Mais uma vez, os olhos do mundo estão fixos em cada palavra e gesto do homem na Casa Branca, Donald J. Trump. Com um terço de toda a Marinha americana reunida na região, e com Trump oscilando entre ameaças e apelos à negociação, a pergunta que não sai da boca de milhões é: haverá guerra com o Irã?
Donald Trump mobilizou a maior força militar estrangeira no Oriente Médio desde o início da invasão do Iraque em 2003. O porta-aviões USS Abraham Lincoln está estacionado no Mar Arábico e agora é acompanhado pelo maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald Ford, neste momento ancorado no Mediterrâneo.
O número de caças americanos na região – incluindo F-35, F-22, F-15 e F-16 – agora ultrapassa 200, juntamente com dezenas de aeronaves de reabastecimento em voo, além de aeronaves de comando e controle e de guerra eletrônica.
O sequestro de Maduro parece ter convencido Trump de que o imperialismo estadunidense pode simplesmente ditar as regras aos iranianos por meio da força militar. Mas a realidade é bem diferente. A agressão de Trump é um sinal de excesso de confiança.
O enorme esforço de mobilização, concebido como uma forma de forçar os iranianos a desistirem, não funcionou. Isso coloca Trump em um dilema: deixar os iranianos manterem seu programa nuclear e, assim, realizar uma retirada vergonhosa e custosa, ou apertar o gatilho e abrir a Caixa de Pandora do caos tanto no Oriente Médio quanto nos Estados Unidos.
“A ajuda está a caminho”?
Trump, juntamente com o restante dos belicistas dos partidos Republicano e Democrata, está usando cinicamente a crise social e econômica no Irã e o sofrimento de seu povo para justificar os objetivos imperialistas dos Estados Unidos na região. “A ajuda está a caminho”, ironizou Trump quando, em janeiro, o Irã foi abalado por enormes protestos.
Mas não nos esqueçamos de que a situação no Irã foi criada pelas políticas dos EUA e do próprio Ocidente, que asfixiaram a população por meio de sanções e outras táticas econômicas de guerra. Trump simplesmente viu uma oportunidade de tirar proveito da fragilidade do regime. Observem que toda menção aos protestos desapareceu de suas ameaças diárias. Agora, em vez disso, ele fala sobre o programa nuclear iraniano. Ambos são pretextos para o verdadeiro objetivo: a mudança de regime.
Sejamos claros. Se os EUA optarem por atacar o Irã, isso desencadeará um caos enorme com resultados imprevisíveis no próprio Irã e em toda a região, chegando até os próprios Estados Unidos.

Os Estados Unidos sempre deixaram um rastro de morte por onde passaram. Nações com ricas culturas milenares foram arrastadas para um estado de barbárie pelo imperialismo estadunidense, destruindo inúmeras vidas no processo. O povo iraniano só precisa olhar para o Iraque, o Afeganistão e a Líbia para ver o que a “ajuda” de Trump lhes oferecerá.
A hipocrisia do Ocidente não tem limites. Eles fazem um alarde sobre a suposta tentativa do Irã não apenas de adquirir uma arma nuclear, mas também de enriquecer urânio para fins civis. Alegam que o Irã é o “fator desestabilizador” em toda a equação, exigindo que se sentem à mesa de negociações. Mas o Irã nunca abandonou a mesa de negociações! Está simplesmente pedindo para ser reconhecido como uma potência no Oriente Médio, com seus próprios interesses soberanos.
Para os EUA e Israel, isso é inaceitável. O que eles exigem — não apenas que o Irã abandone seu programa nuclear civil, mas também que renuncie aos mísseis balísticos e cesse o apoio a aliados regionais — equivale a uma capitulação completa, a deixar o Irã indefeso. Deixando de lado as sutilezas democráticas da chamada “ordem baseada em regras”, são eles que lançam repetidamente ataques não provocados contra o Irã; são eles os agressores.
Além disso, é um segredo aberto que os EUA usaram informações obtidas por meio das inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para atacar as instalações nucleares do Irã. Desde então, as inspeções cessaram efetivamente.
Os europeus agora se juntam aos EUA no coro hipócrita, exigindo que os iranianos deem à AIEA acesso irrestrito a todas as instalações de enriquecimento no Irã. Grã-Bretanha, França e Alemanha reimpuseram sanções brutais, prejudicando ainda mais a economia iraniana e levando milhões de iranianos comuns ao desespero, acusando o Irã de violar o acordo nuclear JPOA (Plano de ação conjunto, em sua sigla em inglês) de 2015. “Esta é a ordem baseada em regras!”, bradam eles – convenientemente ignorando o fato de que os primeiros a abandonar esse acordo foram os americanos!
