Em janeiro de 2025, o escritor italiano Ezio Gavazzeni reabriu um caso arquivado e horripilante ao apresentar uma denúncia à promotoria de Milão. O caso envolvia indivíduos ricos que viajaram para a Bósnia durante o cerco de Sarajevo e pagaram altas quantias em dinheiro para terem permissão de atirar em civis inocentes. Apenas por “diversão”.
Esse tema não é totalmente novo. Já existiam alguns relatos na década de 1990, mas nunca foram investigados a fundo e eram frequentemente considerados boatos de guerra sem comprovação. Mas essa “lenda urbana” acabou se revelando verdadeira. Burgueses imprudentes e sádicos – que lembram os oligarcas mascarados da série de TV coreana Round 6 – de fato participaram desse passatempo atroz.
Gavazzeni baseou sua investigação no trabalho do diretor esloveno Miran Zupanič, autor do documentário Sarajevo Safari, de 2022, produzido pela Al Jazeera Balkans. Posteriormente, a Al Jazeera fechou sua sucursal nos Balcãs, mas o objetivo do veículo de comunicação do Catar ao exibir este filme foi o de denunciar a difícil situação dos bósnios muçulmanos.
Foi apenas graças a essa intervenção vindo de fora da Europa que essa história voltou a ficar em evidência. Esse horror, que revela amplamente a perversidade da elite dominante europeia da qual esses “turistas” provinham em sua maioria, poderia ter caído facilmente no esquecimento se tivesse sido deixado a cargo dessa mesma elite.
A Guerra da Bósnia
Vamos contextualizar um pouco. A queda do Muro de Berlim em 1989 e o colapso da União Soviética em 1991 levaram a uma crise em todos os chamados regimes “socialistas” da Europa Oriental, tanto alinhados quanto não alinhados ao bloco soviético. A Iugoslávia não era alinhada à URSS, mas seguia um modelo stalinista semelhante: uma economia planificada onde o capitalismo foi abolido, porém a democracia operária não foi implementada, pois o poder político estava concentrado nas mãos de uma casta burocrática.
Em um processo incentivado pela pressão do imperialismo estrangeiro, as burocracias nacionais que se desenvolveram na Federação Iugoslava sob o governo de Tito ascenderam ao poder, cada uma buscando sua própria visão nacionalista mesquinha, o que acabou levando à divisão do país no que hoje são sete repúblicas distintas (Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Kosovo e Macedônia do Norte), todas dominadas por capital estrangeiro.
A Guerra da Bósnia eclodiu em 1992 como parte da guerra civil iugoslava. A Bósnia era definida, na época de Tito, simplesmente como a área de maioria muçulmana, mas é um mosaico de pelo menos três grupos etno-religiosos: bósnios muçulmanos, croatas católicos e sérvios cristãos ortodoxos. A animosidade entre esses três grupos foi instigada conscientemente, e a composição étnica da região foi alterada violentamente por meio de limpeza étnica.
O cerco de Sarajevo (1992-1996) foi provavelmente o episódio mais sangrento desta guerra. Bombardeada implacavelmente pelas forças sérvias da Bósnia, apoiadas por Belgrado, a cidade ficou isolada, sem acesso a alimentos, água e suprimentos médicos. Milhares de civis muçulmanos de Sarajevo foram mortos, muitos por franco-atiradores posicionados para alvejar poços, pontes e mercados: locais cruciais para a sobrevivência da população. Isso ocorreu enquanto as forças das Nações Unidas estavam em serviço na cidade, em uma missão de paz extremamente ineficaz.
Os ‘caçadores’
Edin Subašić é um ex-agente da inteligência militar da Bósnia-Herzegovina. Ele é uma das fontes originais de toda a história. O segredo sórdido foi revelado pela primeira vez à inteligência Bósnia por um jovem prisioneiro de guerra sérvio, que contou aos seus interrogadores que havia chegado à Bósnia como voluntário/mercenário em um ônibus. Esse ônibus também transportava cinco “turistas de guerra” italianos para a linha de frente. Os italianos carregavam consigo armas e equipamentos de caça caros. Um dos “caçadores”, um homem de Milão, explicou-lhe então que havia pago para massacrar civis em Sarajevo.
A investigação comprovou a existência de uma rede organizada que cuidava do transporte de atiradores ricos para as colinas ao redor de Sarajevo (e, às vezes, para Prodinje), onde eram escoltados por membros das forças especiais do exército e do exército nacionalista sérvio.
Segundo Subašić, os grupos eram compostos por cinco a oito “safáris”, e esses grupos realizavam seus assassinatos todos os fins de semana, a partir de 1992. Aparentemente, esses assassinos de fim de semana eram, em sua maioria, homens na faixa dos 30 ou 40 anos, principalmente italianos, canadenses, americanos e russos, mas não se descarta a possibilidade de assassinos ricos de outras origens também estarem envolvidos.
