No dia 12 de setembro de 2025, Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão pelos crimes de liderança de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado democratico de direito, golpe de Estado, dano contra patrimônio público nacional e deterioração de patrimônio tombado (patrimônio histórico).
O processo capitaneado pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, ainda julgará diversos “núcleos” de todos envolvidos, no que a grande mídia popularizou como “Trama Golpista”, que envolve a invasão da sede dos 3 poderes, em Brasília, no dia 8 de Janeiro, em um episódio muito similar à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, com o intuito de colocar Jair Bolsonaro na direção do país, à revelia das eleições.
Os jornais de todo o mundo não pouparam palavras para elogiar o exemplo de força da democracia brasileira, numa tentativa desesperada por salvar suas instituições degeneradas e desmoralizadas. No entanto, o mais importante para a classe trabalhadora não é a condenação do indivíduo Bolsonaro e seus generais, e sim a do bolsonarismo como movimento político. Se isso de fato vai acontecer com esse julgamento é outra história, mas por hora, no Brasil e no mundo, celebra-se esse golpe do “establishment” contra o “outsider”.
O Brasil em ebulição: Das Jornadas de Junho até a ascensão do Bolsonarismo
O Brasil não passou imune à crise de 2008. O que começou como uma “marolinha”, nas palavras de Lula, logo se tornou um tsunami que varreria o pacto social da nova república e lançaria o país no mar revoltoso da luta de classes mais aberta, marcada por forte polarização social.
Em 2013, ao lado da primavera árabe, explodiram de norte a sul do país mobilizações de massa, protagonizadas pela juventude, que começaram em torno da luta contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô nas grandes metrópoles, mas que logo escalaram para uma luta contra a ordem existente e com o mote “não é só por 20 centavos” (valor acrescido nas passagens em algumas metrópoles). Em todas as grandes cidades do país vimos atos de rua com centenas de milhares de pessoas, sendo em São Paulo e Rio de Janeiro as maiores, com manifestações que passaram a marca dos 400 mil participantes em SP e 1 milhão no Rio!
A imensa maioria que foi às ruas não sabia exatamente o que queria, mas praticamente todos sabiam o que não queriam. Essa contradição se expressou como em tantos outros movimentos de massa que vimos despontar no mundo no último período: um movimento poderoso que arrasta tudo à sua frente, arranca todo tipo de concessões e vitórias em um primeiro momento, apenas para depois desaguar no leito da ordem capitalista e dar espaço à reação da burguesia, consequência da falta de um partido de massas enraizado na classe trabalhadora e juventude, com um programa claro e marxista orientado para a superação do capitalismo.
A partir dos embates titânicos da classe operária nos anos 70 e 80 do século passado e que culminou na criação do Partido dos Trabalhadores (PT) e na maior central sindical da América Latina, a CUT, o PT se havia convertido no principal partido da classe operária.No entanto, era justamente esse o partido governante a nível federal e a nível municipal em muitas metrópoles, como em São Paulo, palco das maiores mobilizações no país. Foi toda uma geração de jovens que não havia participado da construção do PT, mas que havia crescido sob os seus governos e que agora saiam às ruas para acertar as contas com esse e todos os partidos.
A história do PT, de seu nascimento até sua degeneração, é tema para um outro artigo, mas seu peso como a “única” referência de esquerda capaz de se colocar diante das massas, ao ser integrado à odiosa ordem da democracia burguesa, fez com que se dissipasse uma alternativa real à esquerda. Isso abriu caminho para que a direita pudesse ganhar terreno a passos largos, com a criação de vários movimentos na juventude, sendo o mais expressivo deles o MBL (Movimento Brasil Livre) e uma renovação das forças dos seus partidos tradicionais, num primeiro momento.
