Por mais um ano seguinte, as direções sindicais da Coeduc (Sinpeem, Sinesp e Sedin) e do Fórum de Entidades Sindicais (Sindsep e Aprofem) levaram a greve dos servidores municipais de São Paulo à derrota. É importante compreender as causas desse resultado para aprendermos as principais lições que o processo demonstra e corrigirmos os erros, encontrando o caminho das próximas vitórias.
Um começo complicado
Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, em 2024, havia mais de 92 mil servidores apenas na rede municipal de ensino. Essa é a base potencial de mobilização da Coeduc e da Aprofem, sem falar na base representada pelo Sindsep, que engloba também servidores da saúde, assistência social, serviços, dentre outros. No entanto, repetindo os métodos de luta dos últimos anos, a Campanha Salarial de 2026 começou a passos lentos.
A agitação da Campanha começou em abril, com paralisações descontínuas e divididas entre a Coeduc e o Fórum. O maior problema, desde o início, foi a falta de construção real do movimento junto à base. Nesse sentido, os representantes sindicais cumpriram um papel exemplar alcançando a vanguarda do movimento grevista nos locais de trabalho. Por outro lado, a greve não foi iniciada imediatamente, justamente porque houve a avaliação de que a mobilização ainda não estava forte.
A classe trabalhadora não é homogênea. Em sua composição, há setores politicamente mais avançados, com maior consciência de classe e disposição para a luta, e outros mais afastados, ainda pressionados pela influência ideológica e preconceitos da sociedade capitalista. A vanguarda, camada mais avançada da classe trabalhadora, tende a compreender rapidamente a necessidade de organização e de enfrentamento contra a classe dominante. Ao mesmo tempo, a consciência das amplas massas trabalhadoras se desenvolve, muitas vezes, através da experiência concreta da luta de classes. A greve é uma arma de luta dos trabalhadores, porque, além de pressionar a classe dominante, cumpre um papel fundamental ao elevar a consciência política dos trabalhadores e aproximar a vanguarda das amplas camadas, arrastando para a luta muito mais trabalhadores.
Em outras palavras, para assegurar a vitória em uma grave, é muito importante que a vanguarda consiga atrair as amplas camadas trabalhadoras para a luta. Houve altos e baixos durante o processo, mas, em geral, o movimento grevista não se desenvolveu massivamente, apesar do empenho de sua vanguarda, dos representantes sindicais e dos militantes organizados.
O ponto alto da greve
Há alguns anos, a adesão ao movimento grevista está em baixa. A maioria dos trabalhadores participa apenas das paralisações. Porém, na primeira semana de maio, a adesão à greve aumentou, encontrando seu ponto alto na quarta-feira (6/5) com a passeata da Coeduc. Milhares de trabalhadoras e trabalhadores da educação ocuparam a Avenida 23 de Maio naquele momento, enxergando na ação a possibilidade do movimento grevista ganhar camadas mais amplas. Mesmo assim, as direções da Coeduc e do Fórum desperdiçaram a oportunidade.
Por um lado, a Coeduc preferiu desviar a grande marcha do enfrentamento real com os reacionários aliados de Nunes (MDB), encerrando o ato na frente da Prefeitura, enquanto o PL 254/26 seria debatido e votado na Câmara de Vereadores. Por outro, o Fórum não se somou à marcha, isolando-se e levando sua base a “assistir ao debate” na Câmara.
A votação do PL ocorreu praticamente sem resistência. A aprovação em primeira votação levou parte da base ao desânimo. Na primeira semana de maio, o aumento da adesão ao movimento grevista se explica pela pressão na luta de classes, com diferentes fatores externos, o que demonstra que há disposição de luta na base, mas, também, desconfiança em relação às suas direções.

Na semana seguinte, a repressão à greve estudantil na USP, realizada pela Polícia Militar de Tarcísio (Republicanos), levou a um grande movimento de solidariedade aos estudantes. Além disso, houve a possibilidade de uma greve dos metroviários, que começaria em 13 de maio, possibilitando um grande enfrentamento unificado com atos e greves estudantis e dos servidores municipais de São Paulo, contra Nunes e Tarcísio. O Fórum sequer buscou mobilizar sua base, permanecendo em frente à Câmara e assistindo à segunda votação do PL. A Coeduc foi pressionada à unir-se ao “ato” do Fórum e, em seguida, dirigir-se à Av. Paulista, onde seria realizada uma nova marcha estudantil. Surpreendendo a todos, ao chegar no local do ato dos estudantes, em vez de propor a unificação das marchas, a Coeduc dispersou os trabalhadores da educação. No mesmo dia, o PL foi aprovado em segunda votação e as bases que tinham aderido ao movimento perceberam, coerentemente, mais uma derrota conduzida por suas direções, abandonando a greve no decorrer dos dias seguintes. Por isso, o Fórum encerrou a greve imediatamente e, mesmo tentando se mostrar “mais combativa”, a Coeduc seguiu o mesmo caminho, ambos assinando “Protocolos” apenas com promessas vazias. Nenhum dos objetivos de greve foram alcançados.
Conciliação de classes e falta de unidade impostas pela direção
A falta de unidade entre as principais entidades sindicais foi corretamente criticada pela base. Se é possível falar em uma vitória, ela ficou em 2023, quando a mobilização conjunta entre a Coeduc e o Fórum conseguiu arrancar um reajuste acima da inflação. Desde o ano seguinte, o divisionismo entre as duas entidades é uma das causas das derrotas subsequentes. Além disso, o governo usa a estrutura burocrática sindical, regida pela CLT e o pacto constitucional, para dividir ainda mais a categoria. Assim, o governo reconhece ora uma, ora outra entidade, firma acordos e protocolos de encerramento de greve separados e manobra para desorganizar a luta e pressionar pelo seu encerramento.
