Na definição de camaleão no dicionário Merriam-Webster, encontramos, entre várias características, sua “habilidade incomum de mudar a cor da pele”. Também encontramos sinônimos para camaleão, como “oportunista” e “vira-casaca” – “uma pessoa ou coisa que muda facilmente ou frequentemente” e “uma pessoa que frequentemente muda suas crenças ou comportamento para agradar aos outros ou para ter êxito”.
Então, você pode perguntar: o que isso tem a ver com os reformistas? Bem, se observarmos mais de perto os reformistas no movimento operário, veremos como eles podem facilmente oscilar tanto para a esquerda quanto para a direita – mudando, na prática, sua orientação política – conforme o ambiente em que atuam se transforma e conforme sofrem pressão da classe trabalhadora ou da classe dominante. Nesse sentido, a comparação com camaleões se justifica, e o termo “camaleão político” descreve perfeitamente o reformista.
Os camaleões podem mudar de cor e de padrão da pele para enviar diferentes sinais, mas a característica que nos interessa aqui é a sua capacidade de se camuflarem no ambiente – ou seja, mudarem de cor conforme a cor ao seu redor muda – para permanecerem escondidos de um potencial predador.
Quando os reformistas mudam de posição, porém, é por um motivo diferente. Eles manobram – às vezes conscientemente, às vezes inconscientemente – inclinando-se para a esquerda, até mesmo para a extrema esquerda quando a pressão é muito alta, ou para a direita, mas de uma forma que visa evitar o confronto aberto entre as classes.
E quando estão em posição de realmente ter um impacto na luta de classes, quando poderiam oferecer a direção necessária para aumentar massivamente a confiança e a consciência da classe trabalhadora, recuam e buscam algum tipo de compromisso com os reformistas de direita, servindo assim aos interesses do inimigo de classe, o que sempre terminou ao longo da história em derrotas para a classe trabalhadora.
As características fundamentais dos reformistas, sua total falta de compreensão dialética de como o capitalismo funciona, juntamente com sua falta de confiança na capacidade da classe trabalhadora de se mobilizar em uma direção revolucionária, é o que lhes confere características camaleônicas.
Eles são muito facilmente influenciados quando o capitalismo passa por longos períodos de crescimento. Isso os torna incapazes de enxergar além das condições imediatas em que atuam, e isso se aplica tanto quando o sistema atravessa períodos de forte crescimento econômico quanto quando entra em crise. Como Trotsky apontou na introdução de seu clássico, A Revolução Traída: “Quem venera o fato consumado é incapaz de preparar o futuro”.
E o reformista é um empirista que se apega orgulhosamente aos chamados “fatos” e é incapaz de enxergar o processo histórico geral e de longo prazo no qual esses fatos se inserem. Eles menosprezam o marxismo genuíno, alegando que este não tem as respostas para os problemas enfrentados pelos trabalhadores hoje. Dizem ser pragmáticos e não têm tempo para a “teorização” dos marxistas. Sua falta de compreensão teórica, no entanto, significa que, quando o capitalismo está em plena expansão, eles são incapazes de prever as inevitáveis crises futuras e, portanto, incapazes de se preparar para elas.
A base material para o reformismo e sua rejeição da necessidade de revolução encontrava-se no período de ascensão capitalista do final do século XIX. Nessas condições, para o observador superficial, parecia que o capitalismo havia resolvido suas contradições internas e que, portanto, Marx precisava ser revisto. E, segundo essa linha de pensamento, o marxismo não era capaz de oferecer uma explicação para a prolongada ascensão.
Nos Estados Unidos, tivemos a chamada “Era Dourada”, que testemunhou altos níveis de crescimento econômico que durou do final da década de 1870 até o início da década de 1900. No mesmo período, a Alemanha emergiu como uma grande potência industrial na Europa. E a Grã-Bretanha, embora sentisse a pressão da concorrência americana e alemã, também experimentou um período de prosperidade – após uma desaceleração anterior – de 1895 até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914.
