Os dados da pesquisa AtlasIntel-Bloomberg, realizada em março de 2026, revelam um cenário político que pode, à primeira vista, chocar muitos combatentes da esquerda: impressionantes 72,7% dos brasileiros de 16 a 24 anos desaprovam o governo Lula. Isso equivale a cerca de 21,6 milhões de jovens brasileiros.
Dentre as pessoas de 25 a 34 anos, o percentual é de 62,1%. Sem segmentar por faixa de idade, o percentual de brasileiros que desaprovam o governo é de 53,5% — número que vem aumentando cada vez mais nas últimas pesquisas.
Vale lembrar que, em 2022, muitos brasileiros podem ter votado em Lula por acreditar no projeto petista (apesar de que se perguntados hoje qual era o projeto de governo de Lula, provavelmente não saberiam dizer), mas uma outra parcela bastante significativa votou em Lula apenas porque queria derrotar Bolsonaro, sem nutrir ilusões no programa petista. Na ocasião, Lula foi eleito com a maior quantidade de votos desde a redemocratização, ao mesmo tempo em que a diferença percentual a seu favor foi a menor de um presidente eleito desde 1989.
Naquelas eleições, a preferência do eleitorado jovem — entre 16 e 24 anos — era de 51% para Lula, frente a 20% para Bolsonaro. Como o voto é secreto, não é possível medir a presença exata dessa parcela da população na vitória de Lula em 2022, mas sabemos que foi bastante decisiva.
Mas então o que mudou nesses 4 anos? A juventude se tornou de direita? Ou será que percebeu que a política do governo Lula não difere muito da política da direita?
A assim chamada “Geração Z”
A pesquisa AtlasIntel de dezembro de 2025 trouxe dados interessantes a este respeito. De acordo com o levantamento realizado, 52% da chamada “Geração Z” (nascidos entre 1995 e 2009) no Brasil se identifica com o posicionamento político de direita e centro-direita, enquanto 31% se identifica como de esquerda e centro-esquerda. Entre os “millennials” (1984–1995), o padrão se repete, com 51% se identificando com a direita. Este é um fenômeno que contrasta fortemente com as gerações mais velhas, onde 57% dos baby boomers (1946–1964) se alinham à esquerda.
Quando questionados sobre em quem mais confiam para mudar as coisas no país, a “Geração Z” apresentou maior índice de confiança em novos partidos políticos, com 32% em comparação com 25% dos “millennials”. Ainda segundo o levantamento, 45% dos jovens da “Geração Z” acreditam que o sistema precisa de uma mudança completa e 61% acreditam que os jovens serão os responsáveis por realizar mudanças no país.
Esses dados parecem condizer com o que vemos no nosso cenário político institucional: a extrema-direita segue crescendo com a ascensão de jovens lideranças, como Nikolas Ferreira (29 anos, PL-MG) — deputado federal mais votado da história de Minas Gerais —, Lucas Pavanato (27 anos, PL-SP) — vereador mais votado em São Paulo em 2024 — e Guilherme Kilter (23 anos, NOVO) — vereador mais jovem eleito em Curitiba nas eleições de 2024.
Consciência distorcida de uma crise real
Mas, nada é tão revelador quanto são os resultados de uma pesquisa nacional de opinião pública encomendada pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL) em novembro do ano passado. Segundo a pesquisa, quase metade dos brasileiros quer uma revolução ou acha que ela já começou. O paradoxo? Hoje quem propõe mudanças radicais é a extrema-direita, ainda que isso seja pura demagogia.

Dos que votaram em Lula em 2022, dois terços são contra uma revolução em favor da “democracia”, enquanto 16% concordam com a afirmação de que mudanças no país só vão ocorrer mediante rupturas radicais. Lula recebeu cerca de 60 milhões de votos, o que significa algo em torno de 9,6 milhões de brasileiros defendendo uma revolução brasileira à esquerda.
Já em relação aos eleitores de Bolsonaro, 48% sustentam a necessidade de uma ruptura radical com o atual sistema. Dado que Bolsonaro recebeu cerca de 58 milhões de votos no segundo turno de 2022, esse percentual equivaleria a algo como 27,8 milhões.
Seria um engano muito grande compreender que todos esses que votaram em Bolsonaro são “bolsonaristas” orgânicos. Inclusive, muitos bolsonaristas de hoje foram, ontem, petistas e lulistas apaixonados, que se sentiram traídos pelo PT e por Lula. De fato, a traição é inerente ao reformismo.
Bem ou mal, boa parte dos eleitores de Bolsonaro compreendem que “vivemos numa ditadura disfarçada”, eles só não compreendem que essa ditadura é a dos empresários, latifundiários e banqueiros contra os trabalhadores e não a dos comunistas, que significaria o governo dos trabalhadores pelos trabalhadores, tal como se deu na Rússia com a revolução de outubro de 1917.