É verdade que, após as vitórias das jornadas de junho em seu objetivo inicial declarado – a redução do preço das passagens – o movimento havia sido derrotado ao não avançar na consciência de classe que culminasse no avanço das organizações independentes da classe trabalhadora e da juventude que visassem pôr abaixo a ordem existente. Afinal, a liderança reconhecida MPL (Movimento Passe Livre) não era um partido com um programa claro e uma organização interna democrática que pudesse estar à altura dos anseios das massas que o apoiou, logo não sabia o que fazer diante do que o movimento havia se transformado.
A juventude ainda esboçou uma reação na luta com as ocupações de escolas em 21 estados e o Distrito Federal, a chamada primavera secundarista, em 2016. Entretanto o pêndulo voltou decair para a direita que se pautava em problemas reais mas apresentava soluções distorcidas, enquanto que a esquerda lulista preferia falsear a realidade e semear a desilusão com promessas infundadas.
Nas eleições de 2014, o segundo partido do binômio que dominou a política brasileira na última década, PT – PSDB, bateu na trave e por muito pouco perdeu as eleições para o PT de Dilma Rousseff. Os agora paladinos da democracia da grande mídia que lideram o apedrejamento a Bolsonaro, à época, lançaram intensa campanha para reverter o resultado das eleições, o que culminou no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, com o seu vice, Michel Temer, assumindo a presidência. Imediatamente houve um aprofundando dos ataques gestados por Dilma, mas cortando o acesso do capital Chinês a projetos bilionários como o da internet 5G e a operação da usina nuclear de Angra. Como se isso não bastasse,a prisão de Lula, em 2018, a partir de uma operação judicial fraudulenta, a “Operação Lava Jato” coroou o processo de tentativa de moralizar o sistema, mas tudo isso foi em vão.
O estado de integração do Partido dos Trabalhadores à ordem burguesa era tal, que não foi possível golpeá-lo sem, com isso, aprofundar ainda mais a desmoralização das instituições burguesas e da vasta maioria de seus partidos tradicionais. Essa operação foi de tamanha importância que obteve o apoio do imperialismo americano, mas isso merece o seu artigo próprio.
Aqui cabe dizer que esse movimento não foi apenas calculado pela classe dominante brasileira que via esse como o momento de substituir o PT por um instrumento “mais seu”, mas também do imperialismo americano que via com alarde o crescimento da participação do capital Chinês no Brasil, que ganhava espaço à medida que os governos petistas buscavam se equilibrar entre as duas potências, EUA e China.
É justamente nesse contexto que, em 2018, como um “raio em céu azul” para todos os analistas burgueses, explode o “bolsonarismo” como movimento de massas. Assim como acontece com o Trumpismo e suas variantes na Inglaterra, França, Romênia e etc, que tem sua força não no indivíduo por suas características pessoais, mas antes, no movimento profundo da luta de classes, mais especificamente, no aprofundamento da crise, no fluxo e refluxo das lutas anteriores, na total desmoralização das instituições burguesas e na ausência de um partido operário com um programa marxista que consiga ser visto pelos milhões e apontar uma saída para o pântano no qual o capitalismo se enfiou.
Enquanto toda direita, desde 2014, apoiava-se no movimento de negação da política tradicional e no “combate à corrupção”, esse deputado relativamente desconhecido fora do estado do Rio de Janeiro, dá um salto de qualidade e nega de conjunto toda a política e a democracia burguesa: diz que quer pôr abaixo as odiadas instituições, denuncia a capenga democracia burguesa e se põe como o candidato que “vai acabar com tudo que está aí”.
O bolsonarismo é uma expressão distorcida e reacionária de um latente sentimento anti sistema, armado com o que existe de mais reacionário no campo das ideias e que irá se chocar, sobretudo, com a juventude e com os setores mais oprimidos da sociedade como as mulheres, os negros, as pessoas LGBT, e, através do qual, esse indivíduo se elevou sobre os ombros de milhões para impor a primeira derrota eleitoral para o executivo federal ao PT, desde 1998.
