Não é exagero dizer que o maior escândalo político de todos os tempos está se desenrolando diante de nossos olhos. A magnitude das revelações de Epstein não é apenas impressionante — ela não tem paralelo na história da sociedade de classes. Nunca antes a classe dominante global teve seus mecanismos internos mais sujos e obscuros expostos publicamente dessa maneira. Nenhum escândalo jamais envolveu uma parcela tão ampla da elite financeira e política mundial e suas instituições dominantes.
Não é que o mundo só agora esteja descobrindo quem foi Jeffrey Epstein. Muito antes de seu suposto suicídio em 2019, ele já era conhecido como o pedófilo em série e traficante sexual de crianças mais famoso e influente do mundo. Os detalhes das atrocidades revelados pelos arquivos não são a verdadeira surpresa.
Na verdade, o que está chocando o mundo é a extensão de suas conexões e a dimensão do encobrimento. Acontece que a “classe Epstein” está presente em todas as salas de reuniões corporativas e circula impunemente por todos os corredores do poder. Ela permeia todo o sistema.
Longe de lançar luz sobre todos os segredos ocultos, a divulgação parcial apenas confirmou que o maior acobertamento de todos os tempos ainda está em andamento. Como disse um colunista do Financial Times, “Os arquivos de Epstein oferecem aos Estados Unidos o oposto de um desfecho”. Pelo menos metade dos arquivos — quase três milhões a mais — permanecem ocultos, em flagrante violação da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein (EFTA), imposta ao Congresso e ao presidente sob pressão popular.
Embora o Departamento de Justiça tenha revelado de forma flagrante os nomes de muitas vítimas, os nomes de muitos perpetradores foram cuidadosamente ocultados. Além de Ghislaine Maxwell, ninguém nos EUA foi seriamente investigado ou indiciado, muito menos levado à justiça. E enquanto o homem antes conhecido como Príncipe Andrew é exposto perante o mundo, Maxwell permanece em uma instalação de segurança mínima que lembra um clube de campo, cortesia de Donald Trump.
Nos anos que antecederam essas revelações, a legitimidade de todas as instituições governantes já estava em níveis historicamente baixos. O sentimento anti-elite, anti-bilionários e anti-establishment já estava em níveis recordes. Nesse contexto, as consequências desse escândalo, uma vez que ele se infiltre completamente na consciência das massas, têm implicações potenciais que são verdadeiramente revolucionárias.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada esta semana é reveladora: 77% dos americanos afirmam que os arquivos de Epstein “diminuíram sua confiança nos líderes políticos e empresariais do país”. 68% dos entrevistados republicanos disseram que essa é a sua opinião. 76% dos americanos (e 65% dos republicanos) acreditam que “é definitivamente ou provavelmente verdade que o governo federal está escondendo informações sobre os supostos clientes de Epstein”. 86% dos entrevistados (e 85% dos republicanos) afirmam que os arquivos “mostram que pessoas poderosas nos EUA raramente são responsabilizadas por seus atos”.
É impossível prever como esse confuso drama se desenrolará. Não se pode descartar a possibilidade de que, em vez de se acalmar, o escândalo acabe se intensificando até precipitar uma convulsão social em larga escala. Independentemente do resultado, ele já está produzindo um impacto extraordinário na opinião pública e na luta de classes. As verdadeiras cores da classe dominante foram reveladas; nada mais será como antes.
As razões para o impacto tardio
Levará tempo para que o impacto total dessas revelações seja assimilado e para que seu efeito na consciência coletiva atinja sua conclusão lógica.
Para começar, há uma enorme quantidade de arquivos que já foram divulgados — não apenas inúmeros e-mails, mensagens de texto, extratos bancários e recibos, mas também cerca de 180 mil imagens e 2 mil vídeos. Analisar fisicamente 3,5 milhões de registros, um por um, levaria várias vidas. Se fossem impressos e empilhados uns sobre os outros, os arquivos atingiriam a altura do Empire State Building.
Como resultado, dezenas de jornalistas de todos os principais veículos de comunicação estão desenvolvendo suas próprias ferramentas de busca com inteligência artificial, trabalhando ininterruptamente para analisar os documentos, interpretar seu conteúdo e descobrir nomes e conexões relevantes. Isso está gerando um fluxo diário de novas revelações, o que pode manter a atenção pública voltada para o escândalo durante meses, senão anos.

No entanto, não é apenas a quantidade de arquivos que dificulta o processamento do que estamos vendo. É também o número de instituições e indivíduos implicados, seja por associação direta com o criminoso mais notório do mundo, seja pelo esforço feito visando encobrir a vasta rede de cúmplices e facilitadores.