Foi nesse período que testemunhamos a degeneração da social-democracia, dos partidos que faziam parte da Segunda Internacional, a maioria dos quais havia sido fundada originalmente com base nas ideias do marxismo. Inicialmente, seus dirigentes continuaram a prestar homenagem à revolução da boca para fora, chegando a votar em resoluções com tom revolucionário, enquanto na prática colaboravam com a classe capitalista. Mas, eventualmente, abandonaram até mesmo a retórica e declararam abertamente que o capitalismo poderia ser reformado e que a revolução não era mais possível ou sequer necessária.
A Primeira Guerra Mundial calou abruptamente os reformistas e confirmou que todas as contradições dentro do sistema, brilhantemente explicadas por Marx, não haviam sido eliminadas. Agora, havia uma profunda crise do sistema, que inaugurou uma época de revolução e contrarrevolução, sendo outubro de 1917 na Rússia a prova mais clara do potencial revolucionário que a crise do sistema havia desencadeado.
O papel abertamente traiçoeiro desempenhado pelos então dirigentes reformistas das organizações operárias de massa, no entanto, fez com que o enorme potencial revolucionário fosse desperdiçado em um país após o outro, na Alemanha, na Itália, na França, na Hungria e em muitos outros países, o que, por sua vez, preparou as condições para a ascensão do fascismo e a Segunda Guerra Mundial.
O fim da Segunda Guerra Mundial trouxe, mais uma vez, um potencial revolucionário – veja-se a Itália, a França, a Grécia e muitos outros – mas este potencial foi novamente perdido devido à visão reformista dos dirigentes dos partidos operários de massa da época, desta vez tanto os Partidos Social-Democratas quanto os Partidos Comunistas stalinistas. Isso levou à derrota de muitos movimentos e ao recuo da luta de classes, o que, por sua vez, preparou o terreno para o imenso desenvolvimento econômico do boom do pós-guerra.
Riccardo Lombardi
Esta foi a base material para a degeneração ainda maior das organizações de massa tradicionais. E é aqui que começa a minha história sobre um camaleão político em particular, Riccardo Lombardi, lembrado na Itália como o dirigente da ala esquerda do Partito Socialista Italiano (PSI) na década de 1970. Mas antes de me aprofundar em suas características camaleônicas, vale a pena apresentar um pouco do contexto histórico do homem. Quem foi Riccardo Lombardi?
Ele nasceu em 1901 na Sicília e mudou-se para Milão aos 18 anos para estudar engenharia. Sua atividade política começou em 1922, quando ingressou no Partido Popular Italiano (Partito Popolare Italiano, PPI), aderindo à ala esquerda do partido. Vale ressaltar que o PPI foi, na verdade, o precursor do que viria a ser a Democracia Cristã, o partido conservador da burguesia, no final da Segunda Guerra Mundial. Ele logo rompeu com esse partido e se moveu para a esquerda, interessando-se pelo marxismo.
Ele leu O Manifesto Comunista e A Luta de Classes na França, bem como os volumes um e dois de O Capital. Mas também admitiu que sua compreensão de Marx foi influenciada pelas críticas de Benedetto Croce ao materialismo histórico. Croce era um liberal burguês e, filosoficamente, um idealista. Assim, desde o início, vemos a incapacidade de Lombardi de apreender a verdadeira essência do marxismo, e isso determinaria seu pensamento político pelo resto da vida.
Ele participou de algumas ações dos Arditi del Popolo, o grupo antifascista fundado em 1921, que tentou se opor com força à ascensão do fascismo, e mais tarde colaborou tanto com a organização clandestina do Partido Comunista quanto com os antifascistas liberais, uma vez consolidada a ditadura de Mussolini.

Em agosto de 1930, após participar das atividades de um grupo que distribuía panfletos para operários em Milão, ele foi preso pela milícia fascista e espancado, sofrendo uma lesão permanente em um dos pulmões, que lhe traria problemas de saúde pelo resto da vida. Posteriormente, foi colocado sob vigilância pelo regime fascista.
