“Eu estava certo em tudo.” Assim falou Donald Trump, muito modestamente, sobre si mesmo ao discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas na terça-feira, 23 de setembro.
Ele também listou o que afirma serem suas conquistas. Mas há alguma substância nessas alegações? Ou seria apenas exibicionismo para encobrir o fato de que ele, na verdade, alcançou muito pouco do que prometeu ao povo americano, em particular aos trabalhadores?
Nem tudo o que ele disse foram mentiras e distorções. O principal objetivo de seu discurso foi repreender as classes dominantes europeias e seus governos, humilhá-los e mostrar quem manda. Não há razão para elaborar muito sobre isso, já que Alan Woods escreveu um excelente artigo sobre esse aspecto na semana passada.
Basta dizer que Donald Trump estava enviando uma mensagem clara à burguesia europeia de que eles não podem contar com os Estados Unidos na atual Guerra da Ucrânia e que, se estão tão determinados a que ela continue, então devem pagar por isso eles mesmos.
O que quero destacar aqui é o que ele afirma ter conquistado para a classe trabalhadora americana e para o povo americano em geral. Devemos lembrar que a razão pela qual Trump conseguiu vencer as eleições foi o fracasso total dos Democratas em melhorar a vida dos americanos comuns. Os Democratas não defendem os interesses da classe trabalhadora americana; eles são apenas uma ala da classe dominante americana.
Um partido com duas alas de direita
Durante décadas, o sistema bipartidário prestou bons serviços à classe dominante americana. Como Gore Vidal declarou em seu famoso ensaio “O Estado da União“, de 1975: “Só existe um partido nos Estados Unidos, o Partido da Propriedade… e ele tem duas alas de direita: a Republicana e a Democrata”.
Ele sentia que os Republicanos eram “mais rígidos, mais doutrinários em seu capitalismo laissez-faire do que os Democratas”, enquanto os Democratas estavam “mais dispostos do que os Republicanos a fazer pequenos ajustes quando os pobres, os negros e os anti-imperialistas saíam do controle. “Mas”, concluiu, “essencialmente, não há diferença entre os dois partidos“.
À medida que a crise do capitalismo americano se aprofundava ao longo dos anos, com a dívida atingindo níveis astronômicos, havia cada vez menos espaço para os Democratas fazerem esses “pequenos ajustes”. Isso expôs a verdadeira natureza dos Democratas aos olhos de milhões de trabalhadores. Isso significava que até mesmo essas pequenas diferenças entre os dois principais partidos praticamente desapareceram.
Enquanto isso, a partir de 2015, devido à mesma crise que desacreditou os Democratas, os Republicanos passaram por um processo em que a velha guarda estava sendo expulsa em todos os lugares pelos apoiadores de Trump. Candidatos que tinham o apoio de Trump venceram as indicações.
Assim, aos olhos de muitos eleitores americanos, o Partido Republicano não era mais o partido que havia sido, ou seja, dificilmente se distinguia dos Democratas, um partido das grandes empresas. O próprio Trump é um homem das grandes empresas, mas se apresentou com êxito como representante do americano comum, dos trabalhadores americanos e assim por diante. E ele está desesperado para preservar essa imagem.
Em seu discurso, ele afirmou que os EUA agora têm a “melhor economia da história do mundo”. Ele claramente desconhece a história. A economia dos Estados Unidos atingiu seu auge imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, quando o PIB americano representava cerca de 50% do PIB mundial. Foi isso que permitiu que o “Sonho Americano” parecesse real. Houve uma melhora real nos salários e nas condições de vida dos trabalhadores.
Desde então, o que temos visto é um declínio relativo e de longo prazo do poder econômico dos Estados Unidos. O PIB americano caiu gradualmente para cerca de 26% do PIB mundial até 2024. Portanto, não estamos de forma alguma em uma “era de ouro” para a economia americana. Estamos na era do declínio de longo prazo dos Estados Unidos, e isso tem sido sentido em particular pela classe trabalhadora americana.
