Os EUA acompanham há cerca de duas décadas um escândalo recheado de revelações e reviravoltas envolvendo Jeffrey Epstein, que expôs os mecanismos profundos de uma elite não apenas nacional, mas global. Uma verdadeira classe Epstein sem fronteiras. Agora, testemunhamos a versão brasileira desse tipo de escândalo. Os protagonistas em nosso caso são o Banco Master e seu até então presidente, Daniel Vorcaro.
Praticamente todos os dias, desde novembro, redes sociais e portais de notícias no Brasil repercutem uma imensidão de novas informações. Uma quantidade com tanta desconexão que evidencia certos padrões de manipulação para desvio da atenção. Característica que aproxima ainda mais os dois casos, pois a divulgação dos “Arquivos Epstein”, por parte do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, tem sido marcada pelo que alguns consideram uma estratégia deliberada de ofuscação por volume e proteção seletiva.
Assim como no caso americano, o que se insinua em meio ao fluxo de notícias, ao jornalismo de fofoca e ao espetáculo moral das redes sobre o caso Master não é apenas um escândalo isolado ou de apenas uma maçã podre. Ao conectar as informações disponíveis até o momento, surge um vislumbre cada vez mais claro da estrutura, do funcionamento e da psicologia de nossa própria classe dominante. Começamos então por organizar um dossiê com o que se sabe até agora, concentrando nas questões mais importantes e esboçando nossas primeiras conclusões.
Antes do Master – o Banco Máxima
O escândalo brasileiro tem dois protagonistas – Master e Vorcaro – que, embora tratados praticamente como sinônimos nos últimos meses, possuem natureza jurídica e trajetórias distintas. O Banco Master já tinha mais de 50 anos de existência, tendo nascido em 1974, no Rio de Janeiro, originalmente como Máxima Corretora. Seu presidente durante a maior parte de sua atividade foi o banqueiro paulistano Saul Sabbá.
Ao longo dessa primeira fase, a instituição atuou com o financiamento para construção e aquisição de imóveis, além de empréstimos para pequenas e médias empresas, especialmente durante a Ditadura Militar. Era considerado um banco pequeno. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, contudo, Sabbá participou da privatização da Vale e da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Em 2016, o Escândalo dos Panama Papers revelou que nessa época, entre 1997 e 2001, Sabbá e outros diretores abriram uma offshore nas Bahamas por meio do Escritório Mossack Fonseca. Essa empresa foi aberta três meses antes do lançamento do Programa Nacional de Desestatização (PND). Trata-se de um forte indício da ocultação de patrimônio e movimentação de recursos não declarados.
Na época em que esse escândalo veio à tona, a instituição de Sabbá, que desde os anos 1990 operava com o nome Banco Máxima, já atravessava uma crise. O desaquecimento da economia brasileira, no período seguinte à crise mundial de 2008, acarretou impactos no mercado imobiliário e levou o banco de Sabbá a uma situação de crise entre 2013 e 2016.
O envolvimento de Sabbá e do Banco Máxima na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da JBS em 2017 agravou ainda mais a reputação de ambos. O Banco Central já havia apontado índices de capitalização abaixo do mínimo exigido. Na prática, a instituição estava quebrada e na iminência de ser liquidada.
Sabbá acabou de firmar, em fevereiro de 2026, um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), admitindo formalmente ter cometido irregularidades nessa época na gestão do antigo Banco Máxima. Pelo acordo, ele livrou-se de uma condenação em troca de pagar uma espécie de multa de R$ 100 mil e prestar serviços comunitários.
Esse acordo ocorreu no âmbito de um processo iniciado em 2021. Nele, o Ministério Público Federal acusava Sabbá de ter realizado manipulação contábil para inflar artificialmente os ativos do banco para esconder que a instituição não tinha o capital mínimo exigido pelo Banco Central. Além disso, utilizava metodologias irregulares para dissimular prejuízos.
As mesmas práticas de maquiagem financeira e engano, agora investigadas sobre o Master, foram utilizadas por Sabbá. Se os critérios para a liquidação de bancos no Brasil fosse técnico, a história do Banco Máxima deveria ter se encerrado antes de Bolsonaro assumir a presidência. Prevaleceu, porém, a influência política de Sabbá, figura carimbada da elite carioca e paulistana e envolvido em seus negócios e fluxos financeiros.
Dessa forma, o Banco Central e as autoridades da época em que Michel Temer estava à frente do Governo Federal preferiram fazer vistas grossas e permitiram que a instituição continuasse funcionando, e fizeram valer a venda consumada em 2018.
Ascensão e queda do império Banco Master
Daniel Vorcaro aparece como um investidor nessa época, vindo do setor imobiliário de Minas Gerais, que negocia a entrada de capitais, traz novos sócios e injeta recursos para limpar o balanço. Investigações recentes indicam que todo esse processo de transição e venda foi repleto de irregularidades e falsificações.
Revelações mostram que Vorcaro valeu-se da fraude e do engano desde o início para comprovar capacidade de adquirir o Banco Máxima. É o que aponta a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga o patrimônio do Grupo Multipar, de onde veio o capital original de Vorcaro.
O esquema seria baseado em inflar artificialmente a avaliação financeira do grupo por meio da supervalorização de imóveis. Acredita-se que terrenos e propriedades do grupo tiveram seus valores de mercado registrados muito acima do real, sendo vários deles vazios ou simples loteamentos em Minas Gerais, tudo isso para justificar o lastro financeiro necessário para a compra das ações do banco.
Outra linha de investigação argumenta que o capital usado na compra era fruto de uma triangulação financeira, aportando recursos de outros negócios do grupo. Essa frente policial ganhou força com o bloqueio judicial de R$ 2,2 bilhões em contas secretas ligadas ao pai de Vorcaro em janeiro de 2026.
Fato é que quando assumiu a liderança da instituição, em 2018, Vorcaro promoveu a mudança de nome para Banco Master assim que possível. Uma tentativa de apagar a imagem negativa da instituição. A partir de então, promoveu uma estratégia agressiva de crescimento que fez com que o Banco Master figurasse entre os mais relevantes do sistema financeiro.
Notícias e reportagens recentes trouxeram à tona que, nos primeiros anos da gestão de Vorcaro, o Master utilizou-se do Fundo Garantidor do Crédito (FGC) como uma isca para atrair recursos para o banco. Passou assim a oferecer títulos (CDBs) com altas taxas de retorno, de 120% ou 130% do CDI.
Tratava-se de um esquema de terceirização de riscos, que se valia do FGC para uma finalidade para a qual não havia sido projetado. Porém, dessa forma atraiu-se prefeituras, fundos e pequenos investidores vendendo a ilusão de que, se tudo desse errado, o Fundo Garantidor de Crédito pagaria a conta. Uma cobertura, no entanto, válida apenas para pequenos investidores.
Além disso, o crescimento inicial do Banco Master baseou-se em uma espécie de “lavanderia” corporativa. Passou-se a emitir carteiras de crédito sem lastro real, usando empresas de fachada e operações cruzadas para mascarar a saúde financeira do banco.
Uma nova fase do Banco Master começou em fevereiro de 2024, quando adquiriu-se o banco digital Will Bank. A partir de então, a estratégia de camuflagem financeira alcançou outro patamar. Utilizando uma fintech com cerca de 12 milhões de clientes das classes C e D, com forte presença no Nordeste, Vorcaro revestiu seu banco de “moderno e inovador”.
Investigadores classificam essa operação como um instrumento para um sofisticado esquema de pirâmide financeira, servindo para rolar as dívidas impagáveis do grupo. Vorcaro também mantinha relações estreitas com o sistema financeiro obscuro internacional, segundo relatórios divulgados neste mês de março pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).
Os dados revelaram o envio de mais de R$ 700 milhões para contas no exterior em meio à crise de 2025. Entre janeiro e julho do ano passado, o banqueiro utilizou holdings patrimoniais como a Titan Capital Holding e fundos como o Krispy, baseados nas Ilhas Cayman. Esse foi um período em que o banco amargava prejuízos e seu presidente tentava vender a instituição para o Banco de Brasília.
Relatórios investigativos também levantam suspeitas de que fundos de investimento utilizados nas operações do grupo no exterior teriam recebido injeção de capital de narcotraficantes internacionais. Tudo isso ainda soma-se ao apelido que a instituição recebeu em Brasília de “Banco do Centrão”, sendo o Master um facilitador dos fluxos financeiros complexos para a elite política sob a cobertura da “inovação digital”.
O começo do fim do Banco Master ocorreu no início de 2025, marcado pelo desespero e pela busca de um “bote salva-vidas” com dinheiro público. A fraude começou a ficar insustentável. O volume de créditos podres chegou a R$ 12 bilhões e a dificuldade de atrair novos capitais para rolar as dívidas tornou impossível continuar escondendo o mecanismo.
A solução encontrada por Vorcaro e seus cúmplices foi tentar desovar o banco para outras instituições. O alvo central escolhido foi o Banco de Brasília (BRB). Em março de 2025, Daniel Vorcaro e o governador Ibaneis Rocha planejaram a absorção do Master pelo Banco de Brasília (BRB) por R$ 2 bilhões.
A manobra contou com o envolvimento direto do presidente do banco, Paulo Henrique Costa. No entanto, a operação foi barrada em setembro de 2025 pelo Banco Central, que identificou os números reais da instituição. Mesmo sem a venda, o BRB adquiriu R$ 12 bilhões em créditos podres de Vorcaro, gerando um prejuízo estimado de R$ 5 bilhões.