Incontáveis presidentes e outros chefes de Estado, membros da família real, CEOs de Wall Street, bilionários da Big Tech, figuras da mídia, acadêmicos da Ivy League e figuras políticas de todos os matizes ideológicos — com a notável exceção dos comunistas — estavam envolvidos na teia de Epstein. Dos Clintons e Bill Gates a Elon Musk e Richard Branson, a lista de seus associados se assemelha a um “quem é quem” da classe dominante, levando alguns a chamar sua rede social de “uma ressonância magnética do establishment”.
As conclusões de “nós contra eles” que daí decorrem são inevitáveis. O “nós” somos os milhões de americanos comuns que apenas tentam sobreviver enquanto protegem seus filhos. O “eles” é uma elite bilionária depravada e privilegiada, que acoberta pedófilos.
Como resultado, o termo “Classe Epstein” entrou de vez no vocabulário público. Juntamente com ele, o uso da expressão “classe dominante” deixou de ser um “jargão radical” para se tornar uma descrição objetiva da camada social envolvida no escândalo.
Até mesmo o The New York Times, que antes não publicava palavras como “classe dominante” sem as aspas, denotando um tom condescendente de ironia, agora se vê obrigado a usar a expressão sem ironia.
Não há outras palavras para o descrever. Essas são as pessoas no topo da sociedade. Ninguém está acima deles. Ninguém tem mais riqueza ou poder de decisão do que eles. Não se trata apenas de suas luxuosas coberturas e mansões, ilhas particulares, jatos e iates privados. É o sistema deles.
As suspeitas mais sombrias dos teóricos da conspiração mais cínicos sobre a depravação das elites se mostraram bastante corretas. E o que foi revelado até agora é apenas a ponta do iceberg. O dano que isso causará à imagem coletiva dos ricos e poderosos jamais será desfeito.
Mas isso não é tudo. O escândalo também mina profundamente a legitimidade do “sistema de justiça” e de grande parte do governo federal, remontando a pelo menos quatro administrações presidenciais. Embora muitas pessoas suspeitassem do pior quando se tratava de corrupção governamental, esta é mais uma pílula amarga para milhões de pessoas engolirem.
É evidente que os marxistas não estão minimamente surpresos com o fato de todo o aparato estatal ter participado do acobertamento de alguns dos crimes mais hediondos imagináveis, cometidos por muitas das pessoas mais ricas do planeta. O que é notável nesses eventos não é o que temos a dizer sobre a teoria marxista do Estado, mas o que não temos a dizer. Os acontecimentos estão ensinando à classe trabalhadora, no espírito de O Estado e a Revolução de Lenin, com uma eficácia muito maior do que jamais poderíamos ter alcançado.
Há muita coisa para assimilar, e as revelações a cada hora dificultam a compreensão de seu significado completo. É como a detonação de uma bomba nuclear. Uma poderosa explosão à distância surge primeiro como um clarão ofuscante e uma enorme nuvem em forma de cogumelo. Após um breve momento de hesitação, o impacto da explosão arrasa tudo ao redor. Nesse caso, é a autoridade política da classe dominante e a legitimidade de suas instituições que são reduzidas a escombros na mente de milhões de pessoas.
O impacto no trumpismo
Os estudiosos da filosofia marxista não deixarão de notar que a forma tortuosa como esse escândalo se desenrolou é profundamente dialética.
Durante a campanha eleitoral, Trump prometeu corajosamente divulgar os arquivos de Epstein. Quando voltou atrás nessa promessa, perdeu momentaneamente o controle da maioria no Congresso. Sob pressão da base MAGA — e diante do risco de suicídio político caso se recusassem — eles votaram a favor de uma petição para obrigá-lo a divulgar os arquivos.
Ao perceber que tinha uma revolta nas mãos e que perderia a eleição, Trump mudou de tática no último minuto. De repente, ele estava convocando os legisladores a votarem a favor da divulgação dos arquivos — algo que ele mesmo poderia ter feito por meio de uma ordem executiva. A divulgação dos arquivos havia se tornado um grito de guerra para uma parcela significativa de sua base eleitoral. Mas a maneira como Trump fez isso implicou sua administração no acobertamento.
Longe de se beneficiar politicamente de seu recém-descoberto amor pela “transparência”, toda essa saga tem sido mais um prego no caixão da coalizão eleitoral interclassista do MAGA. E não apenas por causa de suas mudanças de posição e recuos, que até mesmo gerou a expressão “TACO” [Trump Always Chickens Out, Trump sempre amarela, em tradução livre]. Isso tem o potencial de desmantelar toda a estratégia “populista” que está no cerne de sua carreira política.
Trump se esforçou ao máximo para se apresentar como uma figura anti-elite e anti-establishment — apesar de ser um bilionário do ramo imobiliário de Manhattan que frequentava festas com Epstein e seu grupo de jovens mulheres há anos. Ser um outsider era a essência de todo o fenômeno político do trumpismo. Como se vê, Trump sempre esteve muito dentro do sistema.