Para se ter uma ideia desse declínio de longo prazo, vale a pena analisar o relatório “A crise salarial em câmera lenta nos Estados Unidos“, publicado em 2018 pelo Instituto de Política Econômica. Ele oferece um panorama bastante gráfico do que aconteceu com os salários dos trabalhadores desde a década de 1970 e começa assim:
“Nas últimas quatro décadas, os Estados Unidos têm vivenciado uma crise salarial em câmera lenta. Do fim da Segunda Guerra Mundial até o final da década de 1970, a economia americana gerou um rápido crescimento salarial amplamente compartilhado. Desde 1979, no entanto, o crescimento salarial médio desacelerou acentuadamente, com as maiores quedas no crescimento salarial ocorrendo na base e na média.” [Grifo meu].
O ponto de virada foi em 1973. Desde então, o crescimento da produtividade e os aumentos salariais reais por hora começaram a divergir acentuadamente, com os salários praticamente inalterados. Assim, houve uma intensificação da taxa de exploração dos trabalhadores americanos em benefício dos que estão no topo, dos CEOs e dos que ganham mais em geral.
Todas as tabelas fornecidas pelo Instituto de Política Econômica mostram claramente que as camadas de baixa e média renda sofreram quedas reais nos salários reais ou estagnaram por décadas.

Somando-se a tudo isso, tivemos o governo Biden, que impulsionou um aumento de preços de cerca de 25% em quatro anos. Isso representou uma forte piora do que já havia se tornado uma situação ruim.
Isso explica por que o “MAGA” (Make America Great Again) conseguiu atingir amplas camadas da classe trabalhadora e da classe média em 2024. A campanha falava sobre SALÁRIOS e EMPREGOS, e sobre o retorno aos dias de glória do passado. Trump percebeu o mal-estar geral e falou sobre ele. Ele fez grandes promessas.
A América é grande novamente?
Parte do discurso de Trump na ONU teve como objetivo mostrar que ele cumpriu suas promessas. Ele se gabou de que hoje – ou seja, desde sua eleição como presidente – estamos na “era de ouro da América”. Ele está, portanto, afirmando que realmente tornou a América grande novamente, que cumpriu as promessas ao MAGA. Mas os fatos condizem com sua narrativa?
Ele afirma ter reduzido a inflação. A verdade é que a inflação acelerou para 2,9% em agosto, e está em seu nível mais alto desde janeiro deste ano. A inflação dos alimentos está, na verdade, mais alta, situando-se em 3,2%, seu nível mais alto desde outubro de 2023. A inflação vem subindo desde abril e agora está de volta ao nível atingido no final do governo Biden. Ele afirma que os custos de energia caíram, quando, desde janeiro, experimentaram um ligeiro aumento.

Ele afirma que a produção industrial está em alta, quando, na verdade, ao longo de 2025 e até agosto, ela vem desacelerando. A utilização da capacidade instalada está ligeiramente em baixa e menos empregos do que o esperado estão sendo criados, com o desemprego – que era de 4% no início de seu governo – começando a subir, atingindo 4,3% em agosto, seu nível mais alto desde 2021. O PIB, na verdade, contraiu no primeiro trimestre, recuperou-se no segundo e agora está desacelerando novamente.
Comentaristas sérios apontam para taxas de crescimento mais lentas do que o esperado.
“Tanto os dados do PIB do primeiro quanto do segundo trimestre não refletem fielmente a saúde da economia devido às oscilações bruscas nas importações. Os economistas esperam um segundo semestre morno devido à incerteza persistente em relação à política comercial, que limitaria o crescimento econômico a cerca de 1,5% no ano inteiro. A economia cresceu 2,8% em 2024.” (Reuters, 25 de setembro de 2025)
Segundo Trump, os salários têm aumentado no ritmo mais rápido em mais de 60 anos. Isso se baseia no aumento de 5,3% em julho. Mas em dezembro, antes de sua posse, os salários subiram 5,56%. Se voltarmos apenas alguns anos, vemos que em abril de 2020, os salários subiram 7,7%. Uma rápida verificação dos números reais mostra que sua declaração sobre salários é falsa.