Ele foi, portanto, um antifascista corajoso e determinado, e ninguém pode tirar isso dele. Isso também lhe conferiu autoridade dentro da esquerda italiana como um todo. No entanto, sua adesão ao pensamento marxista seria superficial e de curta duração. Ele continuou a citar Marx, mas também foi influenciado pelas ideias de Keynes e Schumpeter, e pelas teorias da “economia mista”. Tudo isso o levou ao que muitos definiram como seu “socialismo liberal”. Isso significava que ele não previa o fim do capitalismo, mas simplesmente uma reestruturação do sistema, com algumas reformas “progressistas”.
Isso explica por que, em 1942, ele foi um dos fundadores do Partido da Ação (Partito d’Azione), um partido fundamentalmente de esquerda/liberal que rejeitava o marxismo e a luta de classes. Como um dos principais representantes do Partido da Ação, ele também foi membro do Comitê de Libertação Nacional do Norte da Itália (CLNAI). Posteriormente, tornou-se Ministro dos Transportes no governo de coalizão (dezembro de 1945 a julho de 1946), que testemunhou a colaboração aberta entre o Partido Comunista e o Partido Socialista com a Democracia Cristã.
O Partido da Ação obteve apenas 1,45% dos votos e sete cadeiras nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1946, e entrou em colapso em 1947, com suas principais figuras seguindo rumos diferentes: algumas se juntaram ao PSI, enquanto outras ao Partido Republicano, uma formação assumidamente burguesa. Lombardi decidiu se filiar ao PSI, partido que representaria no parlamento até 1983, um ano antes de sua morte.
No período de 1956 a 1964, Lombardi chefiou a comissão econômica do PSI, e sua posição é resumida em um discurso que proferiu no parlamento, onde explicou que o partido se propunha a “operar dentro da sociedade capitalista para mudar seu equilíbrio de poder e renda em favor da classe trabalhadora” (Discorsi parlamentari, de M. Baccianini, Roma, 2001). Assim, sua posição permaneceu reformista clássica, atuando dentro dos limites do capitalismo enquanto buscava introduzir reformas favoráveis à classe trabalhadora.
O impacto do boom do pós-guerra
Essa ilusão de que se pode reformar o capitalismo foi enormemente reforçada pelo boom econômico que decolou naquele período. O capitalismo mundial estava prestes a passar por um período de expansão sem precedentes. A França, entre 1947 e 1973, registrou um crescimento médio anual de 5%. A Alemanha Ocidental experimentou um crescimento econômico prolongado no mesmo período, com a produção industrial dobrando entre 1950 e 1957 e o produto nacional bruto crescendo a uma taxa de 9 a 10% ao ano. O Japão apresentou taxas de crescimento anual em torno de 10% por um período sustentado.
Nesse contexto, a economia italiana passou por uma expansão muito rápida, registrando taxas de crescimento recordes de 5,8% ao ano entre 1951 e 1963. A produtividade industrial cresceu em média 8% ao ano na década de 1953-63 – um índice superior ao da China atualmente! Os investimentos cresciam a uma taxa de cerca de 10% ao ano e a rentabilidade também disparou.
É preciso lembrar que a Itália saiu devastada da Segunda Guerra Mundial. Em 1947, a inflação atingiu 30%, o valor da lira despencou e as exportações estavam em queda. Como apontou Augusto Graziani em sua obra L’economia italiana dal 1945 a oggi (publicada em Bolonha em 1972):
“No período imediatamente posterior à guerra, poucos poderiam ter previsto a notável capacidade de expansão que a indústria italiana revelaria na década seguinte. Acima de tudo, poucos acreditavam que o desenvolvimento industrial italiano dependeria de setores (como o siderúrgico, o químico e o automobilístico) que pareciam particularmente difíceis de expandir…”
O período do chamado “milagre econômico italiano” de 1956-63 criou centenas de milhares de novos empregos – em 1963, havia 5,4 milhões de trabalhadores industriais. Juntamente com o rápido crescimento da renda média per capita, com os altos níveis de acumulação de capital, com o desenvolvimento industrial combinado com o aumento das exportações e a estabilidade monetária, essas condições inevitavelmente impactariam a consciência tanto da massa trabalhadora quanto dos dirigentes reformistas do movimento operário. E veremos isso em um discurso que Lombardi proferiu no congresso nacional do PSI de 1963, que citaremos mais adiante.
