O discurso a seguir foi proferido por Trotsky no Soviete de Moscou em abril de 1924, em comemoração ao 35º aniversário do Primeiro de Maio. Nessa ocasião, Trotsky reafirmou as origens revolucionárias do Primeiro de Maio e suas três palavras de ordem fundamentais: a reivindicação da jornada de oito horas, a solidariedade internacional de classe e o combate ao militarismo.
Hoje, o Primeiro de Maio é tratado por dirigentes sindicais em muitos países como uma mera formalidade anual, desprovida de conteúdo político. Mas o Primeiro de Maio é, em sua essência, um feriado revolucionário, comunista e marxista. Assim como coube aos comunistas e à Rússia Soviética revolucionária levar adiante sua bandeira após a traição da Segunda Internacional, hoje nos cabe fazê-lo.
Primeiro de Maio no Ocidente e no Oriente: No 35º Aniversário do Feriado do Primeiro de Maio
Camaradas, o feriado do Primeiro de Maio foi instituído pela Segunda Internacional há 35 anos. Foi estabelecido pelos discípulos diretos de Marx e Engels, entre os quais o velho Wilhelm Liebknecht, um dos fundadores da social-democracia alemã. A caminho daqui, folheava os últimos telegramas, que ainda não chegaram até vocês devido à ausência de jornais durante este período de feriado, e nesses telegramas encontrei uma série de comunicados sobre como a Europa democrática está se preparando para celebrar o Primeiro de Maio. Permitam-me compartilhá-los com vocês. O governo da Baviera emitiu uma ordem proibindo a organização de manifestações do Primeiro de Maio. Em Halle, os representantes social-democratas no governo proibiram a manifestação do Primeiro de Maio proposta pelos sindicatos. O governo da Saxônia, onde os social-democratas têm maioria, proibiu a organização de manifestações de rua do Primeiro de Maio e, finalmente, em Berlim, o chefe de polícia social-democrata proibiu as marchas de rua do Primeiro de Maio.
Imaginem por um instante que o velho Wilhelm Liebknecht, fundador da social-democracia alemã e instituidor do Primeiro de Maio, aparecesse nas ruas de Berlim e visse e ouvisse seus discípulos, ou aqueles que se autodenominam assim, como o presidente da República Alemã, o chefe de polícia de Berlim, o governo social-democrata da Saxônia, em suma, como o partido social-democrata “revolucionário e marxista” criado por Wilhelm Liebknecht se prepara para celebrar o Primeiro de Maio! Pensem nisso: o governo social-democrata da Saxônia declarou abertamente que todas as tentativas de realizar marchas de rua serão esmagadas pela força armada. Eis, camaradas, uma pequena página da história para vocês: 35 anos desde a introdução do feriado até os dias de hoje, e que história impressionante de decadência mundial. Em toda a primeira linha está a social-democracia europeia, com uma história de corrupção de seus dirigentes, uma história de subjugação das massas trabalhadoras pelas burocracias sindicais, uma história da entrega traiçoeira das massas trabalhadoras nas mãos do capital degenerado no seu sangrento estado de imperialismo!
É preciso acrescentar que o restante da social-democracia europeia não difere da alemã. Na Hungria, Polônia e França, sem falar da Romênia, as marchas de rua do Primeiro de Maio foram proibidas. E em todos esses países, os social-democratas – os mencheviques – mesmo que não participem diretamente da administração, ainda assim constituem um pilar direto ou indireto da ordem vigente.
Tal é o destino do feriado do Primeiro de Maio ao longo destes 35 anos, ou seja, ao longo de uma geração humana. Este destino torna-se ainda mais evidente se o analisarmos mais de perto através das reivindicações fundamentais do proletariado no Primeiro de Maio. Recordemo-las: a jornada de trabalho de oito horas, pela qual gerações da classe trabalhadora lutaram, a solidariedade internacional dos trabalhadores e a luta contra o militarismo são as três palavras de ordem fundamentais do Primeiro de Maio.
A jornada de trabalho de oito horas! Ela foi concretizada, em maior ou menor grau, na Europa, como resultado da primeira vaga proletária após a guerra imperialista. Mas hoje, cada vez menos resta da jornada de trabalho de oito horas na Europa. Se, camaradas, existe hoje um único país ou um único Estado que teria o direito, em um momento de extrema necessidade, de exigir de seus trabalhadores um esforço adicional; se existe algum país onde a classe trabalhadora possa, em caso de necessidade, oferecer uma jornada de trabalho de nove ou dez horas, então esse país só poderia ser a república operária, que ainda não emergiu da miséria e das trevas e onde o proletariado trabalha para si mesmo. Não obstante, o único país que mantém, e manterá, a jornada de trabalho de oito horas como lei fundamental de seu código trabalhista é a nossa República Soviética, e para nós a jornada de trabalho de oito horas constitui o pré-requisito para a ascensão material, intelectual e cultural da classe trabalhadora. [Aplausos]
Representamos não apenas os oponentes e inimigos irreconciliáveis da Segunda Internacional de hoje, mas também seus herdeiros diretos: tudo o que nela havia de libertador, progressista e voltado para o futuro, nós nos apropriamos, incluindo o feriado do Primeiro de Maio. Para nós, esta é uma grande festa de libertação, ao mesmo tempo em que a social-democracia alemã a reprime pela força. E o mesmo acontece com a jornada de trabalho de oito horas e com todos as outras palavras de ordem do Primeiro de Maio.
A fraternidade dos povos! A palavra de ordem que a social-democracia herdou da democracia burguesa idealista adquire um significado histórico completamente específico na Europa de hoje, desmembrada e exausta pela guerra imperialista. Os pacifistas burgueses, em desespero, chamavam a Europa pós-Versalhes de “manicômio”. Passaram-se vários anos e a Europa continua exatamente como emergiu da terrível cozinha de Versalhes. A Europa está dividida por fronteiras traçadas pelas mãos unidas da vilania e do cretinismo. A Europa está fragmentada, sufocando a economia e a cultura dos povos. Ao longo de todas as fronteiras, há ódio, disputas e lutas. Tanto a social-democracia europeia quanto a Segunda Internacional contribuíram para a criação desta ordem perversa sob cujo teto o proletariado europeu celebra o 35º aniversário do Primeiro de Maio.
A fraternidade dos povos! Os Estados Unidos promulgam uma lei proibindo a entrada de japoneses em solo americano. Os japoneses são uma raça inferior, uma raça amarela! O Japão está estrangulando a Coreia. O Japão, juntamente com a Europa burguesa e os Estados Unidos, busca estrangular a China. As últimas edições do jornal trazem um telegrama que cada um de vocês deveria guardar na memória. Refere-se a um pequeno, muito pequeno episódio em Pequim. Nós, políticos veteranos, sabemos o que é o imperialismo, o que é o domínio colonial britânico e a arrogância; sabemos como vivem os povos oprimidos do Oriente e, no entanto, camaradas, cada novo fato que ilustra a estrutura viva da escravidão colonial parece improvável e choca a nossa consciência.
