Há 100 anos, começava a greve geral britânica. Para comemorar este marco do movimento operário internacional, o secretário-geral do Partido Comunista Revolucionário Britânico, Ben Gliniecki, escreveu uma brochura com o objetivo de destacar as valiosas lições dessa titânica batalha de classes para os comunistas de hoje.
A brochura ainda não está disponível em português, mas aproveitamos a data para lembrar deste evento grandioso da classe trabalhadora britânica, oferecendo a nossos leitores o prefácio escrito por Rob Sewell e uma palestra do autor da brochura sobre a greve de 1926, é possível acionar as legendas em português.
Este ano, 2026, marca o centenário da Greve Geral de 1926, um marco imponente na história da classe trabalhadora britânica.
A greve não surgiu do nada. Teve suas raízes e foi preparada pelas contradições sociais do período anterior.
Após a Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha já não era a potência industrial e imperial dominante que fora no século XIX. Novos rivais emergiram. As velhas indústrias tornaram-se menos competitivas. Os lucros estavam sob pressão. A Grã-Bretanha havia perdido a liderança na economia mundial e lutava para se adaptar a essa nova realidade.
Os donos da indústria procuraram resolver esse problema atacando a classe trabalhadora. Os salários tinham que ser cortados. As condições de trabalho tinham que piorar. Os gastos sociais tinham que ser reduzidos. O fardo de restaurar a competitividade foi colocado diretamente sobre os ombros daqueles que trabalhavam para viver.
Na década de 1920, isso gerou uma crescente militância entre os trabalhadores. Mineiros, ferroviários, trabalhadores do transporte e outros resistiram aos cortes salariais e à piora das condições de trabalho. Eles se organizaram, entraram em greve e exigiram uma direção que os defendesse. As tensões políticas e industriais aumentaram ano após ano até que a Greve Geral finalmente eclodiu em 1926.
A greve durou nove dias e abalou os próprios alicerces do capitalismo britânico. Em termos de luta de classes, uma greve geral não é uma greve comum. Seu impacto dramático, ao paralisar a sociedade, levanta a questão do poder: quem realmente governa a sociedade, os trabalhadores ou os capitalistas?
A Greve Geral Britânica de 1926 é uma resposta a todos os céticos – e são muitos – que desprezam a própria ideia de que os trabalhadores podem mudar a sociedade. Ela demonstrou, na prática, o poder potencial da classe trabalhadora. A fonte desse poder reside na posição dos trabalhadores dentro da produção. Eles operam os sistemas de transporte, geram energia, fabricam bens e distribuem produtos de primeira necessidade. Eles possuem conhecimento prático de como a economia funciona, porque são eles que a fazem funcionar.
No decorrer da Greve Geral, surgiram os Conselhos de Ação – sovietes embrionários. A ação espontânea da classe trabalhadora deu origem aos primórdios de um duplo poder. O poder constitucional estabelecido como o Estado foi desafiado pelo poder operário. Demonstrou-se que nenhuma roda gira, nenhuma lâmpada acende, nenhuma refeição é entregue – a lista é interminável – sem a gentil permissão da classe trabalhadora.
Infelizmente, esse poder não foi utilizado em 1926 para levar adiante a derrubada do sistema capitalista. Os trabalhadores chegaram perto e sentiram o potencial. O incipiente Partido Comunista mostrou-se fraco demais e depositou muita confiança nos dirigentes sindicais de esquerda para aproveitar a situação. No fim, a Greve Geral foi paralisada e traída pelos dirigentes do Conselho Geral do Congresso dos Sindicatos (o TUC).
A Greve Geral pode parecer destoante da tradição britânica. Afinal, não tivemos uma greve dessa envergadura nos últimos cem anos. Ela parece ter desaparecido da consciência coletiva. Contudo, houve ocasiões no século passado, como em 1972 e 1984, em que outra greve geral era perfeitamente possível. As contradições sociais que se acumulam na Grã-Bretanha hoje, em 2026, podem gerar condições semelhantes.
Um século depois, o padrão de contradições que precedeu 1926 se repete. A Grã-Bretanha se vê novamente em busca de seu lugar em um mundo em transformação. O crescimento é fraco. A dívida é alta. A indústria produtiva foi esvaziada após décadas de subinvestimento e de uma guinada para a especulação. A infraestrutura se deteriora enquanto a desigualdade aumenta.
Internacionalmente, a estrutura que outrora sustentava o capitalismo global está se desfazendo. A rivalidade econômica se intensificou. As alianças políticas são instáveis. Nessas condições, o capitalismo britânico busca, mais uma vez, alívio cortando custos internamente. O resultado tem sido uma queda acentuada no padrão de vida, em serviços públicos precários devido à falta de recursos e na insegurança generalizada. Os paralelos não poderiam ser mais claros. A luta de classes está na ordem do dia.
Como resultado, devemos aprender com as lições do passado. Uma reavaliação da Greve Geral de 1926 é de suma importância para os dias de hoje.