Ao longo da década de 1950, a Democracia Cristã beneficiou-se da traição ao potencial revolucionário do período de 1943-48. Devido à colaboração de classes, tanto o Partido Comunista Italiano (PCI) quanto o PSI sofreram uma significativa derrota eleitoral nas eleições de 1948, o que permitiu à Democracia Cristã manter uma forte posição parlamentar, conquistando consistentemente mais de 40% dos votos ao longo da década de 1950. Isso significava que ela podia governar com o apoio de diversos partidos burgueses de pequeno porte, como os Republicanos e os Liberais.
No entanto, no início da década de 1960, isso começou a mudar, e nas eleições de 1963 a participação da Democracia Cristã nos votos caiu para 38%, e o partido conquistou apenas 260 deputados no parlamento de 630 membros.
O enfraquecimento da Democracia Cristã exigiu uma ampliação da coalizão no parlamento para que ela continuasse governando o país. Em 1960, buscaram apoio parlamentar do MSI (Movimento Social Italiano, fundado em 1946 por elementos do antigo regime fascista). Isso provocou uma reação tão forte dos trabalhadores, que ainda tinham lembranças recentes do regime fascista, que a classe dominante teve que abandonar aquele “experimento”, e em poucos meses o governo caiu.
Precisamos lembrar que o impacto do boom do pós-guerra teve dois lados. Por um lado, havia mais empregos e um aumento no padrão de vida, mas também houve o fortalecimento numérico da classe trabalhadora, o que lhe conferiu maior peso na sociedade. Isso deu aos trabalhadores, em particular aos jovens, uma confiança renovada. Isso explica os movimentos militantes de 1962-63. E isso precisava ser levado em consideração pela classe dominante.
O PSI colabora abertamente
Após o fracasso da tentativa de se apoiar no MSI, a classe dominante viu-se obrigada a buscar apoio na esquerda. Assim, o PSI, com seus 87 deputados, foi convocado para garantir uma maioria parlamentar estável. Este foi o início do que ficaria conhecido como as coligações de centro-esquerda que governariam a Itália até 1972.
Em 1963, porém, o PSI estava dividido quanto à questão de aderir ou não ao governo de coligação, o que ficou evidente em seu congresso nacional daquele ano. A ala esquerda do partido rejeitou a coligação com a Democracia Cristã, preferindo uma aliança com o Partido Comunista. De fato, foram apresentados dois documentos principais ao congresso: um que apoiava a entrada do partido em uma coligação com a Democracia Cristã (que obteve 57,4% dos votos) e outro que se opunha (com 39,3% dos votos), com uma minoria muito pequena de 2% defendendo a unidade do partido.
A ala esquerda do partido se separaria no início de 1964 para fundar o Partido Socialista Italiano de Unidade Proletária (PSIUP) e se moveria radicalmente para a esquerda. Vale ressaltar que o PSI perdeu cerca de metade de seus quadros sindicais para o recém-formado PSIUP, e praticamente toda a sua juventude, o que demonstra a profundidade da oposição à colaboração com a Democracia Cristã em uma camada significativa da base do partido.
Qual foi, então, a posição de Riccardo Lombardi na decisão crucial tomada no congresso de 1963? Devemos lembrar que ele era visto como um esquerdista dentro do partido. Sua intervenção no debate do congresso, portanto, merece ser citada na íntegra, pois revela a profundidade das ilusões em relação ao desenvolvimento capitalista.