Eles compreendem, ainda que de modo distorcido, que a democracia em que vivemos hoje é falsa, pois ela só existe, de fato, para uma pequena elite econômica e seus capatazes políticos e do alto escalão do funcionalismo público, tal como ficou exposto com o caso Vorcaro do Banco Master.
Chamar a decadente democracia burguesa em que vivemos hoje de “ditadura comunista” não transforma sua essência de classe (burguesa), assim como mudar o rótulo de um produto não altera o que há dentro dele. Ao contrário, apenas expõe o nível de mistificação necessário para defender um sistema em crise.
Melhora nos números, piora na realidade
Segundo dados oficiais, a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos caiu de 12,8% em 2024 para 11,4% em 2025. No entanto, esse indicador não distingue emprego estável de bicos ocasionais nem capta o avanço de formas precárias de inserção. Parte dessa queda se explica pela expansão do Microempreendedor Individual (MEI), o que classifica como “ocupados” milhões de jovens sem vínculo, renda estável ou proteção social.
Entre os cerca de 14,8 milhões de MEIs no Brasil, mais da metade atua, na prática, como trabalhador terceirizado. Uma fração expressiva é composta por jovens que recorrem a esse mecanismo não por escolha empreendedora, mas como única alternativa ao desemprego aberto. Assim, a redução do desemprego decorre da ampliação da precarização: a melhora estatística encobre a reorganização da crise em novas formas de exploração.
O mesmo padrão aparece em outras esferas. O acesso ao ensino superior, por meio de programas como ProUni ou FIES, frequentemente resulta em endividamento ou diplomas sem garantia de inserção estável. Enquanto isso, perspectivas como moradia, trabalho digno ou mobilidade social tornam-se cada vez mais distantes para a maioria da juventude trabalhadora, revelando o descompasso entre as promessas do sistema e sua capacidade real de realizá-las.
Ter um carro ou uma casa própria, ou mesmo trabalhar em algo que faça sentido para si mesmo, torna-se um horizonte distante para a quase totalidade dos jovens no Brasil, particularmente os da classe trabalhadora que estão na escala 6×1, entregando comida em cima de bicicletas e motocicletas, desempregados e, quando não, buscam no crime organizado e na prostituição alguma perspectiva de melhoria de vida.
De pé a Jovem Guarda
A “Geração Z” desmente, na prática, o estereótipo de apatia e isolamento que frequentemente lhe é atribuído. O fato de não ter uma referência organizativa e política clara não impediu essa camada de expressar sua insatisfação difusa em ação política. De Madagascar ao Marrocos, do Nepal ao Peru, mobilizações protagonizadas por jovens têm ocupado as ruas, derrubado governos e exigido transformações profundas.
Longe de ser uma geração desinteressada, trata-se de uma juventude que, privada de perspectivas materiais estáveis, começa a romper com os canais tradicionais da política institucional e busca, ainda de forma desigual e contraditória, novas formas de intervenção — revelando que o problema não é a ausência de disposição para a luta, mas a falta de direção organizada capaz de canalizar essa energia em força consciente.

E, mais que isso, temos uma “esquerda” oficial que está no governo aplicando a política da ordem. Temos descontentamento, mas falta projeto. Temos revolta, mas falta direção. Enquanto esse vácuo político persistir, a tendência é que a juventude continue migrando para as opções que lhe pareçam mais concretas e acessíveis — ainda que essas opções estejam no espectro da direita.
Porém, se tomarmos como base uma população de aproximadamente 50 milhões de jovens entre 15 e 31 anos, os dados indicam a existência de uma ampla base potencial para o recrutamento de novos comunistas.
Se projetados para o conjunto dessa população — ainda que de forma aproximada e condicionada à representatividade da amostra — os resultados sugerem que dezenas de milhões de jovens manifestam posições de desconfiança em relação ao sistema político atual e abertura a alternativas. Algo como uma fração expressiva, na casa de milhões, demonstra confiança em novos partidos e identificação à esquerda; outra parcela igualmente ampla considera necessária uma transformação profunda do sistema; e um contingente ainda maior atribui à própria juventude o papel de agente dessas mudanças.
Diante disso, a tarefa central da ICR-Brasil é intervir conscientemente nesse processo: recrutar, organizar e formar politicamente cada jovem, oferecendo uma saída baseada na luta de classes — lutar por um Brasil Comunista, que só poderá ser construído na esteira da revolução mundial!
Como disse Lênin, “Quem tem a juventude tem o futuro”. A construção de um núcleo sólido de quadros jovens hoje nos permitirá, amanhã, estender a influência sobre setores cada vez mais amplos da classe trabalhadora. Nesse sentido, a disputa pela juventude não é um elemento secundário, mas decisivo: ela concentra as contradições do período e pode funcionar como alavanca para uma intervenção mais abrangente na luta de classes.
O relógio está correndo. O terreno está escancarado para os comunistas. Os capitalistas estão se preparando para a guerra de classes. Nós também devemos nos preparar. Prepare-se para essa guerra! Junte-se a nós!