Então, eu, por exemplo, não sabia que em Pequim existe uma muralha ao longo da qual (não consigo entender pelo telegrama) apenas estrangeiros têm o direito de caminhar. Outro dia, um soldado chinês passou por essa muralha. Mas lá existe uma força policial especial para o bairro diplomático, e ela exigiu que o soldado chinês se retirasse da cidade chinesa de Pequim, pois aquele lugar era reservado apenas para estrangeiros! O soldado chinês se recusou. Ele foi preso e punido com varas de bambu. Quarenta varadas de bambu em nome da inviolabilidade do muro imperialista “civilizado” reservado aos brancos. O soldado chinês punido com varas de bambu declarou que espancaria 40 estrangeiros, mas espancou apenas três [aplausos]: um inglês, um italiano e o terceiro, não me lembro quem era. Ele ainda tinha 37 para saldar suas contas quando o embaixador britânico do governo britânico, chefiado por MacDonald, um dos dirigentes da Segunda Internacional – a mesma Internacional que 35 anos atrás estabeleceu o feriado do Primeiro de Maio em comemoração à fraternidade internacional – exigiu a prisão deste soldado, que foi preso e entregue a um tribunal, para a glória dos estrangeiros que dominam a China.
Camaradas, não quero causar nenhum constrangimento às nossas atividades diplomáticas, nem quero fornecer qualquer material novo para os jornais britânicos reacionários que buscam provar que desejamos interromper as negociações em curso em Londres. Mesmo assim, a este soldado em Pequim, quero proclamar em nome de todos nós que o proletariado de Moscou está de corpo e alma com ele. [Aplausos estrondosos] E, a propósito deste pequeno detalhe, fiquei sabendo pela primeira vez que em Xangai, outra grande cidade chinesa, existe um bulevar ou um parque onde todos os assentos têm uma placa dizendo: “Somente para estrangeiros”. Pensem nisso: “Somente para estrangeiros”. Um chinês em sua própria casa, em seu próprio país, deve evitar esses assentos por medo de uma reação violenta da civilização europeia.
E isto, camaradas, acontece 35 anos depois de o proletariado da Europa ter instituído o feriado da fraternidade dos povos. E devo admitir que, juntamente com esses pensamentos imbuídos de ardente simpatia pelas massas trabalhadoras da China e de todo o Oriente, que é natural a todos nós, também me perguntei: mas como teria sido para nós se, em 1917, o proletariado, dirigido pelo seu maior dirigente, não tivesse derrubado o mundo burguês, não tivesse tomado o poder neste país e não tivesse criado para si uma organização de defesa sob a forma do Exército Vermelho? Camaradas, teríamos sido acorrentados, esmagados e pisoteados! Nossos inimigos alimentaram esse sonho! Quem sabe, talvez nos muros do Kremlin, na Praça Vermelha onde nosso dirigente agora repousa, eles teriam tentado, após a vitória, pendurar uma placa com os dizeres “Somente para pessoas civilizadas” ou “Somente para estrangeiros”. Que nosso soldado vermelho imagine que aqui, em Moscou, Leningrado ou em algum outro lugar, haja um muro com um aviso afixado: “É proibida a entrada de soldados russos e soviéticos”… não, não! Isso não aconteceu. Nós nos defendemos e esperamos ajudar os povos do Oriente de uma vez por todas e acabar com o regime vil de arrogância, violência e servidão colonial. [Aplausos]
A fraternidade entre os povos não é para nós um princípio vago, mas sim o eixo central da nossa política. Trairíamos a nós mesmos se violássemos esse princípio; sobretudo, nos minaríamos a partir do interior da nossa própria União. Há pouco tempo, vi pela primeira vez aquela parte da União que, do ponto de vista do fortalecimento da fraternidade entre os povos, nos impõe as tarefas mais difíceis e, assim, revela com maior clareza as nossas conquistas: o nosso Cáucaso, a nossa Transcaucásia, onde, nas áreas mais remotas, o costume bárbaro da vingança de sangue ainda se conserva até os dias de hoje, contra o qual, contudo, o jovem poder soviético luta com sucesso. Nessas repúblicas onde o sangue das lutas nacionais internas ainda não secou, o poder soviético criou – não proclamou, mas criou de fato – as condições para um novo regime e lançou as bases sobre as quais pode repousar a colaboração pacífica de dezenas de nacionalidades. O nosso Cáucaso atrasado e, do ponto de vista da Europa civilizada, “semibárbaro”, é hoje uma enorme escola histórica.
Não faz tanto tempo assim, que membros do partido de MacDonald, depois de viajarem por Batum até Tbilisi, nos censuraram, aos bolcheviques, pela nossa supressão da independência, da liberdade e dos direitos nacionais! Mas agora podemos lançar o aspecto politicamente soviético do Cáucaso pacificado como um desafio revolucionário diante desta Europa dilacerada, atravessada em todas as direções por linhas de inimizade e ódio, e onde toda a terra estremece com os choques iminentes de novos confrontos sangrentos. O que fizemos no Cáucaso e o que conquistamos no Cáucaso não pode ser alcançado na Europa civilizada, culta e avançada enquanto reinar ali a burguesia apoiada pela social-democracia! E aqui, mais uma vez, representamos os herdeiros e executores dos melhores ideais da Primeira e da Segunda Internacional.
Neste momento, a França está tentando incitar o Oriente, especialmente a Turquia, contra nós, e hoje mesmo os telegramas informam que a imprensa turca está publicando, por clara instigação da França, artigos afirmando que o tratado ítalo-soviético obriga a União Soviética, ou seja, vocês e eu, a apoiar os planos gananciosos da Itália na Ásia Menor. Camaradas, a Turquia deve muito à União Soviética. Entre os turcos, como no Oriente em geral, o nome de Lênin está suplantando cada vez mais os nomes dos antigos profetas. Mas nos altos escalões do poder há terreno fértil para intrigas imperialistas. A França está tentando explorar isso e instigando a ideia de que nosso tratado com a Itália visa, direta ou indiretamente, a independência da Turquia e a dos povos do Oriente como um todo. E nós, em preparação para o nosso feriado de Primeiro de maio, feriado da fraternidade internacional e, portanto, feriado da libertação dos povos do Oriente, declaramos que essa afirmação é uma mentira e uma calúnia.
Concluímos um acordo com o governo fascista da Itália. Concluímos de boa-fé. Cumprimos cada cláusula do tratado em prol dos povos da nossa União e exigimos o mesmo da outra parte. Por meio deste tratado, esperamos negociar com sucesso e de forma vantajosa com a Itália. Venderemos à Itália nosso trigo do sul, um trigo de excelente qualidade, com o qual ouvi dizer que os italianos conseguem preparar com sucesso seu macarrão nacional; venderemos azeite e madeira. Mas uma das mercadorias que não negociamos, e que jamais negociaremos, é a independência dos povos do Leste. [Aplausos] Que isso seja do conhecimento de todos aqueles que estão prestes a firmar tratados conosco!