Ele iniciou seu discurso afirmando que o partido deveria estar aberto à participação em um governo de coalizão, apoiando assim a facção majoritária de direita dentro do partido, quando poderia ter apoiado a ala esquerda e possivelmente derrotado a tentativa de deslocar o partido para a direita. Mas não o fez, argumentando, em vez disso, que, como o capitalismo estava em desenvolvimento, se o partido quisesse influenciar a direção desse desenvolvimento, só poderia fazê-lo participando do governo. O discurso reflete o impacto que o boom do pós-guerra estava tendo sobre os reformistas:
“Quer queiramos ou não, camaradas, se somos marxistas [!], devemos partir da análise objetiva dos fatos, como nos ensina a sólida e saudável pedagogia do marxismo. Devemos partir do pressuposto de que a sociedade italiana se assemelhará muito pouco à sociedade atual daqui a cinco anos, certamente daqui a dez anos: ao longo desses anos, um processo de transformação terá amadurecido e se completado, dando origem a um modelo que, após esses cinco ou dez anos, não poderemos mais modificar, exceto por meio de enormes dificuldades.”
“Camaradas, se estivéssemos diante de uma situação de outros tempos, não do neocapitalismo, mas do paleocapitalismo, poderíamos esperar calmamente que as contradições internas do capitalismo e o fato de ele não conseguir dar resposta às necessidades elementares de emprego e renda dos trabalhadores levassem a situação a um nível de luta capaz de modificar e eliminar o equilíbrio existente. Mas vivemos em um clima neocapitalista… E o neocapitalismo tem a capacidade – à sua maneira, certamente com custos sociais muito altos – de dar resposta aos problemas elementares, e também aos problemas que vão além dos elementares, do povo trabalhador.”
“Hoje, o neocapitalismo é capaz de dar uma resposta ao problema do emprego, é capaz de assegurar um nível mínimo de rendimento, um certo tipo de acumulação de capital, a expansão da economia e a distribuição da renda…” [Ênfase minha]
Como se pode ver, ele argumenta que o “neocapitalismo”, como o denomina, não segue a lógica do “paleocapitalismo”, o capitalismo antigo ao qual se poderia aplicar a análise de Marx, mas possui uma nova dinâmica que pode ser influenciada positivamente caso o PSI estivesse no governo. A ascensão da economia capitalista no pós-guerra reforçou ainda mais sua visão de que a teoria econômica marxista se aplicava apenas ao capitalismo do passado. Então, esse “neocapitalismo” não apresentava as mesmas contradições.

A ironia de tudo isso é que, na década seguinte, a Itália de fato testemunharia mudanças drásticas, mas não as previstas por Lombardi. Seria a década dos protestos da juventude de 1968, da explosão da luta de classes no Outono Quente de 1969 e da profunda crise em que o sistema capitalista entraria em 1973, revelando que todas as contradições internas não haviam sido eliminadas – mas falaremos mais sobre isso adiante.
Em seu discurso de 1963, ele afirmou explicitamente que “…os socialistas não podem esperar que seu programa seja aceito em bloco…” e disse com bastante clareza que “o programa que estamos apresentando não é um programa socialista: é simplesmente um programa democrático de renovação…” (Atas do 35º Congresso Nacional do PSI realizado em Roma, de 25 a 29 de outubro de 1963).
Compare-se tudo isso com a clareza absoluta de um marxista genuíno, Ted Grant, em seu texto “Haverá uma crise?“, escrito em 1960. Ted Grant não se limitou a analisar o superficial, mas foi mais a fundo. Apesar do poderoso boom do pós-guerra que ocorria na época, e de todas as ilusões dos reformistas que o acompanhavam, Ted explicou que a ascensão inevitavelmente terminaria em algum momento e seria seguida “por uma recessão catastrófica, que não pode deixar de ter um profundo efeito na consciência política das fileiras enormemente fortalecidas do movimento operário“. [Ênfase minha]
O fim do boom do pós-guerra e a explosão da luta de classes
Foi exatamente isso que aconteceu na década de 1970. A situação mudou drasticamente na década seguinte ao discurso de Lombardi em 1963, e a Itália foi um dos países onde a luta de classes se mostrou mais intensa. O boom havia fortalecido a classe trabalhadora, que começava a se reerguer após a derrota do movimento revolucionário de 1943-48.
Milhões de camponeses haviam migrado para as cidades, num amplo processo de urbanização. Houve também um rejuvenescimento da própria classe trabalhadora, com um grande número de jovens ingressando nas fábricas. No período de 1951 a 1961, cerca de dois milhões de pessoas deixaram o sul – 12% da população –, grande parte delas migrando para o “triângulo industrial” Turim-Gênova-Milão, no norte.