A situação evoluiu para um colapso histórico, em novembro de 2025, com a intervenção do Banco Central e a liquidação extrajudicial do Master e do Will Bank.
Como resultado, o FGC estima um desembolso recorde de ao menos R$ 47,3 bilhões para cobrir o rombo deixado. Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, em entrevista para Datena dia 10 de março, o prejuízo total já é estimado em cerca de R$ 59 bilhões. O valor converteu a quebra do Master/Will Bank no maior rombo da história do sistema financeiro brasileiro, superando a quebra do Banco Nacional em 1995, cujo prejuízo hoje corresponderia a R$ 32,5 bilhões (em valores corrigidos pelo IPCA).
Um “outsider” no sistema financeiro
Para entender como o Banco Master se tornou o epicentro desse terremoto, é preciso antes decifrar a figura de seu presidente. Vorcaro não nasceu no berço do sistema bancário tradicional. Sua trajetória começou em Minas Gerais, forjada no setor imobiliário. Um mercado onde o valor, muitas vezes, reside na capacidade de vender uma promessa sobre um terreno ainda vazio.
O próprio Daniel definia-se como um “outsider” na Faria Lima e narrava uma origem humilde. A realidade é que sua família fez fortuna a partir de empresas constituídas nos anos 1970 e 1980, em especial a Vorcaro Imóveis e a Centro Sul Empreendimentos, lucrando com a expansão urbana de Belo Horizonte e região metropolitana.
Com o tempo, o Grupo Multipar – liderado por Henrique Vorcaro, pai de Daniel – expandiu-se e, nos últimos 15 anos, diversificou-se para a área de saúde, gestão de cemitérios, setor funerário e também educação, mineração e tratamento de resíduos. Henrique Vorcaro era dono do Hospital Promed, por exemplo, vendido recentemente para a rede Hapvida em uma transação estimada em cerca de R$ 1,5 bilhão.
Por ocasião da Copa do Mundo sediada no Brasil em 2014, Daniel aos 21 anos e seu pai tentaram construir um mega-hotel de luxo de 37 andares em Belo Horizonte, com investimento de R$ 200 milhões. Contudo, a obra não foi concluída, sendo considerada um fracasso local, envolvendo problemas de falta de recursos e questões de alvará. O episódio gerou o “Elefante de Vidro”, um símbolo de abandono na capital mineira.
O “outsider” Daniel trouxe para o setor financeiro uma lógica agressiva de alavancagem típica de um especulador: a ideia de que o capital não precisa ser seu, desde que você controle o fluxo e a narrativa. Quando assumiu as ruínas do Banco Máxima, não o fez como um gestor de riscos, mas como quem entende que, entre a classe Epstein, por meio de seu convívio entre os integrantes do topo da pirâmide social, a confiança é uma mercadoria comprada com as conexões certas.
Enquanto o banco acumulava passivos, as notícias recentes evidenciam que Vorcaro utilizou uma estratégia de “soft power” agressivo baseado em uma imagem de prosperidade e solidez financeiras, de um império intocável, para continuar atraindo ativos. As investigações recentes da Polícia Federal na Operação Complience Zero, aprofundadas pela quebra de seus sigilos telemático e bancário, revelam como funcionava essa dinâmica.
Como cartão de visitas de seu poder, Vorcaro adquiriu enquanto pessoa física o edifício que abriga o Hotel Fasano Itaim, um dos endereços mais caros e exclusivos de São Paulo. Em 2023, a família Vorcaro adquiriu uma mansão na Flórida por cerca de R$ 180 milhões, de um empresário brasileiro fundador da Wise Up. Vorcaro também era proprietário de uma cobertura triplex de altíssimo luxo na zona sul de São Paulo, com 12 vagas de garagem.
A venda da imagem do banco, demonstração de prestígio e captação de investidores era realizada, por exemplo, com o patrocínio do evento Summit Valor Econômico Brazil-USA, realizado em Nova York, em maio de 2024. Na oportunidade, Vorcaro palestrou e participou de jantares ao lado de executivos de gigantes do sistema bancário internacional como J.P. Morgan, Bank of America e a instituição bancária suíça UBS.
A extravagância como uma demonstração calculada de solvência perante a elite econômica e política está expressa na festa de aniversário dos 15 anos de sua filha. A celebração ocorrida em 2022 foi realizada em uma estrutura de 3 mil metros quadrados, erguida exclusivamente para a ocasião em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte.
Seu custo total comprovado pela PF foi de US$ 3,2 milhões (aproximadamente R$ 16 milhões). O evento envolveu o fretamento de jatos executivos para o transporte de convidados e políticos de São Paulo, de Brasília e de bases regionais importantes como Juiz de Fora, que contaram com a reserva integral de dois hotéis de luxo para acomodação.
Apenas o projeto cenográfico, que incluiu a importação de toneladas de flores colombianas e a montagem de um sistema de som e iluminação de padrão internacional, consumiu R$ 4,5 milhões. O ápice da festa contou com apresentações exclusivas do duo estadunidense The Chainsmokers e de nomes de peso da cena eletrônica nacional, como Alok, Dennis DJ, Dubdogz e KVSH.
Os cachês somados dessas atrações ultrapassaram a marca de US$ 1,5 milhão, pagos antecipadamente por meio de remessas via offshores. Entre os gastos documentados nos relatórios do COAF, constam faturas de grifes de alta-costura europeias para a confecção dos vestidos e pagamentos a joalherias por brindes de alto valor distribuídos aos convidados.
Investimentos culturais e esportivos também eram parte de uma sofisticada engrenagem de limpeza da imagem pública do banqueiro e de seus negócios. Por exemplo, o banqueiro entrou no restrito clube de bilionários donos de times de futebol, ao adquirir cerca de 27% da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) do Clube Atlético Mineiro, o “Galo”.
Vorcaro passou também a comportar-se como um mecenas e a atuar no mercado de arte de elite. Frequentava galerias famosas mundialmente e casas de leilão e adquiriu obras de Pablo Picasso, Andy Warhol e Jeff Koons, que decoravam propriedades no Brasil e exterior.
Além disso, a injeção de capital do conglomerado foi direcionada ao patrocínio de equipamentos culturais por meio de empresas associadas ao ecossistema do banco. Foi o caso da REAG Investimentos, gestora financeira responsável por administrar fundos ligados à família Vorcaro e ao Grupo Multipar.
No início de 2024, a REAG adquiriu as cotas de patrocínio do tradicional Cine Belas Artes, na cidade de São Paulo, que passou a operar oficialmente sob o nome REAG Belas Artes. O contrato, no entanto, foi interrompido de forma abrupta e a marca foi retirada da fachada do cinema repentinamente. O movimento coincidiu exatamente com a semana em que Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal e as contas da REAG e do grupo sofreram bloqueio judicial de R$ 2,2 bilhões.
O “estilo de vida Master” era um premeditado sistema de construção de marca pessoal para transmitir credibilidade e abrir caminho entre a elite global. Em um intervalo de dois anos e meio, entre fevereiro de 2022 e agosto de 2025, Vorcaro gastou mais de R$ 258 milhões apenas na aquisição de aeronaves particulares, entre elas o Gulfstream G700, o mesmo modelo utilizado por Elon Musk e Jeff Bezos.
Foi ao tentar utilizar uma dessas aeronaves que Vorcaro recebeu voz de prisão rodeado por 15 agentes da PF em São Paulo, em novembro de 2025. Antes de sua queda, Vorcaro também encomendou a construção de um superiate na Europa. Trata-se de um típico padrão de lavagem e ocultação de patrimônio entre os bilionários. A embarcação, avaliada em cerca de 100 milhões de euros, ficou pronta. Porém, não pode ser desfrutada porque o empresário no momento se encontra no sistema prisional federal.
Cada nova revelação evidencia uma autoimagem de Daniel como um ser todo poderoso. Nesse e em vários outros sentidos, Vorcaro compartilhava uma moral similar àquela evidenciada pelos poderosos expostos pelos Arquivos Epstein. Assim como eles, o banqueiro entendia-se como acima de qualquer controle ou restrição. Ao contrário de exceção, era um típico membro da classe Epstein.
O “estilo de vida Master”
Jeffrey Epstein mantinha sua “Ilha do Prazer” nas Ilhas Virgens Americanas como o centro gravitacional de sua rede de abusos e influência. Daniel Vorcaro compreendeu que, no Brasil, a ilha é um conceito móvel. O “estilo de vida Master” não precisava de coordenadas geográficas estanques. Ele se manifestava em jatos particulares cruzando o país e oceanos e no interior de propriedades paradisíacas exclusivas.
Um caso simbólico foi uma festa privada realizada entre 6 e 10 de setembro de 2023, na Sicília (Itália). De acordo com a Polícia Federal, os custos da celebração ultrapassaram a marca dos US$ 40 milhões. O evento contou com um show privado do Coldplay, com um cachê astronômico de US$ 11,4 milhões. Também apresentaram-se Andrea Bocelli, Michael Bublé e o DJ David Guetta, com um pagamento de mais de US$ 17 milhões para os músicos. Seus convidados hospedaram-se em hotéis de luxo alugados integralmente.
Outro exemplo foi uma festa de Halloween de luxo também em 2023, realizada em São Paulo. Dessa vez os gastos ultrapassaram US$ 264 mil, recheada de convidados da alta sociedade e figurinos luxuosos. Ainda no ano passado, Vorcaro gastou cerca de US$ 1,6 milhão na produção, coordenação e controle do seu próprio camarote VIP na Sapucaí, durante o Carnaval do Rio de Janeiro. Uma estratégia clássica de network entre a elite.