Há ainda outra nação no Oriente que merece menção especial hoje, em conexão com o feriado da fraternidade internacional. Trata-se do Afeganistão. Eventos dramáticos estão ocorrendo lá, e a mão do imperialismo britânico está envolvida nesses acontecimentos. O Afeganistão é um país atrasado. O Afeganistão está dando seu primeiro passo para se europeizar e garantir sua independência sob bases mais culturais. Os elementos nacionalistas progressistas do Afeganistão estão no poder, e assim a diplomacia britânica mobiliza e arma tudo o que for minimamente reacionário, tanto naquele país quanto ao longo de suas fronteiras com a Índia, e lança tudo isso contra os elementos progressistas em Cabul. Começando pelos decretos pelos quais não apenas as autoridades burguesas, mas também as social-democratas na Alemanha, proibiram as manifestações do Primeiro de Maio, passando pelos eventos na China e no Afeganistão, podemos ver por toda parte os partidos da Segunda Internacional por trás do trabalho de supressão e opressão. Pois, como vocês sabem, o ataque contra Cabul, organizado com recursos britânicos, ocorre sob o governo do pacifista MacDonald.
Mas temos certeza de que não apenas aqui, em Moscou, mas também em Londres, a voz do protesto proletário contra a política imperialista do menchevismo, que chegou ao poder com a bênção da burguesia, se fará ouvir no Primeiro de Maio.
Agora, gostaria de dizer algumas palavras sobre como conduzimos a política de fraternidade entre os povos. Nesse sentido, a experiência com a Bielorrússia constitui uma boa lição. A Bielorrússia, que tinha uma população de 1,5 milhão, expandiu-se da maneira mais pacífica e tranquila para abranger quase 4 milhões. Expandiu-se sem guerras civis, sem levantes das massas populares, com um simples golpe da caneta soviética. Isso foi alcançado puramente com base em dados estatísticos, por meio da análise do equilíbrio das nacionalidades. Para nós, trata-se meramente de uma questão técnica – os agrupamentos nacionais da nossa União Soviética. Não há aqui material para conflitos e lutas. Citei esse fato em algum momento em Tbilisi, sem me lembrar de que existem correspondentes burgueses e o telégrafo… Mencionei que a Bielorrússia havia crescido para mais do que o dobro do seu tamanho e que isso era a implementação de uma palavra de ordem do nosso programa que Lênin nos ensinou: o direito à autodeterminação nacional. E, além disso, disse que a expansão da Bielorrússia tem para nós um significado adicional; Do ponto de vista da defesa, esse alargamento equivale a três corpos do Exército Vermelho.
Essas palavras foram citadas pela imprensa polonesa, embora lá tenham sido apresentadas de forma diferente: em vez de três corpos, falaram de um único corpo. Não pretendemos discutir isso e esperamos ser poupados da verificação prática dessa discrepância quantitativa. Ao mesmo tempo, a imprensa burguesa polonesa interpreta isso da seguinte maneira: eis por que os bolcheviques abriram as portas da Bielorrússia – para se fortalecerem, enfraquecerem seus vizinhos e fomentarem entre os poloneses bielorrussos o desejo de se estabelecerem segundo o nosso modelo, fortalecendo assim as tendências centrífugas dentro da Polônia, o que, sem dúvida, sempre enfraquecerá o Estado! Foi assim que os astutos diplomatas poloneses desvendaram nossa astúcia bolchevique. Bem, e daí? Tentem nos imitar, só isso! Existe a Liga das Nações, da qual a Polônia faz parte. Essa Liga das Nações ensina como organizar a coexistência das nações. Não concedemos nenhuma patente especial à Liga das Nações e permitimos que qualquer Estado utilize nossa “astúcia” em prol da autodeterminação nacional. Nossa invenção não é monopólio. Imitem-nos, governantes da Polônia e da Romênia!
É interessante, no entanto, saber em que consiste, de fato, a nossa “astúcia”. Podemos analisar as citações: nossa astúcia consiste no fato de libertarmos nações, enquanto a astúcia de vocês consiste no fato de as estrangularem. Eis a nossa força! Eis a vossa fraqueza!
A mesma França que incita a Turquia contra nós conduz uma frenética campanha de agitação contra nós na Polônia, tentando ressuscitar uma lenda insensata, pueril e, ao mesmo tempo, perversa, de que estamos prestes a deslocar o Exército Vermelho para o oeste. Como já explicamos muitas vezes, esperamos sinceramente que o mapa da Europa, mais cedo ou mais tarde, seja diferente do que é no 35º aniversário do Primeiro de Maio. Mas a redefinição das fronteiras dos estados europeus será um subproduto da revolução vitoriosa do proletariado europeu. E, embora desejemos ardentemente que essa hora se aproxime, já demonstramos, e continuaremos a demonstrar, que temos paciência e autocontrole. Seria um absurdo pensar que, sem aguardar a chegada do grande senhor – o proletariado revolucionário – que irá rever as relações de classe e as relações entre as nações na Europa, nos lançaríamos numa aventura para expandir fronteiras e resolver outras tarefas específicas.
Não, nossa política tem um alcance maior, é mais ampla e abrangente. É verdade que muitos políticos poloneses estão com a consciência pesada – se é que essa palavra é apropriada aqui – porque o Tratado de Riga, firmado em um momento específico e com um equilíbrio de forças definido, agora representa um grande obstáculo à cooperação. Até eles entendem isso. Não vamos levantar a questão da revisão do Tratado de Riga – pelo menos, não ouvi nada a respeito por parte de nossos diplomatas. Mas mesmo o tratado mais inadequado está sujeito a uma interpretação e aplicação mais ou menos razoáveis, dependendo das circunstâncias, e esperamos que as classes dominantes da Polônia encontrem em si mesmas a maturidade de pensamento necessária para colaborar com nossa diplomacia cautelosa e paciente na interpretação e aplicação do Tratado de Riga de forma a garantir a cooperação pacífica da qual a Polônia precisa tanto quanto nós.
Mencionei que por trás da Turquia e da Polônia está a França. É ela quem continua a perturbar e sabotar nossas negociações sobre a Ferrovia Oriental Chinesa. Há poucos dias, Poincaré tentou, com uma presunção inesperada para nós nos últimos dias, interferir em nossa vida interna, colocando sob sua elevada proteção seus agentes de Kiev que, por acaso, pertenciam à categoria de professores. Ele recebeu uma resposta negativa. E a essa resposta, ele respondeu com o mais terno (não há outra palavra para descrevê-lo) telegrama endereçado ao camarada Chicherin. Isso é muito típico do governo francês nos últimos meses: primeiro, arma uma cilada para nós, colocando o governo romeno contra nós, autorizando a tomada da Bessarábia, e tenta nos derrubar no Extremo Oriente, para depois publicar um artigo sedutor no jornal francês semioficial Temps e enviar um telegrama afetuoso ao camarada Chicherin.