Os salários nominais aumentaram 5,3% em julho, mas o poder de compra real aumentou apenas 1,6%. Alguns analistas mostram que os salários ainda estão abaixo dos níveis pré-pandemia. E para aqueles na base, aqueles que recebem o salário-mínimo, a situação na verdade piorou. O salário-mínimo não aumenta desde 2009. Portanto, os que sofrem na base da sociedade continuam sofrendo. Vale a pena notar que uma camada significativa dessas pessoas votou em Trump na esperança de que ele lhes trouxesse algum alívio.
Muitos nessa camada viam as tarifas de Trump sobre os concorrentes dos EUA como uma medida forte para “manter empregos nos EUA”. Mas os analistas burgueses mais sérios alertaram que, a longo prazo, as tarifas não alcançam esse objetivo. Eles citam o que aconteceu durante o primeiro mandato de Trump, ou seja, que suas tarifas foram, na verdade, prejudiciais à criação de empregos.

Em muitos casos, os produtores americanos importam matérias-primas e peças, o que, por sua vez, acaba aumentando seus custos quando as tarifas são aplicadas. Isso os torna menos competitivos a longo prazo. As maiores empresas exportadoras são frequentemente as maiores importadoras. Assim, embora as tarifas possam criar empregos em alguns setores, em outros elas os destroem. Isso leva tempo, mas mais cedo ou mais tarde se tornará evidente.
Trump também afirmou ter encerrado sete guerras e salvado milhões de vidas. Isso é pura fanfarronice com pouca substância. Ele se refere ao breve conflito armado entre a Índia e o Paquistão pela Caxemira; ao conflito entre a Armênia e o Azerbaijão por Nagorno-Karabakh; e ao conflito entre o Camboja e a Tailândia. Mas a razão pela qual ele fez essas alardes é que ele não conseguiu resolver os dois principais conflitos: a Guerra na Ucrânia e a destruição total e contínua de Gaza por Israel.
Em sua campanha eleitoral no ano passado, Trump prometeu acabar com a Guerra da Ucrânia em 24 horas após assumir o cargo, e repetiu esse alarde dezenas de vezes. Na verdade, ele não conseguiu sequer se aproximar a pôr um fim à guerra na Ucrânia. A Rússia continua avançando lenta, mas inexoravelmente.
E no Oriente Médio, onde prometeu não se envolver em mais guerras, ele de fato ajudou a aumentar as tensões, apoiando Israel na limpeza étnica de Gaza, no bombardeio do Irã e no bombardeio de vários países árabes da região. Trump agora espera que seu mais recente plano de acordo ponha fim à guerra, mas isso ainda não foi confirmado, pois Netanyahu já está manobrando para parecer que aceita o acordo, para depois encontrar uma desculpa para se livrar da responsabilidade pelo seu fracasso.
Trump não entregou o prometido
Trump não tem muito do que se gabar. A única coisa sobre a qual ele faz muito barulho é sua repressão à imigração. “O ICE prendeu mais de 100.000 pessoas suspeitas de violar a lei de imigração de 20 de janeiro até a primeira semana de junho, segundo a Casa Branca. O número equivale a uma média de 750 prisões por dia – o dobro da média da última década.” (Reuters, 2 de julho de 2025)
O que isso ignora é o fato de que a mão de obra imigrante foi, na verdade, um fator na manutenção do crescimento econômico nos Estados Unidos. Como aponta um artigo do Financial Times, “A repressão à imigração é uma boa política, mas uma má medida econômica” (14 de janeiro de 2024):
“…em um período em que o envelhecimento populacional está destruindo a força de trabalho em todo o mundo, os migrantes também proporcionam um impulso prático e muito necessário em termos de mão de obra. Graças tanto aos imigrantes quanto ao retorno de mais americanos ao trabalho, a força de trabalho dos EUA em 2023 cresceu três vezes mais rápido do que a população em geral. Isso ajuda a explicar por que a recessão amplamente esperada nunca chegou.”
E acrescenta:
“O aumento da imigração contribuiu significativamente para aliviar a escassez de mão de obra, desacelerar a inflação e aumentar a demanda do consumidor. A migração líquida para os EUA foi responsável por cerca de um quarto do aumento nos gastos do consumidor — saudáveis 2,7% no ano passado.”