Muitos de seus antigos apoiadores agora podem ver as verdadeiras intenções de Trump. No mês passado, durante um comício em uma fábrica de automóveis em Michigan, Trump foi interrompido por um operário sindicalizado que gritou: “Você protege pedófilos!”. O presidente, visivelmente enfurecido, respondeu repetidamente com os lábios, murmurando “vá se foder” e mostrando o dedo do meio para o operário. A filmagem viralizou e simboliza a verdadeira atitude de Trump em relação à sua base eleitoral.

Depois, há a queda ignominiosa de Steve Bannon — um dos porta-vozes mais “influentes” da ala populista do MAGA, talvez o segundo mais importante depois do próprio Trump. Acontece que o campeão “anti-elite” do populismo se encaixa perfeitamente no luxuoso círculo de bilionários contra o qual ele frequentemente se insurgia. Os arquivos não apenas revelam que ele e Epstein eram grandes amigos, como também trouxeram à tona 15 horas de “filmagens documentais” que os dois chamavam de “treinamento de mídia”.
Apenas duas horas foram divulgadas até agora — sem nenhuma explicação —, mas elas oferecem insights fascinantes sobre a mente de um parasita psicopata. Apesar das perguntas bajuladoras e da insistência de Bannon, ele não consegue fazer com que Epstein diga nada com que possa se identificar, que seja humanizado ou que demonstre autoconsciência. Mas ele consegue revelar como decisões como o resgate financeiro de Wall Street em 2008 são tomadas — decisões que afetam a vida de toda a população. Epstein estava dando conselhos aos presidentes dos principais bancos do país e ao Departamento do Tesouro… de uma cela em Palm Beach, enquanto cumpria pena por prostituição infantil! Uma lição notável sobre os mecanismos da democracia burguesa.
Pouco antes da prisão definitiva de Epstein em 2019, Bannon estava empenhado em reabilitar a imagem do amigo perante o público. Ele sabia que não seria uma tarefa fácil e escreveu a Epstein: “Precisamos combater a imagem de ‘estuprador que trafica meninas para serem estupradas pelos homens mais poderosos e ricos do mundo’ — isso não tem redenção”. Ele estava certo — nada disso tem redenção.
O que acontece quando o regime burguês perde toda a credibilidade?
A reputação de Trump não foi a única manchada por sua estreita ligação com Epstein — toda a sua administração também foi. É evidente que o Departamento de Justiça dos EUA, incluindo o FBI, é cúmplice nesse escândalo.
Os arquivos que foram tornados públicos estão tão fortemente censurados que muitas páginas têm mais espaço ocupado por manchas de tinta preta do que por espaço em branco ou texto. E as audiências públicas do Judiciário provaram que o FBI ocultou os nomes dos autores e cúmplices, enquanto deixava de ocultar os nomes das vítimas.
Kash Patel, chefe do FBI de Trump, foi outrora um defensor particularmente veemente da divulgação dos arquivos de Epstein. Mas, quando chegou a hora de transformar as palavras em ações, ele mudou de opinião, testemunhando perante o Congresso que não havia “nenhuma evidência de cúmplices” e que Epstein “não traficava com ninguém”.
O secretário de Comércio de Trump, Howard Lutnick, inicialmente se distanciou de Epstein, cuja cobertura de US$ 250 milhões em Manhattan ficava ao lado da sua. Lutnick alegou ter cortado relações com seu vizinho em 2005, após perceber que ele era um pedófilo em série. No entanto, segundo revelações recentes, isso não é verdade. Lutnick foi forçado a revisar sua versão dos fatos sob juramento, explicando que viajou para a notória ilha particular de Epstein no Caribe, anos após o julgamento deste por crimes sexuais. Documentos também mostram que os dois foram sócios em diversos negócios.