O significado desta política é evidentemente pedagógico, e não apenas pedagógico, mas, se quiserem, também quase medicinal e clínico: Poincaré nos submete ao efeito da água primeiro fria e depois quente, de acordo com o conhecido método do curandeirismo francês. [Risos] Depois de Clemenceau ter fracassado com os métodos bem mais realistas do arame farpado, ele evidentemente espera agora obter sucesso operando pelo método de Charcot. De fato, Poincaré é um tema maravilhoso para nossos cartunistas. Poincaré com uma mangueira jorrando um jato de água alternadamente quente e fria! Ora, é claro, não queremos atrapalhar em nada esses passos preliminares de “sondagem” que estão sendo dados pelos lados soviético e francês; No entanto, não podemos deixar de dizer que este método hidro terapêutico de lidar com a república soviética não corresponde à situação e não seria má ideia se um cartaz fosse carregado em nossas manifestações de rua no Primeiro de Maio, que dissesse: ‘Poincaré, guarde sua mangueira!’ [Risos, aplausos]
O que eles querem? Querem que lhes paguemos. Esse desejo é muito simples e natural para os agiotas europeus e mundiais. Mas há pouco, li um artigo de um ex-ministro francês, Loucheur, ministro do segundo governo de Poincaré e um dos principais magnatas franceses da indústria do pós-guerra, um artigo em que ele demonstra que não há nada de surpreendente no fato de a França não ter condições de pagar nem aos Estados Unidos nem à Grã-Bretanha. Para pagá-los, ela precisa exportar uma enorme quantidade de mercadorias, o que, por sua vez, prejudicará a indústria britânica e americana. E Loucheur, ministro de um país vitorioso que saqueou e quase estrangulou a Alemanha, prova que a França não pode e não deve pagar suas dívidas. E, ao mesmo tempo, esses senhores tentam colocar contra nós, ora a Romênia, ora a Polônia, ora a Turquia, e nos envolver com a China para nos forçar a pagar.
Mais uma vez, é preciso imaginar por um minuto o papel que os povos da Rússia desempenharam em relação aos líderes da Europa contemporânea. Se, em julho de 1914, o governo czarista russo da época tivesse dito à França e à Grã-Bretanha: “A Rússia sente-se obrigada a guerrear pelos seus interesses enquanto for fisicamente capaz de fazê-lo. A Rússia sente-se obrigada, em prol dos seus interesses, a entregar um milhão e meio de cadáveres. A Rússia sente-se obrigada, em prol dos seus interesses, a inundar suas cidades e vilarejos com aleijados, arruinar sua economia e não exigir de vocês Constantinopla nem os Estreitos em troca. Pelo contrário, ela lhes concederá o direito de doar as terras ocidentais da Bielorrússia e da Ucrânia à Polônia e a Bessarábia à Romênia”, então é bastante claro que os governos francês e britânico considerariam essa uma oferta inédita e terrivelmente fantasiosa, extremamente vantajosa para eles. E se o governo russo da época tivesse dito aos governantes da França: “Vocês comandarão a Europa…” Vocês terão a oportunidade de estrangular a Alemanha pela metade ou por três quartos, como quiserem. Vocês saquearão o carvão do Ruhr. Vocês darão províncias da Rússia a quem bem entenderem – mas pagarão 50 bilhões de francos por isso. Será que a França não teria concordado com isso? Claro que sim, e o velho cínico Poincaré teria assinado o acordo jubilosamente.
Mas afinal, o que aconteceu? Não fomos nós que fizemos tudo isso? Não demos um milhão e meio de cadáveres e outros tantos inválidos permanentes? Não arruinamos nosso país na guerra imperialista? E a França não está devastando a Europa, distribuindo províncias povoadas não por franceses, mas por bielorrussos, ucranianos e aqueles moldavos que não querem ser romenos? É exatamente isso que ela está fazendo. E depois? Ela exige que, por esses serviços sangrentos e horrendos prestados involuntariamente pelo povo russo, nós mesmos paguemos aos agiotas franceses! Não, isso é inaceitável! De jeito nenhum! E embora, é claro, negociações sejam negociações, nossos trabalhadores e nossos camponeses devem, no Primeiro de Maio, desvendar a terrível crônica de nossa participação, a participação dos povos do antigo império czarista na guerra imperialista, e devem contar ao mundo inteiro – e eles devem nos ouvir: ‘Não, depois de tudo isso, depois de todo esse tributo terrível e sangrento que vocês nos exigiram, para nos transformar em devedores insolventes, para nos transformar em vassalos, em escravos dos mercados de ações franceses e mundiais, isso vocês nunca farão por nenhum meio, pois estamos firmemente de pé, permaneceremos firmes e vocês não nos derrubarão!’ [Aplausos]
Um dos últimos passos de Poincaré, que já mencionei, foi a interferência nos nossos assuntos internos no que diz respeito ao julgamento de Kiev. Aqui, ele se apresentou como defensor dos presos, dos perseguidos e dos condenados. Um papel humanitário, sem sombra de dúvida! Mas, camaradas, não nos esqueçamos de que o Primeiro de Maio se tornou, especialmente na Europa do pós-guerra, um dia de luta proletária pela libertação dos revolucionários presos. E podemos lembrar a esse mesmo Poincaré que suas autoridades, recentemente, retiraram dos folhetos eleitorais os nomes de dois de nossos amigos, nomes que haviam sido apresentados como candidatos nas próximas eleições parlamentares na França, nomes de dois amigos nossos que foram condenados à morte à revelia pelos tribunais franceses e não têm possibilidade de retornar à França. E em vez de exercer sua terna misericórdia ao longo do fio telegráfico de Paris a Moscou, seria melhor para o senhor, Sr. Poincaré, dar a Sadoul e Guilbeaux, nossos amigos revolucionários que foram condenados à morte por seus tribunais por terem levantado a voz em protesto contra as vis tentativas imperialistas de Clemenceau de estrangular a jovem República Soviética, a possibilidade de retornar à França.
Além disso, lembremos a Poincaré que nos estados vassalos e semi-vassalos da França, Romênia e Polônia, os melhores militantes estão presos. Os telegramas mais recentes falam de uma greve de fome em uma das prisões da Romênia, onde nossos velhos amigos – que conheço pessoalmente há mais de dez anos – Cristescu e Dobrogeanu estão encarcerados. Dobrogeanu é filho do exilado russo que atuou por muito tempo na Romênia como defensor do marxismo sob o nome de Dobrogeanu-Gherea e foi um dos principais membros da Segunda Internacional. Seu filho pertence à Terceira, a nossa Internacional. Hoje, eles dirigem um grande grupo de comunistas romenos presos que estão em greve de fome contra a vil zombaria da classe trabalhadora em geral e dos presos em particular. Não há país ou cidade onde a voz do Sr. Poincaré não seja ouvida. Contudo, não esperamos, e nem devemos admitir, que peçamos ou esperemos que essa voz se faça ouvir.
