A privatização iniciada no governo João Doria (PSDB) deu um novo salto a partir do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Depois de quatro anos de fracasso da concessão das linhas 8 e 9, com aumento de cerca de 400% no número de falhas, demissões em massa e um pesadelo sem fim para os passageiros, a partir do dia 28 de agosto chegou a vez da linha 7.
A primeira vítima desse processo foi justamente o renomado “serviço 710”, ou seja, a conexão direta entre as linhas 7 e 10, que permite maior velocidade de deslocamento dos passageiros ao eliminar a integração na estação da Barra Funda. Não por um problema de logística, mas sim para proteger o lucro da empresa privada (grupo CRRC), que recebe valores adicionais por integrações realizadas, fazendo com que a continuidade do serviço 710 implicasse em “evasão de renda” para a empresa. Um exemplo claro de como o lucro, na sociedade capitalista, se contrapõe ao uso racional dos recursos disponíveis e leva à piora constante das condições de vida da classe trabalhadora.
A classe trabalhadora sob ataque
O avanço das privatizações sob o governo Tarcísio pode dar a impressão de uma diferença entre os gestores do capital: onde o governo do PSDB seria de uma direita “democrática”, mais “cautelosa” em relação às privatizações, em oposição ao “fascista” e “privatista” Tarcísio. Esse é um erro de análise no qual não podemos cair se quisermos intervir na realidade de maneira a modificá-la, defendendo os interesses da classe trabalhadora. Se insistido, pode ainda nos levar ao caminho do “mal menor” e a todas as suas consequências, como a ilusão nos setores ditos “progressistas” da burguesia, o apoio aos nossos inimigos e o abandono da independência de classe, única saída possível para a classe operária.
Não duvidamos por um instante que Tarcísio seja um indivíduo de ideologia fascista; no entanto, temos plena consciência de que o PSDB, e seus representantes, está tão disposto a massacrar os trabalhadores e a juventude quanto o governo Tarcísio. A diferença na voracidade dos dois governos consiste principalmente em um aprofundamento da crise capitalista e na intensificação da luta de classes.
A crise nunca resolvida de 2008/2009 foi potencializada pela pandemia de Covid-19, que jogou o mundo capitalista em uma espiral de crise e inflação, na qual, novamente, espera-se que a classe trabalhadora pague a conta. A privatização da CPTM deve ser entendida como continuidade dos ataques à previdência, da reforma trabalhista e do rebaixamento das condições gerais de vida de nossa classe.
A privatização dos serviços públicos representa não apenas um ataque ao “salário indireto” da classe trabalhadora e da juventude, mas também a abertura de novos ramos para a exploração do capital, que busca desesperadamente elevar sua rentabilidade em um mundo devastado por uma crise sem fim. Nesse cenário, vemos não apenas grandes empresas brasileiras (com boa parte de capital estrangeiro), como a CCR, mas também gigantes do capital internacional, como a chinesa CRRC, agora na linha 7, correndo para abocanhar o que for possível antes de seus concorrentes.
As privatizações não são, portanto, apenas um capricho da nossa conhecida elite tacanha e covarde, mas um projeto do imperialismo, representado por várias empresas e países (principalmente EUA e China), que busca cada vez mais assegurar mercados e espaços para seus investimentos.
O caminho para a vitória
A privatização das linhas da CPTM, com todas as consequências que vemos nas linhas 8 e 9 e a extinção do serviço 710, não seria possível sem a traição das direções sindicais, que têm conseguido, por ora, conter o movimento de luta dos ferroviários.
Tarcísio foi capaz de seguir com o projeto de entrega das linhas não porque venceu os ferroviários em combate aberto, mas porque os ferroviários foram impedidos de lutar. Nenhum dos leilões foi enfrentado sequer por uma greve da categoria!
A burguesia e seus representantes seguem sendo o inimigo principal dos trabalhadores ferroviários, mas não podem ser derrotados sem que antes sejam acertadas as contas com seus aliados dentro do movimento operário: as direções pelegas e traidoras.
Por isso, nós, da OCI, organizamos na categoria o movimento “Comitê de Luta Contra a Privatização da CPTM”, que tem como objetivo organizar os trabalhadores ferroviários em sua luta sindical contra as direções atuais e contra os patrões e seus governos.
Mas não apenas isso: lutamos para superar todas as divisões em nossa classe, que buscam contrapor os trabalhadores do transporte público aos usuários desses serviços, mostrando a unidade de interesses e das perdas para toda a classe trabalhadora e a juventude, e demonstrando a articulação dos nossos inimigos no topo. Com isso, buscamos expandir a luta para incorporar os passageiros ao lado dos ferroviários no enfrentamento a essas privatizações.
Diante das recentes agressões imperialistas dos EUA, é muito fácil cair no “abraço apertado da China”, como o governo Lula vem fazendo. No entanto, o cenário do transporte sobre trilhos em São Paulo mostra de maneira clara que os capitalistas chineses não são mais aliados nossos do que os de qualquer outro país; sua preocupação segue sendo o lucro acima de tudo.
Apenas os trabalhadores podem salvar os trabalhadores. A escolha entre dois amos não nos interessa e conduz ao mesmo fim: o sucateamento dos serviços públicos e a exclusão cada vez maior do acesso a esses serviços.
O caminho passa pela organização da categoria dos ferroviários, ao lado dos trabalhadores e jovens que dependem do transporte público, para a defesa dos empregos dos ferroviários e de uma CPTM e transportes públicos que sejam pensados para atender aos interesses da imensa maioria, e não como mercadoria a ser explorada por um punhado de parasitas!