Diálogos interceptados pela PF entre Vorcaro e sua então namorada revelaram que o banqueiro utilizava festas com garotas de programa como estratégia de networking. Em uma das mensagens, ele admitiu ter organizado eventos com cerca de 300 garotas de programa. Sua justificativa era que a prática não era traição, mas sim parte fundamental de seu “business” para fechar negócios com políticos e empresários.
Um vazamento recente das mensagens de seu celular revelou como Vorcaro conectava o dinheiro da Faria Lima, o poder político de Brasília e a caneta da casta judiciária. Tratava-se de um ecossistema de favores, informações privilegiadas e decisões de Estado negociadas longe dos olhos do público, sob uma cortina de luxo extremo.
Para garantir a segurança de seus convidados, Vorcaro aprendeu com os Arquivos Epstein e instituiu uma regra de ouro: nenhum convidado podia entrar com o celular. Assim, estabelecia-se um ambiente de impunidade áudio-visual onde as negociações (e a diversão) poderiam acontecer sem os limites do espaço público.
Em uma de suas festas, realizadas em Trancoso (BA), em outubro de 2022, a proprietária da mansão alugada por Vorcaro enviou mensagens furiosas ao corretor reclamando que o banqueiro havia “enchido a casa de putas” e amigos “desde antes de ontem”, causando transtornos no condomínio.
O já citado evento tradicional em Nova York, conhecido como “Semana do Brasil”, que reúne políticos e empresários, tinha a festa de Vorcaro como o “after” mais disputado. Os ambientes paralelos eram regados a bebidas exclusivas e modelos estrangeiras e serviam de palco para alinhar os discursos que seriam feitos nos painéis oficiais do dia seguinte.
Assim como no escândalo americano, a exploração e a mercantilização dos corpos de mulheres aparecem aqui não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de cumplicidade, chantagem velada e aliança inquebrável entre os donos do poder.
Esse ambiente de convivência não era gratuito ou mera extravagância. Vorcaro pagava a conta do luxo, mas a elite política devolvia em proteção e legislação. Em uma conversa de 2024, o banqueiro comemorou com a namorada um projeto de lei apresentado ao Senado que visava aumentar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Segundo ele, o projeto era uma “bomba atômica no mercado financeiro” que “ajudaria os bancos médios [como o Master] e diminuiria o poder dos grandes”.
A apreensão do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal materializou a extensão de sua rede de proteção, revelando uma lista de contatos que operava como um verdadeiro organograma do Estado burguês. O aparelho abrigava o contato direto de cinco expoentes do topo da casta judiciária: três ministros ativos do Supremo Tribunal Federal (Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques), o ex-ministro da corte Ricardo Lewandowski e o ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A garantia de impunidade do esquema financeiro dependia desse acesso irrestrito aos gabinetes e residências oficiais da República. No Senado Federal, a agenda do ex-banqueiro abarcava ao menos cinco senadores de legendas distintas: o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), além de Carlos Viana (Podemos-MG), Eduardo Braga (MDB-AM), Irajá Abreu (PSD-TO) e Ciro Nogueira (PP-PI). Este último, tratado por Vorcaro em mensagens como “um dos meus grandes amigos de vida” e autor da emenda que visava inflar a cobertura do FGC.
A capilaridade do Banco Master na Câmara dos Deputados era igualmente suprapartidária. Os registros técnicos extraídos de seu celular contabilizam 18 deputados federais (entre titulares atuais e recentes), encabeçados pelo atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e por seu antecessor, Arthur Lira (PP-AL). A radiografia partidária desses 18 parlamentares os distribui da seguinte forma: 5 nomes do PL, 4 do PP, 3 do PSD, 2 do Republicanos, 2 do Novo, 1 do PSDB e 1 do União Brasil.
Longe de serem contatos protocolares, as quebras de sigilo telemático comprovam que Vorcaro era recebido em jantares privados na residência oficial da Presidência da Câmara e do Senado. Esse ecossistema englobava ainda chefes de Executivos estaduais, com a presença constante na agenda de governadores como Cláudio Castro (PL-RJ) e Ibaneis Rocha (MDB-DF), sendo este o principal fiador político nas negociações com o BRB.
Durante o governo de Jair Bolsonaro (período em que ocorreu a estruturação das fraudes da instituição), Vorcaro mantinha contato estreito com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), então ministro da Casa Civil. Além do alinhamento político, o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, revelou que Vorcaro realizou um depósito de R$ 3 milhões diretamente na conta particular do ex-presidente Bolsonaro.
A integração da esquerda à classe Epstein
A transição para o governo de Lula não alterou o fluxo de influência do banqueiro. Mensagens interceptadas revelam que Vorcaro, acompanhado do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e do ex-sócio Augusto Lima, reuniu-se presencialmente com Lula no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial. Participaram dessa reunião o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e três ministros. Mantega nesse momento era consultor do Master, com salário mensal de R$ 1 milhão.
Na reunião realizada fora da agenda oficial em 4 de dezembro de 2024, além do presidente Lula e de Gabriel Galípolo, participaram também outras figuras centrais do gabinete. Compareceram Rui Costa (Casa Civil), que atuou como interlocutor devido à relação histórica com os executivos na Bahia, Alexandre Silveira (Ministro de Minas e Energia) e Marco Aurélio Santana Ribeiro, chefe de gabinete pessoal de Lula.
De acordo com a apuração de várias fontes jornalísticas, o encontro ocorreu para Vorcaro reclamar sobre uma suposta perseguição que o banco sofria, para se queixar sobre a concentração do mercado bancário e para pedir conselho a Lula a respeito da venda do Banco Master ao BTG Pactual. Em diálogos de WhatsApp com sua namorada, Vorcaro classificou o encontro com o atual presidente como “ótimo”. Nas mesmas conversas, referia-se a Bolsonaro com os termos “beócio” e “idiota”.
As informações sobre o caso Master que vieram à tona também permitem decifrar como a esquerda que optou por gerenciar o sistema está intimamente corrompida pela classe Epstein. O caso de Jaques Wagner, líder do governo no Senado, é especialmente ilustrativo.
Wagner estabeleceu relações com Augusto Lima, que viria a ser CEO do Master, quando Wagner ainda era Secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia. A aproximação aconteceu no contexto do processo de privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que incluía a rede de supermercados Cesta do Povo.
Augusto Lima arrematou o ativo e, a partir dele, criou o Credcesta, um cartão de benefício consignado operado pelo Banco Master. Wagner e Lima tornaram-se amigos desde então. É Wagner o apontado por ter ajudado Augusto Lima a contratar o ex-ministro Ricardo Lewandowski por R$ 5 milhões, como consultor do Banco Master.
Já Rui Costa, que era o governador da Bahia quando aconteceu a venda da Cesta do Povo para Augusto Lima, participou da reunião realizada fora da agenda no Planalto. O atual Ministro da Casa Civil argumenta que o encontro foi estritamente “institucional” e que um governo democrático precisa estar aberto a ouvir empresários.
De fato, a agenda pública do Palácio do Planalto em relação a banqueiros registra que, somente em 2023, o presidente Lula recebeu representantes de instituições financeiras em ao menos 15 ocasiões formais. Entre os encontros de maior destaque, citam-se as reuniões com Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira dos Bancos (FEBRABAN), e CEOs de bancos como Itaú, Bradesco e Santander, ocorridas em momentos estratégicos de discussão sobre a taxa Selic e o novo Arcabouço Fiscal.
Igrejas, dinheiro e influência política
Também a religião foi utilizada por Vorcaro como vetor de expansão e blindagem patrimonial. O histórico familiar vincula o banqueiro à Igreja Batista da Lagoinha, onde sua irmã, Natalia Vorcaro Zettel, exerce o cargo de pastora. O próprio Daniel Vorcaro, entre 2008 e 2009, apresentou o programa “Supersônica” na Rede Super, emissora de televisão adquirida por seu pai e vinculada à igreja da família.
O COAF e a PF investigam se a estrutura religiosa forneceu rotas de escoamento de capital protegidas por imunidade tributária, operando como uma engrenagem paralela de lavagem e de lobby no Congresso Nacional. Os dados das investigações sugerem que essa conexão foi monetizada e estruturada financeiramente. Tese reforçada pelo fato de o ecossistema do Master envolver a criação do banco digital Clava Forte, ligado à referida igreja.
O rastreamento de operações atípicas identificou, por exemplo, o repasse de R$ 1,9 milhão da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA) para empresas intermediárias. Na sequência, destinaram os valores à Fundação Boas Novas e a familiares do deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM), membro proeminente da bancada evangélica. A relação entre o capital financeiro e a política profissional pode ter tido implicações concretas na logística de campanhas eleitorais, a serem confirmadas pelo desfecho das quebras de sigilo bancário da Operação Complience Zero.
Em outubro de 2022, na reta final da disputa presidencial, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o pastor Guilherme Batista, vinculado à Igreja Batista da Lagoinha, utilizaram um jato executivo Embraer Phenom 300 pertencente à Prime You, empresa de táxi aéreo da qual Daniel Vorcaro era sócio.