Mas no Primeiro de Maio, tanto em Moscou quanto em toda a nossa União, elevamos a voz da solidariedade fraterna a todos os prisioneiros – os representantes presos e encarcerados do proletariado revolucionário. E diremos a eles que consideramos, sabemos e estamos profundamente convencidos de que não são os atuais senhores da Europa, mas precisamente esses nossos irmãos, presos e encarcerados, que personificam o amanhã da Europa e de toda a humanidade. [Aplausos]
A luta contra o militarismo é uma das principais palavras de ordem do Primeiro de Maio. E aqui, mais uma vez, o destino nos brindou com uma ilustração maravilhosa do que a luta contra o militarismo se tornou para a democracia burguesa e pequeno-burguesa, ou seja, menchevique. Há pouco tempo, o proponente do orçamento militar discursou no parlamento francês. Seu nome era Fabry. Esse nome não significa nada para você nem para mim. Ele era um representante dos interesses militaristas do capital francês, um coronel e deputado, que defendeu o orçamento militar. E ouçam as palavras com que ele começou seu discurso: “Os soldados de 1914 sonhavam que a guerra da qual participavam seria a última. Mas agora, aqueles que sobreviveram [não foi mal colocado!] entendem claramente que isso não passava de um sonho, pois a qualquer momento o povo francês pode ter que defender novamente sua honra e seu território.”
Passei os primeiros anos da guerra na França. Dia após dia, observei o trabalho que era feito pela imprensa francesa, pelos partidos políticos franceses e, sobretudo, pelo socialismo e sindicalismo oficiais franceses, para moldar a consciência das massas trabalhadoras de modo a atender às necessidades do militarismo francês. A principal palavra de ordem, a principal ideia e o principal programa era: “Esta guerra é a última guerra”. Isso constituía a manchete dos editoriais e a frase de abertura dos discursos. Certa vez, quando eu estava na catedral de Notre-Dame, em Paris – eu estava lá no dia dedicado à bênção do “canhão de 75 mm”, o canhão de 75 mm que era o orgulho da artilharia francesa – havia uma cerimônia solene e, ao mesmo tempo, marchas patrióticas nas ruas. E então, até mesmo o arcebispo da França começou e terminou seu discurso com as palavras: “Oremos para que seja da vontade do Todo-Poderoso que esta guerra seja a última guerra”.
Naquela época, publicávamos em Paris um pequeno jornal em russo – chamava-se Nashe Slovo – e, nesse jornal, tentávamos, sob o jugo da censura militar francesa, afirmar que esta guerra não seria a última, que, por si só, não continha nenhum elemento que justificasse o fim das guerras e que era apenas mais um elo na cadeia da vilania burguesa, da violência e da sede de sangue. Nosso censor era um oficial francês, Challe, que antes fora professor de francês em um dos ginásios da Rússia czarista. Não sei onde está hoje esse Monsieur Challe, o homem que apagou nossos artigos em que refutávamos a ideia de que esta guerra seria a última, por considerá-la uma ilusão e uma utopia pacifista. Atualmente, todos os Challes consideram seu dever provar que é necessário se preparar para novas guerras; e que quem pensa que se pode pôr fim a tudo com a última escaramuça que sangrou a França até a morte é um pobre patriota!
Mas o que o proletariado francês tem a ouvir hoje da boca do proponente oficial do orçamento militar? Em 1914, convocamos vocês, operários e camponeses franceses, a derramar sangue em nome de quê? Em nome do fim definitivo do imperialismo e das guerras. Foi a isso que Renaudel, o antigo dirigente do partido social-democrata, jurou; foi a isso que Jouhaux, o então dirigente dos sindicalistas franceses, jurou. Ambos ainda estão vivos e até hoje nenhum deles se envergonhou; não, eles estão vivos e discursam em assembleias operárias; e vocês os veem lá justamente quando o proponente do orçamento militar diz: “Foi um pequeno mal-entendido; um milhão e meio de franceses foram mortos, dez departamentos destruídos e o padrão material do país reduzido… por quê? Dissemos a vocês, operários, que tudo isso era para que esta guerra fosse a última guerra.” Mas cometemos um pequeno deslize na soma: esta não é a última guerra, haverá mais guerras, então preparem-se, apelamos a vocês, e enquanto isso, paguem seus impostos!
Diante desses fatos, que zombaria, que zombaria vil e miserável é apresentada por um documento, que vocês ainda não leram, mas lerão no jornal de amanhã, publicado pela Internacional de Amsterdã em conexão com o décimo aniversário da declaração da guerra imperialista “final”. Esses mesmos Renaudels e esses mesmos Jouhauxs – que têm nomes diferentes em países diferentes, mas que, em essência, são os mesmos, seja qual for o meridiano sob o qual estejam – reuniram-se mais uma vez em suas Internacionais de Amsterdã e Segunda para debater a questão de como evitar uma nova guerra. Eles têm, de fato, uma grande experiência adquirida, especialmente no período recente durante a guerra imperialista. E assim, publicaram um documento no qual eles, os patriotas e salvadores das pátrias, convocam todas as organizações operárias filiadas à associação de Amsterdã e também à Internacional Socialista a organizar manifestações de massa contra a guerra e declararam o terceiro domingo de setembro deste ano como um dia contra a guerra. Uma manifestação de massa contra a guerra! Contra qual guerra? Contra a guerra em geral, para que em geral não haja guerras, assim como se realizam procissões religiosas para que não haja secas. [Risos]
Quando uma guerra é iminente ou se aproxima, então obviamente será uma “guerra justa”, e então tanto Renaudel quanto Jouhaux explicarão pela segunda vez que esta é, mais uma vez, a última guerra, ou que é uma guerra inevitável pela democracia. Mas contra a guerra em geral, contra o espectro da guerra, contra as aparições da guerra e contra a palavra “guerra”, eles estão bem dispostos a protestar nas ruas de Londres, Paris e qualquer outro lugar. Mas, camaradas, qualquer patife ou burguês não participaria de uma manifestação como esta? Stinnes não participaria? Mas Stinnes já não participaria. [Risos] Mas não importa, talvez sua cunhada, sua tia, seu boi ou seu burro, como se diz na Bíblia – todos os burros de Stinnes – não participariam de uma manifestação como esta? [Risos, aplausos]
E a segunda proposta: “Que o terceiro domingo de setembro seja um dia de protesto contra a guerra”. Mas por que o terceiro domingo de setembro? Já não temos o feriado do Primeiro de Maio para a luta contra o militarismo? Para que serve esse terceiro domingo de setembro? [Risos] Vocês sabem que o primeiro de maio, por causa da má organização do calendário, nem sempre cai num domingo, mas acontece que, seis em cada sete vezes, o dia 1º de maio cai num dia útil e a manifestação interrompe o curso normal da exploração capitalista. [Risos] E enquanto a social-democracia alemã, em sua capacidade governamental, proíbe marchas de rua, protestos e manifestações do Primeiro de Maio em Berlim, Halle, Dresden, Leipzig e outras cidades, a mesma social-democracia, agora não na capacidade de um governo alemão, oh, não! – mas como membro da Internacional de Amsterdã e da Segunda Internacional, encontra uma nova e feliz solução: o terceiro domingo de setembro será um dia santo em que todos os burros dos Stinnes irão lutar contra a burguesia. [Risos, aplausos]
Camaradas, leiam, a este respeito, a simples, breve e verdadeiramente imortal instrução que Lênin escreveu à nossa delegação em Haia, onde explicou quão profundos são os preconceitos na esfera da luta contra o militarismo e quão habilmente a burguesia aqui manipula seus Renaudels, seus Jouhaux e (para não mencionar os altos funcionários) seus Scheidemanns e assim por diante. Camaradas! Se existe hoje um poderoso agente político trabalhando para a preparação de uma nova guerra, então é a falsa social-democracia pacifista com seu “terceiro domingo do mês de setembro”, pois é justamente isso que acalma a consciência das massas trabalhadoras da Europa para depois lhes apresentar um fato consumado. Ela não brande uma espada como o Bourbon declarado do militarismo, mas cria novas ficções, tenta reacender as antigas, reúne-se em suas Internacionais, publica manifestos, cria uma ilusão e a espuma de uma luta; ela acalma, desmoraliza e, assim, prepara a carne para canhão para novas guerras. Não, nunca haverá crueldade e irreconciliabilidade suficientes na luta contra essa obra desonesta e traiçoeira.