Plantando as sementes
O impasse atual já estava previsto após o bombardeio de Trump ao Irã em 22 de junho do ano passado. Como apontamos na época, o cessar-fogo não foi uma “vitória” para Trump, mas sim o reconhecimento de que a Guerra dos Doze Dias estava se voltando a favor do Irã, com as defesas israelenses ficando sobrecarregadas e debilitadas.
Na realidade, foi uma manobra para interromper as hostilidades antes que a situação mergulhasse no caos e arrastasse os EUA para um atoleiro prolongado. “Israel e Irã estão lutando há tanto tempo e com tanta intensidade que não sabem mais o que estão fazendo!”, esbravejou Trump ao descobrir que Israel havia tentado sabotar o cessar-fogo e continuar a guerra.
Depois, Trump vangloriou-se de que as bombas anti-bunker americanas tinham “obliterado completa e totalmente” o programa de enriquecimento de urânio do Irã. Parece que a história terminou…
Mas um relatório de inteligência vazado rapidamente deixou claro que os ataques atrasaram o programa nuclear do Irã em apenas alguns meses, na melhor das hipóteses.
Na época, Trump alegou que esses fatos eram simplesmente mentiras e enganos arquitetados pela cúpula do Partido Democrata. Agora, porém, enquanto negocia novamente com o Irã para desmantelar seu programa nuclear, ele efetivamente admitiu que esse programa está intacto. No mundo de cabeça para baixo do governo Trump, Steve Witkoff, o “enviado especial” de Trump, agora insiste que o Irã está “provavelmente a uma semana de ter material para fabricação de bombas em escala industrial”. Que bela demonstração de “um dos ataques militares mais bem-sucedidos da história”…
Trump esperava que o poder de um bombardeiro B-2, por si só, fosse suficiente para intimidar o Irã e forçá-lo a assinar um acordo desvantajoso. Em vez disso, a Guerra dos Doze Dias convenceu os iranianos de que demonstrar contenção ou ceder a Trump simplesmente incentivará mais agressões no futuro, até que ele consiga uma mudança de regime. A única chance é revidar, e revidar com força.
Steve Witkoff, entrevistado pela Fox News no sábado, explicou que Trump estava “curioso para saber por que eles não… Não quero usar a palavra capitular, mas por que eles não capitularam”. O plano de Trump de usar a diplomacia das canhoneiras para forçar todos os adversários dos americanos à rendição total provou ser completamente ingênuo. Como um bumerangue, sua própria bravata está voltando para atingi-lo em cheio.
Bilhões de dólares estão sendo investidos em uma mobilização gigantesca que supera em muito a concentração de tropas ao redor da Venezuela. Se Trump “amarelar”, como já foi repetidamente ridicularizado por fazer, isso não só representaria um dos blefes mais caros da história militar dos EUA (o destacamento já custou aos EUA mais de US$ 1 bilhão), mas também uma enorme humilhação política para ele pessoalmente. Além disso, representaria um golpe enorme para o prestígio do imperialismo estadunidense na região, tanto aos olhos de seus aliados quanto de seus inimigos.
Possíveis desfechos
O Irã saiu da Guerra dos Doze Dias com sua indústria e máquina de guerra intactas. Aceitou o cessar-fogo de Trump e concordou em lançar apenas um ataque simbólico, previamente combinado, para salvar as aparências, contra uma base aérea americana no Catar. Apesar das graves falhas de segurança, Israel não conseguiu derrubar o regime, e a breve troca de ataques mostrou que Jerusalém está longe de ser intocável.
Com o desenrolar da guerra, os estoques de mísseis THAAD e Patriot de Israel foram reduzidos, e a proporção de mísseis iranianos que penetraram o Domo de Ferro aumentou. Esse breve conflito consumiu 25% dos mísseis THAAD do mundo, e esses mísseis de defesa aérea são caros e demoram muito para serem reabastecidos. Enquanto isso, o Irã possui milhares, talvez até dezenas de milhares, de mísseis balísticos facilmente substituíveis.

Se uma nova guerra eclodisse, é evidente que os EUA e Israel teriam como objetivo destruir as plataformas de lançamento e as instalações nucleares iranianas, além de decapitar o governo o mais rápido possível. No entanto, o Irã é um país enorme, com bases de lançamento espalhadas por todo o território. Não seria possível eliminar toda a sua capacidade militar. Se uma mudança de regime não ocorrer rapidamente, ou se o Irã não se render em algumas semanas, a balança penderá para o lado iraniano, que poderia infligir enormes danos não apenas a Israel, mas também a bases americanas e talvez até mesmo a navios de guerra.
Para o regime iraniano, a única conclusão lógica a tirar da Guerra dos Doze Dias era que qualquer garantia futura de sua própria sobrevivência dependeria da obtenção de armas nucleares como forma de dissuasão o mais cedo possível.