A aeronave foi empregada por dez dias em uma caravana política que percorreu nove estados e o Distrito Federal. A estrutura financeira da família consolida essa operação de influência: Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e marido da pastora Natalia Vorcaro, figurou como o maior doador individual das campanhas eleitorais de Jair Bolsonaro (PL) e do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) naquele ano.
A revelação da natureza e dos mecanismos internos dessa rede mostra que uma grande semelhança com Epstein está na estrutura de seus esquemas. Vorcaro construiu uma engrenagem social que envolvia membros da elite econômica, expoentes da elite política e figuras do topo da casta judiciária.
Uma elite contra as leis
À semelhança dos Arquivos Epstein, o caso do Banco Master revela que a classe dominante não apenas faz uso de tráfico de influência no que diz respeito às leis e ao Estado, como também infringe descaradamente a legislação, o que escancara que ela própria constitui o verdadeiro crime organizado. A documentação contábil do Banco Master divulgada recentemente reforça uma interpretação de que não há separação entre o mercado financeiro regulado e a economia do crime organizado.
Os relatórios de inteligência financeira confirmam que a instituição, quando ainda operava como Banco Máxima, realizou 331 operações de câmbio irregulares que totalizaram US$ 531 milhões (cerca de R$ 2,8 bilhões). Entre dezembro de 2018 e abril de 2021, esses recursos foram remetidos para uma offshore em Miami controlada pela OWS, empresa investigada internacionalmente por lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Sob a gestão de Roberto Campos Neto, o Banco Central operou em modo de negligência sistêmica, permitindo que o Master operasse apesar de índices de capitalização alarmantes. A autonomia da autarquia em 2021 foi instrumentalizada por Vorcaro para “comprar” influência interna. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que Vorcaro visitou o BC 24 vezes nesse período.
A 3ª fase da Operação Compliance Zero revelou a cooptação de ex-servidores do órgão, incluindo Belline Santana. A ex-chefe de Supervisão Bancária supostamente prestava consultoria privada a Vorcaro e revisava documentos do banco antes de serem enviados aos reguladores, burlando os mecanismos de controle da autarquia.
A Operação Compliance Zero apontou que Vorcaro ocultou R$ 2,2 bilhões, desviados das vítimas do Master, na conta de seu pai Henrique. O montante era administrado pela gestora CBSF DTVM (antiga REAG), alvo da Operação Carbono Oculto, da PF, justamente por investigar a lavagem de ativos do PCC em fundos de investimento.
O mesmo padrão de financiamento ilícito é investigado no aporte de R$ 300 milhões feito por Vorcaro para adquirir 27% da SAF do Clube Atlético Mineiro, por meio do fundo Galo Forte FIP, cujos recursos também estão sob escrutínio por conexões com o PCC. A sobreposição de CNPJs e a circulação do capital são fortes indicativos de que o sistema financeiro formal e o crime organizado integram a mesma cadeia de acumulação de capital fraudulento.
Os padrões criminosos do Banco Master atravessaram as gestões do Banco Central. Já sob a presidência de Gabriel Galípolo, indicado por Lula, que assumiu em 2025, o BC também manteve uma postura conivente, permitindo que o esquema Master sangrasse o sistema até um certo limite em 18 de novembro de 2025, quando houve uma intervenção tardia.
Já sob a gestão de Galípolo, Vorcaro realizou também diversas transações bilionárias envolvendo o banco BTG Pactual e seu dono, André Esteves. Em maio de 2025, o BTG Pactual comprou um pacote de ativos pessoais de Vorcaro avaliado em cerca de R$ 1,5 bilhão. O pacote incluía o edifício Hotel Fasano Itaim, precatórios e ações de empresas como Light, Méliuz e Pão de Açucar.
A movimentação serviu a Vorcaro para capitalizar o Banco Master temporariamente, e dar tempo para que o banqueiro avançasse na tentativa de viabilizar a venda da instituição ao BRB. Essa operação teve autorização do Banco Central e do FGC para acontecer. Ou seja, o mesmo Galípolo e sua equipe operaram como quem vê a raposa correndo em direção ao galinheiro e não enxerga nenhuma anomalia nesse procedimento.
Revelações recentes no âmbito da CPMI do INSS mostram que, nesse meio tempo, o banqueiro André Esteves tentava ele próprio adquirir o Master. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram que Esteves tentou convencer Vorcaro a desistir da parceria do BRB, pois o BTG teria uma oportunidade divina e que ele deveria “agradecer a Deus” pela oferta.
Após ser preterido por Ibaneis, Esteves não aceitou bem a recusa. De acordo com Vorcaro, o BTG estaria “plantando notícias” negativas na imprensa durante aquele período com o objetivo de desestabilizar o Master e baixar seu valor no Mercado.
Seja como for, as negociações entre o Master e o Banco de Brasília avançaram até 3 de setembro, quando o BC vetou a venda ao constatar uma fraude de R$ 17 bilhões e decidiu não ignorá-la. Entre esse momento e a liquidação efetiva do banco em 18 de novembro passaram-se 77 dias. A demora permitiu que o banco continuasse captando recursos até o último momento, o que ampliou massivamente o rombo final garantido pelo Estado.
Na noite de 17 de novembro de 2025, horas antes da intervenção definitiva do Banco Central, o Grupo Fictor anunciou a compra do controle total do Banco Master por R$ 3 bilhões, prometendo renomear a instituição para “Banco Victor”. O anúncio ocorreu simultaneamente à prisão de Daniel Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos pela Operação Compliance Zero.
A proposta foi classificada por investigadores como uma manobra de manipulação de expectativas para simular solvência enquanto o grupo operava a pulverização acelerada de ativos líquidos para trusts nas Ilhas Cayman e no estado de Delaware (EUA). O movimento permitiu que investidores institucionais tentassem liquidar posições antes do rombo oficial consolidado.
Todas essas manobras e operações indicam que o sistema financeiro opera como uma verdadeira organização criminosa. Buscam formas de infringir a lei, corromper agentes públicos e repassar o máximo de prejuízo para a sociedade. Tudo porque os banqueiros obedecem a uma lei acima de todas, a lei do lucro e da busca por maximizá-lo. Esse modus operandi se impõe aos banqueiros mesmo depois que eles são pegos em suas vigarices pela polícia e pelos órgãos públicos.
Revelações oriundas do aprofundamento da Operação Compliance Zero, tornadas públicas no início de março de 2026, demonstram que a infração às leis continuou mesmo após a primeira prisão de Vorcaro em 2025. É o que apontam relatórios recentes do COAF.
De acordo com o órgão, a família Vorcaro realizou a pulverização acelerada de ativos líquidos para os mesmos trusts que já haviam começado a transferir seus capitais antes da primeira prisão de Daniel. Dados telemáticos comprovaram que, mesmo monitorado por tornozeleira eletrônica, o ex-banqueiro continuava a despachar ordens financeiras e a coordenar a ocultação de patrimônio no exterior por meio de interlocutores e advogados.
O episódio demonstrou que as medidas cautelares e o controle do Estado burguês mostraram-se inócuos e permissivos diante de uma arquitetura criminal estruturada para proteger os donos do poder. A descoberta de que o aparato de lavagem permaneceu ativo fundamentou a recente revogação da prisão domiciliar de Vorcaro e sua transferência de volta ao sistema prisional federal fechado.
Toda essa troça da elite sobre a polícia, as leis e a justiça no Brasil é reforçada pela conduta do próprio Governo Federal diante do caso. Desde o primeiro momento, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tentou minimizar a magnitude da tragédia e tratar o caso como um ponto fora da curva. Tratou-se de um comportamento premeditado para evitar uma corrida bancária e um efeito dominó que contaminasse a confiança em outros bancos.
O Governo Federal classificou o colapso como um evento restrito ao FGC, afirmando que não haveria risco sistêmico ao setor bancário. A postura de acalmar os mercados financeiros ignorou o prejuízo social acumulado pelos milhões de clientes das instituições e os efeitos sobre as aposentadorias e pensões de outros milhares de trabalhadores.
Foi também Haddad, na condição de presidente do Conselho Monetário Nacional (CMN), que deu aval ao plano que permite aos bancos anteciparem suas contribuições ao FGC para cobrir o rombo de mais de R$ 47 bilhões.
Esse é o mesmo ministro “pulso firme” no que diz respeito a controle de gastos sociais e reivindicações do funcionalismo público. Agora quando a agenda diz respeito a banqueiros, não só as portas estão sempre abertas como também há uma fantástica agilidade institucional para liberar dezenas de bilhões em liquidez estatal para salvar o sistema bancário do “contágio”.
As declarações do Governo Federal omitem que a dita “solidez” do sistema financeiro repousa sobre a base de um jogo especulativo global. Nele, o estoque de ativos financeiros (capital fictício) supera em mais de dez vezes o Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Cria-se cada vez mais uma desconexão sistêmica entre a riqueza nominal e a produção real.
A mágica do crédito sustenta as bolsas de todo o mundo. Seu princípio segue o mesmo padrão especulativo que a família Vorcaro aplicou no mercado imobiliário e depois diversificou em várias frentes. Portanto, a definição de “ponto fora da curva” de Haddad, tentando separar uma ação deliberada de fraude do restante do mercado não se sustenta. Como o próprio Vorcaro disse, ele seguiu as regras do jogo. Porém, foi demasiado ambicioso e precisou ser sacrificado por seus pares para que o espetáculo pudesse continuar.