Podemos agora ver mais um exemplo: o do governo dos sindicatos britânicos, o governo do Partido Trabalhista, que é um governo da Internacional de Amsterdã e da Segunda Internacional. E o orçamento militar “de Amsterdã” do governo britânico? — Eu fiz as contas, não é difícil, já que é preciso juntar três partes: o orçamento do exército, o orçamento da marinha e o orçamento da força aérea. No total, chega a 115 milhões de libras, que, convertidos em rublos, equivalem a 1,15 bilhão de rublos de ouro. Aparentemente, nem um centavo a menos, e na verdade, de 10 a 15 milhões de rublos de ouro a mais do que no ano passado, ou seja, mais do que o orçamento do governo conservador da Grã-Bretanha e cerca de quatro, senão cinco vezes mais do que o nosso orçamento soviético! Quando esse orçamento foi apresentado ao parlamento britânico, havia alguns deputados ingênuos desse mesmo Partido Trabalhista que jogaram a toalha e perguntaram como isso poderia estar ligado ao pacifismo puritano do Partido Trabalhista? E havia um membro desse mesmo partido, um tal de Sr. Guest – nunca tinha ouvido esse sobrenome antes – que naquele exato momento, acenando na direção de Moscou, disse (já citei isso uma vez): “E quanto ao militarismo de Moscou?”
Camaradas, permitam-me citar um trecho de um antigo discurso de Vladimir Ilyich. Ele o proferiu justamente sobre essa mesma questão, contra os nossos mencheviques, em 13 de março de 1919: “Um certo monarca prussiano do século XVIII fez uma observação muito sábia: ‘Se os nossos soldados entendessem pelo que estamos lutando, não seríamos capazes de travar mais nenhuma guerra’”. O antigo monarca prussiano não era um homem estúpido. Mas agora estamos em posição de dizer, comparando a nossa situação com a desse monarca: “Podemos travar uma guerra porque as massas sabem pelo que estão lutando”. E mais: “Há algumas pessoas estúpidas que vociferam sobre o militarismo vermelho. Que crime hediondo!”. Os imperialistas do mundo inteiro se lançam sobre a República Russa para estrangulá-la, e nós nos dedicamos a criar um exército que, pela primeira vez na história, sabe pelo que está lutando e pelo que está fazendo sacrifícios, e que está resistindo com sucesso a um inimigo numericamente superior, enquanto a cada mês a resistência da revolução mundial se aproxima em uma escala nunca antes vista. E eles condenam isso como militarismo vermelho! Repito: ou são tolos que não se submetem à análise política, ou são políticos canalhas.
E mais adiante, algumas linhas abaixo, ele afirma novamente, de forma ainda mais incisiva e direta: “Temos uma posição em que apenas os políticos mais desprezíveis e vis podem proferir palavras fortes e nos acusar de militarismo vermelho”. Vladimir Ilyich gostava de se expressar de forma simples, clara e incisiva. E assim, em Londres, encontramos um suposto deputado trabalhista que sabe que não foi o Exército Vermelho que desembarcou no Tâmisa, mas sim as forças britânicas que desembarcaram nas margens do rio Pechora do Norte e de outros rios; que sabe que oficiais britânicos participaram da revolta de Yaroslavl e de outros atos sangrentos; Encontramos um suposto deputado trabalhista que, em resposta à acusação de que são vocês que estão construindo cinco novos cruzadores e novos caça-minas, expandindo o programa Curzon para tanques leves e aumentando indefinidamente a força aérea e a marinha, diz: “Mas vejam, lá em Moscou, não está começando um certo militarismo?” Não é de se surpreender que, depois dessas palavras, se recorra à citação de Ilyich, onde se diz que apenas os políticos mais sujos e vis podem fazer esse tipo de acusação de militarismo vermelho. Dá vontade de dizer: Sr. Guest, nos dê um recibo. [Aplausos]
Camaradas, no Primeiro de Maio devemos relembrar o chamado militarismo vermelho, pois parece que alguma sujeira está sendo novamente agitada em nossa fronteira. Circulam rumores – a imprensa da Guarda Branca os divulga e a imprensa estrangeira hostil os traduz – de que novos ataques são iminentes em nossa fronteira a oeste. Mais recentemente, multiplicam-se os rumores de que uma ameaça também cresce no leste. É preciso dizer francamente que nem tudo nesses rumores é produto da fantasia dos círculos de emigrados brancos.
Uma luta está em curso entre os governantes de Tóquio, no Japão. Há uma ala militarista extremista que deseja recuperar as perdas sofridas com o terrível terremoto que devastou o Japão, às custas da União Soviética. O Japão concordou com um grande empréstimo dos Estados Unidos para a reconstrução das áreas devastadas. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos expulsam impiedosamente os imigrantes japoneses. O Japão, evidentemente, interpreta isso como um sinal de que a burguesia americana está abrindo caminho para sua saída pela costa do Pacífico soviética. Nos últimos meses, os japoneses têm falado novamente sobre o fato de que a população da costa do Pacífico da União Soviética está cada vez mais buscando a independência nacional e que representantes dessa população estão entrando em contato com círculos influentes e respeitados no Japão, solicitando apoio.
Conhecemos esses representantes pelo nome, e o mais barulhento e arrogante deles é Atarnan Semyonov. Lá no Extremo Oriente, e aparentemente com o conhecimento de uma parte dos círculos governantes japoneses, mesmo que uma nova aventura militar não esteja sendo preparada, pelo menos os pré-requisitos políticos e psicológicos para tal preparação estão sendo criados, e no Primeiro de Maio iremos desmascarar isso e levar ao conhecimento da classe trabalhadora japonesa. No Japão, trava-se uma luta pela democratização do país. Já dissemos em algum momento que o Japão se encontra, em certo sentido, às vésperas de seu 1905, essa grande porta de entrada para 1917. Certamente a burguesia japonesa não pode estar tão preocupada com a simetria histórica a ponto de ir ao encontro de seu 1905?
Eles desejam iniciar uma nova guerra russo-japonesa, desta vez soviético-japonesa, uma guerra não por nossa iniciativa – não a queremos – mas por iniciativa de seus chauvinistas extremistas. Apelamos às massas trabalhadoras do Japão, alertando-as sobre os conclaves secretos do Estado-Maior e de oficiais de Estado, onde novos atos sangrentos estão sendo tramados e arquitetados. E tudo o que for possível deve ser feito para que nosso Extremo Oriente e o Japão sejam protegidos de novas aventuras. Diante desses perigos inegáveis, genuínos e reais, não só não podemos nos considerar violando os preceitos do Primeiro de Maio, como, ao contrário, podemos nos manter firmes nos preceitos da luta contra o militarismo ao construirmos, desenvolvermos e fortalecermos o Exército Vermelho, pois nós, revolucionários, entendemos a luta contra o militarismo não em um sentido pacifista, mas sim militante.