A conciliação de classes é outra causa. As direções das entidades tentam conciliar os interesses da ampla maioria dos trabalhadores com a necessidade de aumento dos lucros de um punhado de grandes empresários e especuladores, ao invés de um enfrentamento real contra a classe dominante. Já é evidente para uma grande maioria que o governo Nunes é representante direto da classe dominante, por isso a sanha desse governo em avançar com as privatizações e “concessões”.

Não nos opomos a que a classe trabalhadora eleja seus representantes, como vereadores e vereadoras combativos que façam de seus mandatos uma tribuna para denunciar as manobras da classe dominante, mas compreendemos que esse lugar é o território da burguesia e, no fim, é ela quem dita as regras em suas instituições. O combate dos trabalhadores deve ser feito com independência de classe. As direções sindicais têm encerrado a luta dentro das instituições burguesas, seja a Prefeitura e suas secretarias, seja a Câmara ou a justiça.
A cidade mais rica do Brasil vê o prefeito firmar contratos de R$ 108 milhões com a ONG produtora do filme de Bolsonaro, enquanto corta investimentos nos serviços públicos, aprofunda a precarização do atendimento à população e impõe arrocho salarial aos servidores. Nunes buscou criminalizar o movimento dos trabalhadores, levando nossas reivindicações à “justiça”. Sabemos que a justiça burguesa tem lado. Durante nossa greve, foi determinado que as escolas deveriam permanecer abertas com, no mínimo, 70% dos trabalhadores, passando por cima do direito de greve. Mas será que essa mesma “justiça” julgará o rombo causado nos cofres públicos pelo governo Nunes?
Retomamos as lutas nas ruas com grandes marchas, mas as direções sindicais não disponibilizaram todos os recursos materiais possíveis e ao seu alcance para que o movimento crescesse e atingisse amplas camadas de trabalhadores, as comunidades e as famílias, unindo-nos para que o movimento ganhasse apoio massivo.
Como conquistar novas vitórias?
O Fórum de Entidades enviou um ofício à Coeduc, comunicando que em sua Assembleia tinham deliberado, por ampla maioria, que deveriam buscar a unidade na Assembleia com indicativo de greve em duas semanas (28/5). É muito importante que a base do Fórum tenha apoiado amplamente a unidade na luta. Sejamos bastante francos: os dirigentes do Fórum, que têm ampla experiência sindical, sabem muito bem – ou deveriam saber – que a unidade não é construída por meio de “ofícios” ou “gestos amigáveis”.
A verdadeira forma de construir a unidade é apresentando um programa de luta de classes unificado. O centro desse programa deve ser: contra a privatização dos serviços públicos, incluindo a anulação das privatizações, “concessões” e terceirizações já realizadas; valorização dos trabalhadores com reposição salarial de todas as perdas inflacionárias e incorporação dos abonos complementares nos padrões de vencimento; efetivação direta dos trabalhadores contratados e terceirizados como servidores, garantindo-se os mesmos direitos e a mesma remuneração, acabando com as divisões no interior da categoria; novos concursos públicos com cronograma organizado até prover toda a demanda de vagas nos cargos; anulação de todas as leis que cortam direitos, mantenimento da JEIF mesmo em caso de readaptação, uma vez que os afastamentos têm sido provocados pelas péssimas condições de trabalho; aposentadoria com garantias plenas e sem nenhum confisco. Esses são alguns pontos essenciais que nenhuma das direções sindicais deveria ter desacordo! Tal programa unificado deveria levar a um calendário de lutas também unificado.
Outro ponto fundamental é romper com a conciliação de classes. Não podemos mais ficar aguardando em frente à Câmara de Vereadores, ouvindo provocações de vereadores e vereadoras reacionários, protegidos confortavelmente com hordas de guardas e policiais. Nosso diálogo deve ser com as comunidades e com os trabalhadores em geral. É nos bairros que encontraremos o verdadeiro apoio na luta contra a privatização dos serviços públicos, porque a população está sofrendo na pele os reflexos desse processo.
Para avançarmos nesse programa unificado, devemos garantir democracia para a base e liberdade sindical, começando com o livre debate entre as categorias e as entidades. Assembleias e Reuniões em que apenas a direção tem o direito à voz e a apresentar propostas são totalmente contrárias às melhores tradições do movimento operário e, na prática, tem levado ao esvaziamento dos espaços de deliberação e, por fim, ao afastamento das bases. É por isso que as greves estão cada vez menos participativas e mais difíceis de mobilizar.
Como Professores Comunistas, buscamos explicar que a falência política dos dirigentes partidários e sindicais “tradicionais” da classe trabalhadora, como o PT e o PSOL, além de outras alternativas que têm se adaptado e se transformado em apêndices da burocracia, aponta para a necessidade urgente de um novo partido verdadeiramente independente da burguesia, do imperialismo e de seus governos. Para os Professores Comunistas, apenas a organização política independente da classe trabalhadora pode abrir o caminho para o real enfrentamento aos ataques impostos pelo capitalismo. Seguimos lutando pela construção de um partido revolucionário, enraizado na classe trabalhadora, com um Programa por um Brasil Comunista e tendo como horizonte a derrubada do capitalismo e a construção de um verdadeiro governo dos trabalhadores, baseado na democracia operária e na transformação radical da sociedade.
