancas da economia (fábricas têxteis, minas e empresas exportadoras de baunilha, a indústria do turismo, etc.).