Devemos forçar a burguesia a desarmar-se! Devemos desarmá-la à força! Não há outro caminho. Ou será que há? A questão não depende de nós. Estamos prontos para prestar assistência a qualquer governo burguês ou a seus agentes especiais mencheviques, se eles tentarem dar ao menos um passo, mesmo que seja apenas meio passo, no caminho do pacifismo. Neste momento, o presidente americano está mais uma vez começando a flertar com a ideia do desarmamento. Aceitamos essa ideia. Podemos participar disso e estamos prontos para fazê-lo. É claro que haverá correspondentes que dirão que isso é mais uma artimanha bolchevique, como foi com a Bielorrússia. Que coisa realmente impressionante! Apoiamos o desarmamento e eles nos dizem: como vocês podem apoiar o desarmamento e nos propô-lo quando sabem que somos incapazes disso e quando sabem que somos ladrões de estrada – como podem nos propor isso? Vocês propõem aos bandidos que larguem suas facas? É exatamente isso que estamos dizendo: o bandido imperialista não entregará sua faca a menos que vocês a tomem dele à força. Por isso é necessário ter armamentos. Por isso também é essencial o Exército Vermelho.
A questão do desarmamento, a questão do armamento e a questão da política militar são todas urgentes, sérias e concretas – aqui não se pode se esconder atrás de palavras, pois não se trata da questão de salvar a própria alma à qual MacDonald dedica seu tempo livre aos domingos. Trata-se de encouraçados, canhões, gases e outros argumentos terríveis. Não é brincadeira. Trata-se da vida e da morte da sociedade burguesa e do destino do proletariado! É por isso que nosso feriado do Primeiro de Maio, a festa da luta contra o militarismo, será a festa do Exército Vermelho.
É verdade que a Europa entrou agora numa nova fase, uma fase de conciliação que se expressa no fato de um governo após o outro nos reconhecer. Na Grã-Bretanha, é o governo dos mencheviques. Os últimos telegramas relatam que também na Dinamarca, o governo do social-democrata Stauning revelou imediatamente a sua verdadeira face ao convidar o diplomata aristocrático Conde Moltke para ser Ministro dos Negócios Estrangeiros: porque, vejam bem, um ministro dos Negócios Estrangeiros tem de lidar com “cavalheiros de verdade”! Aqui, o governo social-democrata teve de ceder o lugar ao Conde Moltke. É preciso saber reconhecer a honestidade!
Nos Estados Unidos da América, ambos os partidos tradicionais se comprometeram com o escândalo do petróleo e com todo tipo de pecados. O novo partido “Progressista” se mobiliza em seu auxílio, mas ao mesmo tempo deseja se apoiar tanto nos agricultores quanto nos trabalhadores.
Na França, teremos novas eleições parlamentares em 13 de maio, que levarão ao poder o bloco de esquerda – os mencheviques e os radicais que também se autodenominam socialistas, porque hoje em dia esse é o discurso mais barato. O mesmo está acontecendo, mas de outras formas, na Itália e na Espanha. Assim, podemos ver que a burguesia está produzindo um novo reagrupamento – ela emergiu recentemente da fase fascista, quando operava com a ajuda de grupos de classe escolhidos a dedo, e agora coloca em cena os partidos conciliacionistas. Para quem acompanhou todas as tribulações ligadas à fase fascista, ficará claro que a burguesia seria compelida a recorrer rapidamente a outro recurso, trazendo à tona a degenerada epígona da social-democracia. E se há algo que impede o proletariado europeu de lutar contra seus governos, é precisamente essa decadência conciliacionistas que o impede de se lançar na luta.
Podemos ver como o governo do mesmo MacDonald treme diante da voz de seus mestres, a burguesia, enquanto impede o proletariado britânico de dar um passo ousado para confrontá-lo. Se houvesse um mínimo de energia e coragem no governo trabalhista britânico, ele firmaria um amplo tratado conosco, e esse tratado marcaria uma nova página na história do mundo inteiro. Basta ver como os depósitos nos bancos britânicos cresceram nos últimos anos. A indústria britânica não tem mais seus antigos mercados; recuperou apenas três quartos de seus mercados pré-guerra. Se não firmarem um tratado conosco, serão sufocados pela pressão dos Estados Unidos.
Nós, com nossos vastos territórios e nossa população de 130 milhões, representamos para eles os maiores interesses. Nosso país é rico em recursos naturais que faltam à Grã-Bretanha. Vejam nossas terras agrícolas, que poderiam alimentar a Europa. Vejam nossas riquezas subterrâneas, nossos campos de petróleo e nossas florestas, com os quais poderíamos abastecer toda a Europa e o mundo inteiro. Tudo isso clama pela tecnologia britânica! Basta nos unirmos e vocês verão como rapidamente seremos capazes de prosperar. A classe trabalhadora britânica teria trigo e pão baratos, carne e matéria-prima suficiente, e se tornaria mais rica – assim como nós. E uma aliança entre o Partido Trabalhista Britânico e a União Soviética dos trabalhadores e camponeses seria uma poderosa alavanca no mundo, não uma mera demonstração platônica no terceiro domingo de setembro, mas a oportunidade de combinar a força naval mais poderosa com as forças armadas terrestres mais poderosas. Juntamente com a classe trabalhadora britânica, poderíamos ordenar que a Europa se desarmasse, e a Europa não ousaria nos expulsar! [Aplausos]
E, no entanto, esses senhores nos repreendem pelo fato de que esta ou aquela expressão áspera nossa esteja atrapalhando o andamento das negociações na Grã-Bretanha. Mas não é essa uma visão vergonhosa e desprezível? Certamente os interesses de duas grandes nações, dois estados, não podem ser determinados por esta ou aquela expressão áspera? Mas por que essas expressões estão na ponta da língua? Porque o programa que acabei de esboçar, ainda que rudimentar, este programa de pacificação da Europa e seu rápido desenvolvimento ascendente, não se concretizará, pois a classe trabalhadora britânica não tem um governo capaz de dar esse passo ousado, garantido por toda a história, de uma aliança conosco. Em Londres, aceitamos uma série de acordos e aceitaremos, com toda a sinceridade, novos acordos, cumpriremos todas as nossas obrigações e, ao mesmo tempo, diremos – e nenhuma consideração diplomática poderá impedir isso – diremos à classe trabalhadora britânica: “Vocês não têm à sua frente um governo digno de vocês!”