No Brasil, essa dinâmica é agravada por uma das maiores taxas de juros reais do planeta, hoje em 15% e mantidas religiosamente pelo senhor Galípolo e o Comitê de Política Monetária (COPOM). É esse mecanismo que retroalimenta um castelo de cartas de crédito e títulos que o governo Lula, o ministro Haddad e Galípolo agora se apressam em escorar com liquidez estatal.
O caso Master evidencia, porém, que nada disso garante que essa elite toda poderosa respeite a lei. As investigações e reportagens sugerem que, pelo contrário, a classe capitalista vive infringindo as leis de seu próprio sistema.
Esse teria sido o caso, por exemplo, em relação à Lei dos Crimes Contra o Sistema Financeiro Nacional (Lei 7.492/1986). Essa legislação proíbe operar uma pirâmide financeira, realizar gestão fraudulenta e desvio de recursos. Ainda mais quando o prejuízo é transferido para os cofres públicos e fundos de pensão.
Mais do que uma infração administrativa, os padrões de conduta de Vorcaro e suas estruturas de operação sugerem o crime contra a economia popular, conforme a Lei 1.521/1951. Isso devido a submeter milhões de correntistas e milhares de servidores públicos a um risco de insolvência orquestrado para financiar o luxo da classe Epstein.
Além disso, a manipulação de expectativas no mercado, como o anúncio fictício da Fictor e o uso de “cortinas de fumaça” ou de “notícias plantadas” configura estelionato financeiro em escala indústrial. A vítima aqui não é um indivíduo, mas a própria fé pública e um ataque contra o suposto funcionamento regular do mercado.
A persistência do esquema, mesmo sob monitoramento judicial e tornozeleira eletrônica, é indício de que, para a elite financeira, a legislação é um custo de transação, não um limite ético. Na verdade, evidencia-se aqui também uma certa moral. A moral de uma elite toda poderosa, que não conhece nenhum limite e que faz de tudo para satisfazer seus próprios desejos e interesses.
O governo federal e o Ministério da Fazenda operaram alavancas estatais para garantir a liquidez do sistema e a “paz dos mercados”. Enquanto isso, a classe trabalhadora, que arca com a carga tributária e a austeridade fiscal, é forçada a financiar o resgate da elite econômica. Uma elite que se coloca não apenas acima das leis, mas que também atua deliberadamente contra as leis de seu próprio sistema político e social.
Uma legislação a serviço da elite
A liquidação do Banco Master e do Will Bank e a consequente intervenção do Estado evidenciaram a natureza de classe do Fundo Garantidor de Créditos. Esse mecanismo de socialização de prejuízos consumiu pelo menos quase um terço de seu caixa total para cobrir um rombo recorde.
Para garantir a cobertura desse rombo sem precedentes, estimado em mais de R$ 47,3 bilhões, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovaram um plano emergencial. As medidas anteciparam 60 meses de contribuições dos bancos associados. Um detalhe importante está em que eles irão abater suas contribuições extraordinárias ao FGC diretamente dos recolhimentos compulsórios.
Essa antecipação consiste basicamente em os banqueiros continuarem a fazer negócios com o dinheiro do honorável público. Primeiro porque a chamada “antecipação” trata-se na verdade de um grande truque, porque o Banco Central autorizou que tais valores sejam deduzidos do que os bancos já teriam que pagar compulsoriamente ao Banco Central.
Significa, portanto, que a conta final será paga pelo BC, abrindo mão de recursos que comporiam o “caixa” da instituição reguladora do sistema bancário do país, ou as reservas de segurança do país. Tudo isso operado pelo presidente de um Banco Central independente, uma figura que não foi eleita por ninguém e que está no controle de alavancas e reservas das mais importantes e sensíveis da nação.
Embora o FGC seja apresentado pela grande imprensa como um mecanismo estritamente privado de segurança aos correntistas, o desastre do Master expôs a engenharia de transferência de fundos públicos para blindar o capital financeiro. Na prática, a autoridade monetária liberou dezenas de bilhões de reais em liquidez estatal. Ou seja, dinheiro que deveria compor as reservas de segurança do país foi usado para impedir o contágio sistêmico e proteger os balanços dos grandes bancos comerciais.
Galípolo buscou assim garantir “segurança” e “estabilidade” para os banqueiros, que não saíram nem um pouco afetados, e para o honorável investidor nacional ou estrangeiro. Mais do que falar, ele demonstrou que neste país os prejuízos dos bancos serão sempre socializados para a sociedade brasileira, embora nunca os lucros.
Restabelece-se o FGC como o mesmo mecanismo utilizado por Vorcaro para alavancar suas especulações. Agora, porém, os grandes banqueiros se articulam para restringir os menores e bloquear o caminho de outros competidores do tipo Vorcaro. Recentemente, houve pressão para alterar as regras de contribuição, visando punir instituições menores que utilizam a garantia do FGC de forma agressiva para captar recursos.
A regra atual estabelece que instituições que ultrapassam 75% de captação garantida pagam uma contribuição adicional de 0,01%. A pressão dos grandes bancos liderados pela FEBRABAN quer reduzir esse teto para 50% e elevar a alíquota adicional para 0,10%, aumentando o custo para bancos de médio porte que apresentam maior risco.
Significa, portanto, que a lógica do sistema pode continuar a mesma. Apenas tenta-se implementar pequenas alterações na legislação para dificultar o caminho ao topo para os pequenos concorrentes e busca-se disciplinar todos os banqueiros a continuar usando o FGC, mas com moderação. Essa é a “auto regulação” que se pode esperar do mercado, ou melhor, do sistema financeiro brasileiro, nesse caso específico.
Vítimas da classe Epstein no Brasil
As vítimas de toda essa elite no Brasil são diversas e numerosas e sofrem dos mesmos padrões de violência e exploração que têm sido reveladas sobre a classe Epstein em escala global. O próprio Jeffrey Epstein, de acordo com arquivos recentemente divulgados, aliciava agências de modelo brasileiras e usava olheiros para recrutar jovens para servir aos seus eventos e confraternizações ao estilo do “business” de Daniel Vorcaro.
Contudo, o alcance dos danos de Vorcaro e seus amigos à sociedade são muito mais amplos, segundo apenas o que se sabe até agora. O colapso do ecossistema Master e Will Bank deixou milhares de funcionários e prestadores de serviços em situação precária. Além da demissão em massa de bancários, diversas empresas de tecnologia, segurança e marketing ligadas ao conglomerado enfrentam insolvência e calotes trabalhistas.
Estima-se que até 12 milhões de correntistas, majoritariamente das chamadas “classes C e D” vinculados ao Will Bank, foram diretamente impactados pela interrupção dos serviços e o congelamento de ativos. Embora o FGC inicie o ressarcimento, o impacto econômico nessas famílias gerou uma crise de crédito e liquidez de escala monumental. Um impacto sentido mesmo com a antecipação de pagamentos de até R$ 1 mil realizados imediatamente pelo FGC aos desbancarizados.
Houve ainda vítimas de diversos outros tipos afetadas financeiramente pelo colapso do Master, como jornalistas e figuras públicas consideradas inimigas pelo banqueiro. A engrenagem de proteção de Vorcaro não operava apenas na defesa, mas também no ataque. Para manter a ilusão de solidez e esconder o esquema de pirâmide, o banqueiro também utilizou seu aparato de influência para perseguir quem ameaçava expor a farsa.
Despachos do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da investigação sobre milícias digitais identificam Fabiano Zettel como o operador responsável por custear a milícia privada contratada pelo Banco Master. Suas atribuições eram monitorar, agredir e intimidar adversários e jornalistas investigativos, fundindo o repasse de doações eleitorais oficiais e o financiamento de espionagem e intimidação sob o mesmo fluxo de capital.
O grupo mantinha uma milícia privada orçada em R$ 1 milhão mensais, denominada “A Turma”, coordenada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”. O braço armado era responsável por monitorar desafetos e planejar falsos assaltos para intimidar críticos. Mourão era encarregado da obtenção de dados sigilosos, monitoramento de pessoas e coação física de críticos do banco.
Jornalistas investigativos que tentaram furar o bloqueio da mídia hegemônica e servidores públicos que se recusaram a chancelar pareceres fraudulentos tornaram-se alvos preferenciais. Utilizando o próprio Judiciário como arma de intimidação, o esquema promoveu o assédio judicial, a censura e a destruição de reputações, demonstrando que o monopólio da informação é vital para a manutenção do capital especulativo.
O jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, foi um dos alvos centrais. Mensagens interceptadas mostram Vorcaro ordenando que ele recebesse um “sacode”. Nas conversas, o banqueiro orientou a milícia a forjar um assalto para “quebrar todos os dentes” e “dar um pau” no jornalista, em uma clara tentativa de silenciar reportagens críticas sobre a instituição.
Complementando a coação física, uma milícia digital atuava para blindar a imagem de Vorcaro e silenciar vozes dissonantes nas redes sociais. Esse foi o caso do “Projeto DV”, em uma referência às iniciais de Daniel Vorcaro.
Nessa operação, influenciadores com milhões de seguidores foram abordados com ofertas generosas para difundir nas redes sociais a versão de que a liquidação do banco Master teria sido precipitada. Além disso, tentou-se criar um ambiente de apoio em torno do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU). Esse ex-deputado do centrão tentou em dezembro refutar a liquidação então recém aprovada pelo Banco Central.