O autor do artigo destaca a contradição da retórica anti-imigrante: ela é útil para angariar votos para políticos como Trump, mas prejudicial quando se trata da economia.
“Essas medidas podem ser uma boa política, em um mundo que está se cansando de estrangeiros, mas são uma questão econômica questionável. Segundo uma estimativa recente, os EUA precisariam receber quase 4 milhões de migrantes por ano, todos os anos, para evitar que seu crescimento populacional se torne negativo nas próximas décadas.”
Portanto, até mesmo a única coisa que Trump realmente impactou, a presença de trabalhadores migrantes nos Estados Unidos, pode acabar tendo um efeito prejudicial na economia como um todo e nas condições de vida dos trabalhadores americanos em geral.

O fato é que os índices de popularidade de Trump têm caído constantemente, com a porcentagem de desaprovação subindo de 48% em fevereiro para 57% em setembro, aproximando-se lentamente da marca dos 60%.
Uma pesquisa AP-NORC publicada em 11 de setembro mostrou que apenas 39% dos eleitores aprovam a forma como ele tem conduzido a economia. E embora ele ainda seja popular entre os eleitores Republicanos, mesmo entre essa camada o índice de desaprovação está crescendo lentamente, tendo atingido os dois dígitos pela primeira vez.
Isso também explica por que ele está constantemente em busca de artifícios para se passar por alguém que defende o povo. Sua declaração mais recente foi, durante uma coletiva de imprensa, de que o paracetamol [Tylenol nos Estados Unidos] tomado por mulheres durante a gravidez aumenta significativamente o risco de autismo.
Nenhuma evidência médica séria foi apresentada para isso. Ele também alegou que as vacinas combinadas são prejudiciais, destacando a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola). Ele estava claramente explorando todas as teorias da conspiração que circulam nas redes sociais sobre essas questões. Ao fazer isso, ele adicionou sua “autoridade” como Presidente dos EUA a todas essas alegações infundadas.
Trump ainda permanece popular entre sua base principal, mas podemos ver nela os contornos de futuras fissuras em termos de classe. O fato de sua menor popularidade ser atribuída à sua gestão da economia mostra que os trabalhadores comuns não estão sentindo nenhum benefício real.
Também houve um claro clima de oposição ao envolvimento dos EUA em “guerras eternas”, vistas como consumidoras de enormes quantidades de recursos, e também à perda de vidas de tantos jovens soldados americanos ao longo dos anos. Mais uma vez, nesse aspecto, Trump falhou em cumprir.
E hoje à noite (terça-feira, 30 de setembro), os EUA correm o risco de outra paralisação do governo, já que o acordo necessário com os Democratas sobre um projeto de lei sobre gastos públicos parece improvável. Três paralisações desse tipo ocorreram em 2018, durante o mandato anterior de Trump. Normalmente, o que observamos é uma postura temerária de ambos os lados, seguida por um acordo relativamente rápido entre Democratas e Republicanos sobre quanto e o que deve ser cortado, o que permite a retomada dos gastos do governo.
Parece que, desta vez, no entanto, Trump está preparado para permitir um período prolongado de paralisação, que seus assessores usariam para identificar o que consideram “trabalhadores não essenciais”, que poderiam então ser demitidos de seus empregos. Isso se soma aos cortes que Trump já impôs este ano, incluindo ataques ao Medicaid – que é uma tábua de salvação para os de baixa renda – juntamente com a demissão de muitos funcionários públicos. Tudo isso está levando a uma redução nos serviços públicos, que afeta muito mais as pessoas na base.
Lenin gostava de um provérbio russo: “A vida ensina”. Os trabalhadores americanos viveram a experiência do governo Biden, que levou milhões de eleitores Democratas a se afastarem do Partido Democrata. À medida que Trump revela sua total incapacidade de resolver qualquer um dos problemas reais enfrentados pelos trabalhadores americanos, eles ficarão apenas com a retórica vazia que testemunhamos durante seu discurso na ONU.
Quando finalmente o compreenderem, serão forçados a embarcar no caminho da luta de classes. Os comunistas revolucionários têm plena confiança de que essa é a perspectiva que temos pela frente.