Havia uma tabela de preços em vigor. Diferentes fontes apresentam valores diferentes, mas eles variam entre US$ 50.000 e US$ 300.000. Esse é o preço por assassinato. Os preços variavam dependendo da categoria à qual a vítima pertencia. Soldados e homens em idade produtiva eram mais baratos de matar do que crianças. Seus acompanhantes militares claramente não estavam estabelecendo preços com base em qualquer valor militar dos alvos, mas sim no grau em que matá-los satisfazia a sede de atrocidades dos ricos assassinos em série estrangeiros.
O dinheiro pode comprar sofrimento
Os alvos humanos mais caros eram as crianças. Os relatos divergem quanto aos preços relativos das mulheres e dos idosos. A maioria das pessoas não permitiria que ninguém lhes pagasse para se envolverem em uma atividade tão moralmente repugnante quanto tirar a vida de crianças e adultos inocentes. Uma minoria desprezível poderia superar sua contenção moral em troca de um pagamento grande, e às vezes até mesmo pequeno. Esses monstros ricos, ao contrário, queriam pagar grandes quantias do próprio dinheiro para experimentar exatamente isso. É um nível de perversidade completamente novo.
Gavazzeni disse: “Essas pessoas não matavam por ódio ou ideologia, mas por um senso de onipotência”. Obviamente, há algo de errado com o cérebro desses homens. Mas isso não nos satisfaz como explicação. De acordo com todos os relatos, eles não eram indivíduos disfuncionais, párias ou criminosos desequilibrados. Esse comportamento não foi resultado de trauma de guerra ou de algum ódio étnico profundamente enraizado.
Eles provavelmente estavam matando bósnios simplesmente porque eram as presas humanas disponíveis naquele momento. O racismo e a islamofobia certamente podem ter desempenhado um papel nessa história de horror, mas imaginamos que eles teriam aproveitado qualquer outra oportunidade. Dado o modo como desumanizaram suas vítimas, os detalhes específicos dos mortos tornaram-se claramente irrelevantes.
Não sabemos muito sobre a identidade desses assassinos, mas sabemos algo. Aparentemente, a justiça italiana está tentando capturar alguns deles, e alguns detalhes chegaram à mídia. Um homem de Milão está sendo procurado e se fala que ele é o rico dono de uma clínica de cirurgia plástica. Outro supostamente tem ligações com a extrema direita. Presume-se que a familiaridade deles com armas derive mais da caça de luxo do que de experiência militar anterior. Subašić comentou:
“De qualquer forma, todos fazem parte de um círculo de pessoas ricas e provavelmente influentes em suas comunidades. Eles têm os recursos legais para se protegerem em uma investigação, bem como a influência política para dificultá-la.”
Avançamos a hipótese de que isso foi principalmente uma demonstração de poder. No capitalismo, o dinheiro pode se tornar capital livremente, a força onipotente e o motor da sociedade capitalista. Com dinheiro, pode-se comprar qualquer coisa, inclusive outras pessoas: seu trabalho, seu tempo, seus corpos – até mesmo suas vidas. Também se pode comprar um passe livre para qualquer crime ou pecado imaginável.
A classe dominante apodreceu
Para esses burgueses ricos e poderosos, pagar para matar civis na Bósnia não é diferente de gastar com outros itens de “luxo”. É menos cruel e sádico, claro, pode ser sem derramamento de sangue, mas a motivação subjacente é assustadoramente semelhante.
Por que o cofundador da Microsoft, Paul Allen, pagaria milhões para comprar um caça MiG-29? Simplesmente porque podia. Por que alguns membros do Clube dos Jovens Conservadores em faculdades inglesas queimavam notas de dinheiro na cara de moradores de rua como um ritual de passagem? O homem que acabou se tornando primeiro-ministro da Grã-Bretanha supostamente se envolvia no mesmo passatempo. Acrescente alguns zeros extras e a nota de dinheiro usada para zombar do morador de rua se torna o preço para matar uma jovem em Sarajevo.
Uma proporção anormalmente alta de CEOs e outros indivíduos nos escalões capitalistas apresenta traços psicopáticos, de acordo com alguns estudos amplamente divulgados (por exemplo, Babiak, Neuman, Hare, “Corporate Psychopathy: Talking the Walk“, 2010, embora Fanon et al. apresentem números ainda maiores em seus artigos posteriores). Na mídia, isso costuma ser resumido como “um em cada cinco CEOs é um psicopata”. De um ponto de vista marxista, isso se deve ao modo de produção capitalista selecionar aqueles mais aptos para a tarefa de supervisionar a autovalorização do capital.
Essa tarefa prescreve a exploração de trabalhadores, o engano de compradores, a eliminação de concorrentes mais fracos e o lobby agressivo na esfera política. É preciso um maníaco implacável para fazer isso 24 horas por dia, 7 dias por semana, da maneira mais eficaz, desconsiderando completamente o dano social causado. A realidade da vida burguesa, na qual tudo tem um preço e o sucesso é alcançado atropelando os outros, naturalmente tende a produzir tais indivíduos.
Isso começa muito cedo, nos campos de formação da classe dominante: escolas caras e clubes de elite, eventos VIP extravagantes, bolhas sociais da “alta sociedade” onde tudo tem um preço.
O socialismo não se trata apenas de destruir um sistema social desumano, mas também de eliminar as relações sociais que, em primeiro lugar, produzem seres humanos abomináveis.