A classe dominante bate cabeça
Bolsonaro certamente não era a primeira opção da burguesia, mas qualquer esperança de que pudesse ser um governo estável para os seus negócios, se foi rapidamente. Novamente, a juventude liderou o ataque, enquanto as direções reformistas lamentavam que o Brasil havia se transformado em um país fascista. Em maio de 2019, durante o “Tsunami da Educação”, 2 milhões de estudantes, em todo Brasil, marcharam entoando o “Fora Bolsonaro” nas principais capitais do país, sendo precedidos por um carnaval de rua, em fevereiro de 2019, dominado pelos gritos “Fora Bolsonaro”. Em seguida, ocorreu o movimento de greve contra a contrarreforma da previdência.
Estava claro para os estrategistas sérios do capital que a atitude beligerante de Bolsonaro poderia precipitar um confronto generalizado com a classe trabalhadora e a juventude, cujo resultado era totalmente imprevisível. Além de sua atuação errática e conflitos constantes com os reconhecidos representantes tradicionais da burguesia no Brasil, seu governo expressou a tendência de buscar priorizar os interesses particulares e imediatos de sua camarilha, no lugar dos interesses coletivos de parte importante da burguesia. Isso fez com que esta executasse um giro de 180 graus, e, após exatos 580 dias, em novembro de 2019, o ex-presidente Lula é solto, tem seu processo anulado e é tornado elegível novamente, com a missão clara de se candidatar em 2022 e derrotar Bolsonaro nas urnas.
A pandemia intensificou a crise do governo Bolsonaro. A piora constante das condições de vida, as centenas de milhares de mortos (em dados oficiais subnotificados) e com os deboches do presidente imitando pessoas morrendo com falta de ar, explodiram atos massivos organizados por fora da velha estrutura sindical apodrecida ligada ao PT, que começaram a lotar as ruas exigindo a derrubada imediata do governo Bolsonaro.
Lula, agora elegível, utiliza todo o peso de seu aparato para converter os atos “Fora Bolsonaro” em “Fora Bolsonaro 2022”, ou seja, em sua campanha eleitoral para voltar ao Planalto. O plano dá certo, e por uma margem muito estreita, e, apesar da tentativa de golpe e todo tipo de manobras durante as eleições, Lula assume novamente a presidência ao lado de Geraldo Alckmin, homem forte da burguesia, e inimigo da classe trabalhadora,
As oscilações da política da burguesia em relação a Lula e ao PT são expressões dessa divisão no topo da sociedade. Apesar dos seus instintos de conciliador nato, Lula não foi capaz de apaziguar os antagonismos na sociedade, na verdade, eles tendem apenas a aumentar.
A classe dominante e seus representantes estão divididos. Logo na sequência da condenação de Bolsonaro pelo judiciário, o legislativo, através da Câmara dos Deputados, agita a PEC (Projeto de Emenda Constitucional) da anistia – que tem como objetivo anistiar todos os envolvidos na tentativa de golpe como o próprio Bolsonaro – além da PEC da Blindagem, que impossibilitará qualquer julgamento por parte do STF (Supremo Tribunal Federal) de qualquer deputado sem que antes seja votado pelos próprios deputados, com voto secreto! A PEC da Blindagem foi aprovada em primeira votação, com apoio, inclusive, de parte da bancada do PT, tão baixo chegou esse partido nascido das lutas da classe trabalhadora.
Está claro que um elemento central dessa disputa é a incapacidade de vários desses partidos e políticos profissionais de sobreviverem eleitoralmente apartados do indivíduo Bolsonaro e sua família, mas há também um elemento muito importante de disputa entre os poderes, que é expressão também de uma luta entre diferentes setores da burguesia, subordinados a diferentes capitais imperialistas ou buscando equilibrar-se entre eles.
As Tarefas dos Comunistas no próximo período
Com o fim da trégua imperialista, que reinou sob a hegemonia americana, desde o fim da segunda guerra mundial, o Brasil já está sendo palco das disputas imperialistas. Enquanto o governo Trump levanta a bandeira de defesa de Bolsonaro, seus reais motivos são a defesa do capital americano frente ao imperialismo Chinês, que se tornou seu maior competidor no Brasil nas últimas décadas.