Dentro do Irã, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e o clero estabeleceram que a melhor maneira de salvaguardar seu próprio poder é cerrando fileiras. A ala que foi fortalecida foi a de linha-dura, e as negociações servem para fortalecer essa ala contra os chamados “reformistas”, demonstrando precisamente sua futilidade e a agressão dos EUA e de Israel. O regime teve meses para se preparar para uma tentativa de ataque de decapitação, inclusive concedendo poderes de emergência aos governos locais.
O Irã não é a Venezuela. Está muito mais distante dos Estados Unidos e possui um exército muito mais forte, uma população maior, aliados na região e a capacidade de causar estragos econômicos na economia mundial fechando o Estreito de Ormuz. Embora a revolta de janeiro e a repressão violenta do regime tenham demonstrado que a situação interna no Irã está chegando a um ponto crítico, um ataque do imperialismo estadunidense e israelense apenas atenuaria as tensões internas temporariamente e uniria grande parte da população em torno do governo. Isso reforçaria o apoio à defesa do país contra as tentativas de subjugação pelo imperialismo ocidental.
Portanto, não há nenhuma garantia de que os EUA consigam derrubar o regime. Trump, que prometeu acabar com o envolvimento dos EUA em “guerras intermináveis”, pode descobrir que qualquer operação é vulnerável à chamada “expansão descontrolada da missão” – ou seja, os EUA podem ser arrastados cada vez mais para uma situação que não conseguem controlar.
As consequências mais reacionárias, sem dúvida, adviriam caso os EUA conseguissem derrubar o regime. Criaria um vácuo de poder dentro do Irã que poderia levar às consequências mais terríveis para o país, espalhando, sem dúvida, o caos por toda a região. Seria como a Guerra do Iraque elevada à décima potência. Além disso, assim como a Guerra do Iraque desestabilizou o equilíbrio de poder regional, a destruição do Irã desestabilizaria ainda mais o equilíbrio na região, lançando as bases para novos conflitos.
Explosões em casa
Ao contrário da Guerra do Iraque, que gozou de amplo apoio nos EUA após o 11 de setembro, Trump fez essa aposta arriscada que pode levá-lo a se envolver em uma grande guerra sem nenhum apoio real em seu próprio país. Atualmente, apenas 27% da população americana apoia um ataque ao Irã, um número que cairia rapidamente se um ataque se transformasse em uma guerra regional e as baixas americanas começassem a aumentar.
Um ataque ao Irã, com todas as consequências terríveis que isso acarretaria, desmantelaria ainda mais a base de apoio de Trump. O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) acaba de ser derrotado pelos trabalhadores de Minneapolis. Suas promessas não cumpridas sobre a divulgação dos arquivos de Epstein — e a implicação de que ele faz parte de um acobertamento da “classe Epstein” — estão fazendo com que elementos da classe trabalhadora, antes leais à sua base MAGA, se voltem contra ele. E, mais importante, suas afirmações de que a economia americana está prosperando — assim como Biden afirmou — estão fazendo com que cada vez mais pessoas percebam que ele também está completamente alheio à realidade dos americanos comuns. Atacar o Irã destruiria ainda mais sua imagem de um tipo diferente de presidente — um “presidente da paz”.

Independentemente de um ataque ao Irã ser iminente ou não, uma coisa é certa: o primeiro ano do segundo mandato de Trump adicionou muito mais material explosivo à sociedade americana e à política mundial. Uma intensificação ainda maior da luta de classes em todos os lugares está garantida. Mesmo dentro da própria Marinha dos EUA, o moral está, segundo relatos, em níveis baixíssimos. Muitos tripulantes do USS Gerald Ford ameaçam se demitir por causa dos banheiros defeituosos do navio.
Apesar de todo o imenso poderio militar que os EUA possuem, no fim das contas, eles não podem usá-lo como bem entenderem. Na situação atual, existem limites para o que os EUA podem fazer no mundo, tornando impossível simplesmente reverter o declínio americano.
Abaixo o imperialismo!
O verdadeiro objetivo dos EUA, independentemente de entrarem em guerra ou não, é manter seu domínio sobre o Oriente Médio. Trump e os israelenses acreditam ter o direito indiscutível de fazer o que bem entenderem para atingir esse objetivo, seja intimidando, bombardeando ou invadindo qualquer país, em qualquer lugar, a qualquer momento.
A fonte de reação e morte que é o imperialismo estadunidense precisa ser combatida pelos comunistas em todo o mundo. É o principal inimigo da classe trabalhadora mundial. Quanto à libertação dos povos da região, incluindo o Irã, essa é uma tarefa dos trabalhadores e dos pobres iranianos.
Durante décadas, o Ocidente construiu a imagem do Irã como a maior ameaça à sua segurança. Mas são eles que estão banhados no sangue da interferência imperialista e da guerra. Eles representam a maior ameaça à segurança da classe trabalhadora mundial. A luta contra eles e contra o sistema que representam é a única que pode libertar todos os povos oprimidos do mundo.