Uma antecipação do que estava por vir já havia sido vista nas greves de 1962-63. Mas isso foi temporariamente interrompido por uma leve desaceleração da economia, que voltaria a acelerar em 1967. Essa recuperação foi o que preparou o terreno para a enorme explosão da luta de classes no famoso Outono Quente de 1969.
Na França, a greve geral de maio de 1968, acompanhada também por ocupações de fábricas, prenunciou o grau de radicalização que estava prestes a ocorrer. Naquele ano, houve um florescimento de grupos de esquerda na Itália, especialmente entre os jovens.
Enquanto isso, o PSI estava prestes a pagar o preço por seus anos de colaboração com os democratas-cristãos. Enquanto em 1968 obteve 14,5% dos votos nas eleições, em 1972 sua votação caiu para 9,6%. Isso levou ao descrédito da antiga liderança de direita, juntamente com o fortalecimento da ala esquerda do partido.
Entretanto, Lombardi havia sido marginalizado dentro do PSI devido à sua posterior oposição às políticas do governo de centro-esquerda. Em um momento crucial – o congresso do partido em 1963 – ele apoiou integralmente o documento majoritário a favor da entrada na coligação com os Democratas Cristãos. Mas, posteriormente, tornou-se crítico das políticas daquele governo.
No entanto, ele foi muito ativo em conferências, debates, assembleias e iniciativas de todos os tipos. Era uma figura conhecida por seu apoio ao Vietnã do Norte contra o imperialismo americano. Foi muito veemente na campanha pelo direito ao divórcio e em muitas outras questões. E, como explicou Giuseppe Sircana em 1995, comentando sobre Lombardi no Dizionario biografico degli italiani, vol. LXV, isso o tornou “um dos políticos mais receptivos aos apelos por renovação feitos no final da década de 1960 pelos movimentos estudantil e trabalhista…”.
E logo após a debacle eleitoral do PSI em 1972, a recuperação do pós-guerra chegou ao fim com a recessão de 1973-1975. Todas as principais economias capitalistas sofreram uma queda significativa no PIB nesses dois anos. A Itália enfrentou uma grave crise em 1974-1975, com uma queda expressiva de 3,5% no PIB em 1975. A inflação disparou de cerca de 10-11% em 1973 para 19-21% em 1974, atingindo 25% no início de 1975. O desemprego também começou a aumentar a partir de meados da década de 1970, chegando a um pico de mais de 13% na década de 1980.
Como podemos ver, a situação objetiva era agora muito diferente da de apenas uma década antes. E não era o que Lombardi havia previsto em seu discurso de 1963. Como isso impactou as ideias que ele começou a expressar na década de 1970? Como um camaleão, ele mais uma vez mudava sua aparência, adaptando-se ao novo ambiente. Declarou que a experiência dos governos de centro-esquerda fora um fracasso e já não falava de um capitalismo que tivesse resolvido suas contradições internas.
Lombardi vira à esquerda
Para dar aos nossos leitores uma ideia do que ele estava dizendo agora, vale a pena citar na íntegra uma entrevista com Lombardi feita por Carlo Vallauri, publicada sob o título “L’alternativa socialista” em 1976. Aqui encontramos um Lombardi muito diferente daquele de 1963. Logo no início, Vallauri pergunta o que a alternativa socialista significa para ele. Sua resposta foi a seguinte:
“Não se trata de criar uma alternativa para uma melhor governança; não se trata de ter um bom governo em vez de um governo esbanjador, ou um governo mais reformista, ou mais honesto… O que eu chamo de alternativa de esquerda é uma alternativa que visa inaugurar um período de transição gradual para o socialismo.”
Ele já não falava mais do sistema capitalista como tendo resolvido os problemas básicos da classe trabalhadora. Agora, ele dizia:
“Acredito que aqueles que pensam que esta crise pode ser resolvida estão enganados. Não estou dizendo que o capitalismo está morto; pode ser que, como todos os sistemas, esteja destinado a morrer, mas todos os monstros, antes de morrer, deixam sequelas perigosas que precisam ser consideradas.” E acrescentou: “O capitalismo pode ser sucedido pelo socialismo, mas também pode ser sucedido pela barbárie.”