No setor público, a retaliação foi severa. Em julho de 2024, Daniel Cunha Gracio e Maurício Vendruscolo, gerentes da Caixa Econômica Federal, barraram a compra de R$ 500 milhões em letras do Master. Eles assinaram um parecer técnico de 19 páginas alertando para um “alto risco de solvência” e um modelo de negócios “de difícil compreensão”. Como retaliação por seu zelo técnico, ambos foram sumariamente destituídos de seus cargos pela diretoria da Caixa. O caso foi tão escandaloso que o TCU abriu uma investigação sobre a conduta do então diretor da Caixa Asset que tentou insistir na transação apesar dos alertas.
Em uma reviravolta que lembra demais o curso do caso Epstein, o “Sicário” de Vorcaro supostamente tentou cometer suicídio na carceragem da Polícia Federal e morreu dias depois em um hospital de Belo Horizonte. Uma evidente queima de arquivo que priva a sociedade de saber a real quantidade de vítimas e o quão longe vai o sofrimento causado.
Mesmo sem poder contar com o testemunho do capanga de Vorcaro, já se pode dimensionar que suas manobras e crimes irão afetar o futuro de milhares e milhares de trabalhadores. Isso por conta tanto dos bancos públicos que envolveram-se nas trambicagens, quanto dos prejuízos em diversos institutos de previdência que foram atraídos a aportar capitais no Banco Master nos últimos anos.
O saque às aposentadorias dos servidores
Uma das faces mais perversas do esquema é o ataque direto à subsistência da classe trabalhadora. O crescimento artificial do Banco Master baseou-se em empurrar seus títulos podres para quem não tinha como se defender: os fundos de previdência e pensão de servidores públicos. O esquema dilapidou o patrimônio de ao menos 18 Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) de municípios e estados brasileiros de norte a sul, deixando rombos sem perspectiva de ressarcimento.
O movimento ocorreu por meio da aquisição, por parte dos institutos, de títulos de alto risco, como Letras Financeiras (LF). Ao contrário dos CDBs, elas não possuem garantia do FGC. Significa, portanto, que há toda uma dimensão do prejuízo causado pela queda do Master que está sendo minimizada e que será absorvida na forma de prejuízos futuros por diversas categorias que pagam todos os meses suas alíquotas previdenciárias. Uma dessas formas tende a ser, por exemplo, alíquotas maiores descontadas de servidores ativos e inativos para recompor os rombos do caso.
Tanto institutos municipais quanto estaduais participaram do esquema de Vorcaro, aplicando recursos de servidores públicos em papéis podres do banco. O maior prejuízo individual é da RioPrevidência, do Estado do Rio de Janeiro, estimado em R$ 970 milhões. O segundo lugar é ocupado pela Amapá Previdência (AMPREV), do Estado do Amapá, com prejuízo aproximado de R$ 400 milhões. Ainda no pelotão estadual, a Amazonprev, do Estado do Amazonas, investiu cerca de R$ 50 milhões.
Entre os institutos municipais de previdência social que colocaram o dinheiro do servidor no Master, a lista é liderada pela Maceió Previdência, da capital alagoana, com R$ 97 milhões. Depois vem a RoquePrev, de São Roque (SP), acumulando prejuízo de R$ 93,15 milhões. Logo a seguir vem a cidade de Cajamar (SP), com seus R$ 87 milhões perdidos da IMPAMC Cajamar. A lista segue com as cidades de Itaguaí (RJ), Aparecida de Goiânia (GO), Araras (SP), Congonhas (MG), Santo Antônio de Posse (SP), Fátima do Sul (MS), São Gabriel do Oeste (MS), Paulista (PE), Jateí (MS), Angélica (MS), Santa Rita D’Oeste (SP) e Campo Grande (MS).
Além disso, outro aspecto perverso e massivo do efeito da quebra do Banco Master é o prejuízo amargado por ao menos 12 fundos de pensão de empresas estatais e públicas que aportaram cerca de R$ 2 bilhões no conglomerado controlado por Vorcaro. Embora a lista completa ainda tenha restrições, o impacto foi citado como um dos motivadores da Operação Compliance Zero da Polícia Federal.
De acordo com o Ministério da Previdência, prejuízos dessas naturezas deverão ser recompostos pelos entes federativos dos respectivos estados e municípios, caso os vencimentos previstos para 2033 e 2034 não sejam honrados na massa falida. Ao que tudo indica, eles não serão honrados.
Pode-se projetar, portanto, uma disputa entre o Governo Federal, estados e municípios sobre qual ente federativo irá arcar com a conta. Ao fim, contudo, independente de quem sair no prejuízo, esse valor comporá uma pressão ainda maior sobre as dívidas dos Estados e municípios que já constituem uma crise fiscal no país. Um possível e provável desdobramento seria uma pressão ainda maior de bloqueio de aumentos salariais de servidores públicos, de cortes de direitos e maior precarização e terceirização dos serviços.
A justiça dos poderosos
Quando a fraude do Banco Master se tornou uma bomba-relógio, um mecanismo de autoproteção da elite foi acionado. Um dos núcleos que passou a atuar para salvar a situação foi a rede de contatos de Vorcaro no Judiciário. A mensagem “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, enviada ao ministro Alexandre de Moraes, capturada pelos investigadores da PF, evidencia os vínculos entre a elite econômica e a casta judiciária. Moraes teria respondido quatro vezes à mensagem com imagens de visualização única e usado emojis de aprovação.
Tal entrelaçamento de interesses foi cimentado em ambientes de convívio e cumplicidade, como em um encontro realizado em Londres, em 25 de abril de 2024. Na oportunidade, Vorcaro patrocinou uma degustação na região de Mayfair, no exclusivo George Club, em uma das áreas mais caras da capital londrina, como parte da programação do evento “1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias”.
Reuniram-se com o presidente do Banco Master nada menos que Alexandre de Moraes, Dias Toffoli (ministro do STF), Ricardo Lewandowski (ex-ministro do STF) e então Ministro da Justiça), Benedito Gonçalves (ministro do STJ), Andrei Rodrigues (diretor-geral da PF), Paulo Gonet (procurador-geral da República) e Hugo Motta (atual presidente da Câmara).
Embora com duração de apenas duas horas, os participantes consumiram singelos US$ 640,8 mil naquela noite (cerca de R$ 3,2 milhões na época). Do total da conta paga, cerca de R$ 3,08 milhões foram gastos apenas com a degustação de whisky.
Para o dono do Master, tratava-se de um ambiente criado para alinhar interesses e garantir um trânsito facilitado para seus processos nos tribunais superiores brasileiros. Para os autodenominados operadores do direito, a relação implicava em uma teia de vantagens e interesses que só estão começando a ser desvendados.
O escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, assinou contratos milionários com o Banco Master. Segundo notas oficiais do escritório, a banca elaborou 36 pareceres e realizou 94 reuniões para a instituição de Vorcaro entre 2024 e 2025. Seu honorários estão orçados na casa dos R$ 129 milhões.
No entanto, juristas e especialistas de mercado apontam que os valores supostamente recebidos estão em total descompasso e superam em muito os valores praticados no mercado jurídico. A situação tem levantado graves questionamentos sobre a verdadeira natureza dos serviços prestados pela esposa de Moraes. Essa relação conflituosa foi escancarada após a circulação de documentos internos do Judiciário que apontavam para o pagamento por parte do Banco Master a escritórios de parentes de magistrados.
Como reação da cúpula da casta judiciária, uma investigação administrativa foi aberta em janeiro de 2026 para identificar a origem do vazamento. O ministro Moraes determinou o afastamento imediato de quatro servidores da Receita Federal, que agora usam também tornozeleira eletrônica e têm seus passaportes apreendidos. A PF suspeita que eles tenham realizado acessos ilícitos e vazamento de dados fiscais sigilosos de ministros da Corte e seus familiares.
Nesse cenário, servidores de carreira tornam-se alvos mais uma vez por confrontarem, na prática, os princípios que o sistema formalmente alega defender. São por isso submetidos a medidas coercitivas extremas antes mesmo de qualquer condenação. Medidas essas muito similares às que foram aplicadas ao próprio Vorcaro antes de sua segunda prisão.
Registros de entrada do Banco Central em Brasília e São Paulo indicam ainda que Moraes manteve ao menos seis reuniões com a diretoria da autarquia entre março e agosto de 2025. Embora os temas oficiais fossem a Lei Magnitsky e o combate à desinformação financeira, as datas coincidem com o período em que o Master buscava autorização para a venda ao BRB e enfrentava resistência técnica de auditores.
A presença frequente de um ministro da Suprema Corte em uma autarquia reguladora, fora de contextos processuais específicos, foi interpretada por técnicos do BC como uma forma de “presença institucional” que visava acelerar o trâmite de processos de interesse de Vorcaro.
A promiscuidade entre o Judiciário e o Master materializou-se também em um voo para a final da Libertadores em Lima. O ministro Dias Toffoli viajou no jatinho particular do empresário Luiz Oswaldo Pastore acompanhado de Augusto Arruda Botelho, advogado de Luiz Antonio Bull, então diretor de compliance do Banco Master e corréu na Operação Compliance Zero.
Curiosamente, um dia antes da final, Toffoli foi sorteado como relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal e imediatamente impôs sigilo máximo ao processo. Uma ordem de silêncio foi emitida, com a suspensão de perícias e interrogatórios que estavam em andamento. O ministro inclusive ordenou que o material apreendido de Vorcaro fosse depositado fisicamente no STF sob jurisdição direta dele. Uma medida incomum e revertida após a exposição de sua estranheza e da enorme repercussão que passou a adquirir.