Lula surfa na luta “contra o imperialismo” americano apoiando-se no imperialismo Chinês. Seja qual for a nacionalidade de seu amo, está claro que dentro do escopo do capitalismo o seu governo é incapaz de realizar sequer reformas ou de reverter a série de ataques à previdência, aos direitos trabalhistas ou as privatizações realizadas nas últimas décadas. É verdade que essa tática tem surtido efeito nesse primeiro momento. No momento em que escrevo essas linhas, uma manifestação massiva acontece nas principais capitais do país, com São Paulo registrando cerca de 100 mil manifestantes nas ruas contra as PECs da Anistia e da Blindagem. Como resultado, 51 dos 81 senadores já se declararam contra a PEC da blindagem! Isso só mostra que a classe trabalhadora e juventude não estão derrotadas e ainda se prepararam para travar grandes combates.
Mas todo esse pequeno ganho de popularidade de Lula será duramente golpeado pela realidade. A tática de se equilibrar entre os imperialismos como os governos petistas tem tentado fazer historicamente, na nova situação mundial que se abriu, é impossível. E a falsa escolha apresentada aos trabalhadores e a juventude sobre capital americano ou chinês se mostrará muito brevemente pelo que é de fato: a escolha de quem vai colher os lucros da miséria que o capitalismo tem planejado para a classe no próximo período.
Partindo da compreensão dessa realidade, os comunistas têm como tarefa se conectar às amplas camadas que demonstram um instinto saudável de repulsa a Bolsonaro e aos seus planos, assim como buscar dissolver toda forma de expressão distorcida de repulsa ao sistema em direção à luta revolucionária. Nós não podemos deixar de nos solidarizar com as massas que comemoram a condenação de Bolsonaro, pois é expressão de seu profundo ódio de classe contra o que há de mais execrável na sociedade de classes. Mas, ao mesmo tempo, devemos alertar que a classe trabalhadora não pode confiar na justiça burguesa em sua luta contra a reação. Esta é a mesma justiça burguesa que condenou Lula apenas para mantê-lo fora da disputa eleitoral. A justiça burguesa serve aos interesses da classe dominante. Na luta contra a direita e em defesa dos direitos democráticos, a classe trabalhadora só pode confiar em sua própria força e métodos de luta: manifestações de massa, assembleias e greves.
O bolsonarismo conquistou amplo apoio eleitoral, inclusive entre setores da classe trabalhadora e dos mais pobres, com base em sua retórica demagógica antissistema e na ausência de qualquer alternativa séria à esquerda. Para derrotá-lo, é necessária uma política de classe que enfrente o sistema capitalista como um todo, como solução para os problemas de emprego, precariedade, moradia etc. — não uma política de defesa abstrata da “democracia”.
Devemos demonstrar, explicando pacientemente e lutando ombro a ombro com esses milhões de brasileiros, que apenas a classe trabalhadora, com seus métodos de luta, é capaz de defender as liberdades democráticas contra as próprias instituições burguesas que só podem produzir essa caricatura de democracia plena. Que nosso futuro não se resume a escolher entre amos, que não existem salvadores para resolver tudo por nós, que devemos tomar nossos destinos em nossas próprias mãos e fazer nossa própria história. Para isso, uma leitura correta da situação mundial atual, do fim da trégua imperialista é fundamental para se desenvolver uma política que se confirme pela realidade perante esses milhões que buscam desesperadamente uma saída para a situação atual.
Revoluções acontecem independentemente da existência de partidos revolucionários. Nosso papel é, portanto, construir uma organização revolucionária com um programa marxista que seja capaz de ganhar a confiança da classe a tempo e jogar um papel decisivo nos acontecimentos. Lênin, assim como minha avó, já dizia: “a vida ensina”. E toda história do movimento operário até agora nos enche de confiança para dizer que, armados das ideias corretas, os próximos acontecimentos ensinarão as camadas mais avançadas que o lugar delas é na seção brasileira da Internacional Comunista Revolucionária!