Como podemos ver, este discurso é muito mais radical do que ele proferia em 1963. Na entrevista, ele cita Lênin mais de uma vez, especificamente sobre a natureza dos sindicatos e sobre o que define a natureza de classe de um partido. Ele explica que o capitalismo não pode mais governar da maneira antiga, que não pode mais garantir os benefícios materiais que antes garantia. Ele cita a análise de Trotsky sobre as classes médias e como conquistá-las, como sendo a mais válida. Ele afirma que a análise de Trotsky é “a mais inteligente e perspicaz” sobre essa questão. De fato, ele havia analisado a visão de Trotsky sobre a União Soviética na década de 1930, embora não concordasse com todas as suas conclusões.
E ele critica o Partido Comunista pela esquerda. Devemos lembrar que, nesse período, a liderança do PCI, sob Enrico Berlinguer, adotou sua famosa política do “Compromisso Histórico”, que previa uma aliança governamental com a Democracia Cristã. Na prática, os líderes do PCI estavam se preparando para desempenhar um papel semelhante ao do PSI em 1963, o de colaboração e compromisso de classes. Isso foi aplicado concretamente nos anos de 1976 a 1979 e se mostrou um desastre, marcando o fim da onda de mobilização da classe trabalhadora que havia começado com o Outono Quente de 1969.

Lombardi, no entanto, apresenta claramente a alternativa como sendo aquela baseada na unidade entre o PCI e o PSI. E acrescenta que a política do Partido Comunista de governar com a Democracia Cristã, um partido burguês, implica desistir da transformação socialista da sociedade, enquanto ele insiste na necessidade de tal transformação.
Contudo, ao mesmo tempo, nunca devemos perder de vista o fato de que, apesar de toda a retórica de esquerda com tom radical, ele jamais abandona sua abordagem gradualista e reformista. Ele se refere a uma esquerda que “pretende modificar radicalmente a sociedade, ainda que de forma gradual…” [ênfase minha]. Vimos como ele se refere ao marxismo, chegando a citar Lênin e Trotsky, mas ele ainda é o Lombardi que foi influenciado pela filosofia burguesa e idealista em sua juventude. Na entrevista de 1976, ele afirma:
“Sem me deixar intimidar por acusações de revisionismo… devo dizer que a necessidade de rever e atualizar os conceitos marxistas no contexto da sociedade atual e suas profundas transformações, em comparação com a sociedade em que o marxismo foi desenvolvido e concebido, não é apenas imperativa, mas felizmente está sendo implementada.”
Para proteger seu flanco esquerdo, no entanto, ele afirma que o tipo de revisão do marxismo que ele prevê não tem nada a ver com o “bernsteinismo e a social-democracia” do final do século XIX.
O entrevistador faz a Lombardi uma pergunta direta: “O senhor se considera marxista?”. Lombardi responde que não pode dar uma resposta de sim ou não, pois existem muitos “marxismos”. Ele afirma que o marxismo é uma ferramenta útil, mas cita novamente Benedetto Croce!
Apesar disso, seu discurso de esquerda, com toda a sua conversa sobre uma transição para o socialismo, o colocou na posição de líder incontestável da ala esquerda do PSI na década de 1970. E isso o tornou uma referência para uma parcela significativa da juventude na atmosfera radicalizada daquele período na Itália.
Com a guinada à esquerda de Lombardi, uma parcela significativa da juventude, anteriormente pertencente a grupos como Lotta Continua, o grupo Manifesto e Avanguardia Operaia, começou a se filiar ao PSI. Até mesmo alguns elementos de um grupo particularmente de extrema esquerda, o Potere Operaio, aderiram. Isso fortaleceu a ala jovem do PSI, a FGSI (Federazione Giovanile Socialista Italiana). A base operária do partido também se fortaleceu nesse processo, com um crescimento significativo de seus núcleos operários, os Núcleos Sociais de Empresas (NAS).