Mais do que indícios de cumplicidade e laços de amizade, o caso Master está evidenciando que membros da cúpula do Judiciário e seus familiares são verdadeiros burgueses, com negócios entrelaçados e, em alguns casos, são até sócios de banqueiros. Esse também foi o caso do ministro Toffoli.
Investigações telemáticas e registros de voos revelaram que o ministro Dias Toffoli manteve uma presença constante no resort de luxo Tayayá, localizado no Paraná, propriedade vinculada societariamente às famílias Zettel e Vorcaro. O cruzamento de dados de registros de diárias de segurança e agendas oficiais indica que, entre 2023 e 2025, o magistrado frequentou o local em uma proporção superior a 60 dias por ano, muitas vezes coincidindo com períodos de recesso judiciário ou fins de semana prolongados.
A natureza do vínculo tornou-se um ponto central que caracteriza falta de imparcialidade do juíz após a descoberta de que familiares de Toffoli possuem participações em holdings que operam em parceria com o Grupo Multipar na região. Trata-se de mais uma clara configuração de conflito de interesses, visto que o ministro atuou como relator de processos decisivos para a manutenção das atividades do Banco Master no Supremo Tribunal Federal.
Já foi bastante demonstrado que a rede de proteção a Vorcaro comprova que o capital financeiro não possui amarras partidárias. O Master costurou uma ampla aliança que, além do Judiciário, abrangeu do Congresso Nacional aos governos estaduais, unindo figuras que costumam se apresentar como opositores ferrenhos. O plano de empurrar o banco falido para o Estado, por exemplo, contou com a complacência e o auxílio direto de expoentes dos poderes Executivo e Legislativo, incluindo articuladores regionais e nacionais.
No desespero para evitar a bancarrota, o conglomerado recrutou a elite da advocacia e do poder, contratando pareceres e a influência direta de figuras como o ex-presidente Michel Temer e o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski. O peso institucional desses nomes foi utilizado como um trator para tentar validar balanços maquiados perante o Banco Central e o Tribunal de Contas da União.
Ricardo Lewandowski, antes de assumir o Ministério da Justiça, atuou como consultor jurídico para o Banco Master por meio de sua consultoria privada. O ex-ministro firmou contrato de cerca de R$ 5 milhões com a instituição de Vorcaro para, segundo ele, prestar serviços referentes a aconselhamento institucional estratégico ou reuniões.
Além disso, Lewandowski teria participado de jantares de articulação em que a solvência do Master era apresentada a investidores institucionais como juridicamente blindada. Além, é claro, de sua influência direta sobre o presidente da República. Vendeu assim o peso de sua trajetória jurídica para validar operações que hoje são classificadas como fraudulentas.
Já o ex-presidente Michel Temer foi contratado pelo Banco Master para atuar como consultor sênior em relações institucionais e jurídicas. Temer utilizou sua influência junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Conselho Monetário Nacional para tentar destravar a venda da carteira de créditos podres ao BRB.
Em reuniões privadas, o ex-presidente argumentava que a queda do Master poderia gerar um “risco sistêmico” comparável a outras catástrofes financeiras de instituições bancárias. Observe-se que se trata de um ex-Chefe do Executivo nacional exercendo pressão política para que as autoridades monetárias aceitassem os números maquiados apresentados por Vorcaro como base para a negociação estatal.
O governador de Brasília, Ibaneis Rocha, foi o principal sócio político na tentativa de usar o BRB para cobrir o rombo. Registros recentes indicam que, enquanto ocorria a negociação para aquisição do Master, a gestora REAG detinha mais de 10% das ações do BRB e o escritório de advocacia de Ibaneis Rocha recebia vultosos honorários do Fundo de Investimento Multimercado Borneo, vinculado ao grupo.
O que emerge desse conjunto de episódios não é apenas uma sucessão de relações impróprias ou conflitos de interesse isolados. O caso Master revela como a elite financeira se move dentro de uma rede de proteção que atravessa tribunais, escritórios de advocacia e altas esferas do Estado. A justiça dos poderosos é, de fato, aquilo que se apresenta apenas como justiça para as massas, sinônimo de neutralidade.
A autopreservação da classe Epstein
Mas a rede de influência de Vorcaro espraiou-se muito além do Distrito Federal, Minas Gerais e Paraná, encontrando portas abertas com Tarcísio de Freitas em São Paulo e Cláudio Castro (junto a prefeituras fluminenses) no Rio de Janeiro. No Congresso, a sustentação do esquema encontrou respaldo em nomes de diferentes espectros da direita e do centrão, desde a retórica inflamada de Nikolas Ferreira até o pragmatismo caciquista de Davi Alcolumbre. Todos compõem uma rede de relações que compartilha dos mesmos interesses e temores.
As evidências da atuação do deputado Nikolas Ferreira concentram-se no uso de sua plataforma digital para reverberar narrativas de “perseguição política” contra o Grupo Multipar. O parlamentar associava as investigações da PF a uma suposta retaliação do atual governo contra empresários mineiros de viés conservador. Além disso, a quebra do sigilo telemático do banqueiro revelou que, na agenda de contatos dele, consta o número do ex-sócio e aliado político de Nikolas, o vereador da capital mineira Pablo Almeida. Um detalhe é que Vorcaro nomeou Pablo como “assessor Nikolas” nos contatos.
A atuação ostensiva do STF, do Congresso e de governadores para tentar salvar Vorcaro representa um golpe letal na própria legitimidade do Poder Judiciário e das instituições representativas da República. O caso Master deixou de ser um escândalo puramente bancário ao fornecer uma radiografia do Estado burguês brasileiro. A união das peças do mosaico mostra que as instituições não falharam ao tentar conter a fraude. Elas funcionaram perfeitamente como parte orgânica do sistema para tentar garanti-la.
Uma das reações já observadas de auto-preservação diante das investigações e revelações constantes tem sido a atuação da cúpula do Judiciário em tentar estancar a sangria punindo e impondo maior vigilância a servidores públicos que possam alimentar a espiral de crise.
Essa foi a reação, ao tentar controlar quem acessava informações dos bastidores, quando foi divulgado que ministros do STF dividiram painéis e jantares com Vorcaro em fóruns jurídicos internacionais, dos quais inclusive o dono do Master era um dos principais patrocinadores. As chamadas “Vaza Jato” do STF, com vazamento de mensagens internas do ministros da corte, também tiveram tratamento similar, com exoneração de assessores e funcionários.
Ainda quando questionou-se a autoridade de órgãos de controle inferiores ao Banco Central para investigar transações como as feitas pelo Master, o STF consolidou um padrão de blindagem da cúpula do BC. Uma movimentação para impedir que o real caráter de relações entre Vorcaro e autoridades monetárias fosse exposto.
A demonstração de que o departamento de Supervisão Bancária do Banco Central foi corrompido para prestar “assessoria” paralela e aprovar ofícios do Master reabriu o debate sobre o controle da autarquia. A autonomia conquistada em 2021 permitiu que diretores operassem sem freios institucionais, gerando as incômodas perguntas de quem fiscaliza o fiscalizador e de a quem recorrer quando a injustiça parte de um órgão intocável.
Todos esses movimentos reforçam um padrão de autopreservação de uma elite toda poderosa apavorada, que quer interromper a torrente de revelações e que quer retomar o controle da narrativa e da situação. É o que indica a revogação da liberdade de Daniel Vorcaro e sua nova prisão preventiva em 4 de março de 2026, decretada pelo ministro do STF André Mendonça. Formalmente o motivo foi a continuidade de sua conduta criminosa e ocultação de R$ 2,2 bilhões. Contou centralmente, porém, o iminente risco político.
A prisão ocorreu exatamente 48 horas antes de seu depoimento agendado na CPMI do INSS. A convocação de Vorcaro era considerada “explosiva” por parlamentares da oposição e do governo. Ele havia sinalizado a interlocutores que apresentaria comprovantes de repasses de recursos a campanhas eleitorais via caixa dois de fundos de pensão municipais.
A decisão judicial de transferi-lo para o sistema federal fechado, sob o pretexto de quebra de monitoramento, resultou na suspensão por tempo indeterminado de sua oitiva. Há o temor palpável nos corredores de Brasília de que o banqueiro, acuado por uma possível condenação severa, negocie uma delação premiada que arraste dezenas de magistrados, governadores e líderes partidários para a ruína. Desarmou-se, assim, uma bomba-relógio política que prometia um efeito nuclear sobre as instituições já abaladas do sistema.
O temor da elite toda poderosa consiste em que o caso Master ganhe uma proporção semelhante à que ganhou o caso Jeffrey Epstein. A classe dominante e seus representantes no Brasil têm motivos para temer que uma nova gota faça transbordar o copo inteiro. No caso americano, a bola de neve infindável e que está envolvendo toda a elite global teve seu início em uma situação aparentemente pontual.
Uma mãe decidiu ir à polícia de Palm Beach, na Flórida, em 2005, realizar uma denúncia de abuso sexual de menores. Ela alegava que sua filha de 14 anos havia sido levada à mansão de Epstein para fazer uma “massagem”, que na verdade era um ato de abuso sexual remunerado. Porém, o bilionário, assim como Saul Sabbá aqui no Brasil, safou-se do processo com um Acordo de Não-Processo em 2008.