Quando chamei o governo MacDonald de governo de mordomos da burguesia britânica, a imprensa britânica se apropriou dessa expressão quase como se ela ofendesse a dignidade nacional da Grã-Bretanha. Lá, traduziram-na de várias maneiras. Afirmaram que eu disse que MacDonald era um “escriturário” de banco e outros disseram que era um “tubarão da bolsa”. Já expliquei que não disse isso. Um escriturário de banco é um empregado, um proletário bancário, e entre eles há muitos revolucionários brilhantes. Que eu saiba, MacDonald não trabalhou em um banco e, se trabalhou, mudou radicalmente de profissão. [Risos] Também não o chamei de tubarão da bolsa. Essa também é a profissão, embora menos louvável, do pequeno especulador da Bolsa de Valores. Que eu saiba, MacDonald não teve nenhuma relação com essa categoria e, pelo menos, não tem agora. Mas quando digo que ele é o guardião político da burguesia, então esta é a verdade e no Primeiro de Maio podemos repetir esta verdade com a consciência tranquila. [Aplausos]
Quando disse isso, não sabia que estava cometendo um plágio literário de Lloyd George, pois foi ele (precisamos incluir isso!) quem disse em 24 de abril: “Os liberais colocaram MacDonald no poder e lhe desejaram boa sorte, mas em três meses ele desperdiçou completamente a reserva de sua benevolência”. De quem é essa voz? É a voz do mestre que “colocou um administrador no comando”. “Eu o coloquei no comando, confiei em você, mas você não cumpriu minha confiança”. E não temos razão em dizer que, se MacDonald reconhece essa crítica e essa voz do mestre, pode ele nos culpar se traduzirmos isso para a linguagem da nossa terminologia política? Pode parecer que o governo trabalhista britânico foi colocado no poder pelo proletariado e tem responsabilidade perante ele. E pode parecer que MacDonald deveria fazer um apelo ao proletariado para inserir em seu programa a política de uma aliança com a União Soviética em uma plataforma de cooperação fraterna. E se ele tivesse apresentado tal programa e Lloyd George tivesse ousado levantar a voz contra ele, nove décimos do proletariado teriam varrido tanto os Liberais quanto os Conservadores do poder, e então o novo governo trabalhista da Grã-Bretanha seria inabalável.
Mas será que isso acontecerá agora? Não, nem amanhã. Mas essa hora está se aproximando. E quem a está aproximando? MacDonald e seus associados. Eles nos acusam de propaganda. Mas certamente nenhum de nós, mesmo que fosse para a Grã-Bretanha conhecendo a língua inglesa, os costumes, os hábitos e as tradições à perfeição, conseguiria exercer tamanha influência por meio de sua propaganda, nem provocar uma mudança tão grande na consciência da classe trabalhadora quanto o fato de que, à frente do país, está um governo que se considera o governo da classe trabalhadora, mas ao qual Lloyd George diz: “Eu os coloquei no comando, mas vocês não cumpriram minha promessa”. Eis um diálogo instrutivo! Eis propaganda! Isso ficará gravado para sempre na consciência dos trabalhadores da Grã-Bretanha. Não estamos fazendo propaganda, mas uma previsão, pois temos uma teoria de previsão política e uma percepção forjada pela experiência revolucionária. Prevemos que MacDonald e seu governo desempenharão na Grã-Bretanha um papel preparatório muito importante para a revolução, não porque MacDonald o deseje, mas, pelo contrário, porque não o deseja.
MacDonald pertence aos puritanos. A igreja puritana é o ramo inglês do calvinismo. O calvinismo é a doutrina protestante cuja base é a lei da predestinação. Essa lei afirma que nenhum homem possui livre-arbítrio, mas realiza seu destino de acordo com os desígnios da providência divina. Não existe livre-arbítrio. Cada homem é um instrumento nas mãos da providência divina; essa ideologia do calvinismo se assemelha muito à política, à psicologia e ao papel objetivo da democracia e do menchevismo na atual época de autocracia imperialista. O calvinismo diz: suas ideias e esperanças não passam de ilusões subjetivas, pois, na verdade, você é um instrumento nas mãos da providência. E o político pequeno-burguês, de fato, é alimentado por ilusões; cada passo que dá é ditado por erros subjetivos, mas, na realidade, ele é um instrumento, se não nas mãos da providência, então nas mãos de Morgan, Rockefeller e do grande capital em geral. E embora seja inegável que, nesse sentido, MacDonald represente uma ferramenta nas mãos da City de Londres e da Bolsa de Valores Britânica, a história lhe atribuiu um papel ainda maior, ao representar a ferramenta inconsciente não da providência divina – temos uma divergência bastante séria com MacDonald nesse ponto, pois não há lugar para a providência divina nem em nosso programa nem em nossas ideias – mas das leis da história. A história lhe disse: “MacDonald, guiado por seus preconceitos subjetivos, mostre o que você pode fazer e mostre o que você deseja fazer”. E assim MacDonald nos mostra que deseja pouco e é capaz de ainda menos [Risos, aplausos].
E é este o seu enorme papel – nas mãos da providência da história. Como resultado, MacDonald dá um poderoso impulso ao movimento revolucionário das massas da Grã-Bretanha. Permitam-me repetir mais uma vez: isto não é propaganda; trata-se de uma previsão marxista baseada nas leis da história e em toda a nossa experiência política. Estamos negociando com MacDonald de boa-fé e eu, como cada um de vocês aqui, quero que essas negociações tragam resultados práticos. Essas negociações estão em um plano, enquanto os problemas da grande luta de classes e da disputa entre as duas Internacionais estão em outro plano, superior, e abrangem grandes massas de pessoas e grandes períodos. Pois passaremos o Primeiro de Maio com a profunda certeza de que, neste grande jogo de forças históricas, na luta de classes e no funcionamento das leis da história, MacDonald e todo o menchevismo europeu formam um instrumento que está preparando, não segundo as leis de Calvino, mas segundo as leis de Marx, o terreno para o advento do bolchevismo britânico.
Não faz muito tempo, MacDonald disse: “Lutamos contra Moscou e derrotamos Moscou”. Presumivelmente, isso não é propaganda! “Lutamos contra Moscou e derrotamos Moscou”. Ele considera que o fato de hoje, no 35º aniversário do Primeiro de Maio, a Europa, desmembrada, sangrando até a morte, liderada por mencheviques e semi-mencheviques (na medida em que a burguesia lhes permite liderar), ainda estar viva, significa nossa derrota. Não, esta é apenas uma das etapas no caminho para nossa futura vitória histórica.
Vocês lutaram contra Moscou e estão lutando contra Moscou. E daí? Não temos medo de travar essa luta em paralelo às negociações. Mas não, vocês ainda não derrotaram Moscou. Nem de longe! Estamos falando da Moscou Vermelha, aquela Moscou onde estamos aqui nos preparando para celebrar o Primeiro de Maio à nossa maneira soviética. Esta Moscou Vermelha é forte, um grande e forte construtor a ergueu, e o menchevismo europeu e o macdonaldismo britânico não a derrotarão! É verdade que o grande construtor da Moscou Vermelha não estará conosco celebrando o Primeiro de Maio – ele repousa no coração de Moscou, no mausoléu da Praça Vermelha; mas se o grande construtor da Moscou Vermelha morreu, então aquele que derrotará nossa Moscou Vermelha ainda está por nascer! [Aplausos estrondosos – Internacional]