Isso demonstra que o discurso de esquerda radical de um líder como Lombardi estava tendo um impacto real na atração de trabalhadores e jovens para o partido. Havia um entusiasmo enorme, e muitos na base pressionavam para que Lombardi se tornasse o secretário nacional do partido. Mas isso não aconteceu.
E então ele muda de direção novamente
No mesmo ano da entrevista citada acima (1976), o PSI, após seu enfraquecimento eleitoral, presenciou uma luta interna entre suas diversas frações sobre quem deveria ser o novo secretário nacional. Tratava-se, na verdade, de uma disputa entre as frações de esquerda e de direita, que estavam bastante equilibradas. No fim, chegou-se a um consenso e Bettino Craxi foi eleito líder.
Craxi deveria ser uma figura “de transição” temporária, mas acabou assumindo o controle total do partido, levando-o de volta à direita e retornando às coalizões governamentais com a Democracia Cristã na década de 1980. Craxi se tornaria primeiro-ministro e destruiria o PSI no início da década de 1990, devido ao seu envolvimento em inúmeros escândalos de corrupção.
Em tudo isso, Craxi foi auxiliado, ainda que indiretamente, por Lombardi, que apoiou sua eleição como secretário do partido e conseguiu o apoio de toda a ala esquerda do partido para essa decisão, o que lhe garantiu uma ampla maioria. Dois anos depois, em 1978, o congresso nacional do PSI adotou o “Progetto socialista per l’alternativa” de Craxi, que Lombardi apoiou, argumentando que essa era uma forma de influenciar sua direção. Como um camaleão, Lombardi mudou de cor mais uma vez, desta vez se inclinando para a direita.
Pouco tempo depois, Lombardi passou a criticar Craxi, mas o estrago já estava feito. Todos os membros de base que haviam ingressado no partido, entusiasmados com o discurso radical de Lombardi, ficaram profundamente decepcionados e começaram a abandoná-lo. A ala jovem, a FGSI, também entrou em declínio e, em muitas regiões, desapareceu completamente.
O que tentei demonstrar neste artigo é que os reformistas podem pender tanto para a esquerda quanto para a direita, dependendo da situação objetiva e das diferentes pressões a que são submetidos. Alguns deles podem, inclusive, pender muito para a esquerda, adotando uma linguagem que soa revolucionária.
Quando isso acontece, todos aqueles na esquerda que buscam uma direção combativa podem ter suas esperanças renovadas e se unir em torno desses reformistas de esquerda. Mas, devido à perspectiva reformista subjacente desses dirigentes, eles inevitavelmente sucumbem à pressão do inimigo de classe, a classe capitalista, e seus representantes políticos, e acabam mudando de opinião.
Assim, seu papel, objetivamente falando, é reunir os ativistas de esquerda no movimento operário e mantê-los dentro dos limites de uma perspectiva reformista. Em um momento crucial, eles traem seus próprios apoiadores, decepcionam-nos e desmoralizam-nos, para então devolver as rédeas à ala direita do movimento e, dessa forma, salvar o capitalismo da ira da classe trabalhadora.
Precisamos aprender a distinguir entre os camaleões reformistas e o marxismo genuíno e revolucionário. Os marxistas não mudam de cor conforme o ambiente muda. Os marxistas pensam no futuro, observam as contradições subjacentes ao capitalismo e para onde elas inevitavelmente levarão, e se preparam.
Os reformistas buscam mudanças dentro dos limites do sistema capitalista vigente, mas sem romper com a burguesia. Por isso, são levados de um lado para o outro sem bússola, sem uma noção real de para onde a sociedade está caminhando. E isso explica por que são incapazes de oferecer uma saída quando a inevitável crise do capitalismo se abate sobre eles.
Os marxistas, por outro lado, buscam oferecer uma explicação científica da sociedade em todos os momentos, tanto nos altos quanto nos baixos do ciclo de desenvolvimento capitalista, e preparar as massas para a revolução proletária do futuro. É o único caminho. Não somos camaleões políticos e não mudamos nossa cor, que permanece vermelha o tempo todo.