Contudo, outra vítima, Virginia Giuffre, processou Ghislaine Maxwell (parceira de Epstein) por difamação em 2015. Esse caso gerou nova leva de documentos, depoimentos e evidências. Em 2018, o jornal Miami Herald expôs os detalhes do acordo secreto de 2008 em uma série de reportagens conhecidas como “Perversion of Justice”. O escândalo levou à reabertura do caso e à prisão de Epstein em 2019.
Apesar do suposto suicídio de Epstein na prisão naquele ano, o conjunto de documentos oriundos dessas investigações é o que também está revelando a extensão das conexões de Epstein. Uma rede não apenas nacional, mas em escala global. Figuras da elite econômica, política e científica, que incluem desde ex-presidentes e membros da realeza britânica até figurões do Vale do Silício e cientistas renomados de universidades de ponta.
Os hoje chamados “Arquivos Epstein” tiveram o impacto de terremotos políticos de escala intercontinental e suas ondas de choque continuam a reverberar e causar temor até mesmo no presidente Donald Trump. O que a elite toda poderosa brasileira teme é que o mesmo ocorra por aqui.
Ainda mais em uma situação em que o caso do Banco Master e Daniel Vorcaro expuseram para toda a sociedade brasileira o Judiciário como parte interessada e ativa dos negócios da mesma elite econômica e política a quem supostamente levaria à justiça. Os juízes foram expostos frente às massas, sendo o Judiciário o sujeito político que jogou o papel de fiador e moralizador do sistema durante os últimos vinte anos no Brasil. Pesquisa da Quaest, neste mês de março, mostra uma queda de 50% para 43% em relação aos que confiam no STF e um aumento de 47% para 49% os que não confiam no Tribunal.
As dinâmicas de ofuscação por volume e desvio de atenção para o secundário, como a ênfase nas relações amorosas ou episódios pitorescos da intimidade de Vorcaro, tem uma finalidade evidente. Servem perfeitamente para uma elite toda poderosa que quer diluir a percepção pública sobre o que realmente está vindo à tona.
A própria ideia de descoberta pressupõe que a verdade, a rigor, está coberta. Ela não é evidente, não se vê a olhos nus. É preciso uma ação consciente para retirar o véu que a cobre. A mera profusão de informações é apenas uma etapa. Agrupar e processar adequadamente essas informações é fundamental para fazer com que a montanha de dados torne-se conhecimento e revele o que até então estava oculto. É aí que mora o perigo para a classe da elite toda poderosa da qual Vorcaro era só mais um membro.
Imaginem se as massas governadas por esses sujeitos adquirirem a compreensão de que o colapso do Master forçou a injeção de R$ 50 bilhões, retirados de seus bolsos, para salvar um esquema de enriquecimento ilícito. Suponhamos que a maioria deste país se desse conta, com clareza brutal, que a classe trabalhadora arca com os custos da austeridade e das fraudes bancárias, enquanto a elite financia festas de luxo na Europa com a certeza da impunidade.
Cogitemos um cenário em que fosse esclarecido para as massas que os membros da alta cúpula do Judiciário não são operadores da lei, mas sim membros orgânicos da classe burguesa, com negócios milionários e integrados ao sistema financeiro rodando em nome de seus cônjuges e familiares. Que os juízes não fazem justiça, mas sim compartilham de banquetes e vantagens da mesma elite e negócios que depois irão investigar e julgar.
Pensem o que um trabalhador ou uma trabalhadora acharia se descobrisse a maior verdade da Nova República: que o sistema vigente sempre será manobrado para garantir que o lucro permaneça rigorosamente privado e nas mãos da classe dominante, enquanto o prejuízo dessa mesma elite será sempre socializado. Ainda mais, adivinhem as conclusões desses homens e mulheres forçados à luta pela sobrevivência diária caso se dessem conta de que esse não é um problema brasileiro, mas sim de uma classe Epstein global.
O Plot Twist necessário
O desenrolar do escândalo do Banco Master, a exposição da “classe Epstein” brasileira e o caráter cúmplice do sistema judiciário do país nos conduzem a uma reflexão sobre o que deveria ser feito para alcançar uma verdadeira justiça. A resposta tradicional do sistema a crises dessa magnitude é a velha promessa de “aprimorar a regulação” ou “fortalecer a governança”. Contudo, como a história do Banco Máxima ao Master já provou, a regulação sob as regras do atual regime é apenas o verniz que confere legalidade à barbárie.
O verdadeiro plot twist para essa tragédia não virá de reformas cosméticas, mas de uma ruptura estrutural com os pilares que sustentam o parasitismo dessa elite. O caso Vorcaro demonstra, de forma inequívoca, que o sistema financeiro privado opera como um mecanismo de sucção da riqueza social para o bolso de uma minoria inescrupulosa.
A tentativa de usar o Banco de Brasília (BRB) como lixeira para os créditos podres do Master prova também que bancos públicos, quando geridos pela lógica de mercado e controlados pelos prepostos da elite, tornam-se meros instrumentos do saque.
A única solução definitiva para impedir que o crédito de milhões de trabalhadores continue financiando jatinhos e festas milionárias é a estatização integral do sistema bancário. Isso não significa apenas transferir a posse para o Estado, mas expropriar os monopólios financeiros sem indenização aos especuladores e unificá-los em um banco único estatal.
A gestão do crédito e da poupança nacional deve passar para o controle direto dos trabalhadores e da sociedade. Um controle que, para ser efetivo e seguro, precisa ser radicalmente democrático em alternativa a um modelo de controle por comitês e agências dominadas por burocratas e agentes a serviço da elite toda poderosa.
Apenas dessa forma o sistema financeiro poderá orientar os recursos para o desenvolvimento produtivo, a infraestrutura e a garantia de direitos, e não para a rolagem de dívidas fictícias e esquemas de pirâmide. Tirar os bancos das mãos da classe Epstein é cortar o suprimento de oxigênio que a mantém viva.
Nenhuma expropriação financeira será sustentável enquanto o Estado contar com uma guarda pretoriana de toga pronta para defender a propriedade dos bilionários. O papel desempenhado por figuras de cúpula do STF e de outras instâncias na proteção de Vorcaro escancarou que o Judiciário brasileiro não é um poder neutro. Trata-se de uma casta encastelada, com interesses de classe definidos e totalmente blindada do controle popular.
Para que a justiça deixe de ser o balcão de negócios dos poderosos, é urgente uma democratização radical do sistema judiciário. Isso deve começar com o fim dos privilégios e mandatos vitalícios. A intocabilidade dos juízes, com suas garantias de vitaliciedade e salários que extrapolam qualquer teto constitucional, deve ser abolida. Um magistrado não deve ter privilégios acima de um professor das redes estaduais ou de um trabalhador assalariado qualificado.
Além disso, os juízes de todas as instâncias devem ser eleitos pelo voto popular e seus mandatos devem ser revogáveis a qualquer momento caso traiam a confiança pública. Os crimes contra a economia popular e o patrimônio público, como os perpetrados pelo Banco Master, não devem ser julgados por pares que frequentam as mesmas festas que os réus. Devem ser compostos tribunais formados por pessoas comuns e representantes da classe trabalhadora, que terão as condições de garantir que o julgamento dos atos cometidos leve em conta sua dimensão real e não apenas jurídica.
Um espectador da novela do Banco Master pode argumentar que tais propostas são impossíveis de serem implementadas no Brasil. A viabilidade ou inviabilidade delas é um debate que preferimos deixar para outro artigo. O que nos compete neste momento, a partir dos fatos investigados, é concluir que uma real solução para os problemas evidenciados requer a adoção dessas medidas como parte de um conjunto de mudanças.
Os limites entre o possível e o impossível, como sempre, estão dados não pelo esquema de um sagaz reformista do sistema, mas sim pela correlação de forças entre as classes sociais em luta. Por quanto da verdade foi descoberto por aqueles que estão pagando a conta da festa e dos negócios da elite dominante exposta nos últimos meses. O caso Master joga um papel importante no processo de esclarecimento da classe trabalhadora brasileira, assim como os “Arquivos Epstein” estão abalando a consciência das massas no mundo inteiro.
O papel ativo de milhares de jornalistas, servidores públicos e honestos ativistas está jogando um papel fundamental para trazer à tona as informações sobre a classe Epstein no Brasil e no mundo.
Essa classe atua com todo seu poder, contudo, para bloquear, criminalizar e diluir esse esforço. Nesse contexto, os comunistas podem desempenhar um papel de destaque. É sua responsabilidade ajudar a fazer com que as informações trazidas a público sejam apresentadas à classe trabalhadora em suas conexões com o todo e a classe dominante.
Assim, elas convertem-se em verdadeiras revelações e denúncias políticas, contribuindo para elevar a compreensão das massas – a partir dos setores a que cada comunista em particular tem acesso – sobre o todo. Sem esse papel ativo e consciente, mesmo escândalos como dos Arquivos Epstein tendem a perder seu potencial incendiário e, por fim, a serem enterrados na memória pelos mil mecanismos da ideologia dominante.
A novela do caso Master ainda está só no começo. Mais do que espectadores, cada estudante ou trabalhador pode ser um protagonista nesta história e influir sobre seu desfecho final. O conhecimento sobre a verdade por trás do sistema pode ser difundido para todos aqueles lesados por esse escândalo, que pelas manobras de Haddad, Galípolo e Lula atingiram cada um dos brasileiros.
Caberá a esses milhões de homens e mulheres comuns decidir se aceitarão o desfecho da trama que será proposto pela classe Epstein ou se farão valer outro tipo de justiça, uma justiça de classe oprimida e com medidas consideradas hoje impossíveis.