Isso só foi superado pela atuação escandalosa da Procuradora-Geral de Trump, Pam Bondi, que entrará para a história por suas descaradas evasivas durante a audiência televisionada do Comitê Judiciário. Respondendo a perguntas de membros do Congresso sobre porque os cúmplices de Epstein não estavam sendo investigados, ela desatou uma fala furiosa e descontrolado:
“[Ninguém] perguntou a Merrick Garland nos últimos quatro anos uma palavra sequer sobre Jeffrey Epstein. Que ironia, não é? Sabe por quê? Porque Donald Trump, o índice Dow Jones, o Dow Jones agora está acima de 50 mil dólares — não sei por que você está rindo… O índice Dow Jones está acima de 50.000 pontos neste momento, o S&P 500 está perto de 7.000 e o NASDAQ está batendo recordes. Os planos de aposentadoria 401k e as poupanças para aposentadoria dos americanos estão em plena expansão. É sobre isso que deveríamos estar falando. Deveríamos estar falando sobre como garantir a segurança dos americanos. O que o índice Dow Jones tem a ver com isso? Foi exatamente essa a pergunta que fizeram, você está brincando? Você está brincando? … O índice Dow Jones ultrapassou a marca de 50.000 pontos pela primeira vez. Isso é incrível. Disseram que não seria possível fazer isso em quatro anos. No entanto, o presidente Trump conseguiu isso em apenas um ano. Os aluguéis médios em nível nacional caíram para o menor patamar em quatro anos graças a Donald Trump. É por isso que eles querem se concentrar em Epstein e no nosso presidente mais transparente da história do país. Como eu disse, a taxa de homicídios caiu para o nível mais baixo em 125 anos graças a Donald Trump. Durante nove meses consecutivos, um feito sem precedentes, não houve qualquer travessia ilegal da fronteira sul. É nisso que devemos nos concentrar. Em todo o excelente trabalho que este presidente fez e continuará fazendo para manter a América segura e para garantir a segurança dos americanos.”
As palavras exatas da pergunta que Bondi estava respondendo eram: “Quantos cúmplices você indiciou? Quantos autores do crime você está investigando?”

Este trecho reflete fielmente seu depoimento ao longo do espetáculo de quase seis horas. Ela se recusou a pedir desculpas, ou mesmo a reconhecer, a uma dúzia de sobreviventes de Epstein que estavam na sala logo atrás dela e que se ofereceram para depor ao Departamento de Justiça de Bondi, mas foram rejeitadas ou ignoradas.
Em nenhum momento ela deu uma resposta direta a uma única pergunta feita. Em vez disso, respondeu com frases desconexas e clichês da guerra cultural. Na verdade, a performance ofereceu uma lição profunda sobre o propósito da retórica da guerra cultural, que é colocar trabalhadores e pobres uns contra os outros para desviar sua atenção dos verdadeiros criminosos no poder.
A questão é que, para isso funcionar, a farsa precisa ser elaborada com habilidade. Ao usar as estratégias de Trump de forma tão grosseira, Bondi provavelmente ajudou a elevar a consciência de classe dos trabalhadores que assistiam ao processo.
A cena lembrava a entrevista surreal concedida um mês antes por outro funcionário de Trump. O ex-“Comandante Geral” da Patrulha da Fronteira, Gregory Bovino, que caiu em desgraça, também mentiu descaradamente na TV nacional, provavelmente motivando muitos a participarem da primeira greve geral em toda a cidade em 80 anos.
O método de Trump para responder às críticas — “negar, denunciar, desviar” — praticamente chegou ao fim. O fato de as pessoas comuns não confiarem mais no que sai da boca de altos funcionários do governo terá consequências de longo alcance.
A classe Epstein não consegue se obrigar a fazer justiça
Desde o verão passado, a Casa Branca tem mantido uma postura de moderação sempre que o incômodo assunto de Epstein vem à tona: sigam em frente, não há nada para ver aqui. Mas, na verdade, há muito o que ver, e o país está longe de estar pronto para seguir em frente.
Em uma carta ao Congresso datada de 15 de fevereiro, Bondi anunciou que o Departamento de Justiça não divulgará mais os arquivos. O espetáculo acabou, diz ela. Na realidade, apenas começou.
No curto prazo, membros do Congresso de ambos os partidos — particularmente os democratas — estão se esforçando para se posicionar e lucrar politicamente com o fiasco. Dois congressistas copatrocinaram a legislação da EFTA que desencadeou toda essa revelação: o republicano do Kentucky, Thomas Massie, e o democrata da Califórnia, Ro Khanna. A ex-defensora do MAGA, Marjorie Taylor Greene, também a apoiou, antes de ser atacada por Trump, romper publicamente com a versão dele do MAGA e renunciar ao Congresso.
A verdade é que ambos os partidos estão totalmente comprometidos com a classe Epstein. Tanto republicanos quanto democratas protegeram essa escória humana, pelo menos desde a época de Bill Clinton, que era figura constante no círculo de Epstein.
Não pode haver justiça dentro deste sistema, porque a classe Epstein é indissociável da classe dominante. São uma só. A inevitabilidade dessa conclusão é profundamente alarmante para os estrategistas mais astutos do capitalismo.
“Como expulsar os vagabundos quando eles dominam o sistema?”, pergunta Edward Luce, do Financial Times, visivelmente nervoso. A resposta óbvia para sua pergunta retórica é clara: é preciso derrubar todo o sistema.
No mesmo parágrafo, ele adverte solenemente que um Lênin em formação “poderia ver os arquivos como lenha à espera de uma centelha revolucionária”. Ele não tem a menor ideia de quão certo está.
